Arquivo para dezembro 2009

PAMPA EM 23: UM ROMANCE FUNDADOR

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Romance fundador pode ser comparado a um marco de pedra na fronteira seca. É linha divisória e parâmetro num ambiente que foi riscado pela guerra. Quem passa por ele aprende a se situar, reconhecendo assim a identidade de algo que está oculto num lugar onde tudo parece ser idêntico em qualquer quadrante ao seu redor. O marco faz parte da região, no caso, a literatura, mas dela se destaca porque define algo profundo. Esse contorno não se esvai na chuva, não é colhido pelo tempo. Fica de pé, a exemplo de um acordo entre povos que se respeitam por gerações. E serve de guia para os viajantes, os leitores, que sabem, a partir dele, o lugar onde estão pisando. Assim é o romance Pampa em 23, de Ubirajara Raffo Constant, lançado em 2004 e até hoje cercado pelo silêncio e a solidão, apesar da sua presença definitiva como obra de referência na cultura brasileira.



VER, EM STEVE SPIELBERG

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A verdadeira guerra é entre o mundo visível e o invisível. Ou entre o mundo oculto que de repente mostra a cara e o mundo aparente e explícito (para os olhos) da vida diária. A guerra inverte a percepção: o que estava fora do olhar torna-se hegemônico, e a civilização que nos conforta com suas coisas visíveis praticamente desaparece.



EIS REDENTOR, UM FILME E TANTO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Redentor é um filme crespuscular. É sobre a morte de uma civilização, a do Brasil, que se transformou num porão mal assombrado. Disseca o passaporte para a violência, a esperança, pois é a boa fé sem cidadania que alimenta os tubarões da construção civil, da polícia e da política. É um filme que não brinca de fazer cinema. Faz de maneira convincente, com suas cenas fortíssimas, como a final, quando uma pessoa pode ser jogada no abismo.



O POETA ABSOLUTO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Como um só poema sinfônico em três movimentos, A Imitação do Amanhecer, de Bruno Tolentino (Globo, 328 páginas, 2006) parte do encontro de um par de amantes em Alexandria, ponto nodal da cruz Oriente-Ocidente, e se derrama sobre o mistério que a memória apascenta como pastora de um caos temporal. Seria injusto, pela perfeição da obra, que não admite tropeços, destacar versos, partilhá-los como se estivéssemos numa vitrine a expor uma caixa de ressonâncias ocultas. Tudo é claro, equilibrado e profundo no desdobramento dessa perseguição que o autor comete diante da sua presa. (Resenha publicada no Caderno Cultura, do Diário Catarinense, de 12 de agosto de 2006).



LUZ DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Seria uma injustiça ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manhãs de nevoeiro e geada, quando, à espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a força que carregamos não como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que é pura convocação da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas não será a palavra, habitada e livre, que irá nos redimir antes que seja tarde? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, em 13/agosto/2006).



REALIDADE ENCANTADA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Uma das minhas alegrias no longo período em que vivi em São Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com vários andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma só edição que deixaram de ter importância e que estavam à mercê das traças. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superfície não faziam muito sentido, mas lá no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas. (Este texto foi publicado dia 31/agosto/2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



A VOLTA DA FÁBULA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. (Crônica publicada dia 1º de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense).



DOIS POETAS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

“Horizonte de esgrimas”, de Mario Chamie e “O Mundo como Idéia”, de Bruno Tolentino são livros dos dois mais importantes poetas do Brasil. Há outros poetas, também fundamentais, o que seria desnecessário citar, mas a confusão crítica é tanta que deve-se colocar tudo preto no branco: Ferreira Gullar, Hilda Hilst. Prefiro Chamie e Tolentino pelo que conseguem construir, pela proposta das suas intervenções.



TESOURO PESSOAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na identidade pessoal, formatada pela experiência e as leituras, reside o que há de mais importante nesta época de informação de massa, de cultura manipulada, de leituras apressadas, de excesso de exposição, de total interferência nos territórios de sobrevivência nacionais por parte de forças explícitas, armadas ou imaginárias. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, no dia 2 de setembro de 2006).



TEMPOS INFALÍVEIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A verdade é que somos criaturas zeradas a cada geração. Não nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso cérebro de nenéns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O cálculo infinitesimal é uma conquista árdua, assim como a noção mais ou menos exata de como funciona um computador. Não recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, já que toda geração parte do nada até chegar ao seu esplendor. (Crônica publicada dia 4 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).