Ilíada de Homero para download- Canto III

Ilíada de Homero para download- Canto III

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Ilíada de Homero para download e visualização no navegador

Tradução de Odorico Mendes
Fonte: Clássicos Jackson

Resumo e apresentação da Ilíada de Homero

 

Argumento do Livro III



Os
dois exércitos avançam um contra o outro. — Páris a frente dos

Troianos
provoca os mais bravos dos Gregos ao combate. — Menelau

vai
ao seu encontro, mas Páris amedrontado busca refúgio entre os

Troianos.
— Exprobrações de Heitor. — Resposta de Páris ; propõe

sustentar
um combate com Menelau do qual Helena será o prémio. —


Heitor,
contente leva o desafio de seu irmão ao herói Grego. — Dis-

curso
de Menelau. — Preparam-se sacrifícios. — Entretanto íris,

tomando
a forma de Laodice, vai ter com Helena, e lhe anuncia as


disposições
dos dois exércitos. — Helena vai às portas Ceias, onde

ela
acha a assembleia dos velhos Troianos, que fazem o elogio de sua


beleza.
— Ela designa a Príamo os principais chefes Gregos. —


Retrato
de Agamémnon, de Ulisses, de Menelau e de Ajax, entre os

quais
Helena sente não ver Castor e Pólux, seus irmãos. — Por

conselho
de Ideu, Príamo vai com Antenor ao meio dos dois exércitos.


Agamémnon levanta-se, chama a cólera dos deuses sobre os perjuros

e
sacrifica. — Discursos de Príamo, que volta a ílio para não teste-

munhar
uma luta em que um de seus filhos pode ser vítima. —


Aprestos
e fases diversas do combate. — Páris vai sucumbir quando

Ténus
o livra dos golpes de Menelau, o transporta ao leito nupcial, e

lhe
faz esquecer a derrota nos braços de Helena, que resiste a princípio

e
cede enfim. — Menelau procura em vão seu rival; e Agamémnon

reclama
para seu irmão o prémio da vitória.

Canto III



Os
Teucros em batalha, após seus cabos,

Gritando
avançam: tal se eleva às nuvens

Dos
grous o grasno, que em aéreas turmas,

Da
invernada e friagens desertores,

Contra
o povo Pigmeu com ruína e morte,

O Oceano transvoam. Desejosos



De
entreajudar-se, tácitos os Gregos,

Força
e coragem respirando, marcham.

Qual
se, ingrato ao pastor, Noto enche os cumes

De
névoa, mais que a noite ao furto asada,

Pois
que a tiro de pedra mal se enxerga;

Aos
pés túrbido pó não menos surge

Dos
que iam pelo campo acelerados.



Perto
eles já, da prima Troica fila Páris nítido sai: com arco e espada,

Pele
de um pardo enverga; de énea ponta

A
vibrar dois hastis, os mais valentes

Um
por um desafia. Em grave passo


Vendo-o
vir Menelau, como esfaimado

Leão
exulta que, ao topar fornido

Galheiro
cervo ou corpulenta corça,

Ferra-o
voraz, embora em cerco o apertem

Viçosos
moços, vívidos subujos.

Do
coche em armas vingativo salta;

Mas
Alexandre, que na frente o avista,

Para
os seus retraiu-se estremecendo.

Se
alguém no serro ou brenha encontra serpe,

Trépido
recuando empalidece:

O
deiforme elegante assim do Atrida

Aos
suberbos Troianos retrocede.



Agro
o invectiva Heitor: "Funesto Páris ,

Mulherengo
falaz, nunca nasceras;

Ou
solteiro acabar melhor te fora

Que
escárnio a todos ser. És sim bonito;

O
Argeu cornado, que pugnaz te cria,

Ri
de que alma tão vil teu corpo aloje.

A
navegar, poltrão, forçaste amigos,

Da
Ápia ousando a beleza peregrina,

Consorte
e irmã de heróis, trazer contigo?

E
és a teu pai flagelo, aos teus e à pátria,

Mofa
de estranhos, de ti mesmo opróbrio?

Fugiste
a Menelau? provaras que homem

Houve
as primícias da mulher que usurpas;

Cítara,
nem madeixas, nem beldade,

Nem
Vénus com seus mimos te valera,

No
pó submerso. Por devida paga,


Se
os nossos Teucros tímidos não fossem,

Tu
já vestiras túnica de seixos."




