A compreensão das ações econômicas na modernidade



Originalmente apresentado para o Programa de Pós-graduação em Sociologia Política da UFSC

Adhemar Tavares Vieira Filho

“In memorem a professora PhD Cécile Raud”

 

A compreensão das ações econômicas na modernidade

 

A obra História Geral da Economia foi uma tentativa de Weber ajudar seus alunos a compreenderem os seus conceitos em Economia e Sociedade. O objetivo era mostrar a maneira que a sociologia por meio das ciências sociais analisa fenômenos socioeconômicos, introduzindo uma dimensão social numa análise voltada para os interesses (Swedberg, Max Weber e a idéia de sociologia econômica, p. 45).

As ciências sociais em Weber, pode ser utilizada para analisar fenômenos socioeconômicos e com isso introduzir uma dimensão social numa análise voltada para os interesses, [...] apresentados os conceitos básicos da sociologia econômica (idem, p. 45).

Weber apresentou quatro tipos principais de ação social:

Afetiva e tradicional – movida pelo hábito, pelas emoções e pelos interesses;

Racional com relação a valores – movida por interesses ideais;

Racional com relação a fins (instrumentalmente racional) – movida por interesses materiais       (idem p. 47).

Alguns dos conceitos que Weber apresenta tornaram-se muito influentes nas ciências sociais, como suas definições de Estado e de poder (idem p. 47).

Em sua sociologia, Weber procura combinar uma análise centrada nos interesses com outra que leve em conta o comportamento social. A seu ver, a teoria econômica analisa situações em que o agente é movido principalmente pelos interesses  materiais e tem a utilidade como objetivo, mas não leva em conta o comportamento de outros atores (ação econômica) (idem p. 48).

Weber em notas de suas aulas sobre teoria econômica geral (1890), afirma: entendemos por ação econômica um tipo específico de aspiração externa e deliberada – isto é, um comportamento consciente e bem planejado com respeito à natureza e aos seres humanos – que é compelido por essas necessidades, os quais requerem meios externos para sua satisfação, independentemente de serem de caráter “material” ou “ideal”, e que serve ao propósito de prover para o futuro (idem p. 88).

O conceito de utilidade é central no conceito de ação econômica [...] e abrange objetos (mercadorias), assim como comportamento humano (serviços) (idem p. 53).

Quanto ao conceito sociológico de ação econômica:

- há uma tentativa pacífica de obter o poder de controlar e dispor;

- essa ação é dirigida para algo que oferece uma oportunidade de utilidade (seja para satisfazer as próprias necessidades, seja para obter lucros);

- a ação é orientada pelo comportamento dos outros.

(Idem p. 58).

Weber deixa bem claro que a racionalidade na esfera da economia difere da racionalidade nas outras esferas da vida social; além disso, a economia pode ser racionalizada por causa de interesses muito diferentes (idem p. 62).

O preço tem de ser determinado pela negociação (luta pelo preço) em combinação com ações competitivas (luta entre concorrentes) (idem p. 64).

O dinheiro é formalmente o meio mais racional que existe de orientar a ação econômica (idem p. 64).

As formas não econômicas de ação racional são as tecnologias mecanicamente racionais (idem p. 65).

Segundo Weber, quando os membros de uma relação fechada conseguem se apropriar de oportunidades econômicas, adquirem um direito; e quando esses direitos podem ser herdados, existe propriedade (idem p. 66).

A apropriação é definida como o monopólio permanente e mais ou menos alienável de oportunidades numa relação social fechada (idem p. 66).

As organizações são econômicas em princípio quando orientadas para satisfação de necessidades ou para a geração de lucros.

Tipos de organização analisadas por Weber:

- econômicas – corporações

- economicamente orientadas – Estado, Igreja

- grupos economicamente orientados – sindicatos e federações de empregados

- organização que impõe uma ordem formal – Estado do laissez-faire

(Idem p. 67)

Abaixo é apresentado esquema mostrando como Weber construiu seu conceito de organização econômica com base na ação econômica social. As organizações econômicas, como todas as outras, consistem em relações sociais fechadas que são impostas por uma equipe administrativa (idem p. 68).

 

                                         ações econômicas de indivíduos

 

          relações econômicas                                 ações econômicas s/ orientação mútua

 

       relações econômicas fechadas                              relações econômicas abertas

 

organizações economicamente orientadas          relações econômicas fechadas não                                               

                                                                        coercitivas de uma equipe administrativa

 

Organiz.econômicas-ativas(igreja,por-ex.)                           organiz. Econômicas- organ. que impõe (a firma, por exemplo)     

organiz.    Reguladoras- (sindicato) uma ordem formal (Estado laissez-faire)

 

Weber diz que a única organização econômica realmente “revolucionária” é a firma ou empresa capitalista. A firma está comprometida com um tipo contínuo de ação econômica racional orientada pela geração de lucros por meio da exploração de novas oportunidades (idem p. 69).

