Intencionalidade e Naturalismo
Intencionalidade e Naturalismo
por André Joffily Abath
João Pessoa, 2000
Monografia de Conclusão do curso apresentada para
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Filosofia
PIBIC/CNPq
Intencionalidade e Naturalismo Autor: André Joffily Abath
Orientador: Prof. Dr. André Leclerc
Sumário
- Introdução
- Capítulo
I
A teoria do Conteúdo de Fodor e a Naturalização da Intencionalidade - Capítulo
II
Dennett: Postura Intencional e Evolucionismo - Conclusão Geral
- Bibliografia
Jamais
pensou a mente tanto sobre si própria. Em fins do século XX, ciência e
filosofia trilham uma cruzada em busca de compreender a consciência e suas
capacidades. Três séculos e meio após Descartes, respostas dualistas não mais
são suficientes; quer-se compreender a mente enquanto um fenômeno fisicamente
gerado, que toma parte no mundo físico. Em filosofia, esta postura denomina-se
naturalismo.
Não
obstante as exceções, algumas renomadas, como Karl Popper (1962), há muito a
forma naturalista de compreender a consciência domina a filosofia. Na tradição
que aqui abordaremos, a analítica, anglo-americana, as bases deste estudo
remontam a autores como Sellars e seu Empiricism and Philosophy of the Mind (1956),
Quine, em Palavra e Objeto (1960) e Putnam com Minds and Machines (1960).
Neste
âmbito da filosofia analítica, ou seja, na filosofia da mente, a
intencionalidade sempre foi, das características da consciência, a que mais
despertou atenção. Já nestes autores primordiais o problema se revelava: como é
capaz de um sistema físico produzir intencionalidade? Como veremos no início do
trabalho, este é o chamado problema de Brentano, em referência ao dualismo
afirmado por Franz Brentano, que tomou a intencionalidade como a marca
definitiva da distinção entre mente e corpo.
Dizemos
que um estado mental apresenta intencionalidade quando está por outra coisa,
quando é acerca de outra coisa. Por conseguinte, crenças e desejos são estados
intencionais (Dennett, 1987). Note-se, ainda, que a mente é capaz de
representar o que até mesmo não está no mundo, ou seja, posso, neste momento,
imaginar um monumento imaginário a que chamo de "Obelisco dos Sete
Mares". Apresento um estado intencional, acerca de algo, muito embora este
algo não possa ser encontrado no mundo. Como isto é possível? Como eu, um
sistema físico, posso apresentar estados mentais acerca de algo fisicamente
inexistente? Isto é, como um sistema físico pode ter estados mentais sobre algo
diferente de si próprio? Tem-se apresentado, aqui, neste questionamento, o
problema a ser abordado neste trabalho: como unir naturalismo e
intencionalidade?
Veremos
como este problema foi tratado por dois filósofos contemporâneos: Jerry Fodor e
Daniel Dennett. O primeiro, aluno de Putnam, iniciou, como ele, nos anos 60, em
uma defesa do funcionalismo, buscando compreender a mente sob a forma de um
sistema computacional. Uma década mais tarde, em 1975, mais precisamente, Fodor
publicou The Language of Thought , passando a unir a proposta
funcionalista a uma linguagem de pensamento. A obra que aqui analisaremos, A
Theory of Content and Other Essays (1992), distancia-se destas posturas,
que pouco são discutidas. Mais uma vez caminhando em terreno próximo ao de
Putnam, que três décadas após o formulação do funcionalismo o renegou, Fodor
aproxima-se do externalismo, i.e, a idéia de que os processos internos do
cérebro não são suficientes para determinar o conteúdo mental; necessário é
considerar a relação entre mente e mundo.
Dennett,
embora imerso na mesma tradição de Fodor, tem como base não Putnam, mas sim
Quine, o que torna a obra de ambos diversa. Ao contrário do obra inicial de
Putnam, que discorria sobre estruturas internas do cérebro em busca de uma
compreensão da mente e da intencionalidade, a de Quine é marcada por levar esta
busca adiante de forma pragmática: a utilização do vocabulário intencional
desempenha um papel nas práticas sociais, ajuda o homem a relacionar-se com seu
mundo. Ou seja, a utilização de termos como "acredita que" e deseja
que" ajudam a predizer comportamentos, situações. Rorty, em uma passagem Objetivismo,
Relativismo e Verdade (1997), expõe com clareza este ponto:
|
"Dizer que nós sempre estaremos falando sobre crenças e
desejos, é dizer que a psicologia popular provavelmente permanecerá a melhor
via de predizer o que nossos amigos e conhecidos farão daqui a pouco. Isso é
tudo que alguém pode plausivelmente dar a entender dizendo: ‘Há realmente
entidades mentais’. De maneira similar, a melhor forma de predizer o
comportamento de mesas permanecerá sendo falar sobre elas qua mesas, ao invés
de falar delas enquanto coleções de partículas ou enquanto réplicas turvas da
mesa arquetípica platônica. Isso é tudo que se poderia provavelmente dar a
entender dizendo ‘ Há realmente mesas’" (Rorty, 1997:160). |
Deste
alicerce parte Dennett. Antes de tratar-se de processos internos, necessário é
compreender os estados mentais em seu funcionamento, como parte de relações
sociais. A obra que aqui analisaremos, The Intentional Stance (1987), é
uma coletânea de ensaios de épocas diversas, partindo dos que tratam desta base
que citamos, aos que defendem uma forma de evolucionismo, o que marca uma
reviravolta no pensamento de Dennett. Com efeito, hoje sua obra caminha entre a
filosofia e as ciências cognitivas, sendo um nome popular entre os neo-darwinistas.
O título que melhor marca este momento de Dennett é A Idéia Perigosa de
Darwin (1996). Lá, Dennett analisa a evolução da intencionalidade a partir
da evolução das espécies.
A
linha quiniana da filosofia analítica, que tem seguidores, entre outros, em
Dennett, Rorty e Davidson, é freqüentemente denominada como sendo
"anti-realista". Em linhas gerais, no que tange à filosofia da mente,
este termo, cunhado por Michael Dummett na teoria do significado, designa a
utilização de um vocabulário intencional sem que haja um comprometimento, de
fato, com a existência de tais estados, como vimos acima no exposto por Rorty.
Seu uso cumpre um papel na relação do homem com seus pares e o mundo, ainda que
não haja, rigorosamente falando, estados como crenças e desejos (Rorty, 1997).
Dennett, portanto, jamais afirma que, se mapeado o cérebro, lá se encontrarão
crenças, desejos e coisas do tipo. O termo "anti-realismo", porém, é
problemático. Dennett e Rorty o renegam. O primeiro, prefere considerar-se um
realista, embora não rigoroso, e o segundo, considera-se um
anti-representacionalista. Em nosso trabalho, até uma discussão mais
aprofundada do tema, manteremos Dennett sob a linha anti-realista, buscando ter
claro a distinção entre a sua obra e a de Fodor.
Afinal,
Fodor, por sua vez, assume-se como um realista, considerando que há,
literalmente, estados intencionais como crenças e desejos. Mais: tais estados
possuem poderes causais, podendo causar ações e interferir no mundo. Por
conseguinte, em Fodor, é meu desejo de levantar o braço que me leva a
levantá-lo, não sendo esta relação mero hábito do observador ou façon de
parler . A defesa deste realismo rigoroso permeará a obra de Fodor de seu
início funcionalista até sua teoria do conteúdo, alvo principal de nossas
atenções. Sua busca, portanto, é dupla: possuir uma concepção da
intencionalidade que seja naturalista e, ao mesmo tempo, realista. Isto
significa tomar o vocabulário cotidiano, chamado de "psicologia
popular", de forma literal, e não apenas como possuindo um papel
fundamental em práticas sociais. Quando certa pessoa diz que crê em um p
qualquer, esta crença existe de fato, se faz presente em seus processos
cognitivos internos. Partilhando companhia com Fodor nesta busca está John
Searle, que também adota uma linha naturalista e, ao mesmo tempo, rigorosamente
realista.
Adiantando
minimamente o que virá, a divergência entre Dennett e os realistas se tornará
óbvia quando sua obra adquirir influências evolucionistas. A intencionalidade
passará a ser tomada dentro do processo de evolução natural, como um fenômeno
que se desenvolveu ao longo do tempo, de sistemas mais grosseiros à sistemas
mais complexos. Não haverá uma forma de intencionalidade tipicamente humana,
como crêem os realistas.
A
esta discussão voltaremos ainda de forma detalhada, quando lidarmos com a obra
de Dennett, em um segundo capítulo. O primeiro será dedicado a uma exposição da
obra de Fodor A Theory of Content and Other Essays , tendo como ênfase a
teoria do conteúdo de Fodor, em que ele oferece uma teoria da representação
próxima ao externalismo. Procuraremos, durante este primeiro momento,
clarificar os conceitos nesta introdução utilizados, ainda que sem uma devida
explicitação. Muitos outros surgirão durante o texto, e, à medida que com eles
lidemos, procuraremos defini-los com máxima precisão.
O
segundo capítulo versará sobre a obra The Intentional Stance , de
Dennett. A já exposição dos problemas gerais da filosofia da mente, o
conhecimento prévio do proposto por Fodor, nos permitirão contrapor sua obra a
de Dennett. Com efeito, ao abarcar-se, em uma única pesquisa, Dennett e Fodor,
tem-se, dentro da tradição analítica, duas das posições mais divergentes, ou
seja, tem-se duas abordagens diversas sobre o mesmo problema. São, por assim
dizer, adversários. Isto nos permitirá, ao longo da monografia, tratar de uma
gama de autores que entre ambos se situam. O que buscaremos, além do objetivo
central de análise de duas obras, é expor como a filosofia vem lidando com o
problema da intencionalidade, e, mais que isso, da mente. Autores diversos não
serão citados, mas abordaremos, de forma breve, idéias de Quine, Putnam,
Davidson, Kim, Rorty e Searle. Este esforço é não apenas recomendável como
necessário, pois que estes são nomes indispensáveis ao que propõem Dennett e
Fodor, e impossível seria passar pela obra de ambos sem a estes citar.
Saliente-se,
por fim, que esta monografia é resultado da pesquisa intitulada Intencionalidade
e Naturalismo , orientada pelo Prof.Dr. André Leclerc e financiada pelo
CNPq através do programa PIBIC, de iniciação científica.