E
o formoso Alexandre: "Essa
fraterna

Mereço,
Heitor; mas no âmago tens rijo

Coração,
qual secure que, aumentando

Ao
pulso a robustez, penetra o lenho,

Talha
e em navais aprestos o afeiçoa.

Da
áurea Vénus os prémios não me exprobres;

Nem
são de recusar os dons celestes,

Nem
alvedrio é nosso o consegui-los.

Se
me queres na liça, Aqueus e Troas

Sossega:
eu só com Menelau a braços

Dispute
Helena; o vencedor aceite

E
reconduza a dama e os seus tesouros.

Ferido
o pacto, em sólida amizade

Neste
pingue torrão fiquem-se os nossos;

De
cavalos fecunda aqueles Argos

E
Acaia busquem de gentis mulheres."




Folga
Heitor, e hasta em punho, os seus retendo,

Se
adianta; mas alvo era de pedras,

Frechas
e lanças, té bradar o Atrida:

"Basta,
Aquivos, cessai, crinita gente;

Que
acena o galeato herói Priâmeo."




Ei-los
subitamente se aquietam,

E
chama Heitor: "Sabei de mim,
Dardânios

E
Aqueus de fina greva, o que Alexandre

Propõe,
da guerra autor. De parte a parte


Largadas
no almo chão fulgúreas armas,

Menelau
marcial a sós com ele

Dispute
Helena; o vencedor aceite

E
reconduza a dama e os seus tesouros;

Nós
outros aliança e paz firamos."




Calam-se,
e Menelau sonoro troa:

"Sede-me
atentos; esta angústia é minha.

Atormenta-me
a guerra: Aqueus e Troas

Por
mim, por Alexandre origem dela,

Nímio
têm padecido! Os mais pactuem;


Morra
qualquer dos dois que a Parca assine.

Preta
imole-se à Terra uma cordeira,

Cordeiro
branco ao Sol, branco ao Satúrnio.

Mas
Príamo o tratado ratifique;

Seus
filhos com perfídia os juramentos

Podem
quebrar, sem pejo do Supremo.

Dos
mancebos a mente é sempre instável:

O
ancião, reportando-se ao passado,

Olha
ao futuro, concilia todos."




Alegram-se
os Trojúgenas e Aquivos,

Terminar
concebendo a luta .infausta.

Dos
coches apeando, os enfileiram;

As
armas despem, que ante si descansam:

Breve
espaço medeia. Dois arautos


Expede
logo Heitor, que as reses tragam,

E
a Príamo convida. A rês terceira

Manda
vir Agamémnon por Taltíbio,

Que
ao rei submisso para as naus caminha.



A
Helena bracicândida vem Íris,

Nas
feições de Laodice, do Antenório

Príncipe
Helicaon dilecta esposa,

E
a mais bela de Príamo gerada.

Acha-a
tecendo em casa dupla trama,

Luzida
e larga, onde as acções bordava

Que
arnesados Aqueus e équites Frígios

Sustentavam
por ela encruecidos.

Chega
a núncia veloz: "Sus, ninfa
amada,

Contempla
e admira os Graios e os Troianos:

Não
há muito, em combates lagrimosos

Ardiam
por matanças; quedos ora,

Sem
contenda, arrimados aos escudos,

Os
longos piques junto a si pregaram.


lança a lança Menelau com Páris



Vai
duelar: do que vencer o nome

Terás
de queridíssima consorte."




Assim
na alma a saudade se lhe estampa

Do
marido e dos lares e parentes.

De
véu cândido ao rosto, água nos olhos,

Saiu
do gineceu; não vai sozinha,

Vai
com fàmulas duas, a Piteia

Etra
e Climene de bovinos lumes.

As
portas Ceias já de assento encontra

A
Príamo na torre, e Panto e Clício,

Hiceteon
belaz, Timetes, Lampo,

Mais
Antenor e Ucalegon sisudos,

Que
por velhos abstinham-se da guerra;

Porém,
bons oradores, semelhavam

A
cigarras que, n’árvore pousadas,

A
selva adoçam com suave canto.

À
torre vendo aproximar-se Helena,

Dizem
baixo entre si: "Não sem motivo

Povos
rivais aturam tantos males!

Que
porte e garbo! efígie é das deidades.

