A BELEZA DO RECIFE

A BELEZA DO RECIFE

Oliveira Lima

A BELEZA DO RECIFE

Somos uma raça de poetas. Não é tanto pelo fato de verificarmos com notável facilidade e bastante felicidade que o digo; as exceções, como eu e como o falecido José Veríssimo, são raríssimas e citam-se quase como casos de anormalidade. Este é porém o lado superficial do estro, a sua mecânica. A característica principal de sentimento poético, o que constitui o seu traço íntimo, é trocar espontaneamente, sem malícia, a verdade pela ficção, isto é, deixar-se levar pelo engano, fechando os olhos à realidade. Neste sentido — é curioso — parece que eu sou poeta; pareceu isto pelo menos, há mais de vinte anos, a um meu amigo português, um formoso espírito nutrido de boas letras e de grande senso filosófico, a quem cu convidara a vir estabelecer-se por causa da sua saúde — morreu de frio em Paris um ano depois — no Recife, gabando-lhe não só o clima temperado, para o que invocava os velhos cronistas, como a beleza da terra, para o que me socorria dos viajantes de todos os tempos.

O meu pobre amigo veio na fé da minha palavra, mas achou o Recife horroroso. É verdade que Paris o estragara e que êle achava Lisboa "um horroroso". Para a nossa cidade não havia porém diminutivo, muito embora eu lhe bradasse que ela se chamava Mauri-céia e que fora a criação de um príncipe de eleição, humanista c epicurista, que aí tivera sua corte de artistas e de sábios. O meu amigo não me contestava, mas achava que hoje em dia, quero dizer há 20 anos; só se podia habitar no Recife em dois lugares: o Hospital ou a Detenção. Eram os únicos edifícios arquitetonicamente Impressivos e com aparência de conforto. Não consegui fazê-lo mudar de opinião.

Socialmente, agradou-lhe muito a nossa nunca desmentida hospitalidade. Não sei se no seu âmago espiritual a não filiou, essa franca acolhida, em atraso. De fato, quanto mais culto se torna um povo, menos hospitaleiro fica. O meu amigo achou que ainda estávamos a precisar de Panorama e de Arquivo Público, a saber, de um regime de novelas históricas c de receitas caseiras. Êle não podia prever a época dos cinemas que tanto alargaram os nossos horizontes.

Do clima, nada teve que dizer; achou-o ideal. A sua compleição delicada deu-se admiravelmente com a temperatura e com o meio. A paisagem sorria-lhe medianamente. A folhagem escura afigurava-se-lhe monótona e até sinistra, mas vista à distância, com o corretivo das águas e com o balanço dos coqueiros sob a forte viração, ia até a achar suportável. Olinda mesmo, de cá do istmo, possuía certo encanto. Quer isto dizer que, se fosse possível viver-se sempre ao ar livre, a ponte da Boa Vista seria para o meu amigo um terceiro lugar habitável.

Entretanto, ficara estabelecido, pelo romantismo, o qual chegou até à República e ainda não nos desamparou de todo, que o Recife era a Veneza Americana e durante um século acariciamos a ilusão de que não existe terra mais bonita do que esta. Foi preciso que o realismo batesse à nossa porta com a aldrava ressonante, para que despertássemos e nos convencêssemos de que a natureza não fizera nada mal às coisas, mas o homem estragara muito o que ela preparara. Deu-nos então a febre das demolições e das reconstruções, e felizmente também a de asseio e da higiene.

O Rio de Janeiro é responsável por este contágio, e desta vez bem haja. A nossa cidade entrou at modernizar-se, e o aspecto atual do primitivo bairro do Recife, com suas docas, seus vastos armazéns, seus prédios espaçosos e arejados, suas ruas largas, ventiladas e bem calçadas, agrada a quantos desembarcam e travam conhecimento com a terra ou a revêem após uma grande ausência..

