Ilíada de Homero para download- Canto I

Ilíada de Homero para download- Canto I

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Ilíada de Homero para download e visualização no navegador

Tradução de Odorico Mendes
Fonte: Clássicos Jackson

Resumo e apresentação da Ilíada de Homero



Argumento do Livro I da Ilíada




Exposição
do assunto. — Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo

dos gregos para resgatar sua filha. — Repelido e ultrajado por

Avamémnon,
invoca a protecção de Apolo. — A peste, como um castigo

ilivino,
lavra pelo exército grego e mata muitos de seus heróis. —


Aquiles
convoca a reunião dos chefes, promete sua protecção ao

adivinho
Calcas, e lhe pergunta a causa da cólera de Apolo. — O

adivinho
a revela e indica como único meio de afastar o flagelo a

instituição
de Criseida. — Cólera de Agamémnon contra Calcas: suas

ameaças
contra Aquiles. — Este lança mão da espada, Minerva lhe

aconselha,
e dócil à voz da deusa limita-se a responder apenas com

insulto
o recebido ultraje. — Agamémnon forçado a restituir Criseida

n
seu pai, toma de Aquiles a cativa Briseida. — Aquiles, indignado,

não
quer mais combater pelos gregos; invoca sua mãe Tétis, que o

consola
e lhe promete vingança. — Volta de Criseida à sua pátria;

sacrifício
em honra de Apolo. — Entrevista de Tétis e de Júpiter con-

sentindo
em dar a vitória aos troianos. — Queixas de Juno e ameaças

de
Júpiter em presença dos habitantes do Olimpo. — Graças à inter-

venção
de Vulcano, restabelece-se a paz na assembleia dos imortais.

Canto I



Canta-me,
ó deusa, do Peleio Aquiles

A
ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,

Verdes
no Orço lançou mil fortes almas,

Corpos
de heróis a cães e abutres pasto:

Lei
foi de Jove, em rixa ao discordarem

O
de homens chefe e o Mírmidon divino.



Nume
há que os malquistasse? o que o Supremo

leve
em Latona. Infenso um letal morbo


No
campo ateia; o povo perecia,


porque o rei desacatara a Crises.





Com
ricos dons remir viera a filha

Aos
alados baixéis, nas mãos o ceptro

E
a do certeiro Apolo ínfula sacra.

Ora
e aos irmãos potentes mais se humilha:

"Atridas,
vós Aqueus de fina greva,

Raso
o muro Priâmeo, assim regresso

Vos
dêem feliz do Olimpo os moradores!

Peço
a minha Criseida, eis seu resgate;

Reverentes
à prole do Tonante,

Ao
Longe-vibrador, soltai-me a filha".



Que,
aceito o preço esplêndido, se acate

O
sacerdote murmuraram todos;

Mas
desprouve a Agamémnon, que o doesta

E
expele duro: "Em cerco às naus
bojudas

Não
me apareças mais, quer ouses, velho,

Deter-te
ou retornar; nem áureo ceptro,

Nem
ínfula do deus quiçá te valha.

Nunca
a libertarei, té que envelheça

Fora
da pátria, em meu palácio de Argos

A
urdir-me teias e a compor meu leito.

Sai,
não me irrites, se te queres salvo."

Taciturno
o ancião treme e obedece.



Busca
as do mar fluctissonantes praias.

Ao
que pariu pulcrícoma Latona

Afastando-se
impreca: "Arcitenente,

Ouve,
Esminteu, que Ténedos enfreias,

Crisa
proteges e a divina Cila,

Se
de festões colguei teu santuário,

Se
de cabras e touros coxas pingues

Te
hei queimado, compraze-me os desejos,

A
tiros teus meu choro os Dânaos paguem."



Febo,
a tais preces, arco e aljava cruza,

Do
vértice do céu baixa iracundo;

Vem
semelhante à noite, e a cada passo

Tinem-lhe
ao ombro as frechas. Ante a frota

Suspenso,
a farpa do carcás descaixa,

Terrível
o arco argênteo estala e zune:


Moles
primeiramente a cães e a mulos,

Depois
com vira acerba ataca os homens,

De
cadáveres sempre a arder fogueiras.