Mas,
tal qual seja, embarque; a nós de exício

Não
continue a ser e a nossos filhos."




Então
chamou-a Príamo: "Anda, ó cara,

Teu
cônjuge primeiro e afins e amigos

Atenta
ao pé de mim. Não és culpada;

Guerra
tão crua, os deuses ma enviaram.

Aquele
Argeu quem é, bizarro e esbelto?

Outros
se lhe avantajam na estatura;

Mas
nunca os olhos meus tamanho viram

Decoro
e majestade: um rei parece."




Respondeu-lhe
a mais nobre das mulheres:

"Amado
sogro, temo-te e venero;

Oh!
morte eu padecera, antes que o toro

Por
teu Páris tivesse abandonado,

E
os irmãos e a só filha e as companheiras I


Eu
vivo e em mesto pranto me definho.

Mas
vou satisfazer-te: o herói que apontas


É
rei sublime e campeão tremendo,

O
pujante Agamémnon; que vergonha!

Se
um dia o mereci, foi meu cunhado."




Pasma
e exclama o ancião: "Feliz
Atrida!

Mimoso
da fortuna, que em florentes

Graios
dominas! Muitos vi peritos


Cavaleiros
na Frigia pampinosa,

E
as de Migdon divino e Otreu falanges,

Que
do Sangário às bordas acampavam;


como auxiliar no ataque estive

Das
viris Amazonas: mor quantia

De
olhinegros Aquivos se apresentam."




Prossegue
a interrogá-la: "A quem do
Atrida

Sobrepuja
a cabeça, dize ó filha,

E
é dos peitos mais largo e das espáduas?

Em
terra as armas, as fileiras corre:

De
espessa lã guieiro se me antolha

Que
entre infindo passeia alvo rebanho."




Torna
a Dial vergôntea: "Esse o
prudente

Laércio
Ulisses é, de Itaca rude,

Em
todo estratagema e ardis sabido."




E
Antenor: "A verdade, ó mulher,
falas.

Por
teu respeito aqui já veio Ulisses

De
embaixador com Menelau: prestei-lhes

Uma
franca e amigável hospedagem.

Discerni
a cordura e o génio de ambos.

Eles
em pé, dos Teucros no conselho,

Menelau
sobranceiros tinha os ombros;

Sentados,
o Laércio mais nobreza.

Não
multíloquo e vago, embora jovem,

Sim
conciso os discursos bem tecendo,

Razões
argutas Menelau volvia.

Mas,
se o ítaco a orar se levantava,

No
chão pregada a vista, o ceptro imóvel,

Direito
e sem pender, o creras homem

Inexperto,
iracundo, ou quase louco;

Do
imo ao soltar a voz, qual neve hiberna

As
palavras em flocos lhe choviam:

Com
ele então ninguém se comparasse;

Na
facúndia e no gesto era um portento."




"Quem
é, pergunta Príamo, o guerreiro

Que,
espadaúdo e grande, a fronte acima

Dos
Dânaos assoberba?" — "É, disse a nora,

Ajax,
dos Gregos fortaleza e muro.

Idomeneu
Cretense ali dos cabos,

Como
um deus, se rodeia: ao vir de Creta,

De
Menelau nos paços o acolhíamos.

Outros
vejo daqui de negros olhos,

Que
eu fácil nomeara; mas não vejo

Castor
na picaria, insigne Pólux

No
pugilato, príncipes das gentes,

Maternos
meus irmãos: ou não largaram

Da
leda Esparta, ou nos baixéis detidos,

Pejam-se
de empenhar-se nas pelejas

Que,
por meu vitupério, se prolongam".

Oculto
lhe era que ambos já na doce

Pátria
Lacedemónia descansavam.



Traziam
da cidade os messageiros

As
hóstias e odre cheio do jucundo

Bom
licor de natio; Ideu cratera

Também
traz luzidia e copos de ouro,

E
assim convida o rei: "Sus,
Laomedóncio;

Magnatas
Frígios e emalhados Gregos

Rogam
desças e o pacto nos confirmes.

De
hastas com Menelau contenda Páris :

Quem
vencer haja Helena e seus tesouros.

Ferida
a paz, em Tróia ficaremos;

De
cavalos fecunda aqueles Argos

E
Acaia busquem de gentis mulheres."




