Arquivo para maio 2005

OS RASTREADORES, DE JOHN FORD

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Não escrevo sobre cinema, escrevo sobre o que cinema faz comigo. No centro do colar de obras-primas, alguns filmes compõem uma espécie de Capela Sistina. Os Rastreadores (The Searchers, ou Rastros de Ódio), de John Ford, é um deles. O plano mais copiado de toda a história é a de Ethan (John Wayne) saindo pelo deserto afora, trôpego, com os pés para dentro, com aquele caminhar que ele construiu, mas em ruínas, afastando-se da câmara, que o filma de costas, emoldurado por duas tarjas pretas laterais. Essa dupla escuridão funciona como guardas para a luminosidade dolorosa que se descortina ao fundo.



O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça inalterado.



GLAUBER, A PROFECIA NO DESERTO

maio 21st, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Glauber Rocha é o tempo presente amaldiçoado pela História. Sua pregação é feita no deserto (rural em Deus e o Diabo, urbano em Terra em transe) porque o deserto, pela ausência, destaca o humano entregue ao horror das contradições. Nele, a palavra incorpora o futuro quando é murmurada pela fúria, e elimina a esperança para repor a verdade.



A MAJESTADE EM VISCONTI

maio 21st, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Luchino Visconti filmou a decadência de um estilo de vida fundada no direito divino à majestade. Confundem essa catedral envolta na neblina com aristocracia, mas ela pode nascer do povo, como em TerraTrema, das posses e da riqueza, como em Il Gattoppardo, ou da virilidade ferida do proletariado e dos migrantes, como em Rocco e seus irmãos.



HITCHCOCK, O TERROR DA VIDA NORMAL

maio 21st, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Alfred Hitchcock demoliu a idéia de que existe conforto no mundo ordinário. O vizinho que esquarteja a mulher e enterra a cabeça no jardim, a tesoura que serve como arma para um crime hediondo, os pássaros inofensivos que tornam-se assassinos, o pequeno avião que pulveriza lavouras fazendo rasantes na estrada deserta para matar um inocente, todas essas situações inesquecíveis que ele inventou são recorrentes neste autor que, ao ser excluído na sua formação, por ser gordo e desajeitado com as mulheres, usou o cinema como vingança, mas de maneira tão genial que tornou-se um alerta.



O ENIGMA ROSEBUD

maio 21st, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Ninguém decifra o enigma Rosebud em Cidadão Kane. A solução da charada morre junto com o personagem , fechando o círculo onde se encerra uma vida privada, a única com existência real, já que o perfil público do homem que construiu um palácio de Mil e Uma Noites é pura representação, tragédia e deboche.



O HORIZONTE ACERTA O PASSO

maio 19th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Cidade é presença e memória, é geografia humana e paisagem. Uma cidade existe a partir do esquecimento: quem vive nela precisa dos visitantes para lembrar-se da imponência do concreto, da identificação das ruas, do rendilhado da serra, ou do mar aberto para a invasão do desconhecido.



EU PODERIA SER ALGUÉM

maio 18th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Nei Duclós

A morte de Marlon Brando aos 80 anos nos remete à sua cena mais famosa, praticamente sua herança mais importante: a cena em que reclama com o irmão que o obrigou a perder uma luta no clássico de Elia Kazan, Sindicato de ladrões (On the Waterfront). Eu poderia ter vencido aquela luta, pelo menos disputado de verdade e assim teria uma carreira digna e hoje não estaria na mão de bandidos, participando de assassinatos e roubos, nos diz o maior ator de todos os tempos. Sua vida foi uma saga humana de ascensão e queda. Ele nos deixa um exemplo de independência, vontade, luta e talento inigualável.