Al
tropas dias nove asseteadas,

Ao
décimo as convida e ajunta Aquiles;

Inspiração
da bracinívea Juno,

Que
seus Dânaos morrer cuidosa via.

Ele,
em pinha o congresso, velocípede

Si alça e diz: "A escaparmos, julgo, Atrida,

Retrocedermos
errabundos cabe:

Peite
os nossos consome e os ceifa a guerra.

Eia,
adivinho, arúspice, ou de sonhos

(Jove
os envia) conjector se inquira,

Qe
explique a ofensa do agastado Febo:

Sc
a votos e hecatombes lhe faltámos;

Se,
para desarmar-se, olor de assados



Cordeiros
nos reclama e nédias cabras."

A
seu lugar tornou. De augures mestre,

No
passado e presente e porvir sábio,

Surgiu
Calcas Testórides, que a Tróia

Por
influxos de Apolo as naus guiara,

E
concionando exordiou prudente:

"Mandas-me,
ó caro a Júpiter, o agravo

Do
grã frecheiro expor. Aqui prometas

Com
braço e voz cobrir-me: o fel eu temo

Do
amplo-reinante que domina os Graios;

E
ao fraco se um monarca ódio concebe,

Cose-o
e concentra, enquanto o não sacia.

Tu
me assegura." — "Afouto, brada Aquiles,

Vaticina. Por Febo, a Jove grato,

A
quem rogas e oráculos te ensina,

Nenhum,
desfrute eu vivo o térreo aspecto,

Nenhum
violentas mãos te porá, Calcas;

Nem
que seja Agamémnon, que entre Aquivos

De
mais prestante e augusto se ufaneia."




Anima-se
o bom velho: "Sacrifícios

Nem
votos pede Apolo; em nós o ultraje

Punindo
vai do Atrida, que ao ministro

O
livramento rejeitou da filha;

Nem
grave a dextra poupará castigos,

Se
não reverte a jovem de olhos pretos,

Sem
resgate ou presente, ao pai querido,

Remetendo-se
a Crisa uma hecatombe.

Com
isto por ventura o deus se aplaque."




O
áugur mal se abancava, o rei suberbo,

Senhor
pujante, merencório ergueu-se:

Raiva
as entranhas lhe intumesce e afuma,

Cintila
a vista em brasa; esguelha a Calcas

Tétrico
senho: "Desastroso vate,

Nunca
essa boca aprouve-me: o teu ponto

Ê
pregoar desditas; nem palavra

Nem
obra tens que preste. Agora os Dânaos,

Pena-os
Febo em vingança da retida

Criseida
em quem me inflamo, a quem pospunha

Clitemnestra
gentil que esposei virgem,

Que
não lhe cede em garbo, engenho e prendas.

Pois
mais convém, liberta a restituo;

Sadio
o anseio, não padeça o povo.

Mas
preparai-me um prémio; eu só dos Gregos

Dele
excluído ser não me é decente;

O
meu, testemunhais, me foi roubado."




Controverte
o Peleio: "Vanglorioso

Avidíssimo
Atrida, que outra paga

Exiges
dos magnânimos Aquivos?

Por
dividir ignoro onde haja espólio;

Partiu-se
o das cidades saqueadas;

Hoje
um novo sorteio é repugnante.

Ao
deus concede-a; recompensa triple

E
quádrupla terás, quando o Satúrnio

Derrocar
nos outorgue a excelsa Tróia."




Retorque
o rei: "Se és bravo, ó divo Aquiles,

Com
dolo e subterfúgios não me enganes;

Possuis
tua cativa, eu perco a minha;

E
impões que de perdê-la me contente?




Meu
peito satisfaçam de igual prenda

Os
liberais Aqueus; senão, teu prémio,

De
Ulisses ou de Ajax, trarei comigo:

Amargará
quem for. Sobrestejamos

Nisto
por ora. Ao pélago deitemos

Negra
nau bem remada, que transporte

A
hecatombe e Criseida esbelta e linda.

