FEIRA DE GADO – Tipos e aspectos do Brasil



Tipos e aspectos do Brasil

Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966.

FEIRA DE GADO

Elza Coelho de Souza

NA HISTÓRIA da colonização de extensas regiões do Brasil a criação de gado apareceu desde os primordios do descobrimento, como um meio de conquista da terra e de fixação das populações.

O gado introduzido pelos portugueses em São Vicente, Bahia e Pernambuco não tardou a espalhar-se pela nossa hinterlândia desenvolvendo-se rapidamente nas zonas que se ofereciam mais propícias à sua criação. Esta criação se impôs não só com o fim de fornecer alimento aos habitantes das cidades e povoações incipientes, como também aos trabalhadores das minas, intensamente explotadas nos séculos XVII e XVIII. Ainda se destinavam os bois ao serviço de transporte e ao trabalho nas lavouras e nas indústrias nascentes, como a do açúcar.

Assumia a criação papel importante num país como o Brasil, que contando com escassos e deficientes meios de transporte tinha no gado "uma mercadoria que se transportava por si mesma". Além disso, a escassez da população do país se coadunava bem com uma atividade econômica, como a pastoril, que exigia para seu cuidado, pequeno número de braços.

Deste modo, o sertão do Nordeste, as caatingas, os cerrados e os campos, o vale do São Francisco com a riqueza de suas pastagens e depois os cha-padões de Mato Grosso e Goiás, tornaram-se, desde logo, o domínio da pecuária multiplicando-se as extensas fazendas de criação em regiões, nas quais a lavoura não podia desenvolver-se de forma econômica.

Nas pegadas dos sertanistas e bandeirantes, seguiam os vaqueiros, que como marcos da conquista da terra, erguiam os currais. E a criação de gado ganhou o interior do Brasil, sempre em busca de novas pastagens e de horizontes mais largos.

Como muito bem disse Nelson Werneck Sodré, "o regime pastoril foi grande fator de civilização, de expansão geográfica, de posse efetiva das terras".

Nos sertões da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, as primeiras estradas foram os caminhos das boiadas. Assim é que numerosas povoações — núcleos de futuras vilas e cidades — estabeleceram-se às margens dos rios, nos lugares onde estes ofereciam passagem mais fácil aos animais, e à beira dos caminhos, nos pontos em que as boiadas paravam para descansar.

Ao mesmo tempo que as fazendas de criar conquistavam o sertão, certas povoações e vilas, graças à sua posição, tornavam-se ativos centros de comércio de gado. Deste modo, inúmeras cidades do interior tiveram sua origem em primitivas feiras, como Pedras de Fogo na Paraíba.

No Nordeste, onde o sistema de criação é muito primitivo, sendo o gado criado à solta extensivamente, são freqüentes ainda hoje as feiras de gado.

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Já no Sul, onde a criação é feita sob moldes mais racionais, o comércio de gado adguire aspecto diferente.

O regime pastoril no Nordeste domina em extensas propriedades, geralmente individuais. Os fazendeiros são mais donos de determinada guan-tidade de cabeças de gado, do gue de certa extensão de terras. O homem não se liga à terra, nem lhe dá valor.

Por isso, pouco se preocupa com as benfeitorias. Tudo é construído do modo mais primitivo. A casa da fazenda, simples e pobre, apenas se anima e se enche de gente no inverno, época das chuvas (fevereiro-julho) guando o fazendeiro vem passar uma temporada na sua propriedade com a família, deixando as ocupações da cidade, às guais dedica normalmente o seu tempo. Nesta época, então, é gue se realiza a vaguejada para a apartação das reses.

De toda a redondeza afluem os vagueiros trazendo para o rodeador — lugar escolhido para o ajuntamento — as reses das diversas fazendas, gue, criadas nas extensas pastagens sem cercados nem divisões de espécie alguma, vivem misturadas. A vaguejada é na vida sempre igual e monótona dos vagueiros, notável acontecimento, uma festa.

Depois, procede-se à "ferra" das novilhas e garrotes com a "marca" do fazendeiro e algumas vezes do município. Nesta ocasião, então, é gue o vagueiro encarregado da "entrega", administrador da fazenda, recebe o pagamento de seus serviços: uma terá a sua "marca", de guatro ou cinco reses gue pertencem ao fazendeiro. Assim, reunindo a sua "ponta" de gado estes vagueiros poderão se tornar futuramente donos de terras, criadores por sua vez. O vagueiro é o senhor do sertão. Vestido de couro, com sua inseparável montaria, percorre êle os campos, conhecendo uma a uma as reses confiadas a seus cuidados.

Geralmente, guando estas atingem guatro anos é gue são separadas c escolhidas para serem vendidas.