Capítulo I
A Teoria do Conteúdo de Fodor e a Naturalização
da Intencionalidade
A
teoria do conteúdo de Jerry Fodor é uma busca por soluções para alguns dos
problemas fundamentais da atual filosofia da mente. É ainda uma discussão com
outras idéias, outras saídas para as mesmas questões. Ao longo dos ensaios que
anunciam sua teoria, o esforço de Fodor é por construir uma teoria da
intencionalidade que seja, ao mesmo tempo, realista e naturalista, que inclua a
mente na ordem natural das coisas preservando sua autonomia. A obra a que nos
referimos é intitulada A Theory Of Content and Other Essays (1992),
sendo formada por uma coletânea de ensaios de diferentes épocas, dando, assim,
uma visão panorâmica do que realizou Fodor durante os anos. Theory Of
Content é dividido em duas partes, uma primeira dedicada à intencionalidade
e uma segunda à modalidade. Aqui, nos debruçaremos exclusivamente sobre a
primeira, dando ênfase a 5 ensaios : Fodor´s Guide to Mental Representation;
Semantics, Wisconsin Style; Theory of Content 1; Theory of Content II e Makind
Mind Matter More . Como já está indicado no início deste parágrafo, o cerne
da obra é dedicado à teoria do conteúdo, e é em direção a ela que caminharemos
a partir de agora. Todavia, antes de trilharmos este caminho, faz-se necessário
a compreensão de alguns conceitos presentes neste âmbito da filosofia.
Caso
queiramos, com um conceito, abranger as questões aqui envolvidas, este será o
de intencionalidade. O termo é de origem medieval, utilizado para designar o
ato de apontar ou direcionar. E esta marca carrega o conceito filosófico. Na
filosofia da mente, como vimos de forma introdutória, intencionalidade significa
estar por outra coisa, possuir relacionalidade (Dennett, 1997). Mais
especificamente, diz-se que são intencionais os estados da mente que são sobre
algo, que se direcionam ao exterior. Com efeito, desejar é desejar algo, crer é
crer em algo. Seguindo esta linha de conceituação, podemos afirmar que
identificamos a intencionalidade, a nível mental, como representação de algo.
Porém, se estendermos o conceito para além do mental, considerando a
intencionalidade de objetos, tais como mapas e receitas, que também estão por
outra coisa, torna-se mais adequado o uso da expressão
"relacionalidade", deixando restrito o emprego do termo
"representação" para o mental.
Quando
Franz Brentano, no século XIX, valeu-se do termo "intencionalidade",
o conceito já possuía as características enumeradas acima. Predecessor da
escola fenomenológica, Brentano definiu a intencionalidade como sendo a
distinção definitiva entre o físico e o mental. Não poderia um sistema físico,
imerso na ordem natural, possuir uma característica que fosse a representação
de algo distinto de si mesmo, do inexistente no mundo físico. A esta marca da
intencionalidade, capaz de representar dragões e cavalos alados, Brentano deu o
nome de "inexistência intencional", expressão advinda do inglês
"intentional inexistence". Note-se que, neste termo, o prefixo
"in"- em inglês a preposição em- não marca uma negação, sendo, na
verdade, um locativo; indica o lugar onde se faz presente a existência dos
objetos, que, neste caso, não se encontram no mundo físico, mas apenas no
âmbito mental. De fato, a "inexistência intencional" é um modo
ontológico de "existir-em", indicando a presença de objetos
unicamente a nível intencional. Em suma, objetos como dragões podem ser
encontrados nos estados mentais e, mais especificamente, nos intencionais, mas
nunca no mundo físico. Segundo Brentano, tal característica seria incompatível
com um sistema físico, que não poderia produzir estados direcionados a algo
distinto de si mesmo. Não poderia, portanto, o mental ser explicado através do
físico, já que estes são distintos.
Com
esta tese, Brentano deixou um legado e um desafio à filosofia: buscar a mente
no mundo natural, entendê-la como parte de um sistema físico. O naturalismo
lançou-se, portanto, a caminho para solucionar o chamado "problema de
Brentano". Embora sobre esta questão debrucem-se todos ligados às ciências
cognitivas, o esforço aqui será de ordem filosófica. O naturalismo, em Fodor e
nos filósofos que a ele se ligam, é tomado de forma conceitual. Com efeito, o
desafio é encontrar condições suficientes para a inserção da mente na ordem
natural.
Embora
já tenhamos restringido o campo de discussão, ainda são por demasiado variadas
as correntes, na filosofia, que se propõem a naturalizar o mental. Buscando um
método de análise da questão, estabeleceremos, aqui, uma linha divisória entre
realistas e anti-realistas. Denominam-se realistas os que, seguindo o
senso-comum, aceitam a existência de estados mentais, tais como desejos e
crenças. Defendem, ainda, a causalidade mental, ou seja, acreditam que os
estados mentais são responsáveis pelas ações do indivíduo, podendo, assim,
interagir com o mundo físico. Mais: um realista toma estes estados como sendo
semanticamente avaliáveis, ou sejam, possuem condições de satisfação. Estas
condições se revelam em uma relação entre estados mentais e mundo, ou seja, um
desejo ou crença será avaliado de forma empírica, podendo ser ou não
satisfeito, ser ou não verdadeiro. Exemplificando: Meu desejo de que pare de
chover será satisfeito se, de fato, a chuva parar e será frustrado caso
continue a chover. Diz-se, portanto, que os estados mentais são semanticamente
avaliáveis porque podem ser satisfeitos ou frustrados, no caso de desejos, e
verdadeiros ou falsos, no caso de crenças. Assim, crer que há um urso polar na
sala ao lado é uma crença falsa, enquanto crer que há uma tela diante de mim é
uma crença verdadeira.
Os
anti-realistas não aceitam tal tese. Negam que seja válida a causalidade mental
e até que haja, rigorosamente falando, estados mentais como desejos e crenças.
A relação de aparente causalidade entre estados mentais e atitudes apenas
refletiria o modo mais simples e eficaz de explicar-se, cotidianamente, uma
gama de comportamentos. Diz-se que é o desejo de levantar o braço que causa tal
ação por ser a explicação mais útil no discurso cotidiano. Leva a um
entendimento do interlocutor sem recorrer ao que se posiciona fora do senso
comum. Da mesma forma, diz-se que terceiros possuem tais crenças e desejos por
ser esta uma forma de predizer suas ações e comportamentos. Ou seja, utiliza-se
o vocabulário intencional, com desejos e crenças, por ele possuir um papel no
relacionamento do homem com seu ambiente (Rorty, 1997).
Todavia,
para adequadamente aproximarmo-nos de Fodor , tal divisão não é o bastante.
Como tantos outros em filosofia da mente, Fodor segue ainda a teoria que por
muito dominou as pesquisas nesta área, a saber, o funcionalismo. Portanto,
neste ponto convém centrar a atenção nas idéias funcionalistas para, em
seguida, percorrer o caminho em direção à teoria do conteúdo.
Funcionalismo
Difundido
a partir do início dos anos 60, o funcionalismo tem em Jerry Fodor, assim como
em Hillary Putnam, um de seus primeiros expoentes. Para o projeto de
naturalização da intencionalidade, o que o funcionalismo oferecia era inédito:
mantinha-se o projeto naturalista do behaviorismo, a ele adicionando relações
causais entre estados mentais, o que resultava em uma causalidade mental
efetiva. Como em outras linhas da filosofia da mente, também o funcionalismo
apresenta divisões. Há o funcionalismo que se une a uma teoria do significado,
representado por autores como Sellars e Harman. Há a corrente de Armstrong e
Lewis, que mantém a base da teoria, mas direciona-se a uma análise dos
conceitos mentais. Aqui, estas linhas não serão abordadas, já que nos interessa
apenas a linha adotada por Fodor: o funcionalismo computacional (Block, 1980).
A
corrente computacional defende que os estados mentais possuem relações causais
entre si e respostas comportamentais. Como no behaviorismo, há aqui impulsos
sensoriais que geram respostas comportamentais. Só que, inserido neste
processo, estão as relações mentais, que se dão sob a forma de inputs e
outputs. Ou seja, receber um input estando em um determinado estado mental, tem
como conseqüência um output e o surgimento de outro estado mental. O
procedimento, aqui, é similar ao de uma máquina de Turing. Em uma máquina
Turing, há uma fita infinita, à esquerda e à direita, e formada por quadrados.
Esta fita é lida por um cabeçote capaz de mover-se à esquerda e à direita, de
apagar e escrever símbolos ( os números 0 e 1). Ao estar com o cabeçote fixado
em um determinado ponto da fita, diremos que a máquina está em um estado
qualquer. Assim sendo, a máquina possui um conjunto de estados, que
representaremos sob a forma S={S1…Sn} . Há, ainda, um conjunto de inputs
I={I1…Im) e outro de ouputs O= {O1…Op). Se a máquina está, por exemplo, em
um estado Sb e recebe um input Ic, ela emitirá um output Od e seguirá para o
estado Se. Neste processo, a máquina, ao emitir um output, pode apagar um
símbolo, escrever outro em seu lugar, deslocar-se, à esquerda ou à direita,
para outro quadrado e nele escrever um novo símbolo (Block, 1980).
Na
versão computacional do funcionalismo, algo similar ocorre no mental. Dado um
conjunto de estados S={S1…Sn}, inputs sensoriais gerariam outputs, criando
variações por este conjunto, ou seja, relações entre estados mentais.
Exemplificando: Estando em um estado mental de sede (Sb), alguém recebe um
input sensorial (Ic), que gerará um output (Id), acarretando outro estado
mental, o desejo de beber água (Se).
Esta
exigência é hoje severamente discutida e boa parte dos adeptos do funcionalismo
não mais o são. Esta é o caso de Hillary Putnam. Um dos criadores da teoria
funcionalista, Putnam é, atualmente, defensor do externalismo, afirmando que os
estados mentais se dão em uma relação mente-mundo, ou seja, as propriedades
intrínsecas não são suficientes para determinar completamente o conteúdo
mental; devemos levar em conta o meio ambiente do sujeito.
A
seguir, trataremos da teoria causal da representação, i.e., do processo de
formação dos estados mentais. Notaremos que a postura de Fodor, neste ponto,
assemelha-se à externalista, requer uma relação mente-mundo. Todavia, Fodor
ainda crê na proposta computacional, recaindo em um problema que brevemente
abordaremos na conclusão deste trabalho. Iniciemos, então, o mapeamento da obra
de Fodor. As questões a seguir estão inseridas nos ensaios Semantics,
Wisconsin Style e Theory Of Content I.
