A DESVENTURA DO CEL. FAWCET

A DESVENTURA DO CEL. FAWCET

tiroteios e flechadas

A DESVENTURA DO CEL. FAWCET

A sonhada serra dos Martírios atraiu para o ignorado, em junho de 1925, o sempre lembrado Cel. Fawcet que, juntamente com o filho Jack e o companheiro Railegh Rimmel, saiu disposto e certo de localizá-la em rumo inédito, em direção diferente dos seguidos até então.

Chegando a Cuiabá, onde se hospedou no Hotel Avenida, o membro da Royal Geografical Society of London, que andava há muitos anos em procura dos mistérios da jângal e de cidades imaginárias, restos da velha e platônica Atlântida, como um perfeito inglês, tomou a direção norte do Estado e, segundo testemunhas dignas de crédito, passou em Rosário-Oeste e, sempre prosseguindo para o setentrião, alcançou a cidade de Diamantina. Pois bem, na fazenda Arroz sem Sal, antigo seringal de propriedade de Hermenegildo Galvão, arranjou cargueiros e mantimentos, tomando as derradeiras disposições e, sem conhecer a região, que apenas alguns seringueiros sabiam, viajou resolutamente seringal a dentro.

Sabe-se que a comitiva do inglês passou em Porto Velho (Mato Grosso), sendo vista pela última vez contornando a serra Azul, dirigindo-se para as cabeceiras do Xingu, sem temer as surpresas da jângal do Inferno Verde.

Não mais foram encontrados vivos ou mortos, pai, filho e companheiros. Mil conjecturas apareceram, tanto na imprensa nacional como na estrangeira e, mesmo agora, os jornais se ocupam do estranho acontecimento em letras de fôrma, reavivando o caso periodicamente.

A exploração ,é tanta que hoje não se fala no velho britânico, mas se obstina na procura dum neto, que se acredita viver entre determinada tribo.

Contanto que o caso não morra, passando de avô a neto, vão-se contando cada caso…

Uma dezena de expedições, desde o ano fatídico, se propõe a trazer para o convívio da civilização os infelizes exploradores, e cada uma delas trazia em suspenso a opinião do mundo. Passavam-se meses e as desilusões se confirmavam, compensadas com as explicações das reportagens.

Para não nos alongarmos demasiadamente, basta recordarmos apenas as procuras do suiço Rattin, a do jornalista argentino Horácio Fuzoni, e do escandaloso italiano Pensioni, que todos fizeram declarações antecipadas tão espalhafatosas quanto de sinceridade duvidosa.

Não faltaram tampouco os cabotinos que afirmavam saber o paradeiro do Cel. Fawcet, chamado para si a admiração geral e mesmo o ouro — não dos Araés — da família enlutada, algo esperançosa por causa duma sessão espírita que a viúva assistiu.

O certo é que as árvores que ensombram milhares de selvagens, guardam sigilo, sendo de duvidar que revelem o desfecho da malograda aventura.

Ainda há quem tenha coragem de falar, acreditando ingenuamente nas mentiras dos embusteiros, numa descen-dêcia de louros selvagenzinhos de olhos azuis, falando inglês como no Picadilly…

A julgar pelos indícios colhidos por conhecidos e amigos do velho Fawcet, o infeliz coronel não chegou a viajar para muito longe, tendo sido sacrificado com os seus ao penetrar nos domínios dos catequizados bacairis.

Pelos comprovantes deduz-se que, em chegado a expedição às barrancas do Paranatinga que verte as águas para o Xingu, utilizaram-se imprudentemente de uma ubá e remaram rio abaixo, procedimento este que descontentou aqueles índios que os seguiram até matá-los.

Sem muito custo e menos rebuço apareceram no aldeamento Barra dos Bugres, exatamente na estação telegráfica, alguns bacairis com a máquina fotográfica e muitos outros objetos do uso de Fawcet, inclusive roupas, e já houvera aparecido a mula em que êle viajara na fazenda assinalada em que fora adquirida. Assim esta, como tanta dúvida, reduz-se num massacre de três exploradores dos sertões pátrios.

Conhecemos algumas explorações de garimpeiros, em pequenos grupos quase improvisados, que desafiaram a valentia dos xavantes, na maior parte das vezes rebuscando o diamante, em entradas que tinham como finalidade exclusiva o alargamento dos rincões diamantíferos.

Uma dessas foi a de Renato Spinelli, que com a sinceridade natural do garimpeiro nos contou ler avistado de longe, uma meia dúzia de xavantes, que logo sumiram como por encanto.

Levava consigo uma "kodack" e ainda chegou a fotografá-los, bem como a outros flagrantes, os quais foram cedidos a Pensioni, que muito bem os aproveitou em reportagens aos jornais cariocas.

O garimpeiro Antão Néri, acostumado às lidas sertanejas, julgou ter levantado as cortinas das minas dos Araés, cerradas há dois séculos.

