Arquivo para dezembro 2009

O BARCO SOBRE A MONTANHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Se a base iluminada imitava o barco, que não se decidia se lambia as ondas ou não, o resto da esfera se mostrava impassível, satisfeita talvez com seu aspecto de breu contornado por leve fio de seda brilhante, que fazia uma perfeita bainha curva em forma de coroa. Era, essa parte escura, como a vela do barco a desprezar o vento, já que se mantinha pela majestade do que imaginava ser.



O PAPEL DA POLÍCIA POLÍTICA NO PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DA UNIDADE DAS FORÇAS ARMADAS (1930-1945)

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: História Militar, Trabalhos Acadêmicos

A divisão das Forças Armadas foi a herança mais preocupante da República Velha e o maior desafio para o novo Governo Provisório encabeçado por Getúlio Vargas. A busca de coesão interna dentro dos quartéis foi um processo que se arrastou pela década de 30 e só se consolidou com a implantação do Estado Novo – que no fundo é o produto dessa vitória. Ao mesmo tempo, ele se desenvolveu concomitantemente à idealização de uma nova nacionalidade, de cunho autoritário, baseada nos princípios da disciplina, obediência, organização, respeito à ordem e às instituições. (Um mergulho nos arquivos do Deops paulista).



CANÇÕES DE UM POETA DE RUA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O poeta maldito não é um maledicente nem um amaldiçoado. E sim um poeta sem o teto das palavras, para usar o verso de um deles (e possivelmente o único), Marco Celso Huffel Viola, que está novamente na praça com seu livro Viver a paixão de cada passo (Editora Alegoria, 80 pgs., R$19,50). Celso lembra, nesta época em que continuam fazendo carreiras literárias empilhando poemas, que a poesia não serve para nada e sua importância e força vem desse mistério. Por não pertencer, na essência, ao mundo utilitário, a poesia está fora da sua identidade considerada normal.



UM ESTRANHO BATIZADO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

O que fazer quando o padrinho está proibido de levar o garoto para a pia batismal? Lá na fronteira, o impasse foi prontamente solucionado. A pessoa convidada para ser meu padrinho, ao receber o convite bem na frente do galpão que existe até hoje atrás da casa da esquina que era nossa, concordou com tudo. E jamais foi me batizar, apesar de, a partir dali, se tornar um dos compadres do meu pai. Ele nunca iria desobedecer o amigo, nem recusar o convite. Assim é a têmpera dos homens da fronteira: palavra dada, palavra cumprida.



DOIS TEXTOS SOBRE URUPÊS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Urupês, de Monteiro Lobato, com 14 contos e um artigo, é analisado sob dois enfoques. O primeiro é a partir da denúncia e do humor . A formatação do Jeca Tatu, excluído gerado pelo mau uso e pela posse injusta da terra, medra na nação que perdeu o rumo. O segundo é a partir da natureza e da sociedade. A devastação anti-ecológica como reflexo da estrutura de classes ainda impera no país continente, passados quase cem anos da primeira edição do livro, que fundou a literatura lobatiana.



A INFÂNCIA É UMA CATEDRAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O espírito humano é dialético e aspira à grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a idéia fixa, são o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um coração de ouro. De mãos postas, com uma fita enorme no braço, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, pé ante pé chegamos ao sacrário. É quando tocamos a veste dos anjos.



UM CORREDOR DE BRINQUEDOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada.



OS ANJOS RESISTEM

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Um filme como Zuzu Angel elimina qualquer possibilidade de o Brasil repetir seu velho papel de palhaço. Não se enquadra nos adjetivos que acompanham os lançamentos para ajudar a esquecê-los. Não se trata de uma obra-prima, de um grande filme ou algo parecido. Mas da ponta mais evidente de uma descoberta ainda submersa. É uma obra sólida, de narrativa enxuta, que convoca nossa omissão e nos abraça com seu drama.



A CEIA DE TIA SARINHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tia Sarinha apresentava-se solitária, com a aura dos espíritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para nós, sobrinhos menores que não compartilhávamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava só ou com amigas fiéis. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a criançada que via de vez em quando. Mas toda essa carapuça caía por terra quando, depois do vinho, da cerveja e até mesmo do uísque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.



O SECULAR ASPIRA AO SAGRADO

dez 15th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O que falta à desconstrução dos mitos, à denúncia das instituições, à oposição às tradições? Falta exatamente o que eles mais querem atingir, a sacralização. Substituir a estátua de Lênin pelo símbolo do McDonald significa transferir a fé na revolução pela fé no mercado. O filme O Código Da Vinci, de Ron Howard, toca nessa necessidade de a transgressão aspirar ao mesmo carisma da Igreja que combate. E é por isso que Tom Hanks se ajoelha no final do filme numa nova catedral, o Louvre, que assume o posto do Vaticano.