Um
dos cabos, Ajax, o egrégio Ulisses,

ídomeneu
comande-a, ou tu Pelídes,

Tremendíssimo
herói, para que Apolo

Nos
tentes granjear com sacrifícios."




"Ah!
como, o vulto fecha e estronda Aquiles,

Vulpina
alma sem pejo, a teus acenos


quem marche a conflitos e emboscadas?

Não
vim bater os valorosos Teucros

Por
queixa pessoal; corcéis nem reses

Me
furtaram, nem agros destruíram

Da
altriz guerreira Ftia; entre nós muita

Serra
medeia opaca e o mar sonoro.

Viemos,
cão protervo, para em Tróia

A
Menelau e a ti lavar a nódoa.

Alardeias,
ingrato, e nos desprezas;

Audaz
cominas arrancar-me a escrava,

A
dádiva de Aqueus por tantas lidas.

Caia
llion famosa: embora o peso

Da
guerra em mim carregue, o mais opimo

Quinhão
terás; com pouco eu volte a bordo

Sem
boquejar, de choques fatigado.

A
Ftia me recolho e os meus navios,


que aviltas a mão que de tesouros

A
fome te fartava: eu te abandono."




"Foge,
Agamémnon replicou-lhe, foge,

Se
é teu prazer; que fiques não te imploro:

E formam-me outros, e em Júpiter confio.


Dos
reis alunos dele és quem detesto;


respiras discórdias, rixas, pugnas.

Tens
valor? agradece-lho. Os navios

Recolhe
e os teus; nos Mírmidões impera:

Não
te demoro; esse rancor desdenho.

Priva-me
de Criseida Febo Apolo:

Em
nau minha esquipada vou mandá-la.

À
tenda hei-de ir-te mesmo, eu to previno,

Tomar-te
a elegantíssima Briseida;

Sentirás
em poder como te excedo,

E
outrem se me antepor e ombrear trema."




Chameja
o herói, no hirsuto peito volve

Se
de ante o fémur desbainhe o estoque

E
por entre os Aqueus lho embeba todo,

Ou
se o furor no coração reprima.


meia espada a cogitar sacava:

Eis
da alva Juno, que os escuda e preza,

Por
ordem Palas desce, e aos mais invisa,

Atrás
o aferra pela flava coma.

Volta-se
ele espantado e a reconhece

Pelo
medonho olhar, e sem demora:

"A
que vens ó do Egífero progénie?

A
assistir aos convícios de Agamémnon?

Pois
to declaro, e conto já fazê-lo,

Tem
de acabar a vida esse orgulhoso."




E
a deia olhicerúlea: "Vim, de acordo

Com
Juno albinitente, amiga de ambos,

Comedir-te
e amansar. Anda, em palavras

Tu
desabafa, a lâmina embainha.

Por
esta injúria, to predigo certo,

Inda
haverás em triplo insignes prémios.

Sê-nos
pois dócil, a paixão modera."




"Cumpre,
o fogoso torna-lhe, é cordura

Mesmo
irado curvar-me a tais preceitos:

Quem
se submete, os deuses mais o escutam."


Logo
a pesada mão no argênteo punho

Conteve,
encasa e esconde o gládio horrendo.

Ela
a Júpiter se ala e às mais deidades.



Não
deposto o furor, contra Agamémnon:

"Ébrio,
acérrimo Aquiles vocifera,

Cara
de perro e coração de cervo,

Nunca
te armas e à liça te abalanças,

Nunca
às ciladas os homens acompanhas:

Isso
te é morte. Em vasto acampamento,

Sim,
mais vale esbulhar os que te arrostam:

Cobardes
reges, vorador do povo;

Senão,
tanta insolência aqui findara.