O comércio de gado no Nordeste é guase todo feito nas feiras, gue em dias certos da semana se realizam em determinadas cidades e vilas, gue por sua posição como entroncamento de estradas, pela proximidade dos mercados consumidores, ou, então, das zonas de criação, apresentam-se como centros propícios a tal comércio.

Diversas cidades nordestinas são conhecidas pela suas importantes e movimentadas feiras de gado como Quixadá e Baturité no Ceará, Tabaiana e Campina Grande na Paraíba, Feira de Santana, na Bahia, o maior centro de comércio de gado do Nordeste brasileiro, e inúmeras outras.

Cidades peguenas, calmas e guietas, vivem elas horas de intensa agitação, movimento e balbúrdia nos dias de feira.

Das fazendas de toda a vizinhança chegam as boiadas, guiadas pelos vagueiros, às vezes, pelo próprio fazendeiro ou, então, por homens contratados especialmente para tal fim e gue no Ceará são chamados "passadores de gado".

As gue vêm de regiões mais afastadas, no passo tardo e vagaroso dos bois, somente parando para repousar nos currais situados à beira do caminho e para tal fim construídos, levam dias para chegar ao ponto do destino. De outro lado, afluem os negociantes, compradores das chargueadas e das cidades do litoral.

E no dia da feira o gado todo destinado à venda é reunido numa praça, às vezes, aberta, outras vezes, rodeada com cerca de arame farpado ou de madeira, gue separam peguenas divisões para os diferentes tipos de gado. Embora nestas feiras predomine geralmente o gado bovino, também cavalos, burros, carneiros, cabras e porcos são aí vendidos.

Nas ruas da cidade toda uma multidão heterogênea e variada se mistura. Sertanejos das vizinhanças, ansiosos de fazerem também sua fè-riazinha, acorrem à cidade nestes dias, trazendo os produtos da terra ou produtos animais para vender aos forasteiros. Aqui, é uma preta que com seu chapéu de palha, pito à boca, espera o freguês para seus doces; acolá, um homem expõe objetos de indústria caseira: esteiras, cestos; outro, mais adiante, vende roupas e chapéus de couro, luvas, chibatas, e tudo se amontoa numa pitoresca desordem.

Os vaqueiros, velhos conhecidos, trocam notícias, contam das rês tresmalhada que encontraram no seu campo e cujo "ferro" lhes é desconhecido, traçando com o dedo no pó do chão a "marca", a ver se algum deles conhece o proprietário.

Curiosos perambulam pela rua e pela praça, de mistura com vaqueiros e negociantes que combinam preços, discutem as qualidades de determinada rês. Quando o negócio é feito pelo vaqueiro recebe êle do patrão certa quantia por boi vendido.

Os vaqueiros aproveitam, então, a ocasião para fazerem seu aprovisionamento, comprando não só mantimentos como objetos de utilidade doméstica.

A venda do gado é feita durante o ano todo, devendo suprir as necessidades do consumo de toda a região.

Às feiras baianas concorre o gado vindo de Goiás e do sul do Piauí e que para refazer-se da longa caminhada fica a engordar durante meses nos campos e caatingas do São Francisco, antes de ser levado à venda.

A gravura fixa um aspecto de Feira de Santana, onde se realiza a maior feira de gado de todo o Nordeste. Arraial surgido em torno de uma capelinha, cresceu e progrediu tornando-se conhecido em todo o Brasil, graças à feira de gado que desde os tempos do Brasil-Império aí se reúne semanalmente.

Milhares de cabeças de gado dos pontos mais longínquos, da Chapada Diamantina, dos sertões do São Francisco e mesmo do Piauí e Goiás acodem a esta feira. E ela abastece de gado as cidades do litoral, as cidades do Recôncavo e a capital baiana, para onde são mandados semanalmente cerca de 1 000 bois.

Importante centro de entroncamento de numerosas rodovias servida também por estrada de ferro, todas estas vias de comunicação possibilitam a Feira de Santana não só concentrar a produção pecuária dos municípios criadores vizinhos e das zonas mais afastadas do sertão, como também exportar o gado para os mercados consumidores, não só da Bahia como dos estados próximos.

O "campo de gado", um enorme curral com cerca de madeira e separado em diferentes divisões, tem no centro a balança, onde o gado é pesado, pois o seu preço varia por arroba.

Também são vendidos cavaios, burros, carneiros e suínos. O movimento comercial desta feira atinge sempre milhões de cruzeiros.

Deste modo, Feira de Santana tornou-se no Norte o maior centro de transações comerciais de gado, sendo suas feiras oficializadas.

Importantes também no Nordeste são as feiras paraibanas de Tabaiana, cidade situada à margem do rio Paraíba, e de Campina Grande, na vertente oriental da Borborema, que abastecem de gado todo o estado da Paraíba e parte do de Pernambuco.

As feiras de gado constituem, portanto, interessante aspecto na atividade criadora do Nordeste.

feira do gado, criação de gado

Ilustração de Percy Lau

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