Carlos Castaneda
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Carta de Carlos Castaneda para R. Gordon Wasson, de 6 de Setembro de 1968

Tradu√ß√£o de Miguel Duclós

Original em inglês

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Wasson e Maria Sabina

Prezado Sr. Wasson

Foi de fato um grande prazer receber a sua carta. Conhe√ßo bem as suas contribui√ß√Ķes profissionais no campo dos cogumenos alucin√≥genos. Fiquei, ent√£o, bastante honrado em ter a oportunidade de discutir este assunto com voc√™.

Você deve levar em consideração, entretanto, que eu não sou uma autoridade no assunto, e que meu conhecimento é limitado estritamente aos dados etnográficos que eu coletei.

Em primeiro lugar, devo lhe dizer que o meu trabalho de campo¬† - e eu j√° afirmei isso na introdu√ß√£o do meu livro¬† - foi feito sobre condi√ß√Ķes muito estritas.Ele nunca foi um trabalho antropol√≥gico propriamente dito, mas antes uma investiga√ß√£o derivada do meu pr√≥prio interesse, e uma vez que meus interesses s√£o "conte√ļdo" e "significado", fiquei absorvido com as implica√ß√Ķes que o sistema de cren√ßas de Don Juan trazem, apesar da grande quantidade de dados que lidam com detalhes etnogr√°ficos espec√≠ficos.

Uma vez que eu estava lidando com sistema de cren√ßas s√©rio e impressionante eu propositalmente ofusquei no meu livro muitos destes detalhes etnogr√°ficos, criando assim uma imprecis√£o na escrita, sem voltar atr√°s para restabelecer um contexto etnogr√°fico¬† melhor. Entretanto, tentarei da melhor maneira responder suas quest√Ķes na ordem em que voc√™ as colocou.

 

P: Estou certo em concluir da sua narrativa que você nunca colheu cogumelos e nem mesmo sequer via uma espécie inteiramente?

Eu mesmo os colhi. Tive talvez centenas de espécies nas minhas mãos.

Don Juan e eu fizemos viagens anuais para colhê-los nas montanhas do sudeste e nordeste do Valle Nacional no estado Oaxaca. Eu apaguei do meu livro todos os detalhes específicos sobre estas viagens e todos os detalhes específicos sobre o processo de colheita.

Don Juan mesmo colocou-se enfaticamente contra meu desejo de incluir estas descri√ß√Ķes como parte do meu livro. Ele n√£o se op√īs aos detalhes espec√≠ficos reveladores sobre a colheita do peiote ou da erva-do-diabo, j√° que acreditava que a divindade contida no peiote √© um protetor, acess√≠vel portanto para todos os homens, e o poder da erva-do-diabo n√£o era seu aliado (alidado). O poder dos cogumelos, em contrapartida, era seu aliado e como tal estava acima de tudo o mais. E isto implicava em segredo total acerca dos processos espec√≠ficos.

P: Você percebeu por si que estava lidando com cogumelo mexicano?

N√£o. Minha identifica√ß√£o bot√Ęnica foi uma tentativa, e portanto terrivelmente pouco elaborada. No meu livro aparece como¬† se fossem Psilocybe mexicanos e temo que isto seja um erro de edi√ß√£o. Eu deveria ter trazido a afirmativa que eram sempre uma tentativa de classifica√ß√£o, uma vez que eu nunca estive completamente convicto de que fossem. As esp√©cies em particular usadas por don Juan pareciam com os Psilocybe mexicano que eu tinha visto. Um membro do departamento de Farmacologia da UCLA tamb√©m me mostrou algumas esp√©cies que tinha, e, baseado nisso eu conclui que estava lidando com estas esp√©cies. Entretanto, nunca se tornaram em p√≥ sem serem manuseados. Don Juan os colhia sempre com a m√£o esquerda, transferia-o para a sua m√£o direita e ent√£o o pinha numa caba√ßa pequena e apertada.. O cogumelo desintegraria em part√≠culas finas, mas n√£o em p√≥, uma vez que era inserido delicadamente para dentro.