A Teoria Causal da Representação e
o Problema da Disjunção
Com
a expressão "teoria causal da representação" nos referimos a uma
teoria naturalista da representação. O que temos, aqui, é uma relação de
causalidade entre uma representação R e um objeto S. O estado intencional,
portanto, é causado por algo exterior a ele, permitindo-nos afirmar que R
representa S. Note-se que a teoria causal da representação leva em conta uma
interação do mental com algo exterior a ela, e não apenas uma relação causal
ocorrida no sujeito (Papineau, 1994).
Imagine-se
que um indivíduo, diante de um tigre (S), forme uma representação (R) deste
animal. Neste caso, R representa o objeto em sua extensão, sendo este
representação verdadeira. Segundo Dretske, um dos que adotam a teoria causal da
representação, seria possível, neste processo, descobrir-se algo sobre S a
partir de R. O tigre representado mentalmente traria informações sobre o tigre
percebido. Em Dretske, vale a seguinte proposição: R carrega informações acerca
de S, se S, e somente S, causa R for uma lei.
A
teoria causal, porém, é problemática por não lidar adequadamente com o erro na
representação. Considere-se, agora, que um homem, em seu carro, crê avistar, ao
longe, um coelho morto na estrada. Forma uma representação deste coelho.
Imaginando esta diante do objeto que representou, desvia o veículo, evitando
atingi-lo. Entretanto, o que havia na estrada era um urso branco de pelúcia. A
princípio, este exemplo soa como um caso de falsa representação, e, se assim
fosse, a teoria causal não enfrentaria um sério problema. O que ocorre, na
verdade, é que tanto o objeto a que se refere R (o coelho), quanto o urso de
pelúcia, são suficientes para formar uma representação de coelho. De fato, R
representa um coelho ou um urso de pelúcia, ou ainda n possibilidades de
objetos. Note-se que daí surge uma disjunção: R representa SvU, podendo ainda a
disjunção estender-se a inúmeros objetos. O que se conclui deste exemplo é que,
na teoria causal da representação, não há espaço para o erro. Esta dificuldade,
denominada "problema da disjunção", foi tematizada por inúmeros
filósofos, sendo que a teoria do conteúdo de Fodor é uma das soluções propostas
para a questão.
A
primeira proposta que previa eliminar a disjunção foi formulada por Dretske. Em
sua teoria, surge um período de aprendizagem de conteúdos, i.e., um período em
que o sujeito relacionaria o objeto ao seu significado. Aprenderia, por
exemplo, que cadeira significa cadeira e não mesa. Após este período, caso uma
mesa causasse uma representação de cadeira, isto constituiria um erro. Após
formulado o conteúdo, apenas o que a ele fosse extensivo seria verdadeiro.
Estaria, assim, eliminada a disjunção.
Por
apresentar diversos problemas, tal proposta foi refutada. Afinal, o que
determina o momento em que o conteúdo foi definitivamente obtido? Caso, em meu
período de aprendizagem, eu encontre tigres e réplicas de tigres, o que me
garantirá o conteúdo correto? Com efeito, se, durante a aprendizagem, ambos
causassem representações de tigre, o mesmo se daria após este período.
A
seguinte proposta de solução para o problema revelou-se mais consistente.
Trata-se de uma resposta teleológica, que irá levar em conta a função dos
mecanismos biológicos. O que se formula, aqui, é uma distinção entre situações
normais e anormais. Na primeira, os mecanismos agem de acordo com sua função;
na segunda, alguma anormalidade, no meio ambiente, por exemplo, atinge o
processo. Esta distinção permite que se delineie uma linha entre o verdadeiro e
o falso na intencionalidade. De fato, em situações anormais, o erro se daria, e
não uma disjunção.
Detalhando
mais a visão teleológica, temos que um determinado estado mental é causado por
estímulos presentes no ambiente. Entre este estímulo e a intencionalidade,
surgem mediadores internos, a saber, os mecanismos cerebrais. Assumindo que a
seleção natural agiu sobre tais mecanismos, conclui-se que sua função foi por
ela determinada. Os mecanismos biológicos agem de acordo com o que foram
selecionados a fazer. Em situações normais, sua função é satisfeita, em
anormais, não. Primeiro caso, representação verdadeira. Segundo caso,
representação falsa.
Caso
aceite-se a proposta teleológica , defendida por Dennett, Milikan e Papineau,
tem-se não apenas uma saída para o problema da disjunção, mas também para o de
Brentano. A busca pelas funções dos mecanismos é naturalista, inserindo a mente
no processo evolutivo. Contudo, também esta teoria revelou-se problemática. Em
seu Theory Of Content I (1990), Fodor critica a linha teleológica,
afirmando que ela não é satisfatória ao solucionar o problema da disjunção.
Não
obstante, Fodor, em 1984, no ensaio Semantics, Wisconsin Style , ao
lidar pela primeira vez com o problema da disjunção, considerou a teleologia
como sendo a única saída para o impasse criado, como afirma a seguir:
|
" I
see no way out of this: a causal theory must so characterize representation and
normalcy that there is no misrepresentation in normal circumstances. My view
is: if that is the price of a workable theory of representation, we ought
simply to pay it " (Fodor, 1984:48). 1 |
Mais
tarde, ainda antes de sua crítica formulada à teleologia, Fodor já buscava
evitar esta linha afirmando: " I´m not sure that this
teleology/optimality story is false, but I do find it thoroughly unsatisfying "
2 (Fodor
apud Dennett, 1988). Para Dennett, a relutância de Fodor em aceitar a resposta
teleológica advém de seu realismo. Com efeito, tomando-se a linha evolutiva , o
realismo e sua causalidade mental caem por terra, pois as ações do indivíduo
seriam designadas por sua genética. Sabemos, afinal, que Fodor quer não apenas
intencionalidade com naturalismo, mas naturalismo com autonomia do mental.
Retornemos
agora ao problema da disjunção, explicitando a crítica formulada por Fodor. Em
linhas gerais, o que se revela aqui é que, diante de conteúdos ambíguos, a
função do mecanismo biológico é indeterminada, ou seja, nada podemos garantir
sobre ela. Iluminaremos a questão através de um exemplo. Imaginemos um sapo, em
seu ambiente, alimentando-se de moscas e outros insetos similares.
Considerando-se que a função dos mecanismos do sapo é buscar moscas, pode-se
afirmar que o ataque a outros insetos constitui uma situação anormal, um erro.
Assim crêem os defensores da teoria teleológica: a função dos mecanismos do
sapo é o ataque a moscas e, quando isto não se dá, o erro surge. Entretanto,
para Fodor, esta é apenas uma maneira possível de tomar o caso. A história pode
ser contada de outra maneira. Pode-se considerar que a função dos mecanismos do
sapo é o ataque a pontos pretos voadores, e não a moscas. Neste caso, seu
ataque a insetos dos mais variados tipos, inclusive moscas, constituirá uma
situação normal. Segundo Fodor, pouco importa, neste caso, de que maneira é
entendida a função do mecanismo, já que, em uma perspectiva darwinista, é a
sobrevivência do indivíduo que deve ser levada em conta. Alimente-se o sapo de
moscas ou mosquitos pretos, o essencial é que ele ingira o número necessário de
moscas para sua sobrevivência. Caso, neste ambiente, a maior parte dos pontos
pretos voadores forem moscas, ótimo para o sapo. O fato é que este é um caso de
conteúdo ambíguo: moscas ou pontos pretos voadores. E em situações deste tipo,
a função do mecanismo mostra-se indeterminada, podendo a história ser entendida
de mais de uma forma.
A
crítica de Fodor, contudo, também não está livre de seus problemas. Se são
moscas o que o sapo precisa para sua sobrevivência, a função dos mecanismos
biológicos é atacá-las, e não a outros insetos, pois foi a presença de moscas
que levou o mecanismo à seleção natural. Dennett (1987) e Papineau (1994)
seguem esta linha de argumentação, afirmando que a crítica é falha por não
levar em conta o que é útil ao organismo. Papineau afirma que Fodor buscou
identificar a função dos mecanismos pelo viés errado. A pergunta deveria ser
direcionada aos resultados produzidos pela atitude, e não às causas. Este
redirecionamento da questão busca alcançar as condições que, em determinado
momento, acarretaram em vantagens para organismo, levando-o a um processo de
seleção natural. No caso do sapo, estas vantagens são alcançadas na presença de
moscas, e não apenas na de outros insetos similares. Ainda que o sapo, neste
momento, pouco encontre moscas, foram elas que trouxeram vantagens para o
organismo e que geraram um processo de seleção. Obviamente, o ambiente pode
haver mudado e o número de moscas reduzido, o que leva o mecanismo biológico a
ser incitado freqüentemente por outros insetos, incorrendo, assim, em erros
constantes. De fato, a crítica de Fodor soa insuficiente ao afirmar que o sapo,
para sobreviver, precisa ingerir moscas, ainda que sua função não seja
atacá-las, mas sim a quaisquer pontos pretos voadores. Em determinado instante
da história, algum ponto preto voador apresentou resultados vantajosos para o
sapo, levando-o à seleção natural; como, hoje, é de moscas que ele precisa, hão
de haver sido elas, as moscas, as responsáveis por este evento.
Fodor,
porém, não apenas formulou uma crítica à teleologia, como apresentou uma nova
proposta contra o problema da disjunção. Sua saída é não uma teoria do erro,
distinguindo situações normais e anormais, mas sim uma teoria do conteúdo. É
dela que trataremos de agora em diante.
A Teoria do Conteúdo
Antes
de mais, saliente-se que o esforço de Fodor, buscando solucionar o problema de
Brentano, é por construir uma teoria naturalista da intencionalidade. Isto
significa: condições suficientes para que um sistema físico possua estados
intencionais. Ao especificar que precisa de condições suficientes, e não
necessárias, Fodor limpa o caminho para construir seu argumento através de
contrafactuais, afirmando sempre que, em determinado caso, X significaria tal
coisa. Dito isto, comecemos.
Até
o momento, as tentativas em lidar com o problema da disjunção procuraram criar
situações propícias para o erro. Assim é em Dretske, com seu período de
aprendizagem, e na teoria teleológica, com a distinção entre situações normais
e anormais. Em Fodor, o que surge é não uma teoria do erro, mas sim do
significado. Aqui, a diferença estabelecida não será mais entre situações, mas
sim entre informação e significado. Com efeito, um determinado estado
intencional pode possuir um significado distinto da informação que carrega.
