ago 242014
 

Hobbes, laicidade, bem-estar social e o Brasil

Francisco Fernandes Ladeira

O filósofo britânico Thomas Hobbes entrou para a história do pensamento político ocidental ao publicar, em meados do século XVII, o livro Leviatã. A obra em questao é uma das referências mais antigas e influentes da teoria do contrato social. Leviatã também é historicamente associado ao absolutismo monárquico, forma de governo em que todo o poder político concentrava-se nas mãos do rei. Segundo Hobbes, os seres humanos, em estado natural, são inerentemente inimigos, pois cada indivíduo visa, primordialmente, a sua própria sobrevivência, independente do bem-estar de seu semalhante. “O homem é o lobo do homem”, diz o clássico aforisma hobbesiano.Desse modo, para que os seres humanos possam viver em sociedade, é imprescindível que haja uma instância reguladora e superior a todos. Temos assim o Estado e as leis. Porém, poucos leitores observaram que no Leviatã Hobbes também defende (embora não utilize necessariamente os termos apropriados) duas formas de organização social que ganhariam consistência somente após as revoluções burguesas. Trata-se do Estado Laico e do Estado do Bem-Estar Social.

Grosso modo, Estado Laico é um estado oficialmente neutro em relação às questões religiosas, não apoiando e nem se opondo a nenhuma religião. Dessa forma, a todos os cidadãos é assegurada a liberdade de crença, bem como a liberdade de não-crença religiosa (como são os casos de ateus e agnósticos). Para Hobbes algumas afirmações de Jesus Cristo como “O meu reino não é deste mundo” e “Daí a César o que é de César e a Deus o que é Deus” trazem, explicitamente, a ideia de que assuntos religiosos não devem se misturar com assuntos “mundanos”, próprios da esfera pública. Ou seja, o próprio Messias, segundo o filósofo, defendia a separação entre Estado e Igreja.

Já o Estado do Bem-Estar Social, também conhecido como Estado-Providência, é uma forma de organização política em que o Estado tem o dever de garantir serviços públicos e assistência social para a população. De acordo com Hobbes, para que cada indivíduo renuncie ao seu direito natural de utilizar todos os meios possíveis para a sua sobrevivência é preciso que o governo provenha, como contrapartida, uma mínima possibilidade de subsistência digna para os seus cidadãos. Entretanto, os princípios da laicidade e do bem-estar social, mesmo consagrados na Constituição de 1988, não têm sido colocados em prática no Brasil. A presença de crucifixos em repartições públicas, os feriados religiosos, a adoção da disciplina Ensino Religioso nas escolas e, principalmente, a grande influência dos parlamentares evangélicos e católicos nas principais decisões governamentais são alguns exemplos de desrespeito ao caráter laico do Estado.

Por outro lado, a grande defasagem dos serviços públicos e a grande mercantilização de áreas como saúde e educação (condutas típicas das políticas neoliberais), colocam em xeque o Estado-Providência. Assim, quase quatrocentos anos após a publicação do Leviatã, parece que alguns princípios fundamentais para o andamento de uma organização política, como a laicidade e os investimentos sociais, apesar de corroborados constitucionalmente, estão longe de se concretizarem no Estado brasileiro.

Referência

HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Série Ouro. Martin Claret: São Paulo, 2009.

jul 072014
 

Nascimento e Morte do Sujeito Moderno

Francisco Fernandes Ladeira

Email: franciscoladeira@bol.com.br

No livro A identidade cultural na pós-modernidade, o sociólogo Stuart Hall faz uma interessante análise sobre o “nascimento” e “morte” do sujeito moderno. De acordo com Hall, o sujeito moderno (marcado principalmente por sua identidade imutável e pela racionalidade) é produto do pensamento iluminista. Essa visão antropocêntrica foi o paradigma dominante nas ciências sociais até pelo menos o início do século XX.

No entanto, cinco grandes rupturas com o pensamento iluminista (e também as duas guerras mundiais) colocaram em xeque a visão otimista sobre o sujeito moderno.

A primeira ruptura refere-se às tradições do pensamento marxista. De acordo com essa linha de raciocínio, os indivíduos são formados subjetivamente através de sua participação em relações sociais mais amplas. “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”, diz o histórico aforisma de Marx. Logo, a identidade de um indivíduo está ligada ao modo de produção da vida material vigente em uma determinada sociedade.

A segunda das grandes rupturas vem da descoberta do inconsciente por Sigmund Freud. Contrariando o paradigma cartesiano, para o pai da psicanálise, são os desejos inconscientes (e não a razão) que norteiam as ações humanas. Assim, Freud (e antes dele Schopenhauer) substituiu a máxima “penso, logo existo” por “desejo, logo existo”.

Já a terceira ruptura está associada ao trabalho de Ferdinand Saussure. Segundo o linguista, nós não somos, em hipótese alguma, os “autores” das afirmações que fazemos, ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionamentos no interior das regras da língua e do sistema de significado de nossa cultura. Em outros termos, as expressões de nossos pensamentos são condicionadas e limitadas pelos vocábulos existentes em nosso idioma.

Por sua vez, a quarta ruptura aparece na obra de Michel Foucault. Para o filósofo francês, os indivíduos, longe de serem sujeitos livres, são permanentemente vigiados e adestrados por poderes disciplinadores (representados por oficinas, quartéis, escolas, prisões, hospitais e clínicas).

Por fim, a última grande ruptura está associada ao impacto dos movimentos feministas que questionaram os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres.

Assim, o “sujeito” do Iluminismo, visto como tendo uma identidade fixa e descentrada foi “morto” de forma peremptória. Desse modo, surge uma nova concepção de sujeito, resultando em identidades contraditórias, inacabadas e fragmentadas.

Embora não seja citado no livro de Stuart Hall, as ciências naturais, principalmente os estudos na área de Biologia, também contribuíram para o padecimento do sujeito moderno. De acordo com Charles Darwin, o homo sapiens não está no topo do processo evolutivo e tampouco é a “obra-prima” da natureza. Já Richard Dawkins, aponta que a replicação dos genes é a razão última de nossa existência. Nesse sentido, os seres humanos são apenas maquinas de sobrevivência dos genes. Portanto, devemos deixar a arrogância de lado e nos contentarmos com o fato de que não somos tão especiais e racionais quanto pensávamos. Somos apenas primatas bípedes em um planeta que já existia antes de nós, e que, provavelmente, continuará existindo quando nos extinguirmos como espécie.

REFERÊNCIA

DARWIN, Charles. A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, 2003.

DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

HALL, Stuart. A identidade cultural da pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

jun 252014
 

DESCARTES: A METAFÍSICA SOB O JUGO DA RAZÃO

Vinicius Bandera*

Resumo: Vamos mostrar queDescartes é produto de um momento histórico em que havia uma crise hegemônica pela qual a racionalidade burguesa ainda não se afirmara de todo e a metafísica escolástica ainda não houvera perdido totalmente a sua hegemonia, embora a tivesse significativamente debilitada. Ou seja, ele estava, teórica e metodologicamente, em um rito de passagem entre a velha ordem que vinha sendo desconstruída pelas prática e ideologia burguesas e a nova ordem burguesa em processo de construção. O método por ele proposto pode aparentar uma conciliação entre o velho e o novo, mas, a rigor, por meio de uma prudente e sofisticada sutileza, ele se posiciona contra a velha ordem e a favor da nova. Contra o fundamentalismo religioso ainda então vigente e a favor do racionalismo científico de natureza burguesa.

Abstract: We let’s show that Descartes is product of a historical moment in which there was a hegemonic crisis in which the bourgeoisie rationality had not achieved the hegemony and the scholastic metaphysics had still not lost completely its hegemony, although it had significantly weakened. There was, theoretical and methodologically, a rite of passage between the old order that had been deconstructed and the new order in process of construction. The method proposed by Descartes could be a conciliation between the old and the new orders, but, strictly speaking, it was a prudent and sophisticated argumentation against the old order. Against religious fundamentalism still strong and in favour of scientific rationalism of bourgeoisie nature.

Palavras-chave: Hegemonia. Ideologia.Fundamentalismo Religioso. Racionalismo Científico.

Key-words: Hegemony. Ideology. Religious Fundamentalism.Scientific Racionalism.

__________

*Pós-doutorando em História Social (USP- Universidade de São Paulo). Doutor em Sociologia (UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mestre em Ciência Política (UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas). viniciusbandera@gmail.com

Introdução: A razão sobrepõe-se à escolástica

Como regra geral, a produção intelectual insere-se nos limites materiais aos quais a sua época está circunscrita. Acontece, porém, de, às vezes, os produtores intelectuais estarem vivendo um rito de passagem para uma época seguinte, o que possibilita a que possam ser arautos de um novo pensamento ou um pensamento antigo renovado. É o caso de Descartes, por exemplo: ele estava vivenciando a passagem do feudalismo para o capitalismo, o que faz com que o seu pensamento seja um deslocamento da mentalidade feudal (escolástica) para mentalidade burguesa (racional, individualista).

Descartes é um típico exemplo de como filosofia é um produto histórico, está condicionada pelas vicissitudes do mundo material. Em seu rito de passagem, ele ainda tem um pé na escolástica, o que fica evidente por ele não se desligar de Deus, trazendo-o para o centro de sua filosofia, fazendo-o um ser causal do mundo físico e, sobretudo, da “alma” humana. Não obstante, a sua influência mais forte vem da ascensão da burguesia mercantil, cujo materialismo fez o homem crer ser o senhor do seu destino, que decide sobre as suas alternativas apelando não mais para Deus, mas para si próprio, para a sua razão, para o cogito. O embrião de um homem prenhe de individualidade, que se vê premido, pela racionalidade calculista, a elencar alternativas no real, hierarquizá-las e eleger aquela que mais se adeque às suas necessidades e possibilidades do momento. Esse homem moderno é um homem cartesiano, que faz escolhas racionais, não mais aquele que já tem os seus desígnios traçados por Deus, como o homem escolástico. É um homem individualista universal. A alegoria da floresta é eminentemente racionalista: vale mais utilizar a razão, o bom senso, e escolher um caminho entre vários e segui-lo, do que ficar à espera de uma mensagem de Deus, como faria o homem escolástico.

O tempo de Descartes é um tempo de crise, momento de mudança na qual se delinea o caráter mais maduro de uma Europa que já não é mais medieval, mas tampouco pode ser considerada livre das tradições que vigoraram nos séculos anteriores. Os abalos promovidos pelo Renascimento, em sua última e decisiva fase, produzia ainda as novas balizas do mundo. O homem renascentista se lançava ao mar nas navegações, transcendendo os limites geográficos europeus, ao mesmo tempo em que se deparava com mudanças grandiosas de perspectiva, como a que decorre da redescoberta do sistema heliocêntrico por Nicolau Copêrnico (…) Uma notável crise institucional obriga a cultura a recriar mecanismos de controle social e de produção, não mais fundados na representatividade absoluta da Igreja. O homem valoriza de maneira diferente a sua própria vontade e os seus próprios feitos, proclamando uma certa independência da figura de Deus – o que não significa uma negação do divino, mas um novo ajustamento da realidade em relação com ele. Nesse contexto, chamado de Antropocentrismo, despontam a noção do homem como um indivíduo, as teorias liberais e a reforma protestante de Martinho Lutero (1438-15460. Ao contestar a Igreja como mediadora absoluta da relação entre os cristãos e a Bíblia, os crentes e Deus, Lutero simboliza o germe de uma nova noção de liberdade que ainda hoje ecoa no mundo, firmando a diferença entre o indivíduo e as instituições e abrindo caminho para o surgimento das democracias modernas, séculos depois.

Do ponto de vista econômico, as navegações permitiram o crescimento do mercado e o abandono das relações feudais, processo que também atingiu a supremacia da Igreja Católica, avalizando a livre iniciativa e a descentralização do poder (OLIVEIRA, 2007, p. 115-6).

A razão é o elemento fundamental dessa transformação que acabamos de ver e também é o elemento fundamental em Descartes, razão pela qual ele, deliberadamente, decide isolar-se do mundo físico e das experiências que adquiriu em vida para filosofar. Assim, o individuo cartesiano está isolado da história, das relações sociais, guiando-se basicamente pela sua razão, pelo seu bom senso. É um indivíduo altamente racional, calculista, individualista; o protótipo do futuro indivíduo do mundo capitalista.

A dúvida e a certeza racionais

Ao invés de evitar a dúvida e buscar somente o que é certo e irrefutável, Descartes segue os dois caminhos concomitantemente: o da dúvida e o da certeza. Ele se propõe a distinguir a certeza como tudo aquilo que não pode ser colocado em dúvida, e vice-versa. A dúvida é um meio e a certeza é um fim a ser alcançado. O objetivo de seu método da dúvida racional é chegar a certezas irrefutáveis, absolutas.

De há muito tempo observara que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis. Como já foi dito acima; mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável. (Descartes, 1983a, p.46)

Descartes aplica o seu método, partindo de dois pressupostos: tanto a dúvida quanto a certeza indubitável somente podem ser conhecidas mediante a razão, sem a necessidade de se recorrer aos sentidos, à experiência. O seu método é apresentado como tendo validade universal, funcionando igualmente para qualquer ser humano, o qual também é universal e unívoco.

A dúvida e a certeza, sob o método proposto por Descartes, não andam paralelamente na razão, isto é, não se posicionam independentemente uma da outra. Todas as ideias passam pelo crivo da dúvida, são desta dependentes, inclusive aquelas que a razão pode interpretar como claras e distintas, como certezas irrefutáveis. Somente chegam ao ponto de certeza irrefutável as ideias que não puderem ser refutadas pela dúvida, casos do cogito e da ideia de Deus.

Para tornar mais eficaz ainda o método da dúvida metódica, Descartes lança mão de algo que não é encontrado na razão, mas que pode persuadi-la: a hipótese do gênio maligno. Tal hipótese tem justamente a função de colocar a razão sob dúvida, o que implica colocar sob dúvida o próprio método proposto por Descartes. Implica dar ao seu método o máximo de aferição. Passando pela hipótese do gênio maligno – desqualificando-a –, o seu método torna-se aprovado, confirmando o cogito e a ideia de Deus como certezas apodíticas.

A chegada à primeira certeza apodítica, o cogito, é o primeiro passo para o seu método ser referendado. Entretanto, o cogito é uma certeza quase que exclusivamente subjetiva e sem causa própria. Descartes precisa dar uma objetividade e uma causalidade para o cogito e para o seu método enquanto ciência, o que consegue com a segunda certeza: Deus existe. Com as duas certezas, o seu método passa a ter uma validade irrefutável e objetiva.

(…) Este cogito, este ‘eu penso’, modelo de pensamento claro e distinto, dá-me a garantia subjetiva de toda a ideia clara e distinta no tempo em que a percebo. Ele funda já a possibilidade de ciência.

O encontro de uma ideia que seja efetivamente uma essência objetiva, isto é, que me garanta a existência e a natureza de seu objeto, vai fundar agora a objetividade da ciência. Esta ideia é a de Deus, e a existência de um Deus veraz irá converter a necessidade subjetiva das ideias em necessidade objetiva. (GRANGER,1983,p.8)

Por sua vez, a existência de Deus é derivada da existência do cogito: se este existe, então é por que existe uma causa que o faz existir. Em busca dessa causa, Descartes chega a Deus. Há, portanto, uma ordem cronológica e hierárquica da razão: se duvido, penso;se penso, logo existo; se penso e logo existo é por que existe algo superior que me contém.

Da existência de Deus, Descartes deduz a não existência da hipótese do gênio maligno, pois sendo Deus a perfeição e o bem absoluto não deixaria o homem enganar-se em seu método racional de chegar ao cogito e à ideia de Deus.

(…) a bondade de Deus impede a sustentação da hipótese do gênio maligno e justifica o otimismo científico e a própria crença na razão. Substituindo o malin génio pelo bon Dieu, Descartes pode afirmar agora, com toda a segurança, que a evidência é mesmo o critério da verdade: às ideias claras correspondem de fato realidades – elas não são a armadilha de um gênio enganador e cruel. O Deus cartesiano é, assim, a garantia da objetividade do conhecimento científico; enquanto bon Dieu, torna-se a expressão do otimismo racionalista que pressupõe-se que ao máximo de clareza subjetiva corresponde o cerne da objetividade. (PESSANHA. 1983, p.XVII)

De modo que a existência de Deus é o argumento de autoridade inquestionável e objetivo para a retidão do método cartesiano. A existência de Deus, como causa direta da existência do homem e do mundo, é a comprovação de que o pensamento humano e a ideia de Deus estão na razão, independentemente do uso dos sentidos. No entanto, podemos questionar se Deus – a sua ideia – existiria ou não sem a razão cartesiana, sem o cogito. Para Descartes sim, pois é Deus quem coloca a sua ideia (de Deus) na razão humana. Ou seja, ele faz decorrer uma justificativa metafísica para o seu método racional. Entretanto, nas entrelinhas de seu método há um triunfo da razão sobre Deus, mais precisamente sobre o dogma metafísico escolástico. Pois se não houver o homem pensante, o homem racional, não haverá como ele ter em si a ideia de Deus. O cogito fornece a certeza de que existe o homem concreto, mas não fornece a certeza de um Deus concreto. Indica tão-somente uma certeza lógica dedutiva da existência de Deus. Ou seja, da ideia primeira de que eu existo por que penso, que é um efeito, deduz-se a ideia da existência de Deus, que é a causa da ideia primeira. A razão condiciona, ou mesmo determina, essa relação de causalidade. Como assegura José Américo Pessanha, “o bom Deus é na verdade uma deusa: a Deusa-Razão, que Descartes cultiva e que será exaltada pelo Iluminismo do século XVIII” (PESSANHA, 1983, p.XVII).