Porventura desapareceu muito do pitoresco; o pitoresco, porém, é as mais das vezes sujo. A Itália e a Grécia, à medida que vão adquirindo a banalidade cosmopolita, vão se despindo do pitoresco. A limpeza é infelizmente banal. A Roma dos Papas era um antro de porcaria: por isso era tudo quanto há de mais romântico. A

Roma do presente perdeu três quartas partes da sua sedução, la-vando-se e enfiando novos trajes, o uniforme da civilização.

Uma vez que se entra cm Santo Antônio e na Boa Vista; uma vez que sobretudo se chega aos arrabaldes — e o Recife é uma cidade de arrabaldes — a impressão vai deixando de ser igualmente agradável. Alguma coisa se tem feito, mas resta ainda muito a lazer. No entanto já se percorre a maioria dos subúrbios em carro elétrico, com exceção de toda a linha principal, para satisfação talvez do preceito de que os últimos serão os primeiros c portanto os primeiros os últimos.

Poucos meses faltam contudo para que seja de vez relegado o trem desconchavado, sujo e lôbrego que, semeando fagulhas como um fogo de artifício ambulante, se está despedindo com muitos apitos de saudade dos sítios que há longos anos servia com mais fidelidade do que comodidade.

Se tivéssemos um museu de curiosidades históricas, deveríamos colocar um dos seus vagões ao lado de exemplares das cadeirinhas pintadas em que as damas saíam a passeio e os vigários levavam o viático aos enfermos, das "gôndolas", com que se iniciou o tráfego urbano, e das canoas que se tomavam para subir o Capi-baribe, em digressão folgazã ou quando se tinha pressa.

O bonde anda nos seus trilhos muito iluminado, muito ufano e muito célere, e não se apercebe nem se importa com o estado miserável em que, de um lado e outro da sua linha, se estende uma estrada esburacada, ora com largas poças de água esverdeada que são outros tantos viveiros de mosquitos, ora com montões de terra e areia que o vento dispersa em nuvens de poeira, por onde é difícil o pedestrianismo, penosa a locomoção a carro c torturante uma carreira de automóvel, aos solavancos.

Não há melhoramento mais urgente, depois da rede de esgotos, do que este, de macadamização dessas estradas de avultado trânsito e desolado aspecto que se desenrolam entre a vegetação densa das chácaras. O Estado está se preocupando com as estradas de rodagem no sertão; a União lembra-se até de fazer uma fineza a Pernambuco, empreendendo a estrada de rodagem do Cabo; particulares, como o Sr. Delmiro Gouveia, abrem por conta própria dessas vias de comunicação que tornam possível o trânsito de automóvel onde..só choutavam burros de carga: não é demais que o município da capital comece a distribuir parte das suas receitas a dotar os arrabaldes com caminhos decentes.

Dizem-me — eu conheço muito mal a nossa legislação municipal — que a Prefeitura propôs que se lançasse um imposto pesado sobre os sítios que não forem murados, e a lembrança, a ser exata, pareceu-me muito pouco feliz. Nós não temos a superstição da clausura; já é tempo de ir dando liberdade à paisagem com o desafogo e o recreio da vista; sem falar em que anda o cidadão tão pesado e tão diversamente tributado, que já se lhe arrepiam as carnes quando ouve falar em novas taxas.

Não penso que os poderes públicos queiram celebrar o centenário da revolução pernambucana de 1817, que foi uma revolução se não provocada, pelo menos favorecida pelos impostos que sufocavam a capitania, com uma sobrecarga de impostos que deixem o contribuinte, não digo a pão e laranja, porque o pão está caro e a boa laranja vai pelo mesmo caminho, mas a siris sem farinha.

O muro manchado e leproso, como costuma ficar após poucos anos de chuvas torrenciais e de prolongada umidade, sem os indispensáveis reparos, é hediondo comparado a uma sebe verde que tão bem preencheria o lugar das cercas de arame farpado. Nos arredores de Paris ou de Londres não se vêem muros de alvenaria, a não ser os que rodeiam os hospitais de loucos e as cadeias. Muitas das divisões fazem-se com árvores e arbustos, o que lhes empresta gracilidade; quando muito usam-se grades, que não interceptam a vista. A tapadas são para caça e para mosteiros, atrás dos seus muros adivinhando-se que correm corças assustadas ou que passeiam vagarosamente freiras doloridas.

