Arquivo para dezembro 2009

AS CIDADES LIMPAS DE WOODY ALLEN

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Woody Allen decidiu ser um clássico especialmente a partir de Manhattan, a porção novaiorquina em preto e branco que resgatou a magia perdida do cinema. O cenário limpo de suas cidades inexistentes (como acontecia nos filmes tradicionais) ambienta sua obra, que é pura reverência. Não bastou clonar Bergman, foi preciso ir atrás de Geroge Stevens de “Um lugar ao sol” ( a ascensão social por meio do crime) ou de Hitchcock de “Pacto Sinistro” (o cadáver oculto num evento social), como prova “Match Point” (2005), o thriller que nos traz a Londres vista pela elite (sem miseráveis à vista), numa trama que é mais um subproduto de “Crime e Castigo” de Dostoiewski (a lógica driblando a culpa) .



O SOL OCULTO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ficção é o álibi perfeito para contar a verdade. Isenta o autor de crime de calúnia e ainda enriquece a biografia artística. É o que Carlos Henrique Schroeder faz no seu oitavo romance, Ensaio do vazio (Coleção Rocinante, Editora 7Letras, 114 pgs.). O romance é colocado como um trabalho de vanguarda numa bienal de sucesso, nesse tipo de evento comparado a um shopping center de mercadorias descartáveis por Ferreira Gullar em Sobre Arte (Coleção Sabor Literário da José Olympio, republicado junto com o ensaio Sobre poesia – uma luz no chão, 170 pgs.). Numa conexão explícita, o personagem de Schroeder, pelo menos nas intenções (viver do mercado, em conúbio com os neomarchands) e nas convicções, é idêntico ao de Ferreira Gullar. (Resenha publicada no caderno Cultura, do Diário Catarinense, de 17 de junho de 2006).



CLOSER: O AMOR NO AQUÁRIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O conteúdo de um aquário está exposto (aberto) e ao mesmo tempo fechado no seu próprio mundo. É a metáfora perfeita usada pelo filme Closer, de Mike Nichols (2004). Relacionamento amoroso é uma antiga especialidade do diretor, como podemos ver desde Carnal Knowledge (1971). Se no seu filme antigo (e tão terrivelmente moderno na época), o tédio e o vazio eram os motores da trama da troca de casais, neste é o desespero gerado pela situação limite: tudo está próximo demais, transparente, e ao mesmo tempo fechado, inacessível – fazendo jus assim ao título em inglês, que tem esse duplo sentido (closer é o que está perto e é aquele que fecha).



GEORGE CLOONEY DECIFRA SEU CLÁSSICO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O diálogo do diretor de “Boa noite e boa sorte”, George Clooney, com seu co-roteirista Grant Heslov, nos esclarece sobre várias decisões que fazem deste filme uma lição de cinema, uma denúncia definitiva sobre a mídia comprada e um exemplo de realização pessoal possível em plena manipulação imperial da sétima arte. É no making off que Clooney explica, num sussurro cheio de gags hilárias, como o preto-e-branco usado se refere a documentários dos anos 50 ; como é certo escolher um ator não famoso para interpretar alguém famoso (no caso, David Strathairn, que interpreta o apresentador anti-machartista da CBS, Edward R. Murrow), pois isso cria um impulso na atuação tornando-a antológica; a importância do silêncio no clima de tensão de um filme que é, segundo as palavras do diretor, “de cabeças falantes”; e como esse silêncio foi aprendido de filmes de grandes cineastas.



QUATRO PERSONAS EM CENA ABERTA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Uma indústria cinematográfica sólida, num país imperial que domina o mercado no mundo todo, e que tem longa tradição em teatro, não se destaca apenas pelos atores incontestáveis, como Al Pacino ou Merryl Streep. Há um time que se impõe pela continuidade de suas performances e aos poucos vai se firmando com artistas de primeiro time, num caminho mais árduo do que as estrelas maiores. São eles: Jodie Foster, Nicholas Cage, Ed Harris e Sean Penn.



O RESGATE DO SOLDADO INDALÉCIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A palavra de ordem é resgatar o soldado Indalécio. Era soldado, mas foragido; era valente, mas se borrava; era o fundador, mas não deixou como legado a paz ou o progresso. Mas era um dos nossos. Seja quem for Indalécio, tenha ou não saído correndo da luta, deixara ou não descendência, ele nos representa, a nós, povo de Javé. Precisamos resgatá-lo e é isso que a cineasta Eliane Caffé faz nesta preciosa obra-prima do cinema brasileiro da retomada, Narradores de Javé. É ver e assumir a cidadania perdida do Brasil soberano.



ÍRIO E OS ANIMAIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Ela deu um passo para frente e abordou Írio, que já estava há uns vinte minutos esperando a condução para levá-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plantão. Não costumava chamar a atenção de ninguém, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. Estranhou, por ser invisível, a aproximação da mulher, que o cumprimentou com cerimônia e batendo duro com o salto alto do sapato preto.
– O senhor é o Írio, que trabalha com os menores, não é?



PASSO MIÚDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Febrônio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu café. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. O barulhão dos motores na avenida próxima, os gritos dos adolescentes armados, a serra elétrica em alguma construção próxima, tudo o rodeava nesse final de tarde, quando suspirava por uma boa conversa. Sim, ele estava velho. Sim, queria conversar sobre a morte. Não, não queria se iludir com a melhor idade.



NOVA GRAMÁTICA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

O pesadelo da linguagem continua firme. Normalmente é disseminado pelo som da voz de taquara rachada, em ambientes fechados e irreversíveis, como elevador ou ônibus. Ou em situações constrangedoras, como reencontros forçados. Ou em spams ou na midia. Não é possível escapar, por isso merece vingança.



GUARNIERI: A VERDADE PROFUNDA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Gianfrancesco Guarnieri era didático sem ser piegas, moderno sem ser superficial, de vanguarda sem ser espalhafatoso. Tinha uma contenção clássica que projetava escassez humana. Sua voz parecia trêmula, desfocada, sem empostação, mas não havia presença mais marcante no palco ou na tela. Era o criador que estava ali, apascentando suas criaturas e nos mostrando o caminho das pedras para nos desvencilhar da alienação.