Agregando trinta companheiros partiu de Balisa, levando um guia bororó, o qual lhe contara ter atingido o lugar, fazia trinta anos, quando a caça de abundante metal.

O grupo caminhou na rota indicada e, depois de muitos dias de marcha, atingiu a cachoeira da Fumaça, no rio das Mortes, assim batizada pela impressão causada pelo despencar das águas, que se pulverizam e sobem numa cortina de fumo branco irisado pelos raios solares.

Depois das naturais fadigas e contratempo, encontraram os garimpeiros a tapera dos Araés erguida pelos bandeirantes paulistas, patenteada pelos buracos do solo, abandonados instrumentos de mineração e um bananal vasto, restos últimos das plantações de outros tempos.

A presença do metal foi constatada em pequenas lavagens, e tão contente ficou o garimpeiro Néri que arrumou as malas e viajou para o Rio de Janeiro a ver se obtinha do governo privilégios de exploração.

Seria injusto, disse agastado por ciúme aos jornais, que favores venham a ser concedidos, não a mim que cheguei primeiro, porém ao Dr. Morbeck que lá foi ter também em grande comitiva quando eu levantava acampamento.

Como os exploradores polares Scott e Amundsen disputaram a glória de passarem ao Polo Norte, assim o garimpeiro e o engenheiro porfiaram na reta de chegada, ambos convencidos do descobrimento de uma coisa que nenhum dos dois achou, porquanto, se sabe que nas paragens daqueles lados, dezenas de bandeiras acamparam e, por conseguinte, o encontro de taperas nada significa.

Dois anos depois das expedições Néri e Morbeck, viajou Renato Lacerda, garimpeiro do Triângulo Mineiro, levando consigo dez camaradas, por êle convencidos e magnetizados para a façanha que espera seu herói há dois séculos.

Semelhante a Pedro, o Eremita, Renato passou pelas estradas dos garimpos triangulinos, pregando a cruzada

contra os selvagens guardadores do problemático sepulcro de uma poderosa divindade — o ouro.

Em maio de 1939, a dezena de homens, sem grande esforço, alcançava o rio Manso, primeiro batismo do rio das Mortes. Seis burros carregados garantiam o provisio-namento. Caminham algumas semanas, sempre pela margem esquerda. Param em certa altura. Buscam o ouro entre as águas do rio, afirmando o prospector que em poucas horas de trabalho cinco batedores colheram meio quilo de metal!

Bela promessa que deixava antever a vitória da audácia, o triunfo da temeridade sobre os defensores do inacessível ouro!

Os pobres garimpeiros fizeram à semelhança do português do anedotário.

Aquele lugar ainda não merecia os ingentes pesares de tão longa viagem; deram um ponta-pé no primeiro encontro e tocaram para diante. A serra dos Bandeirantes, pouco adiante, esperava-os repleto de ouro, muito ouro!

Nessa expectativa continuaram a penetração que, daí por diante, transformar-se-ia numa odisséia. Sem demora cai a primeira vítima da hipertermia palustre. Cortam rumo para o norte, confiante no bom sucesso. Atingem uma selva espessa como a do poeta florentino, vestíbulo que anunciava as portas do Inferno!

Quarenta léguas vencidas vedam-lhes os passos uns cinquenta xavantes.

Tiroteios a esmo contra flechadas certeiras. O bando se desfalca de mais alguém: Vicente de Paula — em cujo peito crava-se uma flecha.

A loucura prossegue. Na avançada, em que a febre é o menor dos inimigos, galgam uma serra que Renato Lacerda recorda com o nome de Acaba-Vida, porque foi ela o cemitério da totalidade de seuv? companheiros.

Em três dias consecutivos, os xavantes desencadeiam ataques e de cada vez voltam mais atrevidos. Rechaçados nas três primeiras investidas apressam-se na derradeira com duzentos guerreiros.

Não houve precaução, nem superioridade de armas que bastassem. Os caiapós inopinadamente, surgindo das moitas como demônios, emudeciam as bocas de fogo a golpes de borduna desfechados nas frontes dos invasores. Um a um pereceram, menos Renato Lacerda que milagrosamente pôde salvar a pele, embrenhando-se na mata durante um mês, para chegar a Cuiabá, faminto, febril, quase louco pelo sofrimento da fuga perigosa.

Foi este o epílogo de uma noite dos trópicos… São assim os dramas brutos que não se registam, os episódios constantes da vida sertaneja, que não chegam até aos arranha-céus, mas que servem de ensaios à conquista definitiva desta terra encimada pela constelação do Cruzeiro.

Luís Sabóia Ribeiro: Caçadores de Diamantes. Editora Epasar Biblioteca Brasileira de Cultura, Vol. VI, Rio de Janeiro, 1945, pp. 273-281.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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