P: Você sabe como os cogumelos crescem?

N√≥s os encontramos crescendo em troncos mortos de √°rvores, mas mais freq√ľentemente em restos decompostos de arbustos mortos.

P: Qual é a origem cultural de don Juan?

Don Juan é, ao meu ver, um homem marginal que foi forjado por várias forças exteriores a cultura Yaqui genuína. Seu nome é realmente Juan. Eu tentei achar um outro nome para usar no meu livro, mas eu não conseguia imaginá-lo com outro nome que não fosse Don Juan.

Ele não é um yaqui puro, isto é, sua mãe era uma índia Yuma, e ele nasceu no Arizona. Sua origem miscigenada parece tê-lo tornado em um marginal desde o início.

Ele viveu no Arizona nos primeiros anos de sua vida e então mudou-se para Sonora quando tinha talvez seis ou sete anos de idade. Ele viveu ali por um tempo, não estou certo se com seus dois pais ou apenas com seu pai. Esta foi a época do grande levante Yaqui e Don Juan e sua família foram capturados pelas forças armadas mexicanas e deportados para o estado de Veracruz. Mais tarde Don Juan mudou-se para a área do "El Valle Nacional" onde viveu por cerca de trinta anos.

Eu acredito que ele mudou-se para lá com seu professor, que deve ter sido Mazateco. Até agora eu não fui capaz de determinar quem foi seu professor, nem como ele aprendeu a ser um brujo, ainda que o mero fato de eu ter que levá-lo todo ano para Oaxaca para coletar cogumelos seja um forte indício da localidade onde ele aprendeu, pelo menos acerca dos cogumelos.

Como voc√™ pode ver, me √© imposs√≠vel a esta altura determinar com certeza sua origem cultural, a n√£o ser de uma maneira hipot√©tica. Entretanto, o subt√≠tulo do meu livro √© "o caminho Yaqui do conhecimento". Este √© outro engano em que me envolvi pela falta de experi√™ncia em rela√ß√£o a publica√ß√Ķes. O Comit√™ Editorial da Editora da Universidade da Calif√≥rnia sugeriu, ap√≥s aceitar meu manuscrito para publica√ß√£o, que a palavra Yaqui deveria ser inclu√≠da no t√≠tulo para situar o livro etnograficamente. Eles n√£o leram o manuscrito, mas conclu√≠ram que o que eu disse √© que Don Juan era um Yaqui, o que era verdade, mas eu nunca quis dizer que Don Juan era um produto da cultura Yaqui, como parece ser o caso quando voc√™ l√™ o t√≠tulo do livro. Don Juan considerava-se um Yaqui e parecia ter la√ßos profundos com os Yaquis de Sonora. Entretanto, se tornou √≥bvio para mim agora que esses la√ßos eram apenas uma liga√ß√£o superficial.

Eu n√£o estou bem certo se os cogumelos alucin√≥genos crescem ou n√£o nas regi√Ķes √°ridas de Sonora e Chihuahua. Don Juan nunca procurou por eles l√°, que eu saiba. Ainda que ele tenha afirmado repetidamente que uma vez que o homem aprende a comandar o poder dentro deles, os cogumelos podem crescer em quantos lugares ele queira, isto √©, eles crescem por si mesmos sem sua interven√ß√£o direta.

A primeira vez na vida que eu vi os cogumelos foi em Durango. Eu pensei que n√≥s est√°vamos indo olhar "honguitos", mas nos concentramos colhendo peiote em Chihuahua. Naquele momento eu vi alguns, dez ou doze, talvez. Don Juan disse que eles eram apenas um sinal, e que n√£o havia um n√ļmero suficiente para fazer uso. Neste momento tamb√©m me disse que n√≥s t√≠nhamos que fazer uma viagem para Oaxaca para achar o n√ļmero certo de cogumelos.

