Arquivo para maio 2005

O GATILHO DO TEXTO

maio 27th, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Acumular histórias, informações, falas, não faz de ninguém um escritor. O que faz de nós um escritor é o gatilho do texto, a faísca que bota fogo na montanha de coisas que juntamos, o grude que garante a massa, quando tudo finalmente faz sentido.



HATARI, A NARRATIVA DE CRISTAL

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

A captura de animais selvagens na África é uma frase que nada diz sobre Hatari!, de Howard Hawks. É algo diverso. É a composição musical de uma saga, em que o alvo (o animal que precisa ser agarrado para o zoológico) impõe o ritmo e o perfil da narrativa.



O VIGIA DO MAR

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Contos

A realidade do pescador é a brusca mudança, o rochedo que aflora, o sumidouro, o roçar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do que os braços. Ele vive diante da oportunidade perdida, da história afundada no tempo, na curva da onda batizada de Iemanjá, na tentação sonora em forma de sereia. O pescador perde a forma para adaptar-se às imposições mutantes da paisagem.



CAPRA, AS REVELAÇÕES DO REMORSO

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Não há, no cinema americano, seqüência mais sinistra do que a visita que Stewart faz à sua não-vida, às conseqüências da sua vontade de jamais ter nascido. É muito semelhante à história de Dickens, em que o velho avarento é levado por um espírito para visitar momentos importantes da sua vida, em que ele vê o Mal que encarnou em sucessivas manifestações de egoísmo e crueldade (roteiro filmado mil vezes).



QUANDO A COMÉDIA CEDE AO DRAMA

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Comédia é uma situação em que o excluído tenta fazer parte dela e, como não consegue, acaba destruindo o cenário. O que era para ser uma celebração, uma festa de aniversário ou casamento, vira guerra de bolos e tortas, graças à intervenção de um desastrado, de um outsider. No fundo é drama: quem está por fora sofre para ser visto como um membro do clube, mas sempre será o estranho, o freak, o bobo.



OS ESPAÇOS FATIADOS

maio 25th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

O ator move a cabeça lateralmente em ângulos bem determinados. Assim ele pode fatiar o espaço em vários pedaços de percepção. O que pretensamente enxerga em cada movimento é um compartimento à parte, que pode sugerir espanto, dúvida, entendimento.



O SUFOCO DO OLHAR

maio 25th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em Tóquio, onde ela filmou, todos os espaços da percepção estão tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. A maldição do olhar viciado nas imagens comercializadas é reproduzir eternamente o imaginário do Mesmo. O truque é carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impressão de diversidade.



A VOLTA NA QUADRA

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Quarteirões em quadrados perfeitos, ruas e calçadas largas: a engenharia militar da República do Piratini engendrou a lógica na geografia urbana da minha cidade. Foi essa lógica que me salvou numa tarde sinistra, quando eu e meu irmão Luiz Carlos enfrentamos a fúria de um morador da nossa rua. Nós dois não devíamos ultrapassar os cinco anos de idade. Até hoje esse acontecimento mostra-se nítido em minha memória, já que foi minha primeira experiência com o horror.



O ESQUELETO IMANTADO

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Texto, para ficar em pé, precisa de espinha dorsal com poder de atrair naturalmente todas as informações. O núcleo dessa criatura difícil de domar deve possuir força suficiente para encaixar as peças sem susto e assim justificar a atenção do leitor, levando-o pela mão, sem tropeços, da primeira à última linha. Texto é música e o esqueleto imantado é a sua partitura.



PAULO JOSÉ DIANTE DO ALVO

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Paulo José está desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. É solteiro e entra em parafuso com o excesso de oferta de uma civilização que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos anos 60. O­nde é a festa sábado? grita, bêbado, no bar cheio de mulheres e falsos amigos. Até que de repente…