Tipos de pessoas que trabalham para uma empresa, segundo Weber: os membros da equipe administrativa, organizam-se racionalmente sob a forma de uma burocracia; e são motivados basicamente por grandes salários, ambição e um sentimento de vocação. Os operários por outro lado, obedecem por hábito (disciplina); suas tarefas no são organizadas, não sob a forma de uma disciplina; e são motivados pelo fato de que se não trabalharem, eles e suas famílias morrerão de fome (idem p. 69).

James Coleman, por exemplo, afirma que os operários têm seus próprios interesses racionais, extamente como os administradores (idem p. 69).

Swedberg crítica Weber, citando sua tendência de diminuir a ênfase do papel do indivíduo na organização e de exagerar o crescimento da burocracia no futuro [...] (idem p. 98, nota 100).

Quanto ao mercado, Swedberg afirma baseado na pesquisa de Weber, que sua essência é um tipo de ação econômica – a troca – que é simultaneamente orientada em duas direções diferentes: na direção do parceiro de troca (luta pelo preço) e na direção dos concorrentes (luta entre os concorrentes) (idem p. 70, fig. 2.3).

[...] em relação à visão econômica do mercado, qual seja, a noção de luta e, consequentemente, de poder, que introduz uma dimensão política no coração do fenômeno econômico (Cécile Raud, A construção social do mercado … , p. 129).

Weber afirmou que o fato de ser tão difícil influenciar o mercado de um ponto de vista moral faz da “impessoalidade” uma característica da sociedade moderna (Swedberg, Max Weber e a idéia … , p. 72).

“O dinheiro não é um simples fiador de utilidades não especificadas que podem ser alteradas a vontade; é, antes mais uma arma na luta do homem contra o homem” (idem p. 72).

Segundo Swedberg, Weber pesquisou e escreveu pouco sobre estágios de macro econmia como a economia doméstica, citadina e nacional (idem p. 100, nota 123).

A distinção entre Marx e Weber são os fatores da noção da conta de capital (ou cálculos ex ante e ex post), a ênfase na racionalidade (os cálculos podem ser mais ou menos racionais) e a idéia de que certas formas de capitalismo existiram muito antes da industrialização e do comércio moderno (idem p. 75).

O termo nietzchiano “super-homem econômico” está próximo da categoria weberiana de “capitalismo aventureiro”. Os super-homens econômicos existiram em todas as épocas e segundo Weber, se consideram “acima do bem e do mal” (idem p. 103, nota 138).

A economia de mercado só existe e se mantém no quadro de uma sociedade que incentiva a busca racional do lucro e onde reina uma certa ética do trabalho (Cécile Raud, A construção social … , p. 133).

A atividade econômica no contexto de uma racionalidade weberiana, “essa racionalidade avalia os resultados da atividade econômica em termos da repartição dos bens entre os diversos grupos sociais em termos de hierarquia social, ou ainda em termos de outros critérios de valor” (idem p. 133).

Segundo Weber, os dois princípios mais importantes da economia humana são a economia doméstica e a geração de lucros e servem de base para tipos muito diferentes de sistemas econômicos num nível macro, [...] a economia tradicional orientada por rendas, a busca de rendas pelas camadas governantes é o foco do sistema econômico; na economia moderna de geração de lucros, a busca de lucros é o foco (Swedberg, Max Weber e a idéia … , p. 82, fig. 2.6).

Perguntas que auxiliam na compreensão do texto:

 

  • Como é a determinação do preço em Weber?
  • Qual a principal orientação das organizações econômicas para Weber?

 

 

Para Weber, qual é a única organização realmente “revolucionária”?

 

Bibliografia

 

  • Weber, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UnB, 1991. Vol. I, parte I, Cap. 2: As categorias sociológicas fundamentais da economia.
  • Weber, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UnB, 1991, Vol. I, parte II, Cap. 6: O mercado (inacabado – p. 419-422).
  • Raud-Mattedi, Cécile. A construção social do mercado em Durkheim e Weber. Uma análise do papel das instituições na sociologia econômica clássica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 57, p. 127-142, 2005.
  • Swedberg, Richard. Max Weber e a idéia de sociologia econômica. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 200-5, p. 45-105 (cap. 2: conceitos básicos da sociologia econômica de Weber).

 

 

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