Ao
empregarmos o termo "informação", apontamos diretamente para o
aspecto histórico causal da intencionalidade. Portanto, a etiologia da
representação é o elemento distintivo entre informações; etiologias diferentes
geram informações diferentes. Imagine-se que um espantalho causa uma
representação de um homem de braços abertos. A informação, aqui, direciona-se ao
objeto causador da intencionalidade, no caso, o espantalho. Agora, consideremos
que esta mesma representação, homem de braços abertos, foi causada, de fato,
por um homem de braços abertos. Temos que a informação muda; sob esta hipótese,
a representação foi causada por um homem de braços abertos e esta é a
informação presente. Neste exemplo, temos dois estados intencionais que
carregam diferentes informações, mas que possuem o mesmo significado.
O
significado de uma representação pode coincidir ou não com a informação
presente. Em sua determinação, as causas não são levadas em conta, mas apenas
as próprias representações, que, quando idênticas, terão sempre o mesmo
significado, ainda que carreguem informações diferentes. Retomando o exemplo
acima, uma representação de um homem de braços abertos terá o mesmo
significado, quer tenha sido causado por um espantalho, quer por um homem.
Significados iguais, informações diferentes. Há de haver, porém, uma relação
entre ambos, i.e., quando o significado diferir da informação, algo mais
precisa ser dito, em busca de solucionar o problema da disjunção. Note-se que
há uma relação de dependência entre informação e significado. Um estado
intencional não poderia ser causado por uma determinada informação e, ainda
assim, possuir um significado diferente desta, se este significado já não
previamente existisse. A esta relação, Fodor dá o nome de dependência
assimétrica . Expliquemos.
Diante
de um urso de pelúcia, o sujeito só poderá representá-lo como coelho se deste
possuir, previamente, seu significado. Portanto, representações de coelho
causadas por não-coelhos dependem, de alguma forma, de que, no passado, o
sujeito tenha produzido representações de coelhos causadas de fato pelo animal,
garantindo-lhe este conteúdo. Caso não houvessem coelhos no mundo, um urso de
pelúcia não causaria a representação descrita. Segue-se que há uma relação de
dependência entre informação e significado. Com efeito, em Fodor, a informação
é assimetricalmente dependente do significado. Relacionando, aqui, o
problema da disjunção, temos que uma representação de coelho significa sempre
coelho, e não coelho ou urso de pelúcia, porque uma falsa representação depende
de uma verdadeira, i.e., não-coelhos só são capazes de causar uma representação
de coelhos, se coelhos a tiverem causado previamente.
Buscando
clarificar e solidificar ainda mais seu argumento, Fodor sai do âmbito mental
para o lingüístico. Neste caso, a relação de dependência assimétrica se dá, por
exemplo, entre o ato de requisitar um objeto e o de nomeá-lo, conforme afirma
Fodor:
|
" Some
of our linguistic practices presuppose some of our others, and it´s plausible
that practices of applying terms (names to their bearers predicates to things
in their extensions) are at the bottom of the pile " 3 ( Fodor, 1992:97). |
De
fato, ao pedir um parafuso, um operário pressupõe que todos conheçam o
significado do termo a que ele se refere, ou seja, a extensão deste predicado
foi previamente estabelecida. Não foste este o caso, o operário não se faria
entender, a mensagem não seria entendida. Como nos exemplos relativos à
representações mentais, há aqui uma relação de dependência assimétrica que, na
linguagem, se dá entre o uso da palavra e o momento em que sua extensão foi
fixada. O mesmo pode ser verificado se, em um determinado grupo de amigos,
chega-se a um consenso sobre chamar todos os espelhos do mundo de
"léfios". Deste momento em diante, o uso do neologismo "léfios"
possui um significado prefixado; sempre que tal palavra for usada, o grupo
saberá que espelhos é o objeto referido. Como a compreensão deste termo depende
de seu significado haver sido estabelecido, seu uso é assimetricalmente
dependente ao ato de nomeá-lo.
Note-se
que, tomada à luz da linguagem, a dependência assimétrica repousa em um domínio
de regras lingüísticas, de onde seguem-se práticas lingüísticas. De fato,
querer um parafuso e expressar este desejo através da linguagem pressupõe
práticas lingüísticas, o que requer, necessariamente, a existência de regras
lingüísticas; afinal, só assim a mensagem deixa-se ser compreendida pelo
interlocutor. Dito isto, resta-nos encontrar na linguagem uma abertura ao
projeto de naturalização da intencionalidade.
Nas
entrelinhas, Fodor aproxima-se, aqui, de uma postura externalista, i.e., os
estados intencionais dependem de que haja uma relação efetiva entre o mental e
o mundo; é do mundo que procedem as informações a serem fixadas no mental. Para
o sucesso de uma teoria do conteúdo, Fodor requer a existência de uma relação
causal entre símbolos e suas extensões; em suas palavras, requer que "algo
aconteça no mundo". Clarifiquemos o proposto com um exemplo. Embora possa
eu nomear um parafuso de "mior", não há entre este termo e o objeto
uma relação semântica. O que ocorreu foi um processo mental que de forma alguma
alterou algo no mundo. Na prática lingüística, o sucesso de uma mensagem
depende da compreensão do interlocutor, o que, neste exemplo, valendo-se unicamente
do comportamento vocal, seria inalcançável. Contudo, as práticas e regras
lingüísticas não são responsáveis por relações semânticas, mas sim por relações
causais entre o objeto e suas instanciações. São as regras e práticas
lingüísticas que determinam a relação causal entre um parafuso e o uso do termo
na língua, mas não são as regras e sim a própria causalidade que geram
conteúdo. Com efeito, é nesta relação de causalidade que reside a semântica.
Portanto, o conteúdo depende de uma relação efetiva entre símbolos e sua
extensão, independentemente de que mecanismo medeie esta relação. Segue-se que,
para uma relação entre informação e conteúdo, ou seja, de dependência
assimétrica, são estas as condições suficientes.
Neste
ponto, para melhor compreender o argumento de Fodor, é necessário recuar um
pouco e fazer menção à teoria do significado de Skinner. Ao propor que o
conteúdo determina-se em relações causais entre símbolos e suas extensões,
Fodor está seguindo os passos de Skinner, de maneira crítica e livre do
behaviorismo.
Em
seu O Comportamento Verbal (1978), Skinner afirma que uma palavra em
determinada língua expressa uma propriedade que a liga à extensão do objeto. A
palavra "rato", por exemplo, expressa a propriedade de ser um rato.
Isto se dá porque, para alguém que conheça a língua portuguesa, sua resposta
verbal "ratos" está sob o controle de certos estímulos
discriminativos, ou seja, está sob o controle de sua extensão, no caso, ratos.
Na língua em seu uso, a resposta verbal estará sob o controle do estímulos
discriminativos, dando à semântica uma efetiva relação entre símbolo e
extensão. Para que isso ocorra, Skinner prevê um período de aprendizado. Seria
através do reforço que o falante da língua obteria o significado das palavras.
Diante de um rato, o falante seria estimulado a verbalmente responder
"rato" (Fodor, 1992).
Fodor
encontra, nesta teoria, as raízes de seu naturalismo. Contudo, precisa
revisá-la de maneira a atingir o mental. Imagine-se a teoria semântica de
Skinner desprovida de seu período de aprendizagem e de suas respostas verbais.
Substitua-se a resposta verbal por uma resposta mental, ou seja, um pensamento.
Temos, então, que um estado mental expressa uma determinada propriedade.
Retomemos o exemplo acima, agora à maneira de Fodor. Há um estado mental que
expressa a propriedade rato. Este estado está sob o controle de certos
estímulos discriminativos, ou seja, está sob o controle de ratos. De fato,
instanciações do estado mental estão sob o controle de instanciações da propriedade.
Aqui, Fodor pôs de lado o behaviorismo, já que não há períodos de aprendizado
ou reforço e tampouco respostas verbais. Com isto, Fodor não vai de encontro a
crítica de Chomsky a Skinner, a qual afirma que o comportamento verbal não é
uma resposta, mas sim uma ação procedente de um ato voluntário. Todavia, esta
objeção não atinge à semântica de Skinner, permanecendo plausível considerá-la
para além da linguagem.
Essencialmente,
o que a teoria semântica de Skinner considera, com a aprovação de Fodor, é que
o conteúdo determina-se através de uma relação entre símbolos e sua extensão.
Um símbolo expressa uma determinada propriedade, e este fato é possível por
este símbolo estar sob o controle da propriedade, que é a extensão do símbolo.
Sendo que, neste caso, símbolos são estados intencionais. Este processo garante
uma teoria do conteúdo, não importando levar em conta como e através de que
mecanismos esta relação é mediada. Dito isto, retornemos à teoria do conteúdo e
à dependência assimétrica.
Postas
as condições, conclui-se que tudo que é necessário para uma relação de
dependência assimétrica entre informação e conteúdo é o relacionamento entre
símbolos e sua extensão. Anteriormente à disgressão pela teoria de Skinner,
afirmávamos que, na linguagem, a dependência assimétrica obedecia à regras e
prática lingüísticas, embora não fossem elas as responsáveis pela determinação
semântica dos termos, mas sim as relações causais entre linguagem e mundo. O
mesmo aplica-se ao mental. Ainda que inexistam regras onde repouse a
intencionalidade, podemos considerá-la sólida por haver uma relação causal
entre mente e mundo, o que garante, ao mesmo tempo, relações de dependência
assimétrica. Portanto, embora seja implementada por diferentes mecanismos, a
dependência assimétrica encontra na linguagem e no mental as mesmas condições
para sua efetivação.
Causalidade Mental
Após
investigar a formação dos estados mentais em sua teoria do conteúdo, Fodor
segue em direção a outro de seus objetivos: preservar a autonomia do mental. Já
esboçada no título do ensaio - Making Mind Matter More - , a busca aqui
é por manter a causalidade mental, ainda que em um projeto naturalista. Antes
de iniciarmos a exposição das idéias de Fodor, convém explicitarmos alguns
conceitos que freqüentemente surgem ao se tratar deste tema.
- Causalidade Mental : Os estados mentais são
capazes de influenciar o comportamento humano e, conseqüentemente, o
mundo.
- Sobreveniência : Todo estado mental
sobrevém, de maneira sincrônica, à uma base física interna. Segue-se algo
sob a seguinte forma: Um estado mental R, no momento t, sobrevém
necessariamente à uma base física S neste mesmo momento t.
- Epifenomenalismo : O fisicalismo gera a
inércia das propriedades psíquicas, não havendo, assim, causalidade
mental. Similar a Irrealismo Intencional.