O princípio de causalidade é fundamental em Descartes para provar a existência de Deus e de que tudo que existe foi criado por Deus, sendo dele derivado. Assim, Deus é a causa de todas as coisas e ele existe por que pelo princípio de causalidade não pode haver efeito sem causa. Algo que não viesse da causa-Deus teria que vir do nada, o que seria impossível pelo princípio de causalidade, pelo simples fato de o nada não existir. Para ser a causa de todas as coisas, é imprescindível que Deus seja uma causa de si próprio e por si;é pré-condição que ele seja um ser ontológico e que os seres produzidos por sua causa sejam seres contingentes, como são os seres humanos e tudo o que demais existe, que é uma extensão da existência de Deus.

Deus é usado por Descartes para objetivar a aquisição do conhecimento, ou seja, para se obter certezas apodíticas. Caso não houvesse Deus como causa-primária, o conhecimento surgiria da mente humana, isto é, seria um conhecimento subjetivista, o que colocaria em risco a legitimidade da ciência, a qual é de fundamental importância no método cartesiano. O objetivo precípuo de Descartes é estabelecer um corte epistemológico com o princípio fundamentalista religioso, vigente na época medieval, segundo o qual a razão humana é uma extensão da “razão” divina, não havendo, portanto, uma autonomia da razão, o que impossibilita que a ciência, fruto da razão, tenha independência. Assim, visa Descartes garantir a existência autônoma de uma razão construtivista e essa garantia se dá pelo fato de que Deus concebe ao ser humano, e somente a este, a liberdade de pensar. Liberdade esta que é o pressuposto para o agir humano. Deus concebe ao homem a faculdade de ter ideias próprias, com as quais ele pensa e é justamente esse ato de pensar que o faz descobrir-se como uma existência de Deus, uma criação de Deus. De modo que, esse pensar autônomo, concebido por Deus, é a garantia da liberdade da razão construtivista, base para a existência da ciência, legitimada pela ideia cartesiana de Deus.

As três primeiras meditações confirmam o método cartesiano

Na primeira meditação, Descartes renega as opiniões, lança mão da dúvida metódica como um aferidor do que é falso ou verdadeiro (se há dúvida é porque a ideia é falsa), descarta os sentidos como um meio de se chegar a ideias verdadeiras, atém-se tão-somente à razão, valoriza a aritmética e a geometria como ciências que contêm coisas verdadeiras (ao passo que a astronomia, a medicina e todas as outras ciências dependentes da consideração das coisas compostas são muito duvidosas e incertas), coloca sob a dúvida metódica a opinião que tem de Deus (um ser que tudo pode, um criador de tudo e todos) e chega à hipótese do gênio maligno, isto é, levanta a suposição de que pode não existir o Deus verdadeiro e sim um gênio poderoso e enganador, que o faz ver a realidade como uma ilusão. A hipótese do gênio maligno tem, portanto, a função de reforçar a dúvida metódica, torná-la um aferidor ainda mais agudo do que é falso ou verdadeiro.

Por sua vez, a dúvida metódica tem a função de preparar o espírito para desligar-se dos sentidos, o que é um pressuposto do método cartesiano. Para Descartes, os sentidos não são confiáveis, porque, embora não nos enganem sempre, nos enganam às vezes. E não se deve confiar “em quem já nos enganou uma vez” (DESCARTES, 1983b, p.86). Na segunda meditação, Descartes começa afirmando o sucesso da primeira meditação, por ter enchido o seu espírito de dúvidas, justamente o que ele mais queria. A opção pela dúvida metódica e o lançamento da hipótese do gênio maligno é que irão prendê-lo unicamente à razão (fazendo-o desprezar os sentidos) e levá-lo às certezas apodíticas de que ele existe (por que pensa) e de que Deus existe (por que é o causador de que ele, Descartes, existe).

Na segunda meditação, ele segue a trilha da dúvida metódica, guiado unicamente pela razão. Seu objetivo é encontrar algo que seja certo e indubitável. Então, ele chega à sua primeira certeza apodítica: a de que ele existe e que nem o gênio maligno pode enganá-lo a respeito dessa certeza, a qual é o conhecimento “mais certo e evidente de que todos os que tive até agora” (DESCARTES, 1983b, p.92).

O cogito é conhecido ontologicamente; ao contrário das outras coisas que Descartes colocara em dúvida anteriormente, aquelas exteriores ao eu:

(…) a ideia que me faz reconhecer que penso e o meu pensamento são uma só e a mesma coisa, de modo que a ideia que faço do meu pensamento é não tanto a ideia do meu pensamento como o próprio ser desse pensamento (ALQUIÉ,1993,p.78).

Entretanto, chama a atenção Descartes, o fato de se estar certo de existir não dá conta sobre a natureza dessa existência. De modo que é preciso ir além dessa primeira certeza, pois se corre o risco de que a existência somente seja verdadeira quando o eu pensa. É imperativo encontrar-se uma certeza maior que confirme, que fundamente, a primeira certeza. Novamente, o caminho será o do entendimento, o qual será trilhado na terceira meditação, na qual ele passa a verificar os atributos do corpo para conhecer a natureza da existência humana. Conclui que pelos mesmos não é possível conhecer tal natureza. Passa, então, aos atributos da alma, isto é, alimentar, caminhar, sentir e pensar. Neste último atributo, ele descobre um fundamento do eu, da natureza da existência humana:

o pensamento é um atributo que me pertence; só ele não pode ser separado de mim. Eu sou, eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que penso; pois poderia, talvez, ocorrer que, se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. Nada admito agora que não seja necessariamente verdadeiro; nada sou, pois, falando precisamente, senão uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um entendimento ou uma razão, que são termos cuja significação me era anteriormente desconhecida (DESCARTES, 1983b, p.94).

O “eu sou, eu existo” está fora da relação com os sentidos e com a imaginação; está no entendimento, na alma, na essência. É, portanto, uma afirmação, uma constatação, ontológica, a salvo de qualquer dúvida e de qualquer causa exterior ao homem. Resta-lhe saber se essa afirmação se esgota no próprio homem, no próprio entendimento. Daí a intenção de Descartes em procurar uma causa que seja a primeira de todas, a mais fundamental, o que veremos mais adiante.

A célebre frase, talvez a mais famosa da história da filosofia, aparece primeiro em francês – je pense donc je suis – na Parte IV do Discurso (1637): “Notei que, enquanto tentava pensar que tudo era falso, eu, que assim o pensava, era algo. E observando que essa verdade – Penso, logo existo – continha em si tamanha certeza e firmeza que resistia incólume às mais extravagantes suposições dos céticos, julguei que poderia aceitá-la, sem escrúpulos, como o primeiro princípio da filosofia que procurava” (AT VI 32:CSM I 127). A formulação em latim aparece nos Princípios de Filosofia (1644), onde se descreve o enunciado cogito ergo sum como “a primeira e mais segura descoberta que pode ocorrer àquele que filosofa de modo ordenado” (Parte I, art. 7).

A frase canônica não aparece, no lugar em que Descartes trata de sua metafísica mais completa, isto é, nas Meditações; é neste trabalho, no entanto, que Descartes oferece a explicação mais clara de por que o conhecimento da própria existência deve ser o primeiro e mais seguro passo no caminho para o conhecimento das demais coisas. (COTTINGHAM, 1995, p. 37).

Para corroborar que os sentidos e a imaginação não levam ao conhecimento verdadeiro, ele cita os exemplos da cera levada ao fogo e dos chapéus e casacos “andando” que ele vê da janela, asseverando que é o entendimento que, conhecendo a natureza intrínseca das coisas, percebe as transformações da cera e identifica homens andando, embora somente lhes veja os chapéus e casacos. Hume diria que não é o entendimento, e sim a experiência.Descartes chega à conclusão de que o homem não é a causa de suas ideias, do cogito; não é a ideia-primeira, não é a ideia-causa. Se isto é verdade, significa, por decorrência, que o homem não está sozinho no mundo, que existe algo que lhe é superior e fora de si. Seguindo o seu princípio de causalidade, Descartes considera que as ideias que lhe advêm dos sentidos estão dentro de si, mas há uma ideia que não pode provir de si: a ideia de Deus, entendido como “uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criadas e produzidas” (DESCARTES, 1983b,p.107)

Novamente o seu princípio de causalidade é desenvolvido somente ao nível do entendimento. Ou seja, não é pelas coisas que ele procura a causa-primeira, mas pelo cogito, pela razão. Caso partisse das coisas, estaria partindo dos sentidos, o que ele já descartara como não sendo um aferidor do que é claro e distinto. Então, o caminho para Deus tem por base o cogito, que nessa busca, nessa ascensão, torna a si próprio o efeito de uma causa perfeita. É a busca do infinito pelo finito. É uma busca que já traz uma imanência do encontro, pelo simples fato ontológico de supor, mais do que isto, de estar certa, de que a existência do finito implica a existência do infinito. Em outras palavras, se existe o efeito é porque existe a causa. Assim, ontologicamente, não há como não se chegar à causa maior, à causa absoluta, destituível de qualquer outra causa. A causa que se encerra em si mesma, que é o ser em si. O homem não poderia ser essa causa pela contingência ontológica de ser finito e não conter tudo o que existe. A causa também não poderia ser o gênio maligno, posto que este não tem o poder de impedir que eu chegue ao cogito. A constatação inexorável do cogito é suficiente para derrubar a hipótese do gênio maligno e abrir espaço para a ascese a um ser perfeito, causa ontológica de tudo que há. Então, sedimentado o cogito, parte Descartes para a causa absoluta, Deus, que acabará por ser o fundamento metafísico da sua física, de sua ciência.

Conclusão

Descartes considera que o finito não pode explicar e muito menos gerar o infinito. O seu grande passo foi chegar ao eu finito, ao cogito. Daí o eu infinito surgiria, necessariamente, como decorrência. De modo que há aqui uma dialética: o infinito é a causa do finito, mas para chegar-se àquele foi necessário ter-se chegado primeiro a este. O efeito está na causa, porém chegou-se a esta a partir daquele. Há uma unidade de contrários: infinito e finito; causa e efeito. De modo que, a despeito de ser metafísico, o método cartesiano também é, essencialmente – embora não o seja formalmente –, dialético, além de ser ontológico. Sem essa lógica ontológica-dialética, ele não chegaria a estabelecer o infinito como causa do finito, partindo deste para chegar àquele.

Referências

ALQUIÉ, F. A filosofia de Descartes, Lisboa: Editorial Presença, 1993.

COTTINGHAM, J. Dicionário Descartes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

DESCARTES, R. O discurso do método. In:Descartes, René, Coleção Os pensadores, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, 3a. edição, São Paulo: Abril Cultural, 1983a.

DESCARTES, R. Meditações. In: Descartes, René, Coleção Os pensadores, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, 3a. edição, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

GRANGER, G-G. Introdução. In: Descartes, René. Coleção Os pensadores, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, 3a. edição, São Paulo, Abril Cultural, 1983b.

OLIVEIRA, R. C. O discurso do método de René Descartes. www.academia.edu. 2007. Acesso em 10 de setembro de 2013.

PESSANHA, J. A. Descartes, vida e obra. In: Descartes, René. Coleção Os pensadores, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, 3a. edição, São Paulo, Abril Cultural, 1983.

jun 082014
 

Vico
Tradução de Miguel Duclós do verbete da wiki-en.

Vico filósofo
Giovan Battista (Giambattista) Vico (23 Junho de 1668 – 23 Janeiro de 1744) foi um filósofo político, retórico, historiado e jurista italiano. Ele criticou a expansão e o desenvolvimento do racionalismo e fez uma apologia da antiguidade clássica. Vico é mais conhecido pela sua obra-prma, a Scienza Nuova, de 1725.

Vico foi um precursor do pensamento sistêmico e complexo que se opõe à analítica cartesiana e outras formas de reducionismo. Ele é também conhecido por notar que verum esse ipsum factum (a verdade é ela mesma feita (construída), uma proposição que têm sido entendida como uma instância precursora da epistemologia construtivista.

Vico às vezes é apontado como o inaugurador da moderna filosofia da história, embora este termo não seja usado em seus textos (Vico fala de uma história da filosofia narrada filosoficamente). Embora Vico não aborde o historicismo, têm sido alvo de interesse pelo historiadores, como Isaiah Berlin e Hayden White.

Biografia

Filho de um vendedor de livros e a filha de fabricante de carroças, em Nápoles, na Itália, Vico cursou as séries das escolas de gramática, mas a sua saúde frágil e a insatisfação com a escolástica jesuítica levou-o a estudar em casa. Alguns indícios encontrados na sua obra autobiográfica dão a entender que a formação de Vico foi quase totalmente auto-didata. De acordo com Costelloe, isto se deve à influência do seu pai sobre ele durante os três anos que não frequentou a escola depois de se acidentar com 7 anos, ao cair do alto de uma escada.

Depois de uma crise de tifo em 1686, Vico aceitou um cargo de tutor em Vatolla (parte da comuna de Perdifumo), ao sul de Salerno, que exerceu durante nove anos. Em 1699, ele casou com sua amiga de infância e ex-colega, Teresa Destito, e assumiu a cadeira de retórica na Universidade de Nápoles. Através da sua carreira, Vico teria aspirado, mas nunca tentato, uma cadeira mais reputada de jurisprudência. Em 1734, entretanto, ele foi nomeado historiador real pelo rei de Nápoles, Charles III, que lhe ofereceu um salário que ultrapassava em muito o que tinha como professor. Vico manteve a cadeira de retórica até que os problemas de saúde o forçaram a se retirar em 1741.

A Scienza Nuova

ciencia nova de vico

Principj di Scienza Nuova – capa de uma edição de 1744.


Os Princípios da Ciência Nova (1725, título em latim Principi de Scienza Nuova) é a principal obra de Vico, e tem sido muito influente na história da filosofia e para a historiografia.

O princípio verum factum


Vico é sempre lembrado pelo seu princípio verum factum, primeiramente formulado como parte do seu De antiquissima Italorum sapientia, ex linguae latinae originibus eruenda (1710) (A antiga sabedoria dos italianos a partir das origens da língua latina) . O princípio estatifica que a verdade é verificada através da criação e da invenção e não, como para Descartes, através da observação. “O critério e a regra da verdade é que ela foi feita. Portanto, nossa ideia clara e distinta na mente não pode ser um critério para a mente em si mesma, e menos ainda de outras verdades. Porque uma vez que a mente percebe a si mesma, ela não se produz”. É possível dizer que a história da civilização convergeu pelo conceito de verdade tal quala definido na obra de Vico, uma vez que ele argumenta que a vida civil é como a matemática, inteiramente construída.

Vichian rhetoric and humanism[edit]

A concepção de retórica de Vico às vezes é entendida como o resultado das suas concepções simultaneamente humanistas e pedagógicas. No De Nostri Temporis Studiorum Ratione (“Da Disciplina de ensino do nosso tempo”) , apresentado no início do ano letivo de 1708, Vico argumenta que quem “pretenda ter uma carreira pública, seja na corte, no senado, ou no púlpito”, deve ser instruído na “arte magna dos tópicos da retórica, e saber defender os dois lados em uma controvérsia, seja ela natural, humana ou política, num estilo de expressão fluído e brilhante, para que possa saber conduzir aos argumentos que tenham um maior dse verossimilhança”. Entretanto, na “Ciência Nova”, Vico denuncia como “falsa eloquência” a defesa dos dois lados em uma controvérsia. Como professor real de Eloquência Latina, era tarefa de Vico preparar os estudantes para os altos estudos da lei e da jurisprudência. Suas lições, portanto, lidam com os aspectos formais do cânone retórico, incluindo os preparativos e a execução. Vico escolhe enfatizar a conexão aristotélica da retórica com a dialética e a lógica, ou seja, rearticular as etapas da retórica priorizando suas metas. A objeção de Vico à retórica de seu tempo é que seguiria o senso comum (sensus communis) a todos os homens. Nas suas aulas e através de sua obra, a retórica de Vico principia-se com o argumento central do “meio termo” (medius terminus), usado para clarificar confore a ordem das coisas segundo elas surgem na experiência. A probabilidade e as circunstâncias mantem uma importância proporcional e a descoberta é relevante para os tópicos, sobrepondo-se aos axiomas derivados da reflexão abstrata. Na tradição da retórica romana clássica, Vico intenta educar o orador como o apresentador de uma “oratio”, uma fala que primordialmente segue uma “ratio” – ou razão e ordem. Para ele, o que é essencial na arte da oratória (como na retórica grega) é a conexão entre o senso comum e sua conclusão inteligível, objetivo este que não é alcançado impondo-se a imaginação sobre o senso comum – como fizeram certos retóricos dogmáticos do cristianismo, atingido fora do próprio senso comum, através da razão e dos argumentos. Na tradição de Sócrates e de Cícero, a oratória ou retórica real de Vico serve como uma ligação entre o nascimento da “verdade” (como uma forma de ideia) fora da “certeza” (como a confusão ou a ignorância preconceituosa na mende particular de cada estudante).

A redescoberta de Vico da “sabedoria antiga” do senso comum, uma sabedoria permeada pela tolice humana, (humana stultitia), sua ênfase na vida civil, e sua carreira profissional nos permitem situá-lo dentro da tradição humanista. Ele desenvolve uma maiêutica ou arte oratória jurídica contra o crescimento de uma forma moderna de razão privilegiada, como era para ele o método geométrico de Descartes e dos lógicos de Port-Royal.

Response to the Cartesian method[edit]

Como Vico relata em sua biografia, ele retorna de Vatolla para Nápoles para encontrar “a física de Descartes na altura do renome estabelecido entre os homens de letras”. O desenvolvimento tanto da metafísica quanto das ciências naturais abundavam em consequência do cartesianismo. Bastante disseminado pela lógico Antoine Arnauld, de Port Royal, e por Pierre Nicole, o método de Descartes baseava-se na verificação: o único caminho para a verdade, e consequentemente, para o conhecimento, era através de axiomas derivados da observação. A insistência de Descartes de que o “claro e distinto” deveria formar a base da direção da razão teve um impacto notável nos pontos-de-vista anteriores de lógica e de discursos. Os estudos em retórica, e, mais do que isso, todos os estudos referentes a vida civil baseados no reino das verdades prováveis, estavam sendo cada vez mais desdenhados.