Manda
o coche arreiar trémulo o velho:

Obedecem-lhe;
sobe e os loros tira;

Sobe
Antenor com ele; os corredores,

Das
portas Ceias despedidos, param.


do assento vistoso desmontados,

Entre
Aqueus e Troianos caminhavam;

Ergue-se
o mor Atrida e o cauto Ulisses.

Prestes
as reses, na cratera o vinho

Os
arautos resplendidos misturam,

Água
às mãos régias cristalina vertem.

Puxa
Agamémnon do cutelo, apenso

Da
bainha da espada formidável,

Raspa
a moleira às vítimas, e o pêlo

Os
arautos aos próceres dividem;

Ele
alça deprecando a voz e as palmas:

"Do
Ida augusto senhor, máximo padre,

Sol
que vês e ouves tudo, rios, Terra,

Vós
que no inferno castigais perjuros,

Desta
aliança fiadores sede.

Se Páris vence a Menelau, conserve

Toda
a riqueza e a dama, e nós voguemos;

Se
o vence o louro Atrida, aqui nos rendam

Helena
e o seu tosouro, e por memória

Multa
condigna paguem: morto Páris ,

Se
Príamo e seus filhos ma refusam,


que os force ao dever, não largo as armas."




Nisto,
as gargantas aos cordeiros sangra:

Exânimes
no solo e palpitantes,

Do
éreo instrumento ao gume a vida perdem.

Rasos
os copos, a cratera esgotam,

E
ao Supremo libando o voto expressam,

Ou
cada Argivo ou Teucro: "Jove
eterno

E
mais deuses, no chão, como este vinho,

Dos
que primeiro o pacto violarem

Esparjam-se
os miolos e os dos filhos,

Sejam
dos outros as mulheres suas."




Nada
firma o Satúrnio, e o rei Dardânio:


Troas, balbucia, Aqueus, ouvi-me:

Volto
a llion ventosa; que estes olhos

Entre
o rival belígero e o meu Páris

O
duelo cruel suster não podem.

Júpiter
sabe e os imortais qual deles

Chamam
seus fados." — O varão divino

Monta,
no coche as vítimas coloca;

Tem
consigo Antenor, e as rédeas bate:

Ambos
à desfilada se recolhem.



Eis
Ulisses e Heitor o espaço medem,

Eis
num elmo sorteiam quem da lança

Aénea
encete o bote. Frígio ou Graio,

Súplice
as mãos estende e aos céus implora:

"Do
Ida augusto senhor, máximo padre,

Quem
quer que o mal causasse, a Dite o entregues;

Nós
de amizade o pacto mantenhamos."


Sacode
o elmo Heitor, e o rosto vira;

Sai
o nome de Páris . Em fieira,


Têm
seus donos ao pé cavalos e armas.



Arnesa-se
Alexandre, o pulcro esposo

Da
emadeixada Helena: as caneleiras

Com
prata afivelando, ao peito a coira

Do
irmão seu Licaon, que bem lhe quadra,

Lâmina
aénea claviargêntea ombreia,

De
grande escudo sólido se adarga;

Flutua-lhe
à cabeça o capacete,

De
crina e hórrida crista, primoroso;

Pique
válido empunha. De iguais armas


Galhardo
Menelau se adorna e veste.



De
ponto em branco, ao meio avançam torvos:

Frio
estupor, a tal conspecto, assalta

Bem
grevados Aqueus e équites Frígios.

Sanhudos
no recinto se acometem,

Hastas
brandindo. A sua arroja Páris ;


Rasca
o broquel do Atrida sem rompê-lo,

Da
brônzea rigidez se amolga a ponta.

Menelau,
por seu turno, impreca: "Ó Jove,

Dá-me
a injúria anular que hauri primeira;

No
sacrílego autor meu braço a puna.

De
atraiçoar vindouros estremeçam

O hóspede lhano que os receba amigo."




A
lança aqui desfere, que no instante

Ao
Priâmeo entra aguda o reforçado

Fúlgido
escudo, rasga-lhe a excelente

Loriga
e malha, a túnica penetra

No
quadril: curva-se ele e a morte esquiva.

De
argênteos cravos puxa o Atrida o gládio,

Que
na cimeira voa-lhe em pedaços;

Fitando
os céus então, suspira e geme:

"És
o mais sevo nume, ó tu Satúrnio,

Cuidei
nesse traidor vingar a afronta:

Estalou-me
nas mãos, oh! raiva, a espada,

E
arremessei frustrâneo um tiro cego."