- Ciência básicas : Relativo às ciências
físicas, como física e química.
- Ciências especiais : Relativo às ciências
não-básicas, como a psicologia.
- Leis estritas ou basais : Leis das ciências básicas.
- Leis Psicológicas ou
intencionais :
Leis que regem o mental. Fazem parte das ciências especiais.
Dados
estes conceitos, estamos prontos para investigá-los em suas inter-relações.
Relações estas que, em Fodor, devem garantir o naturalismo e, ao mesmo tempo, a
causalidade mental. Mas o que aconteceria se o projeto naturalista não pudesse
ser unido à causalidade mental? Para Fodor, algo terrível, como
afirma a seguir:
|
" If
it isn´t literally true that my wanting is causally responsible for my
reaching, and my itching is causally responsible for my scratching, and my
believing is not responsible for my saying, (…), if none of that is literally
true, then practically everything I believe about anything is false and it´s
the end of the world " 4 ( Fodor apud Kim, 1998:32). |
De
fato, negar a causalidade mental é posicionar-se de maneira contra-intuitiva, o
que não significa que, na sua inexistência, a humanidade iria comportar-se de
maneira alterada. Grande parte de nossas intuições, de nossa maneira de
interpretar o mundo, foram já derrocadas pela ciência, o que terminou por gerar
uma diferenciação entre a imagem científica do mundo e a imagem compartilhada
pelo senso comum. Não obstante, a existência de uma interpretação contra-intuitiva
da realidade não atingiu o homem em seu cotidiano. Caso fosse a causalidade
mental, em uma outra imagem, causalidade física, é provável que o mesmo se
daria. Porém, Fodor não só crê na folk psychology ,a psicologia do senso
comum, como a considera o maior passo intelectual dado pela humanidade. Negá-la
seria um retrocesso, ou o fim do mundo. Esta é a convicção inseparável do obra
de Fodor, o que não é o bastante; ele precisa e busca condições suficientes
para que o mental tenha influencia sobre mundo.
Neste
caso, condições suficientes significa garantir que estando em um estado mental
determinado –desejo de levantar o braço, por exemplo- algo daí possa ocorrer.
Fossem as condições necessárias, algo teria de ocorrer, não havendo o caráter
de possibilidade. Buscando tais condições suficientes, Fodor afirma a
existência de leis psicológicas causais. Segue-se que uma propriedade
intencional é causalmente responsável se for projetada por leis causais.
Portanto, um evento mental deve ser subsumido por uma lei causal, podendo,
assim, ter influência no mundo. Nas palavras de Fodor: " P
is a causally responsible property if it´s projected by a causal law "
5 ( Fodor, 1992:143).
Seguindo
esta proposta de Fodor, meu desejo de levantar o braço, por exemplo, poderá
fazer-me levantá-lo, afinal este desejo é a aplicação, está subsumido por uma
lei causal intencional. Com efeito, a existência da causalidade mental termina
por resumir-se à existência de leis causais psicológicas. Para Fodor, tanto as
leis básicas quanto as psicológicas são casualmente responsáveis, embora algo
difira entre elas. Ao tratar de leis básicas, não é necessário que se
investigue as suas aplicações, ou seja, a maneira através da qual um evento
termina por causar outro. Porém, quando lidamos com leis psicológicas, algo
precisa ser dito sobre o processo que leva um evento mental a causar um físico.
Aqui,
Fodor reafirma seu funcionalismo, definindo os processos mentais como sendo
processos sintáticos. Todavia, disto não se segue que sejam igualmente
sintáticas as leis psicológicas; estas são intencionais. São sintáticos os
mecanismos através do qual estas leis são implementadas. Inserindo isto na
projeto de causalidade mental, temos que processos mentais sintáticos
implementam leis psicológicas, intencionais, que, quando aplicadas, poderão
causar uma resposta comportamental.
Muitos,
como Stephen Stich (1994), consideraram a proposta de Fodor como sendo mais um
caminho que desembocaria no epifenomenalismo. Haveria um conflito entre a
afirmação de que os processos mentais são sintáticos e a de que há leis
intencionais causais. Estas duas propostas não poderiam coincidir. Ou processes
mentais sintáticos, o que geraria a inércia do mental, ou leis intencionais
causais. Para Fodor, este conflito é ilusório, como afirma a seguir:
|
" It´s
a confusion to suppose that, if there´s a law, then there needn´t be an
implementing mechanism; and it´s a confusion to suppose that if there´s a
mechanism that implements a law, then the properties that the law project are
causally inert. If you take great care to avoid both these confusions, you
will be delighted to see how rapidly epiphobia disappears " 6 ( Fodor, 1992:146). |
Temos,
por fim, leis intencionais causais, requisito para a causalidade mental, e um
processo de implementação destas leis. Resta-nos saber por que a causalidade
mental requer leis intencionais causais. Caso não houvessem tais leis, o que
ocorreria com a causalidade mental? Ao responder esta questão, percorreremos
outras teorias que, como a de Fodor, se propõem a preservar a autonomia mental,
porém, com uma diferença básica: a inexistência de leis psicológicas.
Nesta
linha, a mais famosa proposta é de autoria de Davidson, com seu "monismo
anômalo". Aqui, há, como em Fodor, causalidade mental, sendo o âmbito
mental sobreveniente ao físico. Todavia, não há leis próprias do mental, ou
leis psicológicas. Resta, para o mental, ser coberto por leis físicas,
estritas. Com efeito, a causalidade mental é possível se instanciada por leis
estritas. Se em Fodor meu desejo de levantar o braço possui força causal devido
à leis psicológicas, em Davidson isto deve-se à existência de leis estritas que
regem o mental. O problema que daqui decorre é facilmente visualizável. Se não
existem leis particulares para o mental, se tudo que há são leis que regem o
físico, parece ser possível eliminar o mental sem que nada seja alterado na
relação homem-mundo (Kim, 1998). Variemos o exemplo, imaginando, desta vez,
alguém que deseja tomar um copo de vinho. Se não há leis próprias do mental,
este em nada contribui para a realização do desejo. Elimine-se, então, o
mental. Ainda assim o desejo pode influenciar o mundo, afinal, são as leis
físicas que possuem poderes causais e, mesmo sem qualquer evento mental, elas
continuam a ser instanciadas. Em Fodor, esta hipótese não é válida. Se há leis
próprias do mental, e se são elas as responsáveis pela influência do homem no
mundo, a eliminação do mental acarretaria também na eliminação desta
influência. Em Davidson, permanece a causalidade, mas a física, não a mental.
Esta
crítica atinge não a Davidson isoladamente, mas a inúmeras teorias fisicalistas
que afirmam ser a causalidade mental regida por leis físicas. Jaegwon Kim
(1998) afirma que até mesmo a tese da sobreveniência, explicitada acima e base
para grande parte das teorias mente-corpo, apresenta problemas relacionados à
causalidade mental. Segundo a tese da sobreveniência, todo estado mental
sobrevém à uma base física, o que dá a esta base o caráter de determinação.
Mesmo um estado mental aparentemente gerado por outro, anterior a ele, seria,
na verdade, resultado de uma nova base física . Exemplifiquemos. Disputando uma
partida de futebol, certo jogador é atingido no joelho. Sua dor é intensa. Ao
levantar-se, sente-se tomado por um intenso desejo de vingança . Temos, aqui,
um primeiro estado: o de dor. O segundo estado, o desejo de revidar a agressão,
é subseqüente e tem, aparentemente, o primeiro como base. Só que, para Kim, não
há uma relação entre um evento mental e outro, mas sim dois eventos mentais com
diferentes bases físicas. A dor teria uma base física e o desejo de vingança
outra, sendo estes estados independentes. Isto se dá porque, para Kim, é inaceitável
que se recorra a uma propriedade não física como forma de explicitar a
existência de um evento mental. Seguindo esta linha de argumentação temos, mais
uma vez, uma forma de epifenomenalismo. Se não há relações entre os eventos
mentais, se cada evento mental é gerado e regido por leis físicas, retire-se o
mental e nada no mundo será alterado.
Para
Fodor, o problema não está na relação de sobreveniência, como afirma Kim. É a
inexistência de leis psicológicas que acarreta a inércia do mental, conforme assegura
abaixo:
|
" There
must be laws about such things, including, in particular, laws that relate
beliefs and desires to another and to actions. If there no intentional laws,
then there is no intentional science " 7 ( Fodor, 1992:). |
Portanto,
as leis psicológicas cobrem não apenas a relação mente-mundo, como também a
existente entre estados mentais. Seguindo Fodor, o exemplo dado acima seria
destituído de problemas, já que a dor seria causalmente responsável um novo estado
mental.
Sobre
as leis psicológicas, resta-nos dizer que são leis ceteris paribus, ou seja,
sustentam-se quando tudo o mais é igual. Portanto, algo da seguinte forma pode
ser afirmado: A causa B, ceteris paribus, é uma lei. A condição ceteris paribus
vale não só para estados intencionais, mas para qualquer ciência especial. Com
isso, Fodor encerra sua explanação alcançando seu objetivo: uma teoria que
garanta a causalidade mental.
Conclusão – Capítulo I
Após
analisarmos os ensaios que compõem a primeira parte de A Theory of Content
and Other Essays , temos que Fodor dá por alcançado seus dois objetivos:
construir uma teoria da representação naturalista, que lide com o problema da
disjunção, e outra, também naturalista, capaz de preservar a causalidade
mental.
Ao
tratar da formação das representações mentais, em sua teoria do conteúdo, Fodor
vale-se de relações mente-mundo, sendo estas determinantes do conteúdo da
representação. Como vimos, tal se dá através de uma divisão entre informação e
significado. Estados mentais podem carregar informações diferentes mas
possuírem o mesmo significado. Por exemplo, ao ver-se um gato no escuro e
tomá-lo por um coelho, tem-se uma informação ´gato´, porém, o significado é
´coelho´, já que este foi o representado mentalmente. A informação possui um
aspecto histórico causal, direciona-se, de fato, ao causador do processo
representacional. Já o conteúdo dirigi-se unicamente à representação em si. A
relação entre ambos é de dependência assimétrica.
