Arquivo para dezembro 2009

LUGAR PARA MORAR

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira à atual fase da oferta excessiva de informações, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. (Crônica publicada dia 5 de setembro de 2006 no caderno Variedades do Diário Catarinense).



LER COM PRAZER

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta. (Crônica publicada dia 6 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



O CRIME DE CAPOTE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Truman Capote cometeu um crime: invadiu a reportagem com recursos de ficção, extraiu fatos esgrimindo mentiras, transgrediu o jornalismo levando-o à literatura e atingiu a celebridade ao mesmo tempo em que se tornou prisioneiro da própria obra. (Crônica publicada dia 7 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



SOPA DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Por algum motivo, nasci sem resistência para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada à caça e à pesca em paisagens geladas. Houve até algum esforço do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer catástrofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de lãs e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso não os encharcasse. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 8 de Setembro de 2006).



VIAGEM NO BARRO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

A paciência do capitão da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de atenção a coisas básicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na única vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paraná. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 9 de Setembro de 2006).



NATUREZA SOLENE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A relação com a natureza deve ser solene, longe dos sentimentos descartáveis, do uso fundado em superficialidades, dos gestos vazios, dos olhares cômicos. Toda paisagem é ancestral e nos remete a verdades como a eternidade ou a morte. Por estarmos num planeta que vaga pelo céu, por força de muitos mistérios, ficamos amedrontados com o que nos dizem as estações, as catástrofes, os eclipses, as estrelas, o mar, a montanha. (Crônica publicada no caderno Variedades de hoje do Diário Catarinense, em 11 de Setembro de 2006).



CASTELO DE VIDRO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Bastou entrar para não enxergar mais a portaria que me franqueara a invasão. O labirinto tinha sido feito de propósito. Uma vez aceito no ambiente climatizado, pontuado por seguranças, voltar para a rua vira uma idéia absurda. A não ser que houvesse uma insurreição, a quebra de alguns vidros ou todo mundo se atirasse do quinto andar, que é o segundo do estacionamento, ou do quarto andar, que é o primeiro. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 12 de setembro de 2006).



LIVRO CÚMPLICE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 13 de stembro de 2006)



LÁ NO FUNDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O último assento é escolhido por uma questão de estratégia. De lá é possível ter visão completa do recinto, seja sala de aula ou ônibus. É possível monitorar o movimento de todos, que estão de costas, portanto não enxergam o que se passa atrás. É uma espécie de anonimato que dá uma série de vantagens, como atingir nucas com projéteis variados, saber o que fazem quando acham que ninguém está olhando e até dormir sem que desconfiem de nada. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 14 de setembro de 2006).



ETERNO PRESENTE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando não há amanhã, o agora substitui toda espécie de vivência. Isso é incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, você está proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catatônico que fez sua ruína. Quando a educação é substituída pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a formação humanista (expulsão do inglês, francês e latim obrigatórios no ginásio, que também sumiu), e o rigor do ensino é vencido pelo falso protecionismo, então temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que é o já clássico “nós vai”. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 15 de setembro de 2006).



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