O muro é portuguesíssimo, mas na tradição portuguesa, que eu mais do que ninguém prezo e defendo, convém enxertar novas idéias e novos gostos.

Rio, setembro de 1916

II

O aformoseamento das cidades brasileiras depende muito, depende essencialmente da administração. Não fosse a iniciativa, não fossem sobretudo os processos draconianos do Prefeito Passos, o Rio de Janeiro não teria passado pela transformação que fêz da nossa capital, com a ajuda da Natureza, que tão pródiga fora para com ela, uma das mais formosas cidades do mundo. Mas não acontece isto somente no Brasil. Paris não se teria embelezado no segundo Império de modo a atrair a atenção do mundo sem a decisão de Napoleão III e a energia, combinada com o gosto artístico, do Barão Haussmann.

Lá como cá o custo da transformação foi salgado, pelo muito dinheiro que requer uma transformação semelhante e pelos abusos que geralmente nela se enxergam. ,

Felizmente, nos dois casos apontados os enxertos não abafaram a árvore, nem impediram sua florescência. Jules Ferry fêz contudo boa obra republicana de propaganda moralizadora — todos os regimes são moralizadores quando na oposição —, escrevendo As Contas Fantásticas de Haussmann, em alusão aos "contos fantásticos de Hoffmann", a que Offenbach acabava de emprestar o encanto da sua música sedutora. Paris e o Rio de Janeiro fizeram-se a golpes de milhões, mas não há dúvida de que se operou em ambas radical mudança: os milhões, talvez por serem tantos, transbordaram dos bolsos dos intermediários.

Eu já tenho receio de citar a Alemanha como um modelo de qualquer coisa: atemorizam-me os milhões do banqueiro Bouil Loux Lafont, milhões aliás não ganhos em França mas no Brasil, o que no seu entender lhe dá o direito de não só intervir como querer dirigir os negócios do Brasil. Em todo caso, mau grado o Sr. Lafont e todo o seu dinheiro, eu direi» porque é a verdade, e para a conhecer basta ler os interessantíssimos volumes de Jules Huret, que era francês, que as cidades alemãs todas se modernizaram e apresentam um tão lindo aspecto graças aos esforços inteligentes e honestos dos seus edis. É sabido e admitido que é mode-larmente honrada a administração municipal alemã, como de resto o é toda a administração. Esta "pecha" a não impede de ser singularmente eficiente. Pelo contrário, nos Estados Unidos, onde a administração federal oferece todas as garantias de seriedade, mas a administração municipal fornece amplo ensejo para o graft, como quem diz a bandalheira, tudo quanto é serviço público nas cidades é péssimo, e o que há de bom se deve comumente à iniciativa particular. Dirão alguns amigos da Liberdade, com maiúscula, que nas terras saxónicas impera, a noção do indivíduo e nas terras germânicas a noção do Estado, que era aliás a noção romana.

Eu admiro muito a iniciativa individual, mas também prezo a probidade governativa, que faz a maior falta num país, mormente quando este é inteiramente dependente da ação oficial, a qual tem tanto de ser progressista num assunto como o nosso, quanto os interesses particulares agem num sentido nimiamente conservador. O proprietário cujas casas, embora sujas, esburacadas e anti-higiênicas lhe rendem boa quantia, não quer naturalmente operar mudanças que acarretam despesas consideráveis, ainda que de futuro retribuídas. O que êle quer são os lucros imediatos. Para bem da comunidade, às autoridades cumpre imporem regras de higiene c outros preceitos de utilidade comum. Nos Estados Unidos, como disse, a disseminação da riqueza privada, isto é, o avultado número de fortunas e ao mesmo tempo a tradição do esforço do cidadão sem a menor coação das autoridades — uma tradição que na Inglaterra se está obliterando graças à guerra, mas que felizmente permanece na América Inglesa como o melhor legado da raça que a povoou — dispensam praticamente tal intervenção. O ideal seria que, como na Alemanha, se combinassem a direção firme e esclarecida dos poderes públicos e o desejo individual de cada membro da coletividade de cooperar voluntariamente com o seu governo, enquanto redundar no benefício de todos e n^ interesse patriótico.