O humanismo de Vico e suas preocupações profissionais são, por certo, uma resposta A Descartes, que se desenvolveria através dos seus escritos: o reino das verdades verificáveis e das possibilidades humanas mal se cruzam, mas a racionalidade é necessária para a avaliação imparcial nas duas esferas. Uma das primeiras e mais claras formas deste argumento está disponível no De Italorum Sapientia, onde Vico argumenta que introduzir o método geométrico na vida prática é “como tentar enlouquecer com as regras da razão tentando caminhar numa linha reta entre as sinuosidades da vida, como se os assuntos humanos não fossem também regidos pela vaidade, temeridade, oportunidade e sorte. Da mesma maneira, desenvolver um discurso político de acordo com os preceitos do método geométrico equivaleria a abrir mão de qualquer ajuste necessário, ficando apenas nas linhas fundamentais do argumento.

Vico’s position here and in later works is not that the Cartesian method is irrelevant, but that its application cannot be extended to the civic sphere. Instead of confining reason to a string of verifiable axioms, Vico suggests (along with the ancients) that appeals to phronêsis or practical wisdom must also be made, as do appeals to the various components ofpersuasion that comprise rhetoric. Vico would reproduce this argument consistently throughout his works, and would use it as a central tenet of the Scienza Nuova.

A posição de Vico, aqui, e nos seus trabalhos posteriores não é que o método cartesiano é irrelevante, mas que a sua aplicação não pode se estender para esfera civil. E vez de confinar a razão numa linha de axiomas verificáveis, Bico sugere (junto com os antigos) que o apelo da phonêsis ou conhecimento prático, precisa também ser considerado, junto com os vários elementos de persuasão que compõe a retórica. Vico reproduzirá esse argumento de forma consistente através de suas obras, e usará ele como o princípio central da Scienza Nova.

Works[edit]

· Vico, Giambattista. “On Humanistic Education,” trans. Giorgio A. Pinton and Arthur W. Shippee. Ithaca: Cornell UP, 1993.

· Vico, Giambattista. “On the Study Methods of Our Time,” trans. Elio Gianturco. Ithaca: Cornell UP, 1990.

· Vico, Giambattista. Universal right (Diritto universale). Translated from Latin and Edited by Giorgio Pinton and Margaret Diehl. Amsterdam/New York, Rodopi, 2000

· Vico, Giambattista. “The New Science of Giambattista Vico, (1744). trans. Thomas G. Bergin and Max H. Fixch. Ithaca: Cornell UP, 2nd ed. 1968.

Referências

· Encyclopædia Britannica entry

· Fabiani, Paolo “The Philosophy of the Imagination in Vico and Malebranche”. F.U.P. (Florence UP), Italian edition 2002.

· Fabiani, Paolo “The Philosophy of the Imagination in Vico and Malebranche”. F.U.P. (Florence UP), English edition 2009.

· Gianturco, Elio, trans. De Nostri Temporis Studiorum Ratione (On the Study Methods of our Times). 1709. Ithaca: Cornell UP, 1990.

· Goetsch, James. Vico’s Axioms: The Geometry of the Human World.. New Haven: Yale UP, 1995.

· Mooney, Michael. Vico in the Tradition of Rhetoric. New Jersey: Princeton UP, 1985.

· Pompa, Leon. Vico: A Study of the New Science. Cambridge: Cambridge UP, 1990.

· Stanford Encyclopedia of Philosophy entry

Bibliografia (em inglês)

· Bedani, Gino. Vico Revisited: Orthodoxy, Naturalism and Science in the Scienza Nuova. Oxford: Berg Publishers, 1989.

· Berlin, Isaiah. Vico and Herder: Two Studies in the History of Ideas. London: Hogarth, 1976.

· Bizzell, Patricia, and Bruce Herzberg. The Rhetorical Tradition: Readings from Classical Times to the Present. 2nd ed. Basingstoke: Macmillan; Boston, Ma: Bedford Books of St Martin’s Press, 2001. Pp. Xv, 1673. (First Ed. 1990). 2001.

· Colilli, Paul. Vico and the Archives of Hermetic Reason. Welland, Ont.: Editions Soleil, 2004.

· Croce, Benedetto. The Philosophy of Giambattista Vico. Trans. R.G. Collingwood. London: Howard Latimer, 1913.

· Danesi, Marcel. Vico, Metaphor, and the Origin of Language. Bloomington: Indiana UP, 1993

· Fabiani, Paolo. The philosophy of the imagination in Vico and Malebranche Florence UP, 2002 (Italian edition), 2009 (English edition).

· Fisch, Max, and Thomas Bergin, trans. Vita di Giambattista Vico (The Autobiography of Giambattista Vico). 1735-41. Ithaca: Cornell UP, 1963.

· Giannantonio, Valeria. “Oltre Vico – L’identità del passato a Napoli e Milano tra ‘700 e ‘800″, Carabba Editore, Lanciano, 2009.

· Grassi, Ernesto. Vico and Humanism: Essays on Vico, Heidegger, and Rhetoric. New York: Peter Lang, 1990.

· Hösle, Vittorio. “Vico und die Idee der Kulturwissenschaft” in Prinzipien einer neuen Wissenschaft über die gemeinsame Natur der Völker, Ed. V. Hösle and C. Jermann, Hamburg : F. Meiner, 1990, pp. XXXI-CCXCIII

· Joyce, James. Finnegans Wake. Viking 1939.

· Leone, Giuseppe. [rec. al vol. di] V. Giannantonio, “Oltre Vico – L’identità del passato a Napoli e Milano tra ‘700 e ‘800″, Carabba Editore, Lanciano 2009, in Misure Critiche, n.2, La Fenice Casa Editrice, Salerno 2010, pp. 138–140.

· Levine, Joseph. Giambattista Vico and the Quarrel between the Ancients and the Moderns. Journal of the History of Ideas 52.1(1991): 55-79.

· Lilla, Mark. “G. B. Vico: The Making of an Anti-Modern.” Cambridge, MA: Harvard University Press, 1993.

· Mazzotta, Giuseppe. “The New Map of the World: The Poetic Philosophy of Giambattista Vico.” Princeton: Princeton University Press, 1999.

· Miner, Robert. “Vico, Genealogist of Modernity.” Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2002.

· Nicolini, Fausto, ed. Opera di G.B. Vico. Bari: Laterza, 1911-41.

· Palmer, L.M., trans. De Antiquissima Italorum Sapientia ex Linguae Originibus Eruenda Librir Tres (On the Most Ancient Wisdom of the Italians Unearthed from the Origins of the Latin Language). 1710. Ithaca: Cornell UP, 1988.

· Pinton, Girogio, and Arthur W. Shippee, trans. Institutiones Oratoriae (The Art of Rhetoric). 1711-1741. Amsterdam: Editions Rodopi B.V., 1984.

· Pompa, Leon, trans. Scienza Nuova (The First New Science). 1725. Cambridge: Cambridge UP, 2002.

· Schaeffer, John. Sensus Communis: Vico, Rhetoric, and the Limits of Relativism. Durham: Duke UP, 1990.

· Verene, Donald. Vico’s Science of Imagination. Ithaca: Cornell UP, 1981.

· Verene, Molly Black “Vico: A Bibliography of Works in English from 1884 to 1994.” Philosophy Documentation Center, 1994.

jun 062014
 

Descrição de vários rios, lugares, arvoredos, campinas, etc., no interior do Pará
Dr. Frei. Caetano Brandão. (Dom Frei Caetano da Anunciação Brandão (1740-1805))

Pelas três horas da tarde, soltamos a vela, e em todo o tempo até ao outro dia não se ofereceu mais nada digno de memória, excetuando a vista do quadro agradável que formam constante­mente as margens daqueles rios, povoados de arvoredos sempre viçosos e floridos *) em todo o ano. Entramos no rio Paoaru, um dos mais belos, por não ser muito largo e dar lugar a gozar-se. de-perto da vista dos seus frondosos arvoredos, quase até passar por baixo dos ramos das árvores; todos os sentidos, aqui acham encanto que os transportam: um cheiro aromático perfuma o ar; lindas aves se vêem saltar duns ramos para outros, cantando sua­vemente: vêem-se a cada passo sobressair, por entre as verdes fôlhas, diferentes ramalhetes [1]) de flores; aqui cavas profundas, formadas pela corrente das águas; lá raízes descarnadas, descen­do das ribeiras até o leito do rio; variedade de arbustos viçosos e odoríferos; uma relva muito verde, a que no país chamam capim; em algumas partes loiras areias, ou terra de diversas côres; pe­quenas ribeiras chamadas igarapés, que lá do centro dos matos vCm desaguar em o rio: tudo forma a mais agradável perspectiva. Que precioso torrão! Tudo produz com muita abundância e fa­cilidade: o arroz, o cacau, o algodão, o tabaco, o café, a maniva [2]),

o orucu, fruto de certa árvore de que se faz uma tinta encarnada muito fina, que tem grande valor na Europa. Aqui saí em terra e me enchi de espanto e de horror, vendo a desmarcada grandeza dos paus arrojados pela corrente para uma ponta que faz a ilha; eram vigas altíssimas e de grossura pasmosa; medi uma, que não era das maiores: tinha 15 palmos de grossa, e estava o chão jun­cado delas, algumas já carcomidas e desfeitas com o tempo; soube depois que uma tinha 33 palmos de circunferência. O rio Ara- macu é um dos mais belos que temos encontrado; águas claras e frias, terminando duma e doutra parte de árvores viçosas, e algu­mas muito floridas, as quais, por causa da estreiteza do rio, fazem continuada sombra aos navegantes, e de intervalo em intervalo alargando-se, abrem caminho aos olhos para espreitarem pelas ale­gres e férteis campinas de que vai sempre acompanhado. Que es­petáculo deliciosíssimo! Porém que perda! Campos tão belos sem cultura, pastos os mais preciosos, e nem uma só rês se alcança com a vista! Mágoa grande é ver as cidades (ainda a do Pará) cheias de gente ociosa, que com o seu trabalho e indústria podiam tirar dêstes lugares e outros semelhantes ricas produções para o bem do gênero humano; porém a moleza, o ócio, a torpe preguiça, da­nam 1) tudo. Também dêste rio se descobrem vários outeiros não calvos, mas vestidos de frescas e copadas árvores, alguns bem perto do rio, muitos lagos, vargens e um terreno em tudo seme­lhante aos melhores do reino: vista que não deixa de ser agradável e saudosa aos que de lá têm vindo. Fomos costeando a mar- gemdo Amazonas com a vista nos montes elevadíssimos, que em pouca distância pela terra dentro formam a dilatada cadeia ou cordilheira de Güiana, seguida de oeste a leste a.té às vizinhanças do rio Orinoco. Então começamos a ver o Amazonas desabalado de ilhas em tôda a sua largura; é um pedaço do Oceano; em parte mal se divisa a margem contrária: uma corrente pasmosa, e as ondas grossas e empoladas, como as do mar. Que lindos quadros não oferece êste rio das diferentes ilhas de que está povoado! Tão frescas de arvoredos e de campinas sempre viçosas, que é um en­levo dos olhos; mas são terras pauladas e alagadiças, que não ser­vem para a cultura, e por isso se acham desertas. Temos visto por êstes rios aves as mais lindas; entre elas umas de côr encar­nada tão viva que são enleio dos olhos: mostram o tamanho de franguinhas. Também observei uns peixinhos de notável singu­laridade: tiram-se dágua, entram a empolar desmarcadamente pe­la parte do ventre, que é de côr branca e alixada: ficam como uma bexiga bem cheia de ar; e, se se deitam assim nágua, param na superfície, sem poderem descer, enquanto se lhes não rompe a pele. Aqui mesmo, navegando junto à praia, tive ocasião de ver um quadro, que me encantou o espírito: estavam aquelas margens alcatifadas duma relva muito verde, mimosa, semelhante ao linho quando está em flor: por entre ela passeavam grande número de aves de diversas côres, umas alvas como neve, outras azuis; mas a maior parte encarnadas, dum vivo que se não acha nas côres artificiais: não vi coisa mais linda! Também andavam mistura­das outras de côr trigueira e arroxada, e me asseguraram que eram filhas das encarnadas, e que, depois de serem grandes, ves­tiam a côr dos pais, e que, quanto mais antigas, mais refina a vermelhidão das penas.

Dr. Fr. Caetano Brandão.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


O que se adquire com trabalho e dificuldade guarda-se com estimação e cautela; o que pouco nos custou a haver, pouco se nos dá de o demitir, como cousa que facilmente nos tornará a mão. Manuel Bernardes. 1) Danar — no sentido de causar dano, prejuízo, é pouco usado.

[1] Ramalhete ou ramilhete-, ambas as formas são portuguêsas e dis­pensam o francesismo bouquet.

[2] Maniva — mandioca.

jun 062014
 

A ilha dos Nheengaíbas, na boca do Amazonas

Na grande bôca do rio das Amazonas está atravessada uma ilha de maior comprimento e largueza que todo o reino de Portu­gal e habitada de muitas nações de índios, que, por serem de lín­guas diferentes e dificultosas, são chamados geralmente Nheengaí- has. Ao princípio receberam estas nações os nossos conquistado­res em boa amizade; mas, depois que a larga experiência lhes foi mostrando que o nome de falsa paz com que entraram, se conver- tia em declarado cativeiro, tomaram as armas em defesa da liber­dade, e começaram a fazer guerra aos Portuguêses em tôda a par­le. Usa esta gente de canoas ligeiras e bem armadas, com as quais não só impediam e infestavam as entradas, que nesta terra são tôdas por água, em que roubaram e mataram muitos Portuguêses; mas chegavam a assaltar os índios cristãos em suas aldeias, ainda naquelas que estavam mais vizinhas às nossas fortalezas, matan­do e cativando: e até os mesmos Portuguêses não estavam segu­ros dos Nheengaíbas dentro de suas próprias casas e fazendas, de que se vêm ainda hoje muitas despovoadas e desertas, como sitia­dos, sem lograr as comodidades do mar, da terra e dos rios, nem ainda a passagem dêles, sinão de-baixo das armas. Por muitas vêzes, quiseram os governadores passados tirar êste embaraço tão custoso ao Estado, empenhando na emprêsa tôdas as forças dêle, assim de índios como de Portuguêses, como os cabos mais antigos e experimentados; mas nunca desta guerra, se tirou outro efeito mais que o repetido desengano de que as nações Nheengaíbas eram inconquistáveis pela ousadia, pela cautela, pela astúcia e pela costância da gente, e, mais que tudo, pelo sítio inexpugnável com que as defendeu e fortificou a mesma natureza. E’ a ilha tôda com­posta. dum confuso e intricado labirinto de rios e bosques espessos, aquêles com infinitas entradas e saídas, êstes sem entrada nem saí­da alguma; onde não é possível cercar, nem achar, nem seguir, nem a inda ver o inimigo, estando êle, no. mesmo tempo, de-baixo da. trin­cheira das árvores, apontando e empregando as suas frechas. E porque 2) êsse modo de guerra volante e invisível não tivesse o es­torvo natural da casa, mulheres e filhos, a. primeira coisa que fize­ram os Nheengaíbas, tanto que se resolveram à guerra com os Por- t uguêses, foi desfazer e como desatar as povoações em que viviam, dividindo as casas pela terra dentro a grandes distâncias, para que em qualquer perigo pudesse uma avisar às outras, e nunca serem acometidas juntas. Desta sorte ficaram habitando tôda a ilha, sem habitarem nenhuma parte dela, servindo-lhes, porém, em tô­das, os bosques de muro, os rios de fôsso, as casas de atalaia e cada Nheengaíba de sentinela, e as suas trombetas de rebate.

P. Antônio Vieira.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


jun 062014
 

O esquilo

O esquilo é o mais ágil, o mais engenhoso de todos os roe­dores. E’ procurado pela elegância das formas, pela alegria, e encanto do seu caráter e, sobretudo, pela expressão vivíssima da tua fisionomia.

A sua grande cauda, muito felpuda, serve-lhe de leme e de vela, quando quer atravessar um rio. Nada mais curioso do que ver um bando dêstes pequenos quadrúpedes, sentados num pedaço de gêlo ou na casca de uma árvore, atravessar a água na direção de algum lugar onde esperam encontrar alguma colheita.

O esquilo vive sôbre as árvores, em cujo côncavo constrói o ninho com pauzinhos de árvores, e pedacitos de lenha, revestin­do-o de musgo e fôlhas. Na parte superior do ninho deixa uma pequena abertura, por onde entra, e sai, e, para impedir que a chu­va lhe invada os pequenos domínios, forma por cima da abertura uma espécie de teto ou alpendre solidamente construído.

Consiste o seu alimento em avelãs, ameixas, bolotas, amên­doas, rebentos de árvore, e também em ovos de pássaros. Quando come senta-se nas patas traseiras, e segura o objeto que rói, entre as patas de diante.

Guarda cuidadosamente em diversos esconderijos as provisões que juntou para o inverno, e só lhes toca, quando nada pode en­contrar em outra parte.


E’ fãcíl de domesticar este animal apanhando-o novo: ape sar de selvagem e tímido, familiariza-se depressa com a sua pr são, deixando-se afagar pela mão que o sustenta.

O esquilo é muito comum nos grandes bosques da Bélgica Tem o pêlo de um vermelho afogueado, sendo, porém, esbranquiçado no ventre. Na ponta das orelhas tem uma espécie de pena chinho de pêlo.

Segundo dizem, nos países onde abundam os esquilos, os ra pazes do campo servem-se de um meio muito original para os apanhar, sem risco de serem mordidos.

Quando avistam algum perseguem-no atirando com paus, mas de modo que não o molestam, até que o animal chega próximo de uma árvore isolada. Então os rapazes dão as mãos e põem-se a dansar e a cantar em roda dela. O esquilo segue todos os movi­mentos da dansa, e, saltitando de ramo em ramo, põe-se a voltear como os dançadores, até que, esgotadas as fôrças, cai da árvore abaixo e é apanhado.’