Por
este ceptro juro, que estroncado

Jamais
rebentará, pois na montanha

Folhas
e casca cerceou-lhe o gume;

Por
este, que os Grajúgenas arvoram

Do
justo guarda e das leis divinas,

Juro,
Atrida, é solene o juramento,

Suspirarão
sem falta por Aquiles;

Nem
lhes serás de auxílio, quando em barda

Esse
Heitor homicida os vá segando.

Então
de raiva e nojo hás-de comer-te,

Porque
o maior dos Gregos rebaixaste."




Nisto,
arrojando o ceptro auricravado

Sentou-se. O Atrida em cólera abafava.

Nestor
Pílio intervém, de cuja língua

Doce
eloquência mais que o mel fluía.

Dos
falantes que, nados na alma Pilos,

Criaram-se
com ele, idades duas

Decorridas,
reinava na terceira.

Discreto
e afável, o discurso tece:

"Numes
eternos, oh! que luto à Grécia!

Oh!
que júbilo a Príamo e seus filhos!

Folgue
llio à nova de que assim litigam

Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,


Sou
velho, ó moços. Tido em boa conta

Com melhores que vós me dava outrora.


\Varoes vi nunca, nem verei, qual Drias

Das
gentes regedor, Ceneu e Exádio,

Um Pirítoo, um divo Polifemo,

Teseu Egides a imortais parelho.

Outros como estes não nutria a terra:

Feros
pugnaram trucidando a feros

Montícolas
Centauros. Lá de Pilos,

Da
Ápia eu vinha rogado; conversava-os,

Quanto
era em mim nas lutas me exercia.

Ninguém
dos vivos de hoje os contrastara;

Atendiam
contudo os meus conselhos:

Atendê-los
vos praza. Ao mais estrénuo

Tu
não tomes dos nossos a só paga;

Nem
de ao rei contravir, Pelides, cures;

Dos
eleitos que Júpiter estima,

Ceptrígero
nenhum se lhe equipara:

Mãe
deusa te gerou, valor te sobra;

Tem
ele mais poder, que impera em muitos.

Eu
to suplico, Atrida, a fúria amaina,


brando para quem nesta árdua empresa

É
baluarte e escudo aos Gregos todos."




E
Agamémnon: "Com tento nos
falaste,

Recto
ancião. Primar quer sempre esse
homem,

Poderio
se arroga, e eu não lho sofro.

Se
os imortais invicto o constituíram,

Pcrmitcm-lhe
por isso os impropérios?"




"Fraco
eu seria e vil, o atalha Aquiles,

Sc
inda me sujeitasse: os mais o aturem;

Cesse
em mim teu domínio, eu to recuso.

Digo,
e na mente o grava: ao retomares

Meu
galardão, contigo nem com outrem

Pendência
travarei; mas não me toques

Al
do que encerro em leve bojo escuro.

Ousa-o:
que saberão como o defendo,

Como
em teu sangue impuro ensopo a lança."




Finda
a rixa, o congresso Aqueu dissolvem.

O
herói para seu bordo retirou-se,

A
escolta e o seu Menécio. Ao mar o
Atrida

Baixel
deita, e remeiros vinte elege;

Conduz
no embarque a nítida Criseida,

Mais
a hecatombe: sob o cauto Ulisses

Fendem
rápido as húmidas campinas,


Com
lustrações o exército Agamémnon

Expurga
e n’água a lavadura atiram;

Cabras
e touros cento a Febo ao longo

Do
inesgotável pego sacrificam:

Monta
ao céu pingue cheiro envolto em fumo.



Ali
mesmo efeitua o chefe Argivo

Sua
ameaça: dois arautos chama,

Taltíbio
e Euríbate, expeditos servos:

"Ide
ao Pelides e agarrai-me a escrava;

Aliás,
mais agro transe, à força aberta

A
formosa Briseida eu vou tirar-lha."


E
com ríspidas ordens os despede.



O
infrugífero mar cercando invitos,

Junto
ao real e à capitânia quedo,

Entre
os seus Mírmidões na praia o acharam:

Por
certo não gostou de os ver Aquiles.