Em
busca de seu outro objetivo, a preservação da causalidade mental, Fodor
estabelece leis próprias do psicológico, ou leis causais psicológicas. Para
tanto, precisa de um processo de implementação destas leis, que ele afirmará
ser computacional e sintático, mantendo-se funcionalista. Note-se que sintático
é apenas o processo de implementação das leis, sendo elas próprias
intencionais. Todavia, como afirmamos ao início deste texto, o funcionalismo
computacional requer propriedades mentais internas. São estas propriedades que instanciarão
os inputs que terão como resposta novos estados mentais e respostas
comportamentais. Parece excluir-se, aqui, qualquer relação mente-mundo como
base para representações. Estas se dariam graças à propriedades puramente
internas. Fodor, porém, como vimos no parágrafo acima, passa a defender, com
sua teoria do conteúdo, que as representações mentais são produto de uma
relação mente-mundo, de uma relação entre informação e significado. Como unir
esta postura informacional com uma outra funcionalista computacional, que lida
unicamente com propriedades internas? Em The Elm and The Expert (1994),
Fodor lidará com o problema. Aqui, por fugir ao escopo deste trabalho, não
abordaremos esta obra, mas sua conclusão é de que existe, de fato, uma
possibilidade de unir funcionalismo computacional com uma posição
informacional, desde que não haja condições suficientes para a instanciação de
propriedades intencionais.
O
objetivo central de Fodor é a naturalização da intencionalidade, e é tendo este
marco em vista que mantém seu funcionalismo computacional e, ao mesmo tempo,
constrói uma teoria da representação que relacione mente-mundo. Ambas
encaixam-se em um projeto naturalista, o que para Fodor é, como a causalidade
mental, o alicerce de qualquer filosofia que se proponha a investigar a mente.
Ou seja, ou naturalização e causalidade mental, ou nada.
Capítulo II
Dennett: Postura Intencional e Evolucionismo
Após
uma passagem pela obra de Fodor, convém expor o que propõe Daniel Dennett,
filósofo a ele ao mesmo tempo próximo e distante. Como vimos, este é um nome
constantemente presente na obra de Fodor, sendo o contrário também verdadeiro.
A relação, aqui, é de adversários, defendendo posições, em muitos aspectos,
opostas e não-conciliáveis. Ainda assim, ambos partem do mesmo ponto, o
problema de Brentano, e têm na naturalização da intencionalidade um objetivo
comum. Os caminhos, porém, são distintos, e, à medida que avancemos na obra de
Dennett, ficarão claros os pontos de concordância e discordância com Fodor.
Aqui,
a obra de Dennett a ser analisada será The Intentional Stance (1987).
Como Theory Of Content (1992), de Fodor, Intentional Stance é uma
coletânea de ensaios escritos em épocas diversas, e, muitas vezes, seguidos de
reflexões elaboradas para a publicação desta obra. São, ao todo, dez ensaios,
sendo oito deles previamente publicados e aqui acrescidos com um comentário
posterior. Os dois restantes são inéditos e marcam uma renovação no pensamento
de Dennett, o início de uma linha de pesquisa que é seguida até os dias atuais,
uma união entre sua filosofia anterior e bases evolucionistas. Tendo em vista o
ponto central deste trabalho, a naturalização da intencionalidade, trataremos
de seis ensaios: True Believers ; Three Kinds Of Intentional
Psychology ; Beyond Belief ; Intentional Systems in Cognitive
Psychology : The "Panglossian Paradigm" Defended ; Evolution,
Error and Intentionality e Mid Term-Examination : Compare and Contrast .
Faça-se
notar que, ao contrário de Fodor, Dennett não tematiza, nesta obra, a
naturalização da intencionalidade. Seu naturalismo permanece nas entrelinhas,
como uma hipótese que será a base de sua teoria intencional. A Intentional
Stance , que traduziremos por "postura intencional", é o outro
porto seguro e alicerce de Dennett, percorrendo toda a sua obra, dos momentos
em que se volta para a filosofia da linguagem aos que mergulha nas ciências
cognitivas.
Todavia,
antes de uma explicitação da postura intencional, é necessário situá-la na
tradição da filosofia da mente e da linguagem. Adotando tal procedimento,
começaremos, na verdade, pelo fim. Em Intencional Stance , o último dos
ensaios, intitulado Mid Term-Examination : Compare and Contrast é
dedicado a tarefa de localizar a obra de Dennett em uma tradição da filosofia.
Neste início, tentaremos perseguir este mesmo objetivo.
Para
tanto, precisamos nos remeter, mais especificamente, a W.V.O Quine, que abriu
as portas para um estudo da mente nos moldes do que realiza Dennett. Quine, a
princípio, respondeu ao problema de Brentano de forma eliminativista: uma
ciência do intencional seria vazia, sem bases. Não haveria uma tradução
possível do idioma intencional para a linguagem das ciências físicas (Dennett,
1987). Brentano concordaria com esta impossibilidade, afinal, buscava o
intencional de forma dualista, sem bases físicas. Quine, ao alegar a
irredutibilidade, indica o caminho oposto; não há bases seguras para se lidar
com a intencionalidade.
O
próprio Quine, porém, em Palavra e Objeto (1960), adota uma postura
menos extrema, pragmatista, considerando o idioma intencional como um
instrumento necessário, quase indispensável, na relação do homem com o mundo.
Não haveria, rigorosamente falando, fenômenos intencionais, como crenças e
desejos, mas seu uso cumpriria um papel próprio dentro da linguagem. De fato, a
utilização de um vocabulário intencional está inserido na relação do indivíduo
com o mundo e com outros indivíduos, sendo uma necessidade prática, um
instrumento apropriado para que se atinja determinados fins. Para uma
aproximação do mental, o uso mais pertinente do idioma intencional está em sua
capacidade de supor os estados intencionais em terceira pessoa, de outro
indivíduo. Temos, que, dadas certas circunstâncias, um indivíduo, ou entidade
qualquer, deve ter tais crenças e desejos, i.e, supomos crenças e
desejos que, em determinado caso, o organismo deve ter. Denomina-se este
uso de princípio normativo. Em uma variação desta postura, um indivíduo, ao
buscar uma interpretação, suposição, para os estados intencionais de outro
organismo, imagina que crenças e desejos ele próprio teria na circunstância
dada, ou seja, "põe-se" no lugar deste organismo. Esta postura é
denominada princípio projetivo. Em ambas, dá-se um jogo de interpretação. Em
Quine, a necessidade é deste jogo, e não da intencionalidade em si mesma.
Veremos
que, em Dennett, a postura intencional é similar ao proposto por Quine, é
também uma forma de jogo. Com efeito, este posicionamento pragmático é base de
toda a linha dita "não-realista" da filosofia da linguagem e da
mente, embora Dennett rejeite esta classificação, como veremos. Incluem-se,
aqui, filósofos como Davidson, Rorty e, em certos momentos, Putnam. Em
contrapartida, jamais Fodor deixou-se seduzir por esta forma de pragmatismo,
permanecendo um realista, considerando a existência de crenças, desejos e suas
conseqüências no mundo. Tem-se, portanto, que o modo de se lidar com os estados
intencionais, é, em última instância, a linha fronteiriça entre realismo e
não-realismo, como resume Dennett:
|
" Just
about everyone accepts the Brentano irreducibility thesis, but if one accepts
it primarily for Quine´s reasons, one will not be inclined to be a (strict)
realist about attributions of propositional attitude, and hence will not be
inclined to be a realist about psychological content " 8 ( Dennett, 1987:345). |
Reconstruídas
as bases que percorrem a obra de Dennett, iniciemos a análise de seu Intentional
Stance, partindo do conceito de postura intencional, suas conseqüências e
objeções, buscando atingir o aspecto evolucionista das idéias de Dennett, o que
acarretará em uma distinção entre intencionalidade original e derivada.
A Postura Intencional
De
forma direta e resumida, a postura intencional é uma forma de predizer o
comportamento de entidades, tratando-as, para tanto, como agentes racionais e
possuidores de crenças e desejos. Entidades, aqui, podem ser artefatos,
animais, pessoas e mais uma gama de coisas que, dependendo do contexto e do interesse
de quem adota a postura intencional, podem ser antropomorfizadas (Dennett,
1997). Se busco, por exemplo, prever o comportamento de meu cachorro diante de
um estranho, afirmo que ele gosta ou não gosta de determinada pessoa, que
possui "crenças" e "desejos" acerca dela; o tomo como
dotado de racionalidade, lhe suponho estados intencionais. Note-se que, como no
proposto por Quine, esta postura é uma forma de se relacionar com o mundo, útil
e recorrente na vida cotidiana, adotada em busca de um determinado fim.
Todavia,
há, além da postura intencional, outras formas de se predizer o comportamento
de determinadas entidades, como a postura física e a postura de
planejamento . Na primeira, prediz-se o comportamento do objeto em vista
através de um prévio conhecimento de sua constituição física e das leis da
física que o regem. Exemplificando: se busco uma explicação de por que a água
congela-se, valerei-me da física para explicar o fenômeno; se quero prever o
comportamento de uma pedra lançada ao ar, o farei lançando mão da lei da
gravidade. Nestes casos, não é prático a atribuição de crenças e desejos. Já há
uma explicação adequada e precisa para estes fenômenos. Segundo Dennett, a
postura física é a única maneira de se predizer o comportamento do que é inanimado
e não é artefato. Para muitos, é esta postura que deve reger o estudo da mente;
deveria-se partir de uma compreensão física do organismo para, em seguida,
predizer seus atos.
A
terceira estratégia citada, a de planejamento, é, assim como a intencional, de
uso cotidiano e contínuo. Trata-se, aqui, da capacidade que possuímos de lidar
com determinados artefatos ainda que desconheçamos suas propriedades físicas.
Supomos que o objeto foi projetado de determinada maneira e assim predizemos
seu comportamento. Após uma certa experiência com aparelhos eletrônicos, por
exemplo, deixa de ser necessário o uso de manuais, ainda que nos deparemos com
um sistema jamais visto. Seguindo uma série de observações, tentativas,
chega-se a conclusão que determinado botão liga o aparelho, enquanto outro é
responsável por seu volume. Na postura de planejamento, supõe-se que o artefato
foi projetado de determinada maneira e que, realizando certa ação, ele
funcionará corretamente. Não obstante, é uma estratégia mais arriscada que a
física, lidando com uma margem de erro. Um despertador pode não tocar, embora
eu o tenha programado de forma adequada, assim como um software pode não abrir,
embora instalado de forma correta. Dennett estende, ainda, o uso da postura de
planejamento a objetos biológicos, como corações, pulmões, que, embora não
sejam artefatos, possuem um proceder passível de ser predito ainda que se
ignore determinados detalhes técnicos.