(Tradução)

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 062014
 
definição de piranha

definição de piranha

A piranha

A piranha é peixe de escamas côr de pérola, que raras vêzes >excede a um palmo, mas de uma voracidade que ultrapassa a auan- to se pode imaginar. E’ dotada de dentes que cortam como navalha. Por ocasião da abordagem do va­por- “Jaurú”, quando o distinto ca­pitão de fragata Balduino José Fer­reira de Aguiar, no combate do Alegre[1]), o retomou do inimigo, miram nágua alguns Paraguaios fe­ridos. Atraídas pelo sangue, as pi­ranhas os devoram quase vivos, deixando em poucos minutos os esqueletos limpos. ,

Celso de Magalhães.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] em Mato Grosso, a 11 de julho de 1867.

jun 062014
 

A baleia – resumo sobre a baleia

As baleias são animais tímidos e pacíficos. Não atacam outros animais ou os navios, e só se voltam contra êles em defesa própria. Não lhes faltam inimigos que as obrigam a combater O mais cruel e encarniçado é o espadarte, cujo comprimento excede a quatro ou cinco metros. Quando um destes peixes avista alguma baleia, corre sôbre ela e ataca-a vigorosamente. A baleia à vista do implacável inimigo, salta enfurecida, fere as ondas, ta-se com extraordinários movimentos, e trabalha por chegar cor a cauda ao espadarte. Esmaga-o com uma só pancada, se conse­gue chegar-lhe. Mas o peixe, que é ágil e matreiro, foge-lhe com corpo, e, antes que a baleia possa vibrar novo golpe, salta-lhe em cima e a rasga com os dentes. Corre o sangue, a água cobre-se de espuma, ressoa o mar com o estrondo do combate: a baleia respira com ímpeto, debate-se em medonhas convulsões, expele jorros água misturada com sangue. A cada golpe que recebe do espadar­te a baleia mergulha, porém até nos abismos a persegue o seu teme­roso inimigo. Quando a necessidade de respirar a obriga, sobe; então que o combate redobra de furor; terrível, ensanguentada, baleia vibra incessantes golpes, que fazem saltar a água em borbuIhões, e produzem o estrondo da artilharia. Parece que o espadar­te, depois de morta a baleia, se contenta de lhe devorar a língua, Certas espécies de golfinhos e cachalotes e o urso branco do polo atacam igualmente o gigante dos mares.

Augusto Felipe Simões.

baleia, definição, resumo

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 062014
 

O «Quero-quero»

A originalidade do rincão revela-se na natureza da terra, na fisionomia dos rios, nos campos desdobrados ou acidentados, na aspereza ou sutileza do ar que se respira, na sinfonia dos ventos reinantes, e mais do que em tudo, nos sêres que o animam.

Vários aspectos do que constitui a face física do Rio Grande do Sul se encontram em outras paragens do Brasil, a que a língua e os costumes cimentam, tentando apagar os traços característicos de cada recanto, as diferentes regiões se apartam e se destacam.

ave quero-quero

Mas no que toca aos sêres vivos, que são a alma singular de cada recanto, as diferentes regiões se apartam e se destacam de modo evidente.

O “Quero-quero”, no Rio Grande do Sul é sua alma origi­nal. Não sei de criatura que tão bem represente a terra em que nasceu.

Alto, cheio de nobre elegância, vive pelos banhados e campos pedregosos, onde constrói seu ninho. Não busca as moitas escon­didas, nem se utiliza das tocas abandonadas.

Em pleno descampado, ao sol, entre pedras roladas, prepara o ninho. Para defendê-lo não pede o auxílio da luz obscura, con­ta consigo, exclusivamente consigo.

Noite e dia ronda o campo. E’ uma atalaia que não dorme. R ao menor ruído solta o grito estridente — quero-quero, quero. . .

— desafiando o inimigo ou o incau­to que dêle se aproxima.

E de acôrdo com sua tática de guerra, põe-se a. voar, a revoar em tôrno ao ninho, passando às vêzp*7 de raspão pelo importuno recém vindo.

Tão caraterístico é o espírito de sentinela no “Quero-quero”, que o gaúcho fêz dêle o símbolo do so­no leve. Se um indivíduo não ouve o nascer da alvorada e só vem a despertar quando o sol o golpeia de >frente, colocando em baixo do tra­vesseiro o ferrão que o “Quero-quero” tem nas asas, basta para torná-lo madrugador.

As virtudes do vigilante dos campos concretizam-se naquela tonta acerada, suprema garantia do seu espírito altaneiro.

Quem percorre, pela primeira vez, as savanas do Rio Grande, e se detém nesse pernalta estridente e impetuoso, não deixa de compreender, que a terra que lhe deu origem só poderia gerar, no gênero humano, o gaúcho. 1

Daí o respeito de que é rodeado o “Quero-quero”. Os caça­dores não o alvejam. Não se agride um valente que só luta no descampado…

O gaúcho fêz dêle um símbolo. Roque Callage, o escritor crioulo, batizou com seu nome um livro. E no livro e no sím­bolo vai o “Quero-quero” educando as gerações na vigilância e no brio.


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.<br />

Jainha Pereira Gomes.

jun 062014
 

As tartarugas marinhas

Movidos pelo instinto de conservação, a maior parte dos ani­mais buscam *) ou preparam 2) abrigos para se resguardarem das Injúrias do tempo, e se defenderem dos ataques de seus inimigos. As aves escondem-se entre as fôlhas das árvores, ou nas concavidades dos troncos. Recolhem-se os quadrúpedes às espessuras das florestas, às grutas naturais ou às tocas profundas que fazem na terra. Ocultam-se os peixes nas covas da areia, nas anfractuosidades 3) das rochas, nos intricados labirintos dos bosques submarinos. Ãs tartarugas, porém, como aos testáceos4), deu a natu­reza abrigos próprios, invólucros protetivos, que lhes servem de casa e que, de bom ou mau grado, levam consigo por tôda a parte.

tartarugas marinhas

Esta armadura defensiva das tartarugas consiste em dois es­cudos ósseos, unidos pelos bordos. O superior, composto das cos­telas soldadas entre si e com as vértebras dorsais 5), chama-se con­cha ou casca; o inferior, formado pelo esterno 6) convenientemente modificado, tem o nome de couraça. Em nenhuns outros animais vertebrados as partes do esqueleto saem por tal modo de dentro do corpo para se expandirem na superfície, transformando-se de Internas em externas de conteúdas em continentes.


É extravagante o aspecto das tartarugas. Parecem animai obsoletos [1]), que a natureza se esqueceu de extinguir com os outro répteis, que povoaram os mares nos tempos ante-diluvianos, e tive ram por jazigo comum os velhos terrenos secundários. Como 1 judeu errante da lenda, escaparam à lei geral das espécies, e, perdidos os seus contemporâneos de cataclismo em cataclismo, chegara- até à época atual, para se arrastarem num mundo diversíssimo daquele a que sobreviveram atônitas e confusas, entre animais insóli­tos [2]) e plantas desconhecidas. Porque vivem ainda? Porque não! baixaram com os entes congêneres às catacumbas em que jazem se­pultadas as faunas ::) primitivas do globo. Picariam vivas sôbre a terra para atestarem que êsses monstros singulares das antiga idades foram efetivamente animados, e se moviam e se nutriam ej propagavam como os animais de agora? Seriam privilegiadas com tão admirável isenção, para dizerem ao vulgo absorto que as criações paleozóicas[3]) dos naturalistas são mais que sonho ou fantasia, são a realidade.

t)e que lhes serve hoje a rija armadura? São bem fracos, em comparação dos antigos, os seus atuais inimigos, a quem ou­tras espécies resistem sem serem couraçados. Não têm já que recear as fortes garras do megalosáurio 5), as maxilas monstruo­sas do pterodátilo [4]), ou os dentes penetrantes do iguanodonte ?)’. Pereceram essas alimárias nas grandes revoluções que mudaram’ a face do planeta, e de tôdas as castas de répteis [5]) marinhos sal­vou-se apenas a das tartarugas.

A. Felipe Simões.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.<br />



[1] Obsoletos — antigos; que desapareceram.

[2] Insólitos — que raras vêzes aparecem.

[3] Criações paleozóicas — animais que viveram em tempos remotís­simos.

[4] Pterodáctilo — espécie de lagarto fóssil que tinha os dedos reuni­

dos por uma membrana.

[5] répteis. Veja a nota 2) à pág. 117.

jun 062014
 

Queima da mata – Graça Aranha

Os homens foram reunidos, e todos penetraram na floresta com um reconhecimento sacerdotal, de quem vai cumprir os ritos de cul­tos infernais. Num dos ângulos da mata lançaram fogo à primeira moita, que lhes pareceu mais ressequida. Antes que a labareda apontasse para o alto as línguas ardentes, rubras, rápidas, uma fu­maça grossa se desprendia do fundo da toiça, suspendia-se no ar leve da floresta, vagando na direção dos caminhos como pasto- las 1) nuvens. Começara a queima. O fogo se erguera e lambia numa carícia satânica os troncos das árvores. Estas estremeciam num delicioso espasmo de dor. Xôda a ramagem da base foi ar­ das colunas que marchavam. Pelos cimos de mata se escapavam aves espantadas, remontando às alturas num vôo desesperador pairando sôbre o fumo. Uma araponga feria o ar com um grito metálico e cruciante. Os ninhos dependurados arderam, e um piar choroso entrou no côro como nota suave e triste. Pelas abertas do mato corriam os animais destocados pelo furor das chamas. Alguns se libertavam do perigo, outros caiam inertes na fornalha.

Num alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a folhagem verde que era a carne, e fender-se os troncos firmes, ere tos, que eram a ossadura. do monstro. Mas o fogo avançava sôbe eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos, repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato dentro, quase pelas terras alheias. E, feros e duros, atirai vam à enxada para cavar o aceiro [1]). Do lado da praia o trai balho foi fácil; o terreno estava debastado e limpo. Aí abriram1 rápido o sulco protetor. Do outro lado, no meio da floresta, nos1 limites da área do lote, a luta foi tremenda. A nevrose do pavor centuplicou-lhes as fôrças. Os pigmeus que se não mediam com as árvores e que, não podendo vencê-las, tinham recorrido ao fogo, agora, sob o aguilhão da defesa própria, se arrojavam contra os paus com o denodo de gigantes. E, afogueados, cavaram a trin­cheira pelo rumo, e, se encontravam o embaraço de algum tronco, atacavam-no a machado, com raiva, com ânsia, com febre. O aceiro foi sendo aberto, até que o fogo se aproximou; a coluna, como um ser animado, avançava solene, sôfrega por saciar o ape­tite. Sôbre a terra queimada na superfície, aquecida até ao seio, continuava a queda dos galhos. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Ouviram-se sucessivas e medonhas des­cargas de um tiroteio, quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia ao ar rubro, incendiado; os estampidos, re­dobravam, enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambu. A cem metros de separação, os colonos cavaram sempre. Farto de devorar a carne dura do bambual, o fogo desafogou-se, e célere e lépido, foi verdeando por um atalho, lambendo os arbus­tos que se erguiam à margem, até chegar ao aceiro. Já os homens num esforço imenso se tinham adiantado. As chamas se abeira­ram da vala e, diante do espaço aberto e intransitável, se detive­ram e se espalharam para a direita e para a esquerda, continuando a sua obra.

Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltaram a casa, lo­go que se reconheceram senhores do perigo, invencíveis sacrifica­dores da terra.

Graça Aranha.




[1] e 2) Veja-se a nota 4) à pág. 30.

3) Anfractuosidades — depressões e elevações numa superfície.

4) Testáceo — animal cujo corpo é coberto por uma concha.

5) Vértebras dorsais — ossos do espinhaço.

G) Esterno — osso situado adiante e no meio do peito.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Sertão bruto, isto é, sem moradores.

[2] Matagais de arbustos e de pequenas árvores, muito chegadas umas às outras.

jun 062014
 

Sertão bruto – Visconde de Taunay

Ali começa o sertão chamado bruto[1]).

Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruí­nas, nenhuma tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça ou a chuva que está caindo. Por tôda a parte, a calma da campina não arroteada; por tôda a parte a vegetação virgem, como quando ai surgiu pela vez primeira.

A estrada que atravessa essas regiões incultas, desenrola-se à maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento do­minante na composição de todo aquêle solo, fertilizado aliás por um sem-número de límpidos e borbulhantes regatos, cujos contin­gentes são outros tantos tributários do rio Paraná e do seu con- tra-vertente, o Paraguai.

Essa areia sôlta e um tanto grossa tem côr uniforme, que rever­bera com intensidade aos raios do sol, quando nela batem de chapa.

Em alguns tempos é tão fôfa e movediça, que os animais das tropas viajeiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquêle terreno incerto, que lhe foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canela.

Freqüentes são também os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam na mata adjacente trilha mais firme, por ser menos pisada.

Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensa­ção mui variadas se mostram as paisagens em tôrno.

Ora, é a perspectiva dos cerrados[2]), não dêsses cerrados de árvores raquíticas, enfezadas e retorcidas, de S. Paulo e Minas- Gerais, mas de garbosos e elevados madeiros que, se bem que não tomem, de todo, o corpo de que são capazes à beira das águas cor­rentes ou regados pela linfa dos córregos, contudo assombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a fôrça da seiva que os alimenta; ora, são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada ou de viriden- te a mimosa grama, tôda salpicada de silvestres flores; ora suces­sões de luxuriantes capões, tão regulares e simétricos na sua dis­posição que surpreendem e enfeitiçam os olhos: ora, enfim, char­necas meio apauladas, meio sêcas, onde nasce o altivo buriti, e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso.

Nesses campos, tão diversos pelo matiz das côres, o capim cres­cido e ressecado pelo ardor do sol ransforma-se em vicejante tapê- te de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou por mero desenfado, ateia com uma fagulha do seu isqueiro.

V. de Taunay.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Sertão bruto, isto é, sem moradores.

[2] Matagais de arbustos e de pequenas árvores, muito chegadas umas às outras.

jun 052014
 

O Rio Amazonas – Afonso Celso.

Uma das maravilhas da natureza, o maior rio do mundo! sua bacia é igual a 5/6 da Europa. Uma de suas ilhas, a de Ma­rajó, excede em tamanho a Suíça.

Nem todo êle pertence ao Brasil, mas a parte brasileira é, se não a mais extensa, a mais importante, curiosa e rica. Quem qui­ser conhecer o Amazonas tem de vir ao Brasil.

No Brasil, o mar doce, como lhe 1) chamaram os primeiros exploradores, atira-se no Atlântico, rolando rapidamente para êste tal quantidade d’água que quem voga no imenso estuário da embocadura, pergunta (diz um escritor) se o oceano não deve a sua existência a êsse rio e se não passa de um receptáculo do líquido trazid.0 por êle sem cessar. j

O rio luta com o oceano: vence-o. Durante longo espaço, im­põe-lhe a. côr e o gôsto de suas águas.

Nem sempre o jugo é tolerado sem revolta. Do embate entre a massa fluvial e a marítima provém, às vêzes, o fenômeno das pororocas, em que a segunda faz a primeira retroceder. Na linha de encontro das massas opostas, entumece, levanta-se a grande alturas um vagalhão colossal, que se arremessa, com estrondo estupendo, sôbre o leito do rio, derribando e arrastando diante de si tudo quanto ouse se lhe antepor. A êsse vagalhão sucedem outro] e outro, igualmente bramantes e destruidores. O estrondo se es-: palha até considerável distância. Depois, volta o silêncio augusto, o curso normal das coisas. O mar tentou, rebelar-se. Ei-lo impo­tente, subjugado de pronto pelo rio.

Sempre largo e navegável, com enchentes, vazantes, uma es­pécie de maré, assemelha-se ao mar em muitos lugares.

Nas cheias, desaparecem quase tôdas as ilhas que o povoam, inundam-se os terrenos marginais. Não se lhe pode então fixar limites. Torna-se verdadeiro mar interior, de profundidade extraordinária.

Fértil em incalculáveis riquezas, oferece o Amazonas indizível variedade de aspectos, revelando constantemente amplitude, força e majestade infinitas.

Apresenta atrativos inúmeros ao viajante, ao sábio, ao artista, nos seus arquipélagos de verdura, nas florestas das suas ribas, habitadas algumas por indómitos selvagens, na profusão dos seus canais, labirintos, ou galerias de folhagens, com abóbadas de ra- suas entrelaçadas, sob as quais passam dificilmente, em misteriosa penumbra, as embarcações. . E a multidão de canoeiros que singram, gente bizarra, manobrando com habilidade incomparável o frágil esquife em passos arriscados, ritmando o movimento dos

remos pela toada de poéticas cantigas?…

São-lhe tributários numerosos [1]) afluentes, vários inexplorados ainda. Abrem-se-lhe aoà dois lados, como gigantescos leques de rios, cada qual com a sua individualidade, as suas ilhas, os seus canais, as suas selvas, as suas peculiaridades, notáveis muitos por si sós.

Tortuosos êstes; retilíneos aquêles; série de lagos, terceiros; correndo uns sem obstáculos; constituindo-se outros de sucessivas escadas de cachoeiras; ora de marcha vertiginosa, ora lentos, ora de correnteza apenas perceptível; revelando-se aqui apáticos e in­dolentes; além, impetuosos e tumultuários, desenvolvendo-se de meandro em meandro; formando remoinhos espumejantes, remansos, torrentes, ostentando águas de variegados matizes: brancas, a mareias, cerúleas, negras, transparentes.

A uns o Amazonas acolhe-os propício, absorvendo-os, misturando-se com êles.

Recebe relutante outros que só penosamente se diluem em seu seio. Na época da enchente, fica tudo incomensurável planície líquida.

Procissões de árvores arrancadas desfilam boiando sôbre a correnteza. As que resistem desaparecem submersas.

