Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

D. ANTÔNIO DE MACEDO COSTA




D. ANTÔNIO DE MACEDO COSTA (Maragogipe, na Bahia, 1830-1901) estudou primeiro no Seminário Arquiepiscopal da sua província e depois no de São Sulpício em Paris. Em 1855 recebeu tonsura das mãos de Sibour, o arcebispo mártir; em 1857 lhe era conferido o presbiterato.

Nomeado bispo do Pará em 1860, pronunciou-se contra o maçonismo na luta empenhada por D. Vital de Oliveira, e com este foi condenado e preso em uma fortaleza. Anistiado, prosseguiu no seu labor episcopal, intrepidamente pelejando pela causa do catolicismo, onde quer que iôsse ela agredida.

Quando se proclamou a República, D. Antônio tentou, mas em vão, consorciar a religião católica com a nova ordem de coisas. Neste propósito o salteou a enfermidade a que sucumbiu em Barbacena, a cujo clima íôra pedir alívio. Pela sua erudição, amena eloqüência e segura dialética, os discursos e escritos deste prelado honram a literatura brasileira.

Restauração Religiosa

Abolimos o cativeiro material. Foi muito; mas isto foi apenas um começo; removemos um estorvo e nada mais. Cumpre agora abolir o cativeiro moral; é necessário resgatar as almas de tudo quanto é baixo, vergonhoso, degradante.

Restaurar moral e religiosamente o Brasil!

Esta é a obra das obras, a obra assencial, a obra fundamental, sobre que repousa a estabilidade do trono e o futuro da nossa sociedade.

Senhores, nós atravessamos uma hora perturbada e cheia de tristezas, assistimos a desfalecimentos deploráveis, a uma tendência para derruir as tradições do passado sob pretexto de preparar mais auspicioso porvir.

Nunca um bispo entre nós falou em ocasião tão solene; nunca a voz do Episcopado, de que sou aqui humilde órgão, teve tanto direito de se fazer ouvir e pôde ter repercussão tão profunda em todas as almas.

Pois bem! Eu vos digo, com toda a autoridade de meu sagrado ministério, que no meio das oscilações, das vicissitudes dos tempos e dos homens, no meio dos desmoronamentos e ruínas de que está cheia a história, há uma coisa que permanece, uma coisa firme, consistente, que vigora, que tem vida, com que se pode contar para o futuro: é a religião de , ensinada pela Igreja Católica, há dezoito séculos, com assistência do Espírito do mesmo Cristo.

Aí está a força que restaura, aí está a força que salva, que adianta seguramente os povos no caminho do verdadeiro progresso — o que tem por ponto de partida o Evangelho.

Um grande escritor protestante, cujo nome não preciso declinar, porque todos o conheceis, confessa em uma de suas obras esta verdade: "Lavra na sociedade moderna, diz êle, um grave mal, que é o desrespeito à autoridade. A Igreja Ca-

lolieii é a maior e mais santa escola de respeito que há sobre a erra. A França precisa de Catolicismo". (*).

E eu, talvez com mais razão do que este autor, posso dizer: O Brasil precisa de Catolicismo!

Outro grande pensador, e este católico, escreveu a seguinte profunda sentença, que recomendo à vossa memória: "Não há governo de um grande povo que governe só". (**).

Vós que tendes nos ombros as tremendas responsabilidades do poder, sabei que não podeis governar sós o Brasil; precisais, não podeis prescindir, do auxílio da religião. A força material da autoridade pública apenas atinge o corpo, — quando o atin-gel É preciso uma força superior, sobrenatural, que penetre até às almas, que chegue até o fundo das consciências para lá depor os germens fecundos da honra e da virtude. Precisais de fé! Com ela tudo se conservará, tudo florescerá, tudo prosperará.

Pois bem, senhores! já que o Sumo Pontífice, (66) o maior representante da Religião, o homem que exerce a maior força moral neste mundo, em uma crise tão memorável da nossa vida social vem a nós, cheio de benevolência e de amor pela nossa nação, vamos nós ao Sumo Pontífice! Estreitemos com êle laços de amor, de gratidão, de filial obediência.

E o Sumo Pontífice dar-nos-á Jesus Cristo! Jesus Cristo na perfeição dos seus mistérios, na integridade de seus divinais ensinos; Jesus Cristo em que tudo consiste, por quem tudo se restaura (***).

Jesus Cristo! Eu desejaria, senhores, pronunciar este nome no êxtase do amor e da adoração mais profunda…

Sem êle não há esperança de salvação no tempo; sem êle não há esperança de salvação na eternidade: Non est in alio aliquo salus …(****).

(•) — Guizot.

(**) — Conde José de Maistre.

(66) Os termos sofrem, às vezes, graves alterações de sentido. Pontífice, alto dignitário eclesiástico, significa inicialmente construtor de pontes: pons, pontls e facio, do v. facíre. É formação análoga à de artífice, muníjice, aurí-fice (> ourives); beneficio, malefício edifício ofício, sacrifício, vocábulos que contêm a idéia de fazer ou efetuar, fixada no seu segundo elemento.

(*«*) — Omnia in ipso constant. (Colossenses, I, 17). Instaurara omnia in Christo. (Efésios, I, 10).

(***•) _ Atos, IV. 12,

O meu Brasil! Pátria minha querida! curva o teu joelho reverente diante de Jesus Cristo, e acharás no seu Evangelho a verdadeira luz, na sujeição à sua lei a verdadeira liberdade, no conforto de suas graças alegrias puras, suavíssimas, as verdadeiras alegrias da alma, que começam na terra e se consumam no céu!

(Discurso pronunciado em 28 de setembro de 1888, por ocasião da entrega da Rosa de Ouro à Princesa Imperial).


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

 

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Em Clarice Lispector, essa experiência [náusea] subtrai o sentido do mundo, para estabelecer, por meio do êxtase místico, /…/ uma relação de participação entre o sujeito humano e a realidade não-humana. /…/ A náusea é o modo extremo do descortínio contemplativo e silencioso que a fascinação das coisas provoca nas personagens de Clarice Lispector. — Benedito Nunes, O drama da Linguagem

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