Em 1964 eu mesmo achei uma esp√©cie nas montanhas de Santa M√īnica aqui em Los Angeles. Eu os levei para o laborat√≥rio da UCLA, mas por falta de cuidado eles os perderam antes de identific√°-los. Era muito claro para mim que era¬† um cogumelo da mesma esp√©cie usada por Don Juan; naturalmente ele interpretou o evento de ach√°-lo um press√°gio de que eu estava no caminho certo da aprendizagem, mas minhas a√ß√Ķes subseq√ľentes, como colh√™-lo e deix√°-lo com estranhos, lhe resseguraram novamente da¬† minha extrema parvo√≠ce.

P: Você trouxe de volta o pó, ou a mistura, do qual o pó de cogumelo era um ingrediente?

Não, entretanto tenho certeza que posso obter um pouquinho dela, talvez um punhado. Se isso for o bastante para você examiná-la no microscópio eu posso mandar-lhe no final deste ano.

P: Vai haver uma edição em Espanhol do livro?

Eu espero que a editora da Universidade da Calif√≥rnia considere esta possibilidade. Minhas anota√ß√Ķes est√£o todas em espanhol. Na verdade o livro √© quase uma vers√£o em ingl√™s do manuscrito em espanhol.

P: Don Juan dizia "un hombre de conocimiento" ou simplesmente "um hombre que sabe"?

Voc√™ me deu aqui uma informa√ß√£o preciosa. Para definir as condi√ß√Ķes de ser, ou o est√°gio de aprender a ser um "homem de conhecimento" don Juan usou os termos "hombre de conocimiento", "hombre que sabe" e "uno que sabe". Eu preferi o termo "homem de conhecimento" porque √© mais concreto do que "aquele que sabe".

Eu tomei parte das minhas notas em espanhol que mencionavam "o homem que sabe" e as inclui na carta. Espero que estejam leg√≠veis. Estas folhas s√£o uma transcri√ß√£o direta de algumas notas ainda mais ileg√≠veis que eu tomei enquanto Don Juan falava para mim. Via de regra eu sempre reescrevo minhas notas imediatamente para n√£o perder o frescor e o brilho das afirma√ß√Ķes e pensamentos de Don Juan.

P: Don Juan era bil√≠ng√ľe, ou era mais fluente em espanhol do que em yaqui?

Don Juan falava espanhol tão fluentemente que eu tendo a acreditar que seu domínio do espanhol é melhor do que qualquer outra linguagem que ele saiba. Mas ele também fala Yaqui, Yuma, e Mazatec. Acredito que ele também fale inglês, ou que ao menos possa entender perfeitamente, embora eu nunca o tenha visto falando.

P: Você tomou nas suas notas de campo os termos Yaqui equivalentes aos termos que ele usava?

Eu tenho alguns termos que não são espanhóis, mas são muito poucos para que seja feito um estudo sério. Nossas conversas eram realizadas apenas em espanhol e os poucos termos estrangeiros não eram todos palavras Yaqui.

P: Você disse aos seus leitores que ele pode ler e escrever em Espanhol?

Ele lê muito bem. Mas eu nunca o vi escrevendo. Por um longo período eu pensei que fosse analfabeto. Este equívoco de minha parte era resultado das nossas diferenças nas ênfases. Eu enfatizo áreas de comportamento que são completamente irrelevantes para ele, e vice-versa. Esta diferença cognitiva entre nós é o tema que estou tentando desenvolver na biografia de Don Juan que estou escrevendo agora.

N√£o h√° muito o que dizer sobre mim. Sou nativo de S√£o Paulo, Brasil, mas fui para a escola em Buenos Aires, Argentina, antes de vir para este pa√≠s. Meu nome completo √© Carlos Aranha. Seguindo a tradi√ß√£o latina de adicionar o √ļltimo nome da m√£e ao seu nome, eu me tornei Carlos A. Castaneda quando vim para os Estados Unidos. Este sobrenome pertence ao meu av√ī que era da Sic√≠lia. Eu n√£o sei como era originalmente, mas ele mesmo alterou-o para Castaneda para satisfazer seus caprichos.

 

Eu espero ter respondido claramente todas as suas quest√Ķes. Obrigado pela carta.

 

Sinceramente,

Carlos Castaneda