De
assombro estacam, nem tugir se atrevem

Ante
o herói formidável, que o percebe:

"Salve,
núncios de Jove e dos guerreiros;

Sos,
não vos culpo, arautos. Agamémnon

Vo-lo
ordenou. Vai tu, celeste aluno,

Vai
por ela, Patroclo, e a moça levem.

Aos
mortais, ao rei sevo, às divindades,

:;
mo atesteis, se for mister meu braço

A
desviar dos outros a vergonha. . .

Que
furor cego! alheio do presente,

O porvir não prevê, nem como os Dânaos

Das
naus sem risco em derredor pelejem."

Da
tenda, à voz do amigo, traz Patroclo
E entrega-lhes Briseida fresca e bela,

Que os seguiu pesarosa à esquadra
Argiva.

Só, carpindo-se, Aquiles na espumante


Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,


As palmas tende e à boa mãe recorre:


"De curta vida, ó Tétis, me pariste;


Sequer me engrandecesse o Altipotente;


Mas ele não me outorga a menor
glória.

Em
meu despeito o soberano Atrida

Arrebatou-me
o prémio e dele goza."




Ao
pé do anoso pai, lá no áqueo
fundo


Sentiu-lhe
o pranto a veneranda ninfa:

Da
salsa espuma, como névoa, surde;

Conchegada
ao Pelides lamentoso,

Com
mão fagueira consolando o anima:

"Choras?
que ânsia te aflige? Nada encubras,

Comunicame,
filho, as penas tuas."




Do
íntimo o celerípede suspira:

"Sabes;
que vai dizer-to? A sacra Tebas

De
Eetion depredada, o espólio todo

Arrecadou-se,
e em regra o dividimos :

Teve
o Atrida a pulquérrima Criseida.

Remir
a filha com riqueza imensa

Do
Longe-vibrador veio o ministro

Às
lestes naus de cobre encoiraçadas;

Nas
mãos facha Apolínea e o ceptro de ouro,

Roga
e aos dois potentados mais se abate:

Que,
em reverência ao cargo, se receba

O
esplêndido resgate, afio aprovam,

Menos
o Atrida, que o repulsa c afronta.

Parte
o velho indignado; e o deus que o ama

Dele
a instâncias, vibrou feral contágio,

De
que a gente em cardumes fenecia,

Pestíferas
as setas rechinando

Por
todo o exército. Eminente vate

O
oráculo solveu-nos; c eu primeiro,

A
apaziguar o nume exorto os sócios.

Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,


E
não debalde; que olhi-espertos gregos

Em
ágil nau Criseida reconduzem

Com
pios dons, e arautos mesmo agora

Do
pavilhão transferem-me a donzela

Que
os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,

Socorre
o filho, ao grã Tonante ascende;

Se
o já serviste com palavras e obras,

Hoje
o depreca. A mim, no pátrio alvergu«,

De
única blasonavas que entre os deuses

Preservaste
o nubícogo Satúrnio

Do
feio opróbrio, quando, à frente a esposa

E
Minerva e Neptuno, o encadearam:

Mas
tu, madre, lhe acorres e o desprendes,

Convocas
em auxílio o Centimano,

Que
é nos céus Briareu, na terra Egéon.

Mais
robusto que o pai, da honra altivo,

De
Jove a par se teve, e de assustados

Os
imortais do empenho desistiram.

Recorda-lhe
isto, abraça-Ihe os joelhos:

Que
ajudar queira os Troas; que os Aquivos,


às popas e ao mar cerrados, paguem

Por
seu tirano e a maldizê-lo expirem.

O
amplo-dominador confesse a culpa

De
insultar o fortíssimo dos gregos."




E
em lágrimas a deia: "Ai! filho, como

Te
amamentei gerado em hora infausta?

Oh!
se de mágoa ileso a bordo fosses!

Urge-te
a Parca, e mais que todos penas:

Malfadado
nasceste em régios paços.

Em
paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;

Que
hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro

Quem
se deleita com trovões e raios.