Nisto,
pelo cocar o aferra e empuxa

Para
os Aqueus: o pespontado loro

Que
ao mento o elmo liga, a mole goela

Cerra
e o sufoca; eterna glória obtendo,

Firme
o arrastara, se a Dial Ciprina

Rapidamente
não quebrasse o atilho,

De
hóstia bovina espólio. O herói,
sacado

O
elmo vazio, a revoltões remete-o

Aos
contentes consócios, que o recadam.

Por
matá-lo inda enresta acesa lança;

Mas
fácil, como deusa, em névoa grossa

Vénus
o leva ao tálamo fragrante.



À
torre mesma corre, onde acha Helena

Entre
as Dardânias: unectário peplo

Abanando-lhe,
o vulto imita e as rugas

Da
fiel cardadeira que na Esparta

As
lãs curava e as boas lhe escolhia;

Disfarçada
comete-a: "Vem, que Páris

No
toro conjugal te aguarda, filha:

Enfeitado
e gentil, não de um combate

Livre
o julgaras, sim que a dança o espera,

E
que já de um folguedo refocila."




A
Helena isto comove; mas, donoso

Vendo-lhe
o seio, o colo de alabastro,

Dos
olhos o fulgor, pávida exclama:

Bárbara,
em fascinar-me assim prossegues?

Rojar-me
intentas à Meónia ou Frigia?


tens algum mimoso entre esses povos?

Quando,
o guapo Alexandre hoje abatido,

Ré Menelau me aceita e me perdoa,


Traças
com teus enganos empecer-nos ?

Vai
tu própria; não ponhas pés no Olimpo.

Esquece
os deuses, dele sempre ao lado,

Soporta-lhe
o desdém, até que esposa

Tu
sejas de um mortal, ou sua escrava.

Não
mais, desse cobarde o leito ornando

Quero
a fábula ser das Teucras damas,

Curtir
nova desonra e mágoas novas."




E
a deusa irada: "Não me apures,
teme

Que
eu te persiga, mísera, e aborreça

Quanto
hoje te amo: excitarei discórdia,

Que
os Dardânios e os Gregos exaspere,

E vítima serás de horrendos
fados."



Estremece
a Ledeia, e silenciosa,

Do
peplo candidíssimo velada,

Às
Troadas se furta, e a guia Vénus.

No
palácio elegante apenas entram,

As
servas todas no lavor se apressam;

Monta
à câmara sua Helena bela.

Numa
sede a coloca a mãe dos risos

Em
face de Alexandre; aversa olhando

A
do Egífero neta o argúi severa:

"Pois
te salvaste? aos golpes sucumbisses

Do
meu primeiro esposo! Em destra lança

E
em forças te gabavas de excedê-lo:

Anda,
provoca a Menelau brioso,

Torna
ao duelo agora. Estulto, crê-me,

O
louro Menelau nem mais encares,

Que
da hasta e forte mão serás prostrado."



Brando
se excusa Páris : "Doce Helena,

Com
essas lancetadas não me punjas:

Venceu-me
o Atrida por favor de Palas;

Deuses
mais faustos me farão vencê-lo.

Vamos
em nossa cama congraçar-nos:

Tal
ardor nunca tive e tais desejos;

Nem
quando, arrebatada à meiga Esparta,

Velejava
contigo, e a vez primeira

Na
ilha Cranaé do amor gozamos;

Hoje
mais te apeteço e mais te anelo."


Então
sobe adiante, e o segue a esposa;

No
entalhado seu leito adormeceram.



Menelau,
como fera, escuma e vaga

Em
busca do formoso e divo Páris :

Nem
Troa algum, nem ínclito aliado

Ao
valente rival mostrá-lo pôde;

Que
nenhum o escondera, a todos sendo

Ódio
mortal. — Bradou-lhes Agamémnon:

"Teucros
e auxiliares, atendei-me:

Claro
a vitória a Menelau pertence;

Rendei
pois a riqueza e Helena Argiva,

Multa
pagai-nos que o porvir memore."


Dos
seus o aplauso unânime retumba.


[Canto I ]
[ Canto II] [Canto III]

[Canto IV]
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