Em vindo a vazante, destacam-se das margens corroídas pedaços de barranco que, ilhas movediças2 levando plantas e animais, pássaros trepados nos ramos, répteis[2]) agarrados aos troncos, seguem flutuando e se derretem aos poucos.

Outras ocasiões, enormes madeiros se entrecruzam, atam-se, amontoam-se ao longo das ribas, ou engendram gigantescas jan­gadas que derivam.


Quantas cenas grandiosas e pitorescas! Eis os tapuios amar­rando a canoa a um tronco transportado pela água, à guisa de rebocador. Dispensam o remo. Se o vento aumenta e vagas altas ameaçam o lenho ligeiro, os tripulantes o introduzem num cortejo de ervas que o protege, atenua a fôrça da correnteza, regulariza on movimentos. E lá se vão tranquilos, independentes, felizes.

No seu percurso de milhares de quilômetros, nunca deixa o Amazonas de ser prodigiosamente opulento em peixes, — duas vezes mais que o Mediterrâneo. Contam-se milhares de espécies peculiares a êle, muitas descobertas por Agassiz[3]), as quais mudam de aspecto conforme as paragens. A par do peixe-boi e do peixe elétrico, miríadaes de camarões microscópicos, tão saborosos como os comuns. Pulula a vida ali. Habitam as florestas das ilhas e margens, florestas formadas de preciosíssimas madeiras, populações inúmeras de insetos, répteis2), mamíferos, maravilhosos pela variedade, originalidade e beleza das formas, brilho e côr.

Centenas de famílias de pássaros alegram a solidão. Enumeram-se duas vêzes mais classes de borboletas do que em tôda a Europa.

Aí a pátria dos famosos seringais, produtores da borracha, de mil aplicações na indústria, monopólio quase do Brasil.

E além do Amazonas, fertilizam o Brasil o São Francisco, do Paraná, o Tocantis, pouco menos colossais e notáveis, formando inigualável rêde fluvial, com cachoeiras esplêndidas, rápidas, que descem em uma hora e se sobem em quinze dias, inúmeras curiosidades naturais.

O Tocantis abre passagem denodadamente através largas trin­cheiras de formidáveis rochedos. O Araguaia, que se une a êle, passa num lugar chamado Martírios, estrangulado entre paredes de granito cobertas de esculturas, nas quais julgam os canoeiros reconhecer imagens do suplício de Jesus.

Afonso Celso.


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] Como lhe chamaram — Vide a nota 2) e 3) à pág. 19.

[2] Vide a nota à pág. 117.

[3] Luiz Agassiz — suíço, zoólogo notável — visitou o Brasil, explo- mu o Amazonas (1807-1873).

jun 052014
 

A gruta «Casa de Pedra» em Minas Gerais
Carlos de Laet (1847-1927)

Pica a légua e meia, pouco mais ou menos, de São João d’El-Rey, no extremo da cordilheira do Bonfim e à margem es­querda do rio d’Elvas, afluente do das Mortes.

O terreno é aí calcáreo, e a escavação, tão vasta que, no di­zer dos habitantes das imediações, poder-se-ia andar um dia in­teiro e sempre descobrir novas comunicações e< aposentos.

— Tôdas as auroras se assemelham — ouvimos a certo pre­guiçoso, que destarte se desculpava de ter ficado a roncar na cama, quando todos os outros se erguiam para assistir2) à esplêndida alvorada. O mesmo se poderia objetar às maravilhas das grutas: são quase sempre as mesmas, é verdade; mas nem por isso é” menos admirável o trabalho da natureza, tão caprichoso que excede as mais atrevidas fantasias do homem.


* Das abóbadas de vastos salões descem concreções estalácticas, fljfurundo cortinas. Em tal recanto a formação calcárea simulou um púlpito. As galerias de comunicação apertam-se em vários lugares, obrigando os visitantes a caminhar de gatinhas, o que não deixa de ser picante, se no bando folgazão há cavalheiros obesos senhoras de avantajada corpulência. Os incômodos, porém, e mesmo os terrores de alguns mais tímidos, calam-se espontâneos, quando o guia (que sempre é bom levá-lo para êsse labirinto) sacode archote e com seus reflexos avermelhados explora as profundeza : da caverna. s

Melhor ainda, se o provérbio passeante está munido de uma fita de aluminium e de-repente a faz arder. Iluminam-se então de gala aquelas soturnas 1) paragens: dançam festivos clarões em ar­carias que ninguém suspeitara; revelam-se, imprevistos, grupos «uhlo a imaginação completa formas apenas lobrigadas; crescem In sombras, desmesuradas, afundando-se nas reentrâncias; e rebrilham, nas arestas e saliências, faixas e estrelas ofuscantes.

gruta casa das pedras

Para que multiplicar frases que não podem dar a sensação que nunca se viu, e apenas valerão como pálida reminiscência »lo que já se tenha visto? Leitores amigos, em matéria de grutas

já tendes apreciado a do Grande Mamute da União Americana,

Boca a do Inferno em Mato Grosso? Pois neste caso sêde compla­centes para com o nosso entusiasmo, que não contemplou tais

prodígios. Mas somente conheceis a gruta de cimento do Jardim do campo? Oh! nesse caso, permiti que vo-lo digamos, a Casa de Pedra tem muito mais que mostrar-vos e tudo com a originalidade e magnificência da natureza.

À beira da linha férrea, no começo da trilha que leva à gruta estão os fornos onde se queima a pedra das cercanias para reduzi-la a ótima cal. No trem que tomáramos, aventou-se a idéia de que sendo a Casa de Pedra propriedade da Companhia a que pertencem os fornos, tempo chegaria em que por êles passassem as lindíssi­mas estalactites, os mimosos festões e as grandiosas arcarias daquele assombroso palácio!. . . Tal idéia gelou-nos de horror.

Ao município de S. João d’El-Rey compete quanto antes adquirir e cautelosamente zelar essa obra prima, que é uma da maiores e mais fúlgidas gemas da sua coroa.

Conde Carlos de Laet.

jun 052014
 

A cachoeira de Paulo Afonso
Afonso Celso.

Os Americanos do Norte têm imenso orgulho da sua catarata lo Niágara, que Chateaubriand qualificou — uma coluna d’água tio dilúvio.

O Brasil possui maravilha igual, senão superior, — a cachoei­ra de Paulo Afonso.

Encontra-se nesta tudo quanto naquela encanta, apavora, e maravilha.

E’ a mesma enorme massa líquida a rolar de vertiginosa [1]) altura em fervilhante2) precipício: o mesmo estrondo, repercutin­do, em prodigiosa distância; a mesma trepidação3) dos arredores, • como que a prenunciar um terremoto; o mesmo abismo continua­mente trovejante, formigando de espumas e do qual se elevam nu vens de alvos vapores, cortados de arco-íris permanentes; a mes­ma imagem turbilhonante4) do caos[2]); — produzindo tudo a mesma impressão, a princípio confusa e aterradora, depois extraordinária, miraculosa, sublime, paj^^^^menos um espetá­culo do que portentosa visão.


cachoeira de paulo afonso

Porém Paulo Afonso oferece mais selvagem poesia e maior variedade de aspectos do que o Niágara.

O Rio São Francisco, que a forma, desfila, antes de chegar a cia, no meio de um dédalo [3]) de ilhas, ilhotas, recifes, pedras iso­ladas, de surpreendente efeito pitoresco.


De súbito, apertada entre colossais muralhas graníticas, di vide-se a torrente, para o salto tremendo, em três gigantescos braços,—quatro no tempo da cheia, — separados por estranhos grupos de rochedos, enquanto múltiplos jactos copiosos e independentes, entrechocam-se no ar, projetando em tôdas as direções, flecha? irisadas, flocos argênteos, nevoeiros diamantinos, poeira úmida..

Transposto o estreito canal, continua o rio seu curso, oitenta metros abaixo, no fundo da voragem, com violência, rapidez e im­petuosidade indizíveis, despenhando-se ainda em pequenas cachoei­ras, fumegante, retorcendo-se em vascas desesperadas, espadanan­do, pulando, borbulhando, com rufos, estouros, brados surdos, for­midáveis e ininterruptos mugidos.

Não há vivente que caindo ali não sucumba. O penhasco em que sé acha o observador parece agitar-se, tremer, prestes a fugir com a correnteza. E’ o verdadeiro inferno das águas de que fala Byron [4]).

O Niágara, cujas quedas são apenas duas, longe está de osten­tar as singularidades, os contrastes, e profusão de quadros de Paulo Afonso, que dir-se-ia modificar-se e mudar de posição todos os dias.

E, além de Paulo Afonso, admiram-se no Brasil muitas outras cachoeiras, rivais do Niágara que, tão bastas como as suas ondas, atraem visitantes do mundo inteiro.

Tais por exemplo, o salto do Avanhandava, o de Santa Maria, o de Iguaçu, o de Itapura, o de Sete Quedas ou Guaíra, o de Pirapora, o de Jequitinhonha, o de Itu, todos assombrosos de majesta­de, fôrça e beleza. Afonso Celso.


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1]

[2] caos — confusão, desordem.

[3] dédalo de ilhas — labirinto, grande número de ilhas separadas

[4] Byron — (pronuncia-se Báiron), notável poeta inglês (1768-1824).

jun 052014
 

A mata virgem
Celso de Magalhães

E’ de manhã.

Aclarada pela luz gradual que aos poucos doura-lhe os cimos ostenta-se esplendorosa a mata virgem.

Quem houver viajado pelo norte do Brasil há-de, por certo, conhecer o acentuado selvagem de suas florestas e ter saudade daqu le vago rumorejar que nelas se escuta, daquela indefinida reunião de harmonias alpestres e há-de extasiar-se ainda com a lembrança do aroma acre, saudável e vivificante de suas árvores seculares.

Não têm as matas a garridice *) de ornamentação com que se arreiam 2) as várzeas, nem a alegria festiva e sempre fresca dos campos, onde a vista procura às vêzes, nos términos enfumaçados da verdura do capim ou do juncai que ondeia em curvas voluptuo­sas, a orla do palmeiral, que de longe nos acena.

Nada disso.

A imponência do seu aspecto faz com que se encare a mata virgem com respeito e admiração.


Os madeiros se levantam firmes, direitos, hirtos, soberbos, co­mo reis que são daquelas regiões inabitadas, e, lá no alto, espa­lham as ramas, entrançam os galhos, formando enormes dosséis 3 de verdura, que sentem por vezes o beijo resfriado das nuvens iriadas que de perto os namoram.

A altura dos troncos parece querer rasgar o espaço, e o em­pinado arrogante do porte desafia as raivas das tempestades.

Na cortiça do angelim [1]) pousa um dia a semente da parasita; o sol dá-lhe calor, a noite dá-lhe sereno.

Dilata-se a semente, grela [2]); brota sôbre a superfície limosa decasca grosseira da árvore uma folhinha que brinca ao sôpro do vento. Depois cresce, cria raízes e introduz-se até o cerne [3]) do madeiro, traspassa-lhe a rigidez das fibras compactas e vai flo­rescer ao outro lado.

Então espalha-se por todo o tronco, a mascarar-lhe 5) as rugosidades, um tapête lustrrso e florido6), e, em cachos rubros, descem as flores ao longo dos galhos.

Os festões balançam-se brandamente e espalham no chão as pétalas vivas e coloridas.

O madeiro sente o aperto sufocador daquele abraço, e empres- la caroável 7) seiva e vida à parasita que o enfeita.

Outras vêzes, junto à raiz da aracirana, vê-se o rebento de um cipó.

A trepadeira acaricia, ajeita-se, enrosca-se e vai circulando, pouco a pouco, a circunferência da árvore.

Um dia chega-lhe ao cimo, e as lianas 8) descem, como cordas dos ramos esgalhados e vem enterrar novas raízes no solo donde partiram.

Então aquêles cipós procuram-se, unem-se por meio de pontes aéreas, emaranham-se e formam uma rêde inextricável onde o aliado brilhante do machado vai embotar-se.

Dir-se-ia, ao ver essas lianas, serem elas a cordagem rudimentária de um navio monstruoso.

Reina por baixo dessas cúpulas verdes, uma luz soturna 9, nombreando melancolicamente os relevos, as saliências, os linea­mentos de todos aquêles troncos e cipós.

[1]iriadas ou irisadas = que têm as côres do arco-íris.

2 Angelim — árvores leguminosa de madeira rija e que atinge doze r mais metros de altura.,

3 grela — rebenta, desabrocha.

4 cerne — âmago, a parte mais íntima da árvore.

5 mascar — e n

6 florido e flórido, segundo Manuel Bernardes, emprega-se florido em sentido próprio, isto é quando significa — está em flor, coberto de flo­res — laranjeiras floridas; e emprega-se flórido em sentido figurado — adornado de belezas poéticas… como-estilo flórido. Os escritores moder­nos não fazem esta distinção.

7 caroável — produtiva, criadora.

8 lianas — vocábulo tirado do francês (liane) = cipós (do tupi icirpó).

[1]9 sorturna — tristonha.


Dissereís que tôdas aquelas sinuosidades da cortiça dos madeiros são o esbôço incompleto de algum estuário caprichoso, q quisesse vasar naqueles moldes as feições de grifos e animais desconhecidos.

Banhada por essa luz esverdeada, a floresta faz lembrar grutas encantadas, e a imaginação a povoa de habitantes sobr naturais.

Junto às raízes das árvores nascem os cogumelos.

Ãs vêzes para dar um tom mais poético à paisagem, comoi que para libertar o espírito do pêso dessa pompa pavorosa, passai o ribeirão, gemendo ao lamber as fôlhas debruçadas nas margens! corcoveia ante o obstáculo de uma pedra em sua passagem, saltaJ por cima dela, formando uma cascatazinha, e rumorejando vai| perder-se além, em voltas e desvios.

Escuta-se continuamente ali como se fôra a harmonia proporcional àquela arrogância, um murmurar surdo, um rumor abafa­do semelhante ao resfolego [4]) ansiado de um gigante adormecido.:

Parece que a floresta é prêsa de um pesadelo e aquele ruído é o anélito [5]) de seu peito arquejante.

De envolta com êsses frêmitos, trazidos pelo vento, espalham-1 se ondas de perfumes e cheiros embalsamados, que o peito em haustos sorve 4) satisfeito e sente-se como que aliviado de mágoa; e pesares.

O observador parece experimentar em si o renascimento de uma nova vida, como o Anteu r>) antigo, cobra fôrça para come­timentos e riscos.

E’ que aquêle aroma, único incenso dêsse templo majestoso, é puro como tudo o que se admira na floresta virgem.

Acrescentai a isso tudo o riso escarninho °) do curupira [6]), com que as crendices populares têm povoado as florestas, a espiar vos por detrás de um tronco, as flores selvagens, e tôda essa pom­pa grandiosa da vegetação tropical, e tereis a mata virgem com tôda a sua arrogância. ,

mata virgem brasileira

Celso de Magalhães.

———————– – •

1) grifo — animal fabuloso — com cabeça e asas de águia e corpo | e garras de Leão.

2) resfolego — respiração.

3) anélito — ânsia, aflição.

4) sorver em haustos — aspirar em golpes, tragos.

5) Anteu — gigante fabuloso, filho de Netuno e da Terra, ao qual

Hércules estrangulou. Conta a fábula que êste gigante recobrava as for­ças tôda vez que tocava em terra.

6) riso escarninho — riso zombeteiro, de môfa, de desprezo.

7) Curupira — ente imaginário que a crendice popular julga habitar as matas, e tem os calcanhares voltados para diante e os dedos dos pés para trás.


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Angelim — árvores leguminosa de madeira rija e que atinge doze r mais metros de altura.,

[2] grela — rebenta, desabrocha.

[3] cerne — âmago, a parte mais íntima da árvore.

[4]

[5]

por braços d’água tortuosos.

jun 052014
 

O Pampeiro

Um ruído surdo reboou pelas grotas 2) e algares 1)’ que acantilavam o cêrro abrupto. Parecia que a terra arquejava com o estertor de um pesadelo.

Ao mesmo tempo uma exalação ardente como o vapor de uma cratera derramou-se pela solidão. As feras uivaram longe na pro­fundeza das selvas, e as aves espavoridas passavam, soltando pios lúgubres. Os dois cavalos, com o pêlo eriçado, resfolgavam aquêle bafo ígneo semelhante ao fumo de uma batalha; êles o conheciam: era o sôpro da pátria selvagem; era o fôlego dos pampas [1]).

E de-repente a lua sepultou-se. Céu e terra submergiram-se num oceano de trevas. A aluvião das procelas se arremessara do horizonte e inundara a imensidade do espaço. Houve então um mo­mento de silêncio pavoroso; era a angústia da natureza asfixiada pela tormenta. Afinal ribombou o trovão na vasta abóbada ne­gra, sôbre a qual o relâmpago despejava cataratas de chamas. Não era uma tempestade, mas um turbilhão de tempestades, ba­cantes em delírio, que tripudiavam no céu. Como os touros, acos­sados pelo gaúcho arremetem com fúria e rompem a selva bra­mindo, assim o tropel das borrascas disparava pelo espaço.

O pampeiro, varrendo dos cimos dos Andes tôdas as tempes­tades que ali tinham condensado os calores do estio, verberava da imensidade as pontas do látego formidável com que ia açoitar o oceano. Atônitos e mudos de espanto, os animais contemplavam o grande paroxismo da natureza. A voz do trovão, o verbo das grandes cóleras celestes, sopitava todos os gritos e todos os rumo­res. A terra, pávida e estupefata, recebia a tremenda flagelação no meio das gargalhadas satânicas do raio, que surriava -[2]) fusti­gando as escarpas do rochedo.