Claramente,
a postura intencional revela-se mais arriscada que a de planejamento, já que
procede com suposições fictícias, tomando objetos em geral como providos de
intencionalidade. Seu uso surge quando o sistema é demasiadamente complexo para
ter seus atos preditos pelas duas posturas anteriores. É o caso de outros
animais, de certos artefatos e de seres humanos. A postura intencional, em
relação a homens, é uma forma de acessar, ainda que de forma hipotética, a
mente de outrem, imaginando seus estados intencionais em determinado contexto e
, assim, tornando possível predizer seu atos no momento. Neste processo, certas
regras fazem-se notar. Quando busca-se acesso às crenças e desejos de
determinado sistema, supõe-se que ele deve ter determinados estados
intencionais, considerando-se o contexto, a estrutura do sistema e sua biografia.
Seus atos, por conseguinte, são os que seriam racionais em um sistema dotado de
tais crenças e desejos, em dado contexto. Em artefatos, o procedimento é o
mesmo: em uma situação x, o objeto deve possuir tais crenças e desejos e,
conseqüentemente, deve proceder de tal maneira. Aqui, o exemplo mais querido a
Dennett remete a uma partida de xadrez entre homem e máquina. Ao disputar com
um computador, o homem, adotando a postura intencional, deve considerá-lo como
um agente racional desejando , como ele, vencer e, também como ele, sabendo
as regras do jogo. Isto elimina as possibilidades de, em determinado
momento, a máquina realizar uma jogada bisonha. Ela quer vencer. O homem
deve, por isso, restringir as possibilidades de jogadas as que condizem como
este desejo, ou seja, a máquina fará o melhor movimento. Funciona. Isto
acontece, segundo Dennett, por ser o computador um sistema intencional.
Sistemas intencionais são, portanto, todos os que tem o comportamento passível
de ser predito adotando-se a postura intencional (Dennett, 1997).
Ao
considerar as crenças e desejos que um sistema deve ter , em dada
situação, Dennett já aproxima-se de uma postura evolucionista, que, mais tarde,
será predominante em sua obra. Uma das pilastras para o funcionamento da postura
intencional está na consideração de que as crenças do sistema são naturalmente
verdadeiras, considerando-se o contexto em que está posto. Crença verdadeira,
aqui, refere-se ao estado normal de um sistema, realizando o que lhe é natural
em sua relação com o ambiente. Encontramos em Davidson (1986), a afirmação de
que "as crenças de um sistema são por natureza geralmente
verdadeiras", frase que está em perfeita sintonia com o proposto por
Dennett. Também Rorty (1997) partilha desta posição, tomando crenças como
adaptações de um sistema ao seu ambiente e não representações da realidade. Um
sistema tende a ter crenças verdadeiras porque busca lidar com a natureza de
forma que lhe seja favorável, lhe traga vantagens, contribua à sua
sobrevivência. Ao supor-se que um organismo ou artefato possui determinada
crença, visa-se aspectos que lhe seriam vantajosos. Este predizer funciona por
serem os estados intencionais naturalmente verdadeiros, ou normais em um
determinado contexto. A falsidade de uma crença passa a ser uma anormalidade na
relação entre um sistema intencional e o mundo, algo que escapa à ordem natural
das coisas. É uma postura que, visa, por fim, as funções do sistema, realizando
o que lhe foi designado. Ao tratarmos do problema da disjunção, apresentamos
esta teoria como sendo teleológica . Mais a frente, retornaremos a este
mesmo problema e a esta mesma teoria de forma mais abrangente.
- Postura Intencional como Forma
de Instrumentalismo
A
objeção mais clara à postura intencional afirma que há de haver abismos de
diferenças entre artefatos, animais e seres humanos. Para um realista, como
Fodor, nós possuímos, de fato, crenças e desejos; são eventos internos
indiscutivelmente presentes. O mesmo não pode ser dito de artefatos, que
possuem, como definiu Searle (1983), intencionalidade como se , i.e, os
supomos como possuidores de intencionalidade por uma necessidade pragmática,
mas os homens apenas possuem estados intencionais como crenças e desejos.
Dennett, todavia, considera esta distinção mística, atribuindo aos seres
humanos algo dele próprio, não encontrado em nenhum outro lugar da natureza.
Para ele, a princípio, todos os sistemas intencionais possuem crenças,
sendo crença nada mais que um estado passível de ser predito pela postura
intencional. Crença, portanto, toma um significado diverso do adotado por
Fodor, realistas em geral e pela psicologia popular; deixa de ser um privilégio
humano.
Até
aqui, temos uma consideração claramente instrumentalista, anti-realista, dos
estados intencionais: eles não existem de fato, são apenas considerados tendo
em vista determinado fim. Contudo, Dennett considera a necessidade de estados
internos, o que adiciona um novo elemento à sua posição. Isto não significa que
sua noção de estados internos seja idêntica a de um realista, ao contrário, ela
reafirma uma forma de anti-realismo. Considere-se um termostato. Tal artefato
pode ser designado a adequar a temperatura de um determinado recinto. Para
tanto, ele possui uma determinada estrutura interna que o torna capaz de
distinguir o quente do frio. Caso enriqueça-se o artefato, dotando-o de um
aparelho visual e auditivo, sua estrutura interna será alterada, acompanhada
por sua representação do mundo. O termostato poderá, agora, identificar a
temperatura do recinto até mesmo pelas vestimentas ou conversas de quem nele se
faz presente. Pode-se dizer, portanto, que, devido a uma alteração na estrutura
interna do artefato, ele possui agora novas crenças, representações sobre o
mundo. Para Dennett, estados internos não são algo de místico e misterioso,
são, na verdade, estados estruturais de um sistema, determinando sua
representação do mundo e seu comportamento. Mais complexo sejam estas
estruturas internas, mais complexo o sistema. Reside aí a distinção entre
artefatos, animais e homens: são sistemas com diferentes graus de complexidade
interna, como afirma Dennett:
|
" There
is no magic moment in the transition from a simple thermostat to a system
that really has an internal representation of the world around it. The
thermostat has a minimally demanding representation of the world, fancier
robots have more demanding representations of the world. Finally you reach us
" 9 ( Dennett, 1987:32). |
Temos,
enfim, graus de complexidade entre os sistemas, e não um sistema com algo a
mais que todos os outros. Mais a frente, retomaremos a discussão entre realismo
e anti-realismo, tema recorrente na obra de Dennett. Adiantando minimamente o
que está por vir, a distinção final entre ambos só será feita a partir de uma
forma de evolucionismo, o que acarretará em uma divisão entre intencionalidade
original e derivada, estabelecendo uma fronteira a mais no âmbito da filosofia
da mente. Antes, porém, analisaremos as relações entre a chamada
"psicologia popular" e a postura intencional.
- Psicologia Popular e Sistemas
Intencionais
Por
psicologia popular, entende Dennett uma maneira de se relacionar com o mundo,
de obter do mundo determinados fins. É uma forma de compreender determinados
comportamentos, de prever atos variados. Ao buscar-se, através da psicologia
popular, resposta para o funcionamento de determinados sistemas, tem-se como
resultado uma resposta conceitual . Privilegia-se a ação do sistema no
mundo, remetendo o olhar para seu comportamento cotidiano, prático. Pode-se
visualizar este processo elaborando a seguinte pergunta: o que todos os imãs
têm em comum? Resposta conceitual: todos atraem ferro. (Dennett, 1997).
Trata-se da maneira que percebemos o sistema agir diariamente, por observação e
hábito. A resposta conceitual é, portanto, própria da psicologia popular. Em
contrapartida, pode-se responder à mesma questão acerca do imã de forma
reducionista: todos os imãs possuem uma determinada propriedade física, senda
esta a responsável pela atração do ferro. Esta forma de lidar com perguntas
desta natureza foi denominada por Fodor (1975), e seguida por Dennett, como
resposta causal . A direção tomada é em busca das causas do evento, e
não de seu agir.
No
estudo da mente, tal distinção revela duas posturas opostas: a compreensão da
consciência, intencionalidade, através de suas ações no mundo e a pesquisa
engendrada de forma reducionista, investigando a consciência em seus processos
físicos. Dennett, claramente, caminha adotando a primeira postura, embora
considere a possibilidade de que ambas se complementem. A psicologia popular,
em muitos casos, funciona, podendo ser o primeiro passo para uma compreensão
reducionista. Com efeito, como sugere Dennett, deve-se, primeiramente, voltar-se
para o comportamento cotidiano do que se busca compreender. Após uma
investigação desta natureza, torna-se mais claro o objeto de pesquisa e, a
partir daí, pode-se lidar seriamente com a possibilidade ou não do
reducionismo. Esta metodologia norteará a obra de Dennett em todos os seus
momentos: das ações do sistema para suas propriedades internas, jamais o
contrário. Cientistas cognitivos, como Francis Crick (1995), e filósofos a eles
ligados, como Paul e Patricia Churchland (1995), tendem a considerar esta
estratégia tempo perdido. Se, ao final, teremos que adotar uma redução, melhor
é iniciar desde já, como afirma Crick : " Por que não olhar para dentro
da caixa negra e observar como seus componentes de comportam? Não é sensato
procurar resolver um problema difícil com uma mão atada atrás das costas "
(Crick, 1995:36).
Dennett,
pragmaticamente, apega-se a aspectos sociais que, cotidianamente, funcionam, e
acredita estar aí o início de uma compreensão dos estados mentais. Daí
considerar a psicologia popular como base de pesquisa. No relacionamento dos
homens com o mundo ela funciona, devendo, por isso, ser um alicerce da ciência.
Como vimos, psicologia popular, para Dennett, é um método de interpretação, de
lidar com cotidiano, um instrumento a serviço da predição de atos de vários
sistemas. Por conseguinte, o conjunto de crenças e desejos atribuídos aos
sistemas não são eventos internos, presentes e atuando de forma causal; são
formas de adaptação ao mundo. Utilizando uma terminologia cunhada por Reichenbach
(1938), Dennett denominará esta concepção da psicologia popular de abstrata .
