CRIAÇÃO DE CAPRINOS NO NORDESTE DO BRASIL



Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966.

CRIAÇÃO DE CAPRINOS NO NORDESTE

Francisco Barboza Leite

UMA das fontes de renda subsistentes na economia nordestina desde os primórdios da colonização tem sido a criação de caprinos. O clima e seus efeitos, a terra e suas características, o homem e naturais condições ambientes tornaram própria às faixas semi-áridas daquela região esta atividade industriosa de cujos proventos as populações se beneficiam de vários modos.

À mesa das camadas humildes a carne de caprino tem consumo vasto, indicando o termo "carne de bode" inferioridade que lhe atribuem os paladares mais requintados. A pele é exportada em grande escala e o leite é utilizado na alimentação infantil e no fabrico de queijos.

Zonas há onde a criação deste tipo de gado é inexpressiva: parte de Minas Gerais, oeste da Bahia, Alagoas, Sergipe, — na área que compreende o Baixo São Francisco; isto porque, suas pastagens mais ricas, são aproveitadas de preferência na criação de bovinos. Vê-se, então que o caprino é pouco exigente, bastando ao seu metabolismo a ingestão de alimentos característicos do solo árido. Seu porte reduzido garante-lhe dispêndio diminuto, que se reflete em muito mais copiosa oportunidades de sobrevivência e multiplicação.

O tratamento da pele do caprino para exportação ainda é feito por processos rudimentares, tal como se dava antigamente. Uma vez retirada do animal é estendida no chão e cruzada de varetas pela parte interior, de margem a margem, até que fique bem espichada. Em seguida é posta ao sol e, ao cabo de três dias consecutivos, já seca, a pele é armazenada, recebendo ainda, classificação e enfardamento, até ser embarcada.

CRIAÇÃO DE CAPRINOS NO NORDESTE

(Percy Lau)

O aproveitamento do leite é menor, referindo-se esta observação mais particularmente ao fabrico de queijo. À falta do , que tem a preferência, o de cabra supre os lares pobres, interessando aqui, como aspecto típico, um "chiqueiro de cabras" no momento em que aquele produto é recolhido.

O chiqueiro é um cercado quase sempre retangular, — sendo a maior parte de sua área protegida por um telheiro que mantém o chão seco no inverno e fresco no verão. O leite é "tirado" em cuias pequenas e depositado em potes de barro mantidos em lugar seguro, uma forquilha de três ganchos, cuja altura os animais não atingem, ou jiraus, de função idêntica. Entre as cabras ficam os cabritos a farejar-lhes, ávidos, os úberes cheios, até que sejam tiradas as mochilas postas no focinho de cada um, na tarde anterior, — preservativos que impedem aos mesmos se amamentarem durante a dormida.

Tirado o leite, os animais são soltos, acompanhando o rebanho até aos campos, meninos que nisso se empregam, pela facilidade da tarefa. Pastam durante todo o dia e, à tarde, regressam num tropel de cascos miúdos, balidos e disparadas constantes. Os caprinos pastam à vontade, sem muitos cuidados humanos, quase só o instinto a denunciar-lhes a aproximação de eventual inimigo. Mas, logo se aproxime a tarde, acorrem os pequenotes à procura das "crias" transviadas, atentos aos berros nervosos na denúncia de um perigo, uma campainha balançando aflitiva, entre as ramagens e, eles prestos, no trabalho muitas vezes divertido de "chiqueirar" as cabras.

Durante os meses chuvosos a "rama" fácil não permite que os rebanhos se desloquem muito além das circunvizinhanças do chiqueiro; acentuando-se o verão, entretanto, a paisagem perde a arborescencia temporária, modificando aos poucos, o "cardápio" vegetal do caprino. Folhagem e gramíneas se excluem, sucedendo-lhes cascas de árvores e resíduos argilosos, para cuja aquisição os animais executam verdadeira ginástica, ora postando-se em topos pedregosos e resvaladiços, ora atingindo os galhos mais elevados dos troncos robustos.

Dentre os estados que se salientam na criação de caprinos, Pernambuco tem lugar à parte. O rendimento do gado é, porém via de regra, íraco; de-vendo-se isto à adoção de processos de tratamento que desde tempos remotosse conservam; a mudança nos mesmos traria, sequramente, um progresso valioso ao rebanho caprino do Nordeste brasileiro.

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