Ele
e sua corte, às abas do Oceano,

De
inocentes Etíopes desd’ontem

A
mesa logram. No dozeno dia,

Ao
voltar à mansão de aénea base,

Revolvida
a seus pés tocá-lo espero."


Nisto,
sumiu-se-lhe e o deixou raivando

De
o desfalcarem da mulher garbosa.



De
Crisa em funda barra entrava Ulisses.

Ferram-se
as velas, no atro bojo as metem;

Enxárcias
afrouxando, o mastro arreiam;

A
remo aportam, a âncora seguram,

E atadas as rajeiras, desembarcam;

Pós
a hecatombe do arci-argênteo Febo,

Da
sulcadora nau saiu Criseida.

No
altar o sábio Ulisses a apresenta,

Vira-se
ao pai querido: "Aqui mandou-me,

Crises,
o rei dos reis trazer-te a virgem

E
estas cem reses com que o deus mitigues

Que
em dores nos soçobra."
Alvoroçado

O
velho ao peito ansioso aperta a filha.



A
perfeita hecatombe então colocam

Em
torno da ara; e, os dedos já lavados,

Pegam
do salso bolo. O sacerdote

Orando
eleva as palmas: "Se a meus
rogos,

De
Ténedos senhor, ó tu que amparas

Crisa
e a divina Cila, em desagravo

O
campo Argeu feriste, hoje me escuta,

Remove
a peste que devora os Dânaos."




Febo
o escutou. Completa a rogativa,

Esparso
o farro, à vítima o pescoço

Vergam
atrás, e degolada a esfolam;

Cérceas
as coxas, no redenho envoltas,

Cobrem-nas
vivas postas. Ao tostá-las

Crises
na lenha tinto baço asperge:

Quinquedentado
espeto lhe sustinha

Cada
servente. Provam-se as fressuras,


combustas as coxas, e em tassalhos

A
mais carne enroscada assam peritos,

E
a obra é feita. Apronta-se o
convívio:

Ninguém
do seu quinhão queixar-se pôde.

Exausta
a sede e a fome, das crateras

Coroadas
almo vinho os moços vertem;

Cada
qual auspicando os copos liba.

Por
captarem favor, o dia inteiro

Jovens
Dânaos entoam ledo péan,

E
seus cantos o deus regozijavam.



Cedendo
o sol à treva, ao pé repousam

Do
amarrado navio, e assim que alveja

A
aurora dedirrósea, o porto largam.


Erecto
o mastro, as pandas brancas velas

A
brisa enfuna que o certeiro Apolo

Bafeja,
e a ressoar cerúlea vaga

Do
buço em derredor, cortava a quilha

O páramo salobre. No abordarem

O
arraial dos Aqueus, varado em seco

Sobre
longos roihões o bruno casco,

Por
tendas e outras naus se repartiram.



Sempre
enfadado nos baixéis, o ardente

Generoso
Pelides na assembleia

De
heróis não comparece ou nas batalhas;

Do
ócio porém seu coração ralado,

Almeja
o alarma e pela guerra brame.



Ao
duodécimo dia, à casa etérea,

Em
testa Jove, os numes se encaminham.

Dos
mares Tétis, sem que olvide o filho,

Surgindo
matutina, ali se alteia;

Semoto
encontra o providente Padre

No
fastígio do Olimpo cumioso;

Pára,
da sestra prende-lhe os joelhos,

Da
dextra o mento afaga, e assim lhe implora:

"Se
entre imortais, senhor, te fui profícua

Por
dito e acção, preenche-me este voto:

Orna
a meu filho a vida, já que é breve;

Que
o rei possante o assuberbou de insultos

E retém-íhe o só prémio. Glorifica-o,


Ó
pai celeste; aos Frígios dá vitória,


que de honras os Dânaos o acumulem."


O
anuviador calou-se, e ela mais insta:

"Pois
que receias? ou concede ou nega;

Que
a deusa ínfima sou prove-se agora."




Do
imo geme o Tonante: "É mau que
incites

A
com seus ralhos molestar-me Juno,

One,
assídua em me aturdir perante os numes,

Desses
Troianos parcial me acusa.