O pampeiro é a maior cólera da natureza; o raio, a tromba, o incêndio, a inundação, tôdas essas terríveis convulsões do elemen­to, não passam de pequenas iras, comparadas com a sanha ingente do ciclone [3]) que surge das regiões plutônicas, como o gigante, para escalar o céu. Ei-lo, o imenso atleta que se perfila. Seu passo estremece a terra até às entranhas; a floresta secular ver­ga-lhe sob a planta, como a fina relva sob a pata do tapir [4]) ; seu braço titânico arranca os penhascos, as nuvens, as tempestades, e arremessa todos êsses projéteis 4) contra o firmamento.

Luta pavorosa que lembra as revoltas pujantes do arcanjo das trevas precipitando pela mão do Onipotente nas profundas do báratro[5]). O maldito, prôstrado no seio das chamas eternas, res­surge possesso, levantando-se para ascender c) ao céu; nada re­siste; a abóbada do firmamento treme abalada por seu ímpeto vio­lento. Mas que Deus incline a frente, e Satã cairá fulminado pelo olhar supremo.

O ímpeto do tufão toma tôdas as formas da ferocidade; sua voz é a gama 7) de todos os furores indómitos. Ao vê-lo, o terrí­vel fenômeno afigura-se uma tremenda explosão da braveza, do rancor e da sanha que povoam a terra. Aqui o pampeiro surge e arremete como cem touros selvagens escarvando o chão; ali sen­te-se o convólvulo 8) de mil serpentes que estringem as árvores co­lossais e as estilhaçam silvando; além uiva a matilha a morder o penhasco, donde arranca lascas da rocha, como lanchos 9) da carne palpitante das vítimas; agora são os tigres que tombam de salto sô­bre a prêsa, com um rugido espantoso. Finalmente ouve-se o ronco medonho da sucuri [6]) brandindo nos ares a cauda enorme, e o frê­mito das asas do condor[7]) que rue[8]) como hórrido estrídulo.

E tudo isto, sob um aspecto descomunal e imenso, não * se­não a voz e o gesto do gigante dos pampas, concitado das profun dezas da terra para subverter o orbe.

José de Alencar.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Pampas — planícies imensas, na América do Sul.-

[2] Surriava — sin. atroava os ares.

[3] Ciclome — furacão.

[4] Tapir — o mesmo que anta.

[5] Báratraro (poet.) inferno.

[6] Sucuri, sucuriú ou sucuriba — cobra monstruosa.

[7] Condor — ave de rapina, o maior volátil conhecido.

[8] Rue — precipita-se.

jun 052014
 

Destruição de Herculanum e Pompéia

(A narrativa de Plínio) l)

Para ficarem sabendo quais podem ser os efeitos das cinzas vomitadas pelos vulcões, vou-lhes contar uma história muito ve­lha, tal como no-lo transmitiu um escritor célebre da antiguidade, chamado Plínio.

A narração é escrita’fem latim, a nobre língua dessa época. Is­to aconteceu no ano 79 da nossa era, em que existiam ainda con­temporâneos de Jesus Cristo. O Vesúvio era nesse tempo uma mon­tanha sossegada; não terminava, como hoje, por um cone fumegan- te, mas sim, por um planalto ligeiramente côncavo, restos duma an­tiga cratera, onde vegetava uma relva enfezada e algumas vinhas silvestres. Os flancos estavam revestidos de culturas viçosas e nas faldas floresciam duas populosas cidades: Herculanum e Pompéia.

A velha montanha, que parecia adormecida para sempre e cujas últimas erupções remontavam a tempos imemoriais, acor­dou de-repente e começou a fumegar.

Um dia de setembro, pela hora da tarde, viram uma nuvem enorme, ora branca, ora negra, pairar por sôbre a. montanha. Im­pelida primeiramente por uma fôrça subterrânea elevou-se em li­nha reta como uma coluna, porém chegada a uma. grande altura, abaixou pelo seu próprio pêso, e começou a alastrar.

Comandava a esquadra, que estacionava então em Miseno, pôrto de mar não mui distante do Vesúvio, o tio do escritor desta narração, também chamado Plínio, homem valente, que não recua­va diante de perigo algum, quer fôsse em defesa própria, quer para valer aos seus semelhantes.

Surpreendido pela estranha nuvem, sobranceira ao Vesúvio, Plínio partiu imediatamente com a sua esquadra para socorrer as povoações próximas da costa e observar de mais perto a nuvem sinistra. As populações das proximidades do Vesúvio fugiam apressadas e espavoridas. Plínio dirigiu-se ao sítio donde todos fugiam e onde o perigo parecia ser maior.

1) Plínio — apelidado “o Moço” — escritor latino (62 -120 dep. de Cr.).



Sóbre os navios choviam cinzas ardentes, misturadas com pe­dras calcinadas: o mar tinha saído do seu leito, e a praia, coalha­da de destroços da montanha, tornara-se inacessível. A esquadra foi surgir em Stabia donde o perigo, afastado ainda, se aproximava a passos largos espalhando o terror e a consternação por tôda a parte. O Vesúvio continuava a arremessar por diversos pontos turbilhões de chamas, cujo clarão mais sinistro se tornava, em conseqüência das trevas produzidas pelas nuvens de cinzas.

Para sossegar a comitiva, Plínio disse-lhe que as chamas di­manavam das aldeias já abandonadas que tinham sido surpreen­didas pelo incêndio.

Entretanto conhecia êle o perigo perfeitamente, sabia que era imenso: porém, como estivesse extenuado de fadiga, deixou-se adormecer profundamente. Enquanto dormia, a nuvem alcançou a povoação onde parte da oficialidade tinha desembarcado, e o pá­tio pelo qual se passava para entrar no quarto onde dormia Plí­nio, foi-se atulhando de cinzas a ponto que dentro em pouco não lhe seria já possível sair: deliberaram portanto, acordá-lo para evitarem que fôsse enterrado vivo, e resolverem depois sôbre o que se havia de fazer. As casas, abaladas pelos sucessivos estremeci­mentos do solo, viam-se oscilar, parecendo a todo o momento desar­raigar-se dos seus fundamentos, chegando a desabar muitas delas. Ameaçados dêstes perigos resolveram embarcar.

Choviam constantemente pedras muito leves calcinadas pelo fogo. Com as cabeças cobertas com travesseiros para se livrarem do choque, e caminhando por entre trevas medonhas, mal dissipa­das pelo clarão dos archotes, assim foram até à praia. Chegados lá, Plínio sentou-se no chão para descansar um instante, quando de-repente, um turbilhão de chamas acompanhado de cheiro de en­xofre, pôs em debandada tôda a gente. Plínio levantou-se mas


não deu um passo; caiu morto no mesmo instante, porque as ema- naçõs, as cinzas e a fumarada havism-no asfixiado.

Enquanto o tio morria em Stabia, o sobrinho que tinha ficado em Miseno com a mãe, presenciava o seguinte, contado por êle mesmo:

“Na noite seguinte à partida do meu tio, diz êle, a terra co­meçou a tremer com violência; minha mãe, assustada, veio acor­dar-me, quando eu me estava levantando com tenção de ir ter com ela.

“Como a casa, que era vizinha do mar, ameaçasse cair a todo momento, fomos sentar-nos no jardim: e corn a indiferença pró­pria da minha idade, pois contava apenas dezoito anos, peguei num livro e pus-me a ler. A êste tempo vinha-se aproximando de nós um amigo de meu tio. Quando deu conosco sentados, e meu viu na mão o livro, censurou o nosso demasiado descuido e obrigou-nos a tratar de nossa segurança. Apesar-de serem já 7 horas da manhã, a escuridão pouco ou nada deix-ava ver, e de quando em quando os abalos de terra eram tão fortes que esperávamos a todo o momen­to ver desabar os edifícios. Afinal fizemos como todos os outros: abandonamos a cidade e paramos a certa distância já no campo. Os carros de transporte cambaleavam a todo o instante em con­seqüência dos repetidos abalos do solo: era preciso travar-lhe as ro­das com pedras para não tombarem. O mar recuava sucessiva­mente: as águas desertando da praia, em virtude do tremor do solo, deixavam a descoberto numerosos [1]) cardumes de peixes.

,“Uma nuvem duma escuridão medonha tomava a nossa dire­ção, serpenteando-lhe nos flancos traços de fogo, semelhante a relâmpagos. Dentro em pouco, a nuvem desceu, cobrindo com a sua sombra a terra e o mar. Minha mãe rogava-me de mãos pos­tas que fugisse eu, que era novo e ágil, para me não expor à morte que estava iminente, se continuasse a regular meu passo pelo dela, já cansada pelos anos. “Que morreria contente sabendo que eu me salvava”, dizia ela.

Plínio fêz o que fariam todos os bons filhos: ficou para ampa­rar sua mãe, e animá-la, decidido a salvá-la ou a morrer com ela.

Depois, foi horrível! Começou a chover cinza; as trevas tor- naram-se tão profundas que não se via cousa alguma absoluta­mente. Foi uma confusão, um tumulto completo. Nessa ocasião não se ouviu mais do que um grito, um gemido só!

Espavoridos de terror, cada um fugia ao acaso, derribando e pisando os que encontrava na sua passagem.

Houve um momento em que todos se convenceram de que era chegada a última noite de sua vida, a noite eterna que devia se­pultar o mundo.


As mães buscavam às apalpadelas os filhos arrastados na turba ou pisados pelos fugitivos, chamando-os com gritos lamen­tosos, para os abraçar e morrer depois. Plínio e sua velha mãe tinham-se sentado, desviados da multidão. A cada instante era preciso levantarem-se para sacudir as cinzas, prestes a sepultá-los.

Ao fim dêste caos pavoroso, a nuvem dissipou-se e reapareceu o dia. A terra estava completamente desfigurada: tudo havia de­saparecido sob x) uma espêssa mortalha de matéria calcinada.

Junto da montanha, as matérias vomitadas pelo vulcão tinham atingido a altura maior do que as mais altas casas. Cidades in­teiras tinham desaparecido debaixo da enorme camada de cinzas. A êsse número pertenceram Herculanum e Pompéia: o vulcão en­terrara-as completamente.



[1] numerosos cardumes — Vide a nota 2) à pág. 27.

[1]sob — Qual a diferença entre sob e sôbre?

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 052014
 

Os vulcões

Os vulcões são montanhas que vomitam fumo, substâncias calcinadas, turbilhões de fogo ou de pedras, e matérias em fusão, chamadas lavas. O cume da montanha tem uma. abertura, em for­ma de funil, chamado craterai e algumas há que têm léguas de ex­tensão. A cratera comunica com um conduto tortuoso, uma es­pécie de chaminé, cuja profundidade é impossível avaliar. Na Eu­ropa os principais vulcões são: o Vesúvio, próximo de Nápoles; o Etna, na Sicília,; e o Hecla, na Islândia.

Alguns vulcões conservam-se por muito tempo tranqüilos, ou lançam apenas um jôrro de fumo; mas, de tempos a tempos, a mon­tanha começa a rugir interiormente, a estremecer, e logo depois a vomitar torrentes de matérias inflamadas.Para lhes descrever resumidamente os fatos mais notáveis que apresenta uma erupção vulcânica, escolherei de preferência o Vesúvio, por ser o mais conhecido dos vulcões do mundo.

As erupções, ordinariamente, são anunciadas por uma colu­na de fumo que irrompe da cratera, e se eleva, quando o ar está sereno, a perto de cinco quilômetros de altura. Aí expande-se em camadas espêssas que chegam, por vêzes, a encobrir a luz do sol.

A terra ao derredor começa a estremecer e ouvem-se detona­ções subterrâneas, qúe, sucessivamente mais fortes, excedem em pouco tempo o estrondo do trovão mais ruidoso. E’ como se ou­víssemos o troar de muitas peças de artilharia, disparadas sem cessar nos flancos da montanha.

De-repente irrompe da cratera, a uma altura de dois a três mil metros, uma torrente de fogo; a nuvem que paira sôbre o vulcão ilu­mina-se de clarões rubros, e o céu parece de fogo. De vez em quan­do são arremessados aos ares milhões de centelhas de uma luz des­lumbrante, como a do relâmpago, as quais, descrevendo arcos alon­gados, vão cair nas escarpas da montanha. Estas centelhas, que de longe parecem pequenas, são, às vêzes nem mais nem menos do que pedras de volume tal, que poderiam destruir os mais sólidos edi­fícios.

Qual seria a máquina, construída por mão de homens, de fôr- ça suficiente para arremessar a semelhante altura pedras de um tal volume? Pois o que os esforços combinados do homem não obtêm, executa-o a natureza sem esforço, instantâneamente! O Vesúvio vomita durante semanas e meses até, pedras incandescen­tes dêsse volume em tamanha quantidade, que parecem faíscas em fogos de artifício.

Das profundidades sobe pela chaminé do vulcão uma torrente de substâncias minerais fundidas, ou lava, que se estende pela cra­tera, formando um lago de fogo coruscante como o sol. Os es­pectadores que da planície observam ansiosos a marcha duma erup­ção qualquer, são advertidos da chegada das lavas pelo reflexo que elas produzem no fumo que paira nos ares. Quando a lava trans­borda da cratera, o solo estremece de-repente, abre largas fendas com um estrondo comparável ao do trovão e as lavas começam a jorrar, como regatos, pelas fendas do vulcão e vertentes da mon­tanha.

A torrente de fogo, formada duma matéria resplandecente e pastosa, como metal derretido, caminha lentamente, a ponto de poder fugir-se dela, mas devasta e destrói na sua passagem tudo quanto encontra. Ao contacto da lava, as árvores incendeiam-se instantaneamente e abatem, reduzidas a carvão; as paredes, por mais sólidas que sejam, desabam calcinadas, e as rochas, ainda as mais duras, fundem-se ou vitrificam-se.

Mais cedo ou mais tarde a emissão da lava tem um têrmo. Os vapores subterrâneos, aliviados da enorme pressão da massa fluida, expandem-se então com maior violência do que até aí, arrastando

consigo turbilhões de pó, que flutuam em nuvens sinistras e vão cair sôbre a planície adjacente; outras vêzes são impelidos pelo ven­to, até centos de léguas de distância. Por fim, a montanha tranqui­liza-se e tudo entra de novo em repouso por tempo indeterminado.

Há cêrca de 320 vulcões em atividade, espalhados pela terra, e para mais de 400 acham-se extintos ou em repouso.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 052014
 

Tremores de terra

(Causas) +

E’ muito natural que o leitor deseje saber qual a causa dos tremores de terra. Vamos pois satisfazer êste desejo.

Primeiro que tudo é preciso que se saiba que quanto mais se desce para o interior da terra, maior é o grau de calor. As esca­vações ou minas, feitas pelo homem no seio da terra para extrair os minerais, assim no-lo provam: quanto mais se profunda a terra, mais vai aumentando o calor. Por cada trinta metros de profun­didade aumenta o calor um grau.

Reina ali uma temperatura elevadíssima que se mantém cons­tante durante todo o ano; quer de verão quer de inverno, o calor é sempre o mesmo.

terremoto de lisboa 1755

Numa mina de 1151 metros de profundidade, o termômetro acusava uma temperatura permanente de 40 graus, — quase a temperatura das regiões mais quentes do globo.

Quando mais baixo se desce, mais alta vai sendo a tempera­tura; e disso temos uma prova na água tirada das profundidades da terra. A água chega à superfície com a temperatura existente nessas profundidades, esclarecendo-nos assim acêrca da distribuição do calor nas entranhas da terra.


Já ouviram iaiar nos poços artesianos — uns ruros acertos no solo, por meio de brocas de ferro, para extrair a água dos depósi­tos subterrâneos, alimentados quer pela infiltração dos rios quer l>elos dos lagos vizinhos.

De poços artesianos de 547 metros de profundidade, extrai-se água à temperatura constante de 28 graus. De outros da profun­didade de 760 metros, a temperatura é de 35 graus; sempre a mes­ma relação: um grau por cada trinta metros.

De maneira que, se abríssemos poços muito profundos, encon­traríamos água a ferver; a dificuldade é atingir a profundidade requerida. Para encontrarmos água a ferver, fôra, preciso abrir um poço de uma légua de altura, o que é impossível; no entanto conhece-se um grande número de nascentes dágua que ao sair do solo têm uma temperatura elevadíssima, às vêzes a da água a fer­ver. Estas águas chamam-se termais, quer dizer de origem quen­te; portanto nos sítios donde vêm, existe calor suficiente para aquecê-las, e até fazê-las ferver.*

No Estado de Minas Gerais, há as famosas fontes termais de Poços de Caldas, e também no nosso Estado descobriram-se algu­mas fontes denominadas — Ãguas do Mel — no município de Pal­meira (das Missões). Algumas destas águas têm uma tempera­tura de 40 graus, e portanto vêm de uma profundidade de mil me­tros mais ou menos.

Mas essas fontes nada são comparadas com as que existem nos Estados Unidos e sobretudo na Islândia — uma grande ilha situada na extremidade do norte da Europa, coberta, de gêlo a maior parte do ano. Há na ilha um grande número de fontes de água quente a que os naturais chamam Geisers. A mais notável, o grande Geiser, tem a sua origem numa vasta bacia situada no cume de um outeiro formado pelas incrustações depositadas pelas águas.

O interior desta bacia estreita-se em forma de funil que se ramifica em condutos tortuosos, os quais vão mergulhar a uma profundidade desconhecida.

As erupções dêste vulcão d’água a ferver fazem-se anunciar por estremecimentos do solo e uns ruídos surdos, semelhantes ao troar duma descarga subterrânea de artilharia.

As detonações vão-se tornando cada: vez mais fortes, e o solo estremecendo com mais violência até que a água rebenta precipi­tadamente e enche a bacia onde, por alguns momentos, acontece o mesmo que numa caldeira aquecida a um enorme braseiro. A água começa, em meio de vapores, a levantar grandes borbulhões.

De repente o Geiser desenvolve tôda- a sua fôrça: abre numa forte explosão, arremessa aos ares uma coluna de 60 metros de alto e 6 de largo, que forma um repuxo coroado de vapores brancos e caindo em jorros ferventes.