Em
contraste com esta visão, alguns, como Fodor, tomam crenças, desejos,
pensamentos, como eventos internos reais, presentes e atuantes. A psicologia
popular, aqui, deixa de ser um instrumento e torna-se agente causador das ações
do indivíduo no mundo. A este posicionamento, ainda seguindo Reichenbach, dá-se
o nome de illata . Dennett, embora ponha-se invariavelmente no campo da
abstracta, diante desta colisão, termina por considerar que a psicologia
popular ordinária, aceita pelo senso comum, está entre ambas as posturas, sem
assumir uma ou outra, como afirma em Intentional Stance :
|
" But
in any case there is no doubt that folk psychology is a mixed bag, like folk
productions generally, and there is no reason in the end that it is much more
complex, variegated (and in the danger of incoherence) that my sketch has
made it out to be. The ordinary notion of belief no doubt does place beliefs
somewhere between being illata and being abstracta 10 " ( Dennett, 1987:55). |
De
fato, é próprio do senso comum tomar crenças e desejos como possuindo, de fato,
poderes causais, assim como é próprio de Fodor. Todavia, é também corrente o
uso de tais estados mentais de forma instrumental, afirmando-se que, em
determinado momento, tal indivíduo deve agir de uma maneira qualquer. A
distinção estabelecida por Dennett é metodológica. Ele busca na psicologia
popular a base de sua teoria intencional, evitando, por isso, uma total
comunhão com o senso comum e suas premissas contraditórias. Por fim, a divisa
entre uma psicologia popular tomada de forma abstracta e illata visa proceder
uma investigação de duas teorias que daí se seguem. Da postura abstracta surge
uma teoria dos sistemas intencionais, concebida de forma instrumental,
holística. Do lado illata é construída uma teoria reducionista, que busca o
modo de implementação dos sistemas intencionais, batizada por Dennett de
psicologia cognitiva sub-pessoal. Caminhemos, brevemente, por ambas.
a)
Teoria dos Sistemas Intencionais – Nesta teoria, os aspectos internos de
implementação dos estados mentais permanecem velados, são tratados como caixas
pretas (Dennett, 1997). Ignora-se, propositalmente, os processos realizados
seja no cérebro, seja no hardware de uma máquina. Não há o reducionismo de uma
propriedade macro a uma micro.O objeto de pesquisa passa a ser o sistema em seu
todo, observado em sua atuação no mundo. Crenças e desejos, aqui, são meros
instrumentos, possuindo um papel na predição do comportamento de sistemas. É
inevitável, porém, o surgimento de perguntas em relação ao porquê destes
sistemas agirem de determinada forma Uma resposta seguindo este caminho é o
papel de uma psicologia cognitiva.
b)
Psicologia Cognitiva Sub-Pessoal – A tarefa, em uma teoria desta
natureza, é direcionar a pesquisa para dentro da caixa preta, que, em uma
teoria dos sistemas intencionais, permanece envolta em mistério. Mais
especificamente, quer-se encontrar, em organismos conscientes, o elo entre
semântica e sintaxe. Como um órgão de mecanismos sintáticos – o cérebro- gera
uma semântica? Como sair de uma relação de inputs e outputs para a consciência?
Obviamente, o que busca uma psicologia cognitiva é uma resposta naturalista,
não-dualista, para a questão. Tendo como objetivo esta resposta, Dennett, mesmo
aqui, no domínio do sistema em seu interior, considera necessário atentar-se
para o comportamento dos sistemas no meio-ambiente; esta é uma maneira de
verificar as suas reações diante de certo contexto. É, também, o que ancorará a
psicologia a uma semântica, que inclui uma consideração tanto do que é interior
quanto do que é exterior ao sistema. Ignorar esta relação seria não mais
psicologia, mas sim uma forma de neurofisiologia, visando unicamente processos
internos.
Nesta
teoria, faz-se notar a negação do reducionismo em sua forma clássica. Não há a
consideração de uma propriedade macro como ligada, unicamente, a uma micro.
Visa-se o sistema em seus mecanismos internos, mas também em seu todo. Sem esta
união entre duas teorias - psicologia cognitiva e teoria do sistema
intencional- perderia-se de vista o aspecto semântico do sistema, que é
considerado, em última instância, a chave para a noção de consciência. Friedman
(1981), seguindo de perto esta linha, sugere um redirecionamento da redução.
Não mais se deveria analisar micropropriedades como determinantes da atividade
social cognitiva, mas sim partir deste uso, destas práticas, para uma redução
macro, investigando a aplicação de conceitos ao mundo. Dennett, embora concorde
com a redução ao nível macro, não aceita a noção de atividade social cognitiva,
que, em Friedman, está necessariamente unida à linguagem. Ou seja, é a
linguagem a atividade social da consciência par excellence. Dennett busca mais:
qualquer forma de reducionismo deve privilegiar sistemas lingüísticos e
não-linguísticos, como espécies animais.
Assim,
propõe Dennett outra forma de redução, visualizável considerando-se o dito
sobre psicologia popular e sistemas intencionais. Sendo a psicologia popular um
instrumento no lidar com o mundo, assim como o é a teoria dos sistemas
intencionais, é possível reduzir a primeira à segunda, i.e, a psicologia
popular pode ser metodologicamente reduzida a uma teoria dos sistemas
intencionais. Teria-se, assim, algo da seguinte forma: (x)( x acredita que p
= x pode ter sua crença de que p predita) . É vasto o espaço que separa
esta forma de reducionismo de uma mais clássica, que afirma algo como: (x)
(Mx=Px) , onde um estado mental pode ser reduzido a uma propriedade física.
O reducionismo proposto por Dennett leva a cabo a idéia de uma psicologia
popular tomada de forma pragmática, sendo, acima de tudo, uma forma de
relacionar-se com o mundo. Afirmar que todo estado mental, posto no idioma da
psicologia popular, é redutível a uma teoria do sistema intencional não é uma
tese passível de ser provada, como não é, seguindo um paralelo traçado por
Dennett, a tese de Church, ou seja, a afirmação de que toda função algorítmica
é computável, é parcial recursiva.
Em
Dennett, assim como em Friedman, tem-se uma observação presente já em Searle
(1983): não é possível investigar a mente segundo o modelo clássico de redução
das ciências. Se há de fazer-se uma redução, esta deve possuir uma forma
própria, diversa da que guiou tantas pesquisas no âmbito das ciências naturais.
Para um cientista cognitivo, como Francis Crick, esta é uma afirmação
desprovida de conhecimento de causa. O reducionismo não poderia ser tomado de
maneira formal, como a citada acima, onde (x) M(x)=P(x) . Seria sim um
processo de forte dinamismo, modificando-se seguidamente no sistema. Assim se
daria o processo cognitivo, e, desta maneira, o mesmo reducionismo do passado
deveria ser a metodologia aplicada, como afirma abaixo:
|
" O reducionismo é o método teórico fundamental
que impulsionou o desenvolvimento da física, da química e da biologia
molecular. É largamente responsável pelos desenvolvimentos espetaculares da
ciência moderna. É o único método sensato de agir, até que, e a não ser que
estejamos confrontados com uma acentuada evidência experimental que exija que
modifiquemos a nossa atitude. Os argumentos filosóficos genéricos contra o
reducionismo não vingarão " (Crick, 1995:25). |
Para
Dennett, Searle e outros, a evidência de que Crick não se apercebe é
irredutibilidade da semântica à sintaxe. Necessita-se de um modelo que lide com
ambas, e o reducionismo clássico não é capaz de tanto. Para Dennett, não há
dúvidas de que a análise deve ter por base o uso diário e prático do idioma
intencional, afinal, é dele que se necessita ao lidar-se com o mundo.
- Dennett, Instrumentalista e
Anti-Realista?
Até
este ponto, consideramos, sem uma problematização devida, Dennett como um
instrumentalista e anti-realista. Postas as bases de sua teoria intencional, é
chegado o momento de desfazer a rigidez desta taxonomia. A literatura em
filosofia da mente toma Dennett, de fato, como um instrumentalista e
anti-realista, no clássico sentido destes termos. Todavia, estes títulos são
incansavelmente por ele negados. Embora afirme seguir uma forma de
instrumentalismo, Dennett busca sair desta linha em sua tradição mais sólida,
presente na filosofia das ciências. Quanto ao termo "anti-realismo",
sua negação é firme: considera-se um realista, embora não tal qual Fodor ou
Searle. Explicitemos.
Em
sua corrente extrema, citada por Dennett, instrumentalistas não tomam teorias
como sendo uma descrição da realidade, mas apenas um instrumento útil, tornando
possível a predição de fenômenos. Termos como "elétron",
"éter", e, no âmbito mental, "crenças" e
"desejos", não revelariam nenhuma verdade última sobre o mundo, mas
apenas ficções úteis ao desenvolvimento da ciência. Dennett, em linhas gerais,
segue esta posição, concordando com a impossibilidade de teorias enquanto
revelações sobre a essência do mundo. Em contrapartida, as considera não meros
instrumentos de cálculo, nem falsos nem verdadeiros; tais teorias são, de
alguma forma, verdadeiras. Portanto, é verdade que possuímos crenças e desejos,
como crê um realista, como Fodor ou Searle. Todavia, ao afirmar a existência de
crenças e desejos, Dennett não os considera como eventos internos, passíveis de
serem encontrados em cada indivíduo. Crenças e desejos existem por serem
apreendidos através da postura intencional. Não são um privilégio humano, já
que se pode prevê-los em organismos menos complexos. "As pessoas possuem
crenças e desejos como a Terra possui um Equador", afirma Dennett,
deixando claro sua divergência com realistas mais radicais.
Por
incluir em seu vocabulário crenças e desejos de forma não-literal, Dennett é
por muitos considerado um anti-realista. Ele, porém, acredita que o simples
fato de utilizá-los, e de serem passíveis de predição em sua teoria
intencional, é o bastante para configurar uma forma de realismo, como afirma a
seguir:
|
"I
claim that the intentional stance provides a vantage point for discerning
similarly useful patterns. These patters are objective - they are there to be
detected- but from our point of view that are not out there entirely
independent of us, since they are patterns composed partly of our own
´subjective´ reactions to what is out there. (…) So I am a sort of realist. I
decline the invitation to join Rorty´s radical perspectivalism"
(Dennett, 1987:39-40 ) . 11
|
Embora
negue pôr-se ao lado de Rorty e de seu perspectivalismo, ambos seguem uma mesma
tradição, tendo como base, como vimos previamente, Quine, Davidson, e que
remete, menos diretamente, a pragmatistas como William James e John Dewey. Em
todos estes autores, não há um acesso à essência do mundo, a uma verdade
última. Há sim modelos que visam uma adaptação do homem a seu meio, uma forma
de obter vantagens do mundo. Dennett, embora afirme-se realista de uma nova
forma, segue esta tradição, designada sob diversos títulos: pragmatista,
anti-realista, anti-representacionalista, relativista, perspectivista, etc.
Os problemas em estabelecer uma linha rígida entre realismo e anti-realismo foram bem postos por Rorty