Vai-te,
ela não te enxergue. A mim o tomo:

Do
certíssimo aceno entre as deidades,


Selo
à minha promessa
irrevogável."


Então
franze as cerúleas sobrancelhas,

Da
cabeça imortal sacode a coma,

E
estremece abalado o imenso Olimpo.



Obtido
o fim, do éter puro Tétis

Pula
ao mar, e o Satúrnio à régia passa.

Nenhum
dos deuses o esperou sentado;

Vão
respeitosos cortejá-lo todos.

Ele
entronou-se; e Juno, que aventara

Da
Nereida argentípede o segredo,

Assaltando
o invectiva: "Quem, doloso,

Fora
de mim se conluiou contigo ?


Sempre
agradam-te ajustes clandestinos;

Nunca
um só pensamento me descobres."




E
o rei supremo: "Em penetrar não
cuides

Arcanos
meus; esposa embora sejas,

Penosos
te serão. Nem deus nem homem

Quanto
ouvir devas me ouvirá primeiro;

Mas
o que a parte no ânimo concebo,

Não
mo perguntes, nem mo inquiras, Juno."




A
augusta irmã contesta: "Que
proferes?

Jamais
pergunto nem te inquiro nada;

A
teu sabor tranquilo deliberas.

Mas
temo te seduza, ó cru Satúrnio,

A
branca filha do marinho velho:

Madrugou-te
abraçando-te os joelhos;

E
suspeito anuíste a que ante a frota

Sucumbam
Dânaos por amor de Aquiles."




Redargui
o que as nuvens amontoa:

"Ruim
maliciosa, eu não te escapo;

No
desagrado meu com isso incorres.

Trago
pior terás; que lucro esperas?

Se
é verdade o que dizes, foi meu gosto.

Não
mais, submissa em teu lugar sossega:

Se
as mãos te calmo invictas, pouco importa

Que
te acudam do pólo os moradores."


A
olhitáurea, tremente e silenciosa,

Volve
a seu posto, na alma a dor sopeia;

Os
demais carregaram-se tristonhos.

Por
consolar a bracinívea madre,

Vulcano
ínclito fabro assim começa:


praga intolerável que aos Supremos

Questões
humanas alvoroto excitem;

Se
o mal grassa, os festins seu preço perdem,

À mãe discreta aviso a que amacie

Meu
pai dilecto; a repreensão de novo

Não
nos turbe as delícias do banquete,

Pois,
se tal se lhe antoja, o Omnipotente

Destes
assentos nos derriba a todos.

Sim,
com ternos obséquios o acarinhes;

Plácido
ele nos seja." E em tom mais
baixo,

Duplicôncava
taça, erguido, oferta:

"Paciente,
cara mãe, sufoca o anojo;

Estes
olhos batida ah! não te vejam.

Meu
zelo e meu pesar que prestariam?

Contra
o fulminador árduo é lutarmos

No
acorrer-te uma vez, do pé travado,

Precipitou-me
do limiar divino.

Toda
a noite rolei na imensidade;

A
Lemnos, posto o Sol, fui ter exânime,

Ei
os Síntios ao cair me agasalharam."



Sorrindo,
a clara deia o copo aceita.


Pela
dextra em redor, seu filho aos numes

Da
cratera entornava o doce néctar.

Os
beatos celícolas romperam

Numa
infinita cachinada, quando

Vulcano
a escancear se azafamava.

É
já tarde, e regalam-se os convivas


De
iguais porções de opíparos manjares.

Lange
na lira Apolo, e as Musas cantam

Com
suave cadência e melodia.



Dês
que a diurna luz desaparece,

Desencostados,
cada qual procura

Seu
domicílio no esplendente alcáçar,


Do
coxo mestre fábrica estupenda.

O
fulgurante Olímpio ao toro sobe,

Onde
usa o meigo sono acometê-lo;

Dorme-lhe
em braços a auritrónia Juno.


[Canto I ]
[ Canto II] [Canto III]
[Canto IV]
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