Não sou eu quem assim ca^icteriza a sociedade alemã: é o Sr. Gabriel Hanotaux, escritor de subido mérito, historiador porventura o melhor da França atual, que, como ministro dos Negócios Estrangeiros, preparou a aliança franco-russa, não creio que jamais o acusassem em França de germanófilo por assim pensar; e se é o caso que a sua definição do caráter público-social do povo alemão envolvia crítica à sua subordinação consciente ao Estado, a censura cai por si à vista dos resultados obtidos.

Temos portanto que no Brasil compete ao Governo agir mesmo para promover o aformoseamento, que a vaidade deveria ser bastante para sugerir. É claro que só lhe assiste semelhante direito quando êle próprio haja cumprido um certo número de obrigações para com a comunidade, tais como, numa cidade, o fornecimento de boa água, o estabelecimento de esgotos, um calçamento decente etc. Sem estes melhoramentos prévios, que não são da alçada particular, mas do dever dos poderes públicos para com os contribuintes, seria tão absurdo quanto injusto pretender que da sua parte os cidadãos se decidam a colaborar na obra comum do progresso. O absurdo está em que não se concebe uma senhora com um penteado artístico e um colar de pérolas, e ao mesmo tempo de chinelos rotos e saias esfarrapadas.

A Prefeitura Municipal tem portanto missão de zelar o gosto e também de o educar, não bastando que fiscalize as edificações e discipline os consertos com vista sobretudo na multiplicação das licenças e, portanto, no aumento das rendas. Não é aliás fácil a sua tarefa. O português deixou a tradição do muro, mas não deixou passado artístico onde possamos ir beber inspiração. O único estilo arquitetônico que Portugal produziu foi o manuelino: é um misto de gótico e de Renascença com reminiscências mouriscas. Assim o definiu com felicidade o Conde Rackzinski, que foi ministro da Prússia em Portugal no século passado, antes da unificação alemã, e escreveu duas obras clássicas — um tratado e um dicionário — sobre as artes em Portugal, não muito tempo depois que os franceses, às ordens dos marechais de Napeleão, andaram mutilando monumentos de arte em Portugal.

Dir-me-ão os aliadófilos apaixonados que esse diplomata requintado era de família polaca. A sua cultura não era com um K. Eu responderei ao aliadófilo que primeiro falar assim e que fôr pernambucano, como tal amante ciumento da sua terra, que não se podem fazer semelhantes distinções em idiossincracia artística, em tempo de paz, como se não podem fazer as mesmas distinções em sentimentos humanitários, em tempo de guerra.

Franceses, ingleses e alemães podem ter e têm os mesmos gostos artísticos; alemães, ingleses e franceses são igualmente desumanos quando o animal vence o espírito no eterno duelo que se trava dentro de cada indivíduo. É tão perigoso estabelecer distinções neste terreno! O que dirá meu conterrâneo aliadófilo se eu lhe recordar que Maurício de *Nassau, o fundador da Mauricéia (Mauritzstad), o príncipe ilustrado e magnífico do qual Pernambuco se vangloria, não era holandês, e sim alemão. Nasceu em Willen-burgo, na Prússia Renana, e a casa de Nassau-Siegen era uma casa alemã. Quando um ramo dos Nassau se identificou com os destinos neerlandeses, foi que o nosso Maurício entrou para o serviço da Companhia das Índias Ocidentais. Morreu porém na Alemanha, em Cleves, ao serviço do Império. Recomendemo-lo à execração dos germanófobos.

Rio, setembro de 1916

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.

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