Êste repuxo colossal dura apenas instantes. Em pouco tempo


a coluna líquida abate, a água da bacia escoa-se, engolfa-se nas profundezas da cratera e é substituída por uma coluna impetuosa de vapor, que irrompe com o bramido do trovão, despedindo com uma fôrça prodigiosa fragmentos de rocha da cratera*

Tudo quanto está em redor desaparece envolto em turbilhões de fumo.

Por fim serena, e o fumo do Geiser dissipa-se para mais tarde aparecer e reproduzir fenômeno idêntico.

Tudo isso prova que, — como já dissemos, — existe no inte­rior da terra uma grande fonte de calor.

Com efeito, admitindo, como nos faz crer o conjunto de ob­servações, que a temperatura subterrânea aumenta com a profun­didade, na relação de um grau por cada 30 metros, segue-se que a três quilômetros encontraremos a água a ferver, isto é a cem graus.

A vinte e cinco quilômetros abaixo do solo, o calor será igual ao de ferro em brasa; a sessenta, haverá o suficiente para derreter tôdas as substâncias que conhecemos; e finalmente no centro da terra, a temperatura será de 200.000 graus, calor mais fácil de cal­cular do que de conceber. Desta sorte devemos considerar a, terra como um globo de matéria tornada líquida pelo calor, coberta com uma crosta sólida, mas pouco espêssa, que envolve êste oceano de matéria em fusão.

Digo pouco espêssa, porque a espessura da camada sólida da terra não excede a sessenta quilômetros; e sessenta quilômetros é pouquíssima espessura, relativamente ao volume do globo terrestre.

A distância da superfície ao. centro da terra é de 8.000 quilô­metros; desta extensão, perto de sessenta quilômetros pertencem à espessura da crosta, e o resto às matérias em fusão. Supondo que

a terra é uma esfera de dois metros de diâmetro, a crosta seria representada por metade da grossura de um dedo; ou, para ser­vir-me de outra comparação mais simples, representando a terra por um ôvo, a casca seria a crosta do globo, e o conteúdo a massa central em fusão.

A alguns quilômetros abaixo de nossos pés há, pois, nm abis­mo abrasador rolando ondas de fogo.

Ocorre logo a pergunta: — como é que um invólucro, relativa­mente tão fraco, poderá resistir !) à flutuação da massa líquida central? Esta frágil crosta não se fenderá de vez em quando? não aluirá? ou, pelo menos, não sofrerá uma ou outra vez algum abalo?

Sofre, sofre! E por muito ligeiro que seja, pode fazer estre­mecer os continentes e cavar abismos terríveis.

Aí temos, pois, o motivo dos tremores de terra. A gema do ôvo agita-se e a casca quebra-se.

Não se passa talvez um único dia em que a crosta do globo não sofra um abalo neste ou naquele ponto, quer no fundo do leito dos mares quer por baixo dos continentes. Em todo o caso, os tre­mores de terra desastrosos são raros, graças à existência dos vul­cões.

As bocas vulcânicas são efetivamente verdadeiros respiradou­ros de segurança, que põem o inteiror do globo em comunicação com o exterior. Como oferecem saída fácil aos vapores subterrâ­neos que tendem constantemente a dilatar-se e a evolver-se para a atmosfera,, obstam 2) por isso a que os tremores de terra sejam mais repetidos e desastrosos.

Nos países vulcânicos, as convulsões do solo diminuem muito ou cessam de todo, logo que o vulcão começa a vomitar fumo e lava.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 052014
 

Tremores de terra ou terremotos [1]) – Manoel P. das Chagas

Um dos fenômenos mais estupendos da natureza e que às vôzes acarreta consigo desastres espantosos, são os tremores de terra. ou os terremotos. Ouve-se um ruído surdo e subterrâneo, um bramido rouco, que se reforça, abranda e se reforça de novo, como se rugira a tempestade. A êste rumor cheio de ameaças misterio­sas, tudo se cala, todos emudecem de pavor, o susto muda a côr ao rosto mais sereno, e até os próprios irracionais, advertidos pelo instinto do perigo que os ameaça, permanecem extáticos. O solo estremece de súbito, arfa, fende-se, desloca-se, abisma-se. Os edi­fícios mais sólidos abalam e ruem por terra. As águas do mar e dos rios fogem das praias, para em breve, furiosas, se arrojarem de novo à praia e invadirem, impetuosas, a terra. E quantas vidas não são sacrificadas! quantos prejuízos materiais não sofrem a regiões assoladas pelo terremoto!

Para que o leitor possa fazer uma idéia dos efeitos tremendo de um terremoto, vou-lhes reproduzir a descrição que faz um eminente escritor português do terremoto que em poucos minutos destruiu quase totalmente a cidade de Lisboa em 1755, e que foi um dos mais horrorosos de que há notícia.

O terremoto de Lisboa

Estava-se no ano de 1755, que desde o princípio se anunciai va ao mundo como devendo ser fértil em abalos dêsse gênero. No dia 25 de abril houvera um terrível terremoto na cidade de Sãfo Francisco da América; no dia 24 de agôsto sentiu-se um violento tremor de terra nas cidades de Orzeg e Mora, em Espanha, e em alguns pontos das nossas províncias do Alentejo e do Algarve! Em setembro e outubro iguais abalos se repetiam na Groelândia e na Islândia.

Lisboa, porém, não sentira o mais leve abalo que lhe prognosticasse I) o imenso desastre que estava para a fulminar. O mês de outubro correra plácido e sereno, um pouco mais quente do que é uso nessa estação. Alvoreceu, enfim, o dia lº de novembro de 1755, sossegado e radioso. O rio espreguiçava brandamente as suas le­ves ondazinhas, indo-as quebrar em suave murmúrio no cais da ci­dade; o céu ostentava-se azul sem mancha; soprava um ligeiro ven­to de nordeste, o termômetro Réaumur marcava 14 graus, e os ha­


bitantes da cidade corriam às igrejas paira, ouvirem a missa da festa, porque era dia de Todos os Santo». Reinava por tôda a parte o maior sossêgo e a maior despreocupação.

De súbito, e alguns minutos depois das nove e meia da manhã, sente-se um rumor subterrâneo, imediatamente principia a arfar o solo com violência, depois oscila com um movimento semelhante ao balanço dos navios, de norte a sul e de nascente a poente, exata- mente como a embarcação ora se balouça de pôpa a proa, ora de bombordo a estibordo !). No breve espaço de sete minutos, o tre- mor aumentou de intensidade numa progressão espantosa.

As casas, sacudidas violentamente pelos abalos de terra, pri­meiro estalam pelos forros dos sobrados, logo despegam-se os re- bocos, desabam, enfim, as abóbadas, abrem-se as paredes e as tôrres, e num momento apresenta a plácida Lisboa o mais terrível espetácu1o de desolação e ruína.

O quadro era sinistro, e os diversos estrondos davam-lhe ainda um loque mais lúgubre e assustador. O trovão subterrâneo rugia com um som rouco e profundo, confundia-se com êsse ruído e es- talar dos vigamentos o medonho estampido das casas que desaba- vam o toque dos sinos que a agitação do solo produzia, e que entornavam na atmosfera a sua urna de desesperados gemidos. Voavam as telhas dum para outro lado como fôlhas desprendidas das árvores; o sol escurecia-se, porque lhes extinguiam a luz as nuvens formadas pela concentração dos vapores, que se exalavam das fendas enormes, em que a terra por tôda a parte se rasgava.

O desabar dos edifícios levantava também do solo turbilhões imensos de poeira, que ainda aumentavam as trevas. As exalações mefíticas2) povoavam de miasmas o ambiente. O rio fugia, como que horrorizado, das margens, repelido para ‘onge pela con- vulsão da terra; as águas da maré, encontrando-so com as que se retraíam das praias, lutavam em furioso embate, encastelavam-se em montanhas enormes, e, arrojando-se de novo sôbre as praias, deesabavam na cidade e submergiam os cais, entravam por Lisboa dentro até distâncias enormes, chegando às portas de Santo An- tão, e de novo se retiravam e voltavam de novo, mais aglomeradas, mais furiosas, mais espumantes, alagando as ruínas, quebrando nas paredes dos edifícios, trazendo consigo, enrolada nas ondas, a morte debaixo dum novo aspecto. Era a formidável confusão da nutureza, era a medonha luta entre todos os elementos, era o horror debaixo de tôdas as suas formas: a convulsão da terra, a tempestade das águas, a lúgubre escuridão, os boqueirões do inferno mostrando as fauces hediondas e mefíticas, o incêndio que principiava, a imagem tremenda do caos, o ideal sinistro do báratro 3)’.

I [1]de bombordo a estibordo — do lado esquerdo para o direito.

2mefíticas — nocivas à saúde; pestilenciais.

3 ) Báratro — abismo, inferno.


E o vento soprava brando e meigo [2]), sem contribuir de mo­do algum para esta desolação.

Os navios sentiam-se também nas garras do cataclismo. O balanço formidável lembrava aos tripulantes as mais formidáveis oscilações das grandes tempestades: uns, quebrando-se-lhes as amarras, eram arrojados de encontro à terra, outros rodopiavam no vértice das ondas num doido movimento giratório; barcos gran­des voltavam-se de quilha para o ar, como se fôssem cascas de noz; os botes mais pequenos, ancorados junto dos cais, desapareciam, incapazes de resistir às agitações que os envolviam. No mar, na terra não havia lugar seguro de refúgio para os desgraçados ha­bitantes de Lisboa, surpreendidos por tão formidável desastre.

terremoto de lisboa 1755

, E que faziam êles no meio desta catástrofe tremenda? A pena não pode traçar senão seguidamente os diversos episódios desta imensa tragédia; mas o leitor deve compreender bem que tôdas estas desgraças se realizaram simultaneamente. O abalo durou se­te minutos, teve três intervalos de remissão, e foi nesse curto espa­ço de tempo que desabaram os edifícios, que se abriu a terra, que se escureceu o sol, que as águas fugiram da praia e voltaram a inun­dá-la, que se submergiram os botes, que se despedaçaram os navios.

Manoel P. Chagas

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Terremoto ou terramoto.

[2] Repare-se o emprego do adjetivo em lugar do advérbio. — Vide a nota 7) à pág. 24.

jun 052014
 

O M a r

Quantas emoções2), quantas idéias desperta em nós a contemplação do mar! Quando se avistam os seus horizontes diáfanos, quando se observam os seus movimentos constantes, quando se experimentam as suas tempestades desfeitas, quando se escutam os seus bramidos horíssonos, a alma oscila-nos, debate-se no calamo do sublime, fica absorta, extasiada; — porque o mar é o que existe de mais grandioso e formidando, de mais solene e soberbo em tôda a vastidão do planeta.

A transparência de sua superfície que parece um fragmento de céu e excede em brilho um cristal veneziano; o azul de suas aguas que assemelha uma liquefação de turquesas; a forforescên cia de suas ondas que recorda uma pulverização de diamantes; os raios intensos do sol, que lhe extrai faiscas de ouro e os refle: suaves da lua que lhe finge arabescos de prata; as suas fres brisas e as suas espumas referventes, as suas conchas nacarinas e as suas fulvas areias, as suas algas verdes e os seus róseos corais as suas cavernas esponjas e as suas plantas exquisitas, os se abismos insondáveis e os seus peixes variadíssimos; e depois as suas cerrações medonhas e as suas borrascas furibundas, as sua restingas traiçoeiras e os seus naufrágios tremendos, os urros do vagalhão que esbraveja e arrebenta em serras, e os gritos da ma ruja que se lhe afunda e sepulta nas voragens; e, por sôbre tudo isto, a imensidade, a uniformidade, o infinito, tocando-se, continuan do-se, confundindo-se, perdendo-o naquelas intermináveis amplidões oh! o mar é na, vida da natureza o que melhor define e mais se aproxima à vida do espírito: é por suas inspirações e grandezas e contrastes e tragédias, o que melhor caracteriza e mais se apropriai aos sonhos da fantasia, aos matizes do sentimento, às profundida­des da idéia, aos estos do desejo, aos apertos da dor, aos repelões da desgraça, à poesia e à ciência, à saúde e à esperança do homem.

Assim se explica e compreende porque o mar tem sido sempre o grande fator da história, o grande impulsor e condutor da civi­lização humana.

Nele se remiraram as cultíssimas cidades asiáticas, egípcias e gregas, que foram o lustre e o mimo dos povos antigos. Por êle peregrinou Homero repetindo os seus imortais hexâmetros, jun­to dêle discorreu Platão [1]) pronunciando os seus diálogos divinos. As suas vozes sonoras adestraram a língua de Demóstenes 3) e as suas tépidas virações afinaram a harpa de Davi. A crina das suas vagas serviu de fundo ao teatro de Esquilo [2]), de mortalha ao cor­po de Safo [3]) e de alfombra as procissões helénicas. Suas praias loirejantes cantou Virgílio (i) como um profeta, e nas suas

ribas contornadas pregou Jesus Cristo como um Deus. Por cima do mar esteiraram os apóstolos para evangelizar as gentes; á beira- mar foi escrito o Apocalipse, e nas celagens do mar viu o discípulo \ amado desenhar-se a imagem da Virgem pura. Em frente ao mar concebeu o Dante [4]) os mais excelsos tercetos da sua genial epo­péia católica, e tracejou Camões s) as mais harmoniosas estâncias do seu colossal poema, da navegação oceânica. Do anilado seio do mar surgiu aos olhos do Gama[5]) a misteriosa Ásia recingida de brocados e coalhada de pérolas, e aos olhos de Colombo a jovem América rescendente de perfumes e toucada de brilhantes. Das entranhas palpitantes do mar nasceu a romântica Veneza; e no Lido de Veneza, à hora melancólica do sol-pôsto, ao toque cadencioso do Angelus, até o vulcânico poeta, da dúvida, da desesperança e da orgia, até o próprio Byron [6]) — belo e pervertido como Satã — tomado de delíquios celestes, caiu arroubadamente em joelhos, chorou, orou, e, através das lágrimas e das preces, êle o incrédulo, êle o sensualista, contemplou a Mãe do Verbo, adorou a mulher san- ta, que se lhe estampava na retina extasiada, deslizando-se sôbre as águas do mar, aureolada pelas púrpuras do ocaso, envolta em cerúleo manto, seguida da cândida pomba, com as mãos postas no seio extremoso, como quem avocando a si todos os mortais, todos os filhos seus, que àquela hora bendita do amor, lhe estendiam os corações esbraseados e os braços suplicantes, desde os escolhos do Adriático aos areiais do Gôlfõ Pérsico, dos areiais do Gôlfo Pérsico às ilhas do Oceano Pacífico, das ilhas do Oceano Pacífico às florestas do Novo Mundo, das florestas do Novo Mundo aos desertos da Líbia, a partir das nações do ocidente e a seguir pela Itália, pela Grécia,, pelo Egito, pela Síria, pela índia, pela China, pela Oceânia[7]), pelas duas Américas e pelas colônias européias -formando de tribo a tribo, de região a região, um côro de eternas orações, circuitando gloriosamente o planeta num zodíaco de crenças rutilantes, de perenes e dulcíssimas harmonias.

Alves Mendes.

(Antonio Alves Mendes da Silva Ribeiro, 1838-1904) Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

[1] Platão — grande filósofo grego (429-347 a. J. Cr.).

[2] Ésquilo — (556-425 a. J. Cr.) o criador da tragédia grega, um

dos maiores génios da humanidade.

[3] safo — (sec. T-6V a. de J. Cr.) poetisa grega.

[4] Dante Allighieri — o maior poeta da Itália (1265-1343).

[5] Gama — Vasco da Gama, o descobridor do caminho marítimo das índias (1469-1524).

[6] Byron — (pronuncia-se Bairon), grande poeta inglês (1788 -1824).

[7] Oceânia, pronuncia preferível a Oceania.

jun 042014
 

O Sol

Fonte deslumbrante da luz, do càlor, do movimento, da vida e da beleza, o almo [1]) Sol tem recebido em todos os séculos as homenagens solícitas e reconhecidas dos mortais. O ignorante admira-o, porque sente os efeitos do seu poder e do seu valor: o sábio aprecia-o, porque aprendeu a conhecer a importância que só êle tem no sistema do mundo; o artista saúda-o, porque vê no seu esplendor a causa virtual de tôdas as harmonias. Êste astro gi­gante é realmente o coração do organismo planetário; cada uma das suas palpitações celestes arroja para longe, até a nossa pe­quena terra, que navega a 37 milhões de léguas, até o longínquo Netuno que volteia a 1.100 milhões de léguas, até os pálidos co­metas abandonados mais longe ainda no inverno eterno… e até as estréias, a milhões de bilhões de léguas. . . cada uma das pal­pitações dêsse coração inflamado derrama e espalha sem medida a incomensurável fôrça vital que vai difundir a vida e a felicidade por sôbre os mundos todos. Emana essa fôrça constante da ener­gia solar e precipita-se em tôrno dêle no espaço com uma rapidez inaudita. Bastam 8 minutos à luz para atravessar o abismo que nos separa do astro central, nem o próprio pensamento é capaz de ver distintamente êste salto de 75.000 léguas que dá cada segundo

o movimento luminoso. E que energia a dêsse foco! Vimos já o valor que tem o globo solar; o seu diâmetro é maior do que o da


terra 108 vêzes contém. . . 1.279.000 vêzes o seu volume, e é 324.000 mais pesado. Como havemos de figurar grandezas seme lhantes?

Se representássemos a terra por um globo de 1 metro de diâ- metro, teríamos de representar o Sol por um globo de 108 metros.

Poderemos fazer idéia dum globo assim, se considerarmos que a cúpula mais vasta que a arquitetura ainda construiu — o zimbório de Florença, arremessado ao ar pelo gênio de Brunelleschi x) não passa de 46 metros de diâmetro; o zimbório de S. Pedro de Roma e o do Panteão d’Agripa têm menos de 42 metros; o zimbório dos inválidos de Paris tem 24 metros, e o do Panteão 20 metros e meio apenas. Se representássemos, pois, o Sol por uma bola da grossura do zimbório do Panteão de Paris, teríamos de reduzir a terra, para a compararmos, a uma bola de 19 centímetros de diâ­metro.