GÊNIO – Seu famoso discurso para o ator Rod Steigger é mais uma performance de gênio do que a confissão de uma derrota. É por isso – por ser a manifestação da garra lúcida de Marlon Brando – que o discurso ficou na história: “I cudda had class! I cudda been a contender! I cudda been somebody!” Eu poderia ter classe, ser um lutador, ser alguém. Mas aceitei as imposições dos que não queriam que eu cumprisse o destino, fui covarde no momento decisivo, não enfrentei o inimigo na hora certa. E o inimigo não era o meu adversário na luta que entreguei para que os outros ganhassem as apostas. Os inimigos eram esses mesmos, os jogadores que se adonaram da minha vida e hoje me tratam como lixo. A gana com que ele diz isso faz parte não só da história do cinema, mas da civilização. O que é esta vida senão a preparação, o enfrentamento e o rescaldo dessa hora fatal em que podemos decidir o destino? O filme de Kazan trata da nova chance, quando aquele que foi derrotado pela sua própria covardia tem a oportunidade de dar a volta por cima, enfrentar os tiranos e sair enfim vencedor, mesmo sabendo que jogou boa parte da sua vida fora. Eis outro motivo para a eternidade do discurso: se você encarar de frente a situação, dizer alto que perdeu aquela batalha, se souber enxergar o quanto perdeu, se não tiver a mínima piedade de si mesmo, se enfrentar seus fantasmas de cara limpa, se puder ver quem são os algozes que o levaram para o buraco, você terá a chance de resgatar a si próprio, desde que saiba a tragédia o­nde você vai se meter: como na primeira vez, você enfrentará a sua morte com essa decisão. Tens essa coragem? Não basta fazer o balanço do buraco o­nde você está metido. Não basta decidir enfrentar o horror mais uma vez. Precisa saber que, como antes, poderás morrer. Estás preparado?

LEGADO – Brando leva com ele interpretações imortais que nos fizeram saltar da cadeira, assim como Buñuel pulava diante de Antonio das Mortes. Lembro o dia em que apareceu todo fantasiado numa sessão das quatro (16 horas) no cinema de Uruguaiana e foi aplaudido de pé pela platéia deslumbrada e debochada. O filme era O grande motim e Brando extrapolou no exibicionismo. Já era então o gigolô da sua própria história, já detonava, jogava para o alto o que conseguiu com fúria. Já tinha destruído a atuação como era conhecida até então com sua magistral interpretação de um canalha violento em Um bonde chamado desejo. Já era o maior, por isso dava-se ao luxo de fazer o que bem entendesse, como extrapolar todas as despesas de uma produção, expulsar diretores para tomar o lugar deles. Decidiu até fazer um faroeste, o estranho A Face Oculta, o­nde passa o tempo todo explorando até o limite as possibilidades do seu rosto, do seu corpo e do seu gesto. Mas o mais impressionante ainda estava por vir. Foi quando fez o Poderoso Chefão e reiventou a profissão novamente. Todos imitam sua interpretação nesse filme, de maneira séria ou às gargalhadas. Seu sussurro manipulando pessoas e situações, suas bochechas inchadas, sua testa em V, sua concentração. Quem poderá apagar da memória essa criatura magistral? E, de lambuja, como diziam antigamente, ainda temos Apocalipse Now, em que só seu rosto dividido entre luz e sombra é a mais assustadora aparição de toda a história do cinema. Se houve grandeza nesta fase em que passamos sobre terra, Marlon Brando encarnou-a. E de maneira única. Parte depois de muito sofrimento. Pagou caro a conta cobrada por ter sido primus inter pares, o maior dos maiores, que deixa, sim herdeiros, mas nenhum que chegue ou chegará aos seus pés, já que tornou-se referência. E mesmo agora, aparentemente imóvel na eternidade, jamais poderá ser alcançado por nenhum mortal. Cada vez que formos ver um filme seu, ele ficará cada vez melhor.



O COLECIONADOR DE IDENTIDADES

maio 18th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Preciso cruzar mais de cinquenta quilômetros de imensas propriedades coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos nevados, vales e praias, antes de chegar ao núcleo do refúgio deste território oculto, o­nde mora Herr Holderbaum num castelo tão imponente quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermitão, colecionador de identidades que guarda em inúmeros aposentos, que vai me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa ao pé de uma lareira, onde as brasas esquentam um pedaço de pedra lisa. Lá tornam-se digeríveis pizzas e pinhões.(Crônica publicada no caderno Donna, do Diário Catarinense, em 9/outubro/2005)



VER É SABER, EM KUBRICK

maio 18th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Stanley Kubrick nos ensina que ver sem apoiar-se em parâmetro algum, ver pela primeira e única vez, ver como se o espectador estivesse nu diante do cosmo, é saber. Rever é arquivar, é perder esse tesouro do primeiro olhar, é desdobrá-lo, tentar entender o que foi visto. No filme De olhos vendados, o médico interpretado por Tom Cruise não pode ter acesso ao que a elite vê. E o que a elite vê? A própria elite, que não pode ser desmascarada.