Tudo o que se disser acêrca da importância do Sol, não é de- mais, nem é demasiado tudo o que se fizer para fixar no espírito

a sua superioridade sôbre o nosso globo.

Se colocássemos o Sol no prato ‘duma balança que tivesse força bastante para o receber, era necessário colocarmos no outro prato 324 mil terras iguais à nossa para lhe fazer equilíbrio.

E’ dos raios do Sol que depende o sistema todo dessa massa enorme. Se a comparação não fôsse ofensiva para o Astro-rei,

diríamos que êle está como a aranha no centro da teia. Os mun- dos mantêm-se na rêde da sua atração.

Paira no centro e tudo está debaixo do seu poder. Com relação à sua grandeza e à sua fôrça, os mundos são joguetes que volteiam em tômo dêle. Representam já aqui a relação que existe entre a importância do Sol e a situação dos globozitos que o cercam.

C. Flammarion (Tradução)

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] almo — fecundo, criador, que àlimenta.

jun 042014
 

CENAS E MARAVILHAS DA NATUREZA

A aurora polar

Uma, das misteriosas e belas manifestações da natureza é cer­tamente a aurora. Na nossa latitude podem algumas vêzes pre- senciar-se formosos quadros na aparição da aurora; mas é nas regiões árticas e antárticas que o grandioso fenômeno se ostenta em tôdas as suas maravilhosas linhas.

Vejamos o que se passa nas regiões polares — a verdadeira pátria da aurora.

A escuridão cobre o mundo polar. Os próprios contornos das grandes colinas dificilmente se podem distinguir. Nenhum objeto se vê em movimento na vasta extensão do mar gelado. r’


aurora polar

‘ De-repente, de leste a oeste, aparece um lindo arco de vivo ouro. Os clarões difundem-se [1]) por todos os lados, rivalizando com as côres do arco-íris.

Além dêsse arco, uma corrente de raios dourados espalha-se sôbre a penumbra e as estréias, são ofuscadas, como “radiosas bailarinas” arrastadas em ondas de luz.

Há alguma coisa de infinitamente belo, quando se descerra a verdadeira “cortina d’aurora”, guarnecida de galhardetes colori­dos; ondeia, agita-se, como se fôsse movida por alguma mão visí­vel. Depois, duma extremidade à outra, atravessa uma série de ondulações e a cortina parece baloiçar-se numa sucessão de coroas graciosas. Mas de-recente, como por encanto, domina o quadro uma profunda tranqüilidade; como se um poder invisível, que ti­vesse apresentado as mil belezas da cortina aurorai, repousasse por momentos. Contudo ainda então se vê a alternada aparição e extinção da sua luz misteriosa.

Trêmulas coruscações x) aumentam o esplendor da cena; e o misterioso espaço do arco aurorai, de que a ondeante cortina pa­rece estar pendente, dá uma grandeza indizível ao espetáculo que a palavra humana não pode traduzir.

Afinal, a zona luminosa, dissolve-se. A ostentosa cena co­bre-se de difusos listrões e fragmentos de luz pardacenta, que caem como regatos do céu. Mas estas também desaparecem agora e nada do brilhante espetáculo fica a não ser uma nuvem escura, como o fumo no horizonte.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] difundem-se = espalham-se.

jun 042014
 
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As duas bilhas

Cada qual com seu igual. Dêste nosso provérbio parece foi tomado o doutrinal apólogo das duas bilbas: uma de barro, outra ir cobre, levadas rio abaixo com a fôrça da cheia. Rogou a de cobre à de barro que se chegasse a ela, para que juntas resistissem melhor ao ímpeto das águas.

“Não me convém, respondeu ela, a vossa amizade e vizinhança; porque, ou suceda topar eu convosco ou vós comigo, sempre vós ficareis inteira e eu quebrada.” M. Bernardes.

Era o tempo da revolta 1) de Custódio José de Melo. Rio de Janeiro jazia sob terror das balas. Receosos de carência de garan- tias aos estrangeiros, reuniram-se os membros do Corpo Diplomá- tico, sob 2) a presidência do seu decano :3{), o conde de Parati, representante de Portugal, a-fim-de deliberarem sôbre o caso.. Após muita hesitação,—não ousando tomar uma atitude coletiva—, re­tiveram agir cada um de per si. O representante da Inglaterra passou a Carlos de Carvalho, ministro do Exterior, uma nota em que comunicava, que, dentro em breve, estaria na Guanabara uma esquadra inglêsa, para garantir a vida dos súditos da Grã-Bretanha Respondeu-lhe Carlos de Carvalho, que o assunto era de tal forma melindroso que aconselhava fôsse ouvido o próprio Presidente.
1) Em setembro de 1893.

2) Que diferença há entre sob e sôbre?

3) decano e não décano.



Confiante no prestígio e na fôrça da Nação que represen tava, dirigiu-se o embaixador a palácio. E’ introduzido na sala da audiência. Após os cumprimentos, toma a palavra:—Excelência desejava saber como seria recebida no Rio uma esquadra inglês que teria o único fim de garantir a vida dos súditos de S. Maje. tade Britânica?

Floriano, com aquela serenidade que nenhum perigo, nenhuma ameaça conseguia perturbar, respondeu, impávido: — “A bala!…”

Jonatas Serrano.

Acabara de ser expôsto o quadro de Pedro Américo “Ba­talha de Avaí”. Pedro II, que se vangloriava de exímio conhece­dor das obras de arte, lá se foi com a sua côrte a ver o novo tra­balho do afamado pintor. Pararam todos em frente ao quadro E o imperador, desde logo, pôs-se a fazer a análise da bela pintu­ra. Elogiou o conjunto, admirou os pormenores, aplaudiu o efeito do colorido. Enquanto isso, a um canto Caxias olhava, de esgue­lha e simultâneamente, o quadro, o Imperador e o artista. Seus dentes cerrados murmuravam qualquer coisa de incompreensível. Um dos cortesões, notando-lhe o semblante enfarruscado, vira-se para o Imperador e diz-lhe baixinho ao ouvido: — “Majestade, pa­rece que o general não está gostando do quadro…”

Pedro II volta-se surprêso. Como? Haveria alguém que ou­sasse ter pensamento diferente do seu? Êle já havia elogiado sem restrições a pintura, felicitara o autor, e alguém desaprovava o seu juízo?

E entre autoritário e persuasivo:

— “General, faltam apenas os seus parabéns.” Foi então que [1]) a fisionomia do herói se fechou de todo. E, num gesto de desa­bafo, a voz surda, o olhar severo, ressentido, disse entre dentes: “Onde foi que Pedro Américo me viu no combate, de farda aberta e de camisa aparecendo?” (ldem)

Perdoou el-rei D. Sebastião de Portugal a uma viúva do seu tesoureiro metade da dívida em que seu marido ficara obrigado à fazenda real. Não faltou quem advertisse de que parecia lance [2]) excessivo. E êle, chamando logo a viúva, que voltava contente com o bom despacho da sua petição, lhe disse:—Entendeste-me?

— Sim, Senhor (respondeu ela) : há Vossa. Alteza por bem quitar- me[3]) metade da dívida. — Não é isso, sendo que perdôo-a tôda.

M. Bernardes.

O papa Sixto V, que dantes se chamava Felix Peretti, andava com bordão e cabeça baixa, fingindo-se enfermo e, para pouco, que necessitava, sendo assunto [4]) ao pontificado, de que os car­deais governassem por êle, e êle tivesse só o título honorífico, sem

o exercício laborioso. Mas, tanto que foi eleito e se declararam os votos, arremessou de si o bordão e endireitou a cabeça e disse com despejo [5]) : “Até agora andava inclinado para o chão, porque bus- cava as chaves de S. Pedro; agora me levanto, porque busco a fechadura. e quero abrir a porta do céu.” (Idem)

Sonhou um homem que via um ôvo atado na ponta do seu cobertor. Consultou a um agoureiro, que lhe disse, por interpre­tação, que naquele lugar onde dormia, estava escondido dinheiro.,;

Cavou o homem e achou ouro e prata. Desta deu por prê­mio ao adivinhador uma pouca parte, o qual, aceitando-a meio alegre, meio triste, disse aludindo ao ouro: “E da gema não há nada?” (Idem)

Diógenes, filósofo cínico3), cria tão pouco nas coisas dêste mundo, que nem uma choupana tinha em que viver, e morava den­tro em uma cuba4). Foi-o ver por maravilha Alexandre Magno e dizendo-lhe, com a sua natural munificência [6]), que pedisse quan­to quisesse, que responderia Diógenes?

“Peço-te que não me tires o que não podes dar.”

Disse isto, porque era inverno, e Alexandre, com a sombra do corpo, tirava-lhe o sol. M. Bernardes.

Entrou uma vez Alexandre Magno no oficina [7]) de Apeles 7), por honrar com sua presença a um sujeito tão insigne na sua arte, e começou a falar demasiadamente acêrca da pintura. Apeles com brandura, cortês, mas picante, lhe disse:

“Senhor, veja que se ri o moço que mói as tintas.”

(Idem)

_________

‘ 1) Assunto — elevado.

2) Despejo — desembaraço.

3) Cínico — chamavam-se assim os filósofos de certa seita que fazia consistir a sabedoria em desprezar as leis da boa sociedade, fingindo viver à lei da natureza.

4) Cuba — tonel grande. #

5) Que diferença há entre munificência e magnificência?

6) oficina é a palavra genuinamente portuguêsa, que dispensa o fran- cesismo atelier.

7) Apeles — insigne pintor grego.


Expôs Apeles à porta uma pintura sua, e pôs-s detrás do pano a escutar *) os votos e censuras várias dos que passavam. Veio um sapateiro e notou um defeito na chinela duma figura principal. Emendou Apeles a falta, e no seguinte dia tornou a passar aquele oficial: e, vendo a emenda, ficou satisfeito de si e atreveu-se a notar outra coisa na perna da mesma figura. Então Apeles, aparecendo, lhe disse:

“Não suba o sapateiro além da chinela.’’ (Idem)

Orando uma vez em Atenas o eloqüentíssimo Demóstenes -) sôbre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento, introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara :!) um jumento, e, para se defender no descampado da fôrça da calma, se assentara à sombra dêle e o al­mocreve 4) o demandara por maior paga, alegando que lhe aluga­ra a besta, mas não a sombra dela. Estavam os Atenienses neste passo mui aplicados 5), desejando saber a sentença com que se decidira aquêle pleito; porém Demóstenes, no mesmo tempo, se desce0) da cadeira dizendo: “Oh pejo! Oh miséria grande! Fol­gais de ouvir da sombra do jumento, e não folgais de ouvir do es­tado e bem público da Grécia!” (Idem)

i

O rei Leopoldo II da Bélgica, embora na sua vida não tivesse sido um modêlo católico, não foi entretanto anti-clerical 7). Quanl do as religiosas francesas, expulsas em massa por Combes, trans­puseram as fronteiras em demanda da Bélgica hospitaleira, ao rei Leopoldo II, que se achava em Paris, se dirigiu um dos ministros do governo e pediu-lhe desculpas dizendo:

“Lamentamos dar êsse incômodo a V. Majestade. São elas que, uma vez expulsas, procuram o seu país.”

“Não se aflija — respondeu Leopoldo II — no meu país nun­ca são demais as pessoas honestas.”



[1] Foi então que. Vide a nota 5) à pág. 67.

[2] Lance — íasgo, generosidade.

[3] Quitar-me — perdoar-me.

[4] Que diferença há entre escutar e ouvir? Que escuta de si ouve (falar).

[5] Demóstenes — primeiro orador ateniense, viveu de 384-322 antes de Cristo.

[6] Aplicados — sin. atentos.

[7] Se desce — Vida a nota •”>) à pág. 20.

3) Não confundir ante e anti\ ante indica idéia de tempo anterior — ante^diluviano (antes do dilúvio) — anti significa contra — anti-cristão, anti-liberal.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 042014
 

Os dois leões

Jean-Pierre Claris de Florian (1755-1794)

Nos desertos da África, nessas plagas arenosas e inóspitas [1]) em que o sol, crestando a terra, dardeja seus raios de fogo, encon­traram-se dois formidáveis leões a quem a sêde atormentava. Am­bos em procura do precioso líquido, chegaram a um lugar onde um tênue fio d’água, deslizando mansamente, despertou sua avidez. Correm ao mesmo tempo as duas feras e nenhuma quis ceder a vez à outra. Bem podiam elas beber ambas; a fraternidade e a ur­gência assim o exigiam; o orgulho, porém, abafou o entendimento.

Cada um quer beber só; com os olhos faiscando lume, me­dem-se reciprocamente, eriçando sôbre o colo a flutuante crina.

Com a cauda em terríveis estalos, açoitam os ilhais; depois investem-se furiosos e soltam tais rugidos, que os próprios tigres, ouvindo-os, se escondem, tremendo, no mais fundo de suas som­brias cavernas.

Iguais na fôrça e na coragem, prolongaram o combate.

dois leões, fábula de Florian

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 042014
 

As rãs pedindo um rei
La Fontaine

Aborrecidas as rãs do estado democrático, pediram a Júpiter com tanto empenho um rei, que enfim lho transformou em monarquia. Lá do alto caiu-lhe um rei, cidadão pacífico; mas com o barulho da queda afugentou do lodacento reino o povo, gente muito tímida e asna. Escondida nos buracos e no mais espêsso dos jun- cais, por muito tempo se não atreveu a população daquele estado a deitar a cabeça de fora e a encarar de frente aquêle gigante, que tal a julgavam. E, afinal, era, nem mais nem menos, um graveto, que assim mesmo causou não pouco susto ao primeiro súdito que, sain- do lá da toca, se atreveu a fitá-lo. Atrás desta vem outra, vem ter- reira, enfim tôda a nação; e de tal sorte se familiarizaram com o rei, que por último se resolveram a esearr,anchar-se-lhe em cima. O paciente monarca sofreu tudo e conservou-se sempre manso e quedo.

as rãs pedindo um rei de La FOntaine

Nisto novos clamores a Júpiter, bradando-lhe:

“Senhor, por graça especial, dai-nos um rei; mas rei que se mova.”

O soberano dos deuses deferindo 2) -lhes mandou um grou que ms trinca e mata e as vai empilhando no estômago. De novo vão <|iu‘ixar-se aquelas malcontentes a Júpiter, que responde:

“E pretendeis sujeitar minhas leis às vossas fantasias? Pri­meiramente, vós devieis conservar o vosso governo; não quisestes, «’iimpria depois contentar-vos com o rei que primeiro se vos deu, manso, benigno, sofredor. Pois agora acomodai-vos com êste; não meeda que atrás venha outro pior”

Lafontaine. (Tradução e adaptação)

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


jun 042014
 

A raposa e o bode – fábula de Esopo

Em certa digressão, associaram-se uma rapôsa e um bode Era êste tão curto e rombo de bestunto [1]), quanto aquela era ma­nhosa e arteira. Apertados da sêde, procuram modo de a satisfa­zer e só encontram o refrigerante líquido em um poço. Descem; e, depois de beberem à vontade, diz a rapôsa ao companheiro.

- “O que é mais sério, amigo, é ver como sairemos daqui. Estou vendo que pagaremos caro a água que bebemos.”

Depois de fingir por algum tempo que meditava, diz a rapôsa: “Ocorreu-me uma idéia, única que nos salvará.”

“Qual é?” perguntou o companheiro.

“Olha: põe os pés a pino por esta parede acima, levanta bem a cabeça; depois salto para cima do teu espinhaço, vou subindo até à extremidade das tuas pontas e daí dou um pulo e salto para fora. Em seguida tiro-te.”

Ficou o bode admirado da inteligência luminosa da sua com­panheira e aprovou-lhe a lembrança. Dito e feito. Saiu a rapôsa e deixou metido na arriosca 2) o companheiro. Cá de cima, em eloquente discurso, exorta-o a ter paciência e conclui:

“Se os deuses, meu amigo, te fizessem tão rico de miolos, co­mo és abundante de barbas, não serias tão nécio que descesses a êsse poço. Agora lá te avém; eu já estou salva. Faze a diligên­cia por sair; trata de ser bom cavaleiro. Adeus; tenho agora mui­to que fazer, não posso demorar-me.”

Em tudo o que empreendemos é necessário primeiro vermos a saída. Esopo. (Adaptação).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

a raposa e o bode, fábula de esopo

a raposa e o bode, fábula de esopo

jun 042014
 

O leão doente e a rapôsa – La Fontaine

Achando-se doente o rei dos animais, mandou publicar por todo o seu reino ser de sua vontade que todos os vassalos lhe enviassem embaixada, cada um segundo a sua classe e qualidade, a

saber da real saúde e fazer-lhe companhia na sua câmara. Certificou que seriam bem tratados não só os embaixadores, mas todos os da sua comitiva.

À entrada dos seus reais aposentos estava escrito em letra bem legível — Palavra de Leão: Podeis entrar confiadamente. Todos os súditos se apressam a cumprir a vontade do soberana; de tôda a parte marcham deputações em nome das diversas classes sociais.

Chegando, porém, mais tarde o embaixador das raposas, reparou na entrada dos aposentos do monarca e falou desta sorte:
“Noto que de quantos vieram aos cumprimentos, segundo vejo pegadas aqui escritas na terra, sem exceção de nenhuma, tornaram lá para dentro, cá para fora nenhum voltou: desconfio disto. Que sua majestade nos dispense. Muito obrigado pela sua palavra.Será muito honrada, não se duvida; entretanto o que muito se vê é como se entra, mas como se sai não vemos. Adeus.”

i Bem advertiu a rapôsa e mui assisada foi: sua prudência a pôs a salvo 1) de servir, como os outros, de banquete ao régio enfermo

Lafontaine. (Adaptação).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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