Arquivo para dezembro 2009

ARQUEOLOGIA NO DESERTO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Por ser radical, por colocar os gênios como milagres que desafiam uma cultura autodestrutiva, Henry Miller provoca o desconforto habitual da fornalha da sua escrita. O leitor não faz uma viagem agradável pelas paisagens físicas e humanas de uma América deslumbrante e aterradora. Não se trata de um livro para confirmar a hegemonia de algo irreversível ou para entreter quem quer que seja. É obra de arte, no que isso tem de mais provocador e gratificante. (Resenha sobre “Pesadelo Refrigerado”, de Henry Miller, publicada no caderno Cultura, do Diário Catarinense, em 3/03/2007).



LABIRINTO EM DESTERRO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orientação e de memória urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente.



ESSE OBSCURO OBJETO DE DESEJO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Qual o objetivo do desejo? Testar o próprio limite, nos diz Carlos Maria Dominguez em sua impressionante novela, A Casa de Papel (Francis, 100 páginas). Amontoar livros até ser enterrado pela própria biblioteca, por exemplo. Como os outros vícios, os livros também são perigosos, adverte o autor (argentino, que vive no Uruguai, premiadíssimo). Podem participar de um ou mais crimes. Quais as pistas deixadas por Dominguez? (Resenha publicada na edição de março de 2007 da revista Empreendedor, seção Leitura).



DANAÇÃO NO CHILE AUSTRAL

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Francisco Coloane, festejado e importante escritor chileno, que só agora chega traduzido pela primeira vez no Brasil graças à editora Francis, nos revela a paisagem, inédita na literatura, do Chile Austral, ambiente para a danação dos homens com suas ambições, fraquezas e terrores. Seu livro de onze contos, Terra do Fogo, nos leva de roldão por praias assustadoras, penhascos gigantescos, neves eternas, bichos estranhos, guerras de extermínio. E principalmente para o coração das trevas dos aventureiros e vítimas que por lá habitaram no século 19, quando o território foi disputado da maneira tradicional, por meio da cobiça e da violência.



DUAS VEZES LINA BO BARDI

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Arte, Crônicas, Memórias

Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi.



O ENGENHO COMO ARTE

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O escritor espanhol Javier Cercas é como o pintor que expressa sua técnica em cada pincelada e deixa exposta as sucessivas camadas de tinta que usa para compor seu quadro. É como um artista tradicional lancetado pela sem-cerimônia do laser, do raio-x e de todas as artimanhas modernas que expõem a minuciosa arquitetura de uma obra, desde sua concepção até o final. Ele faz isso em todos os seus trabalhos, mas em O ventre da baleia (Francis, 304 páginas) , se supera: o domínio pleno do ofício, aliado a uma auto-consciência (do ato de escrever) impiedosa e reveladora, nos joga fora do aquário (ou do ventre da baleia) complacente dos hábitos de leitura que ainda nos mantém presos a uma ultrapassada imaginação narrativa.



AGONIA CIRCULAR DO BRASIL TERMINAL

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Amarelo Manga se contrapõe à estética da maquiagem tão comum em tantos filmes da Retomada. É um passo além da denúncia, pois mostrar não basta, refletir é abster-se, se insurgir é inútil.  A câmara colocada no alto empurra a trama para a pequenez das situações e conflitos e privilegia o espectador que se sente acima do que vê. É uma armadilha. Nós é que estamos lá embaixo e basta o close voltar a agir para sentirmos na carne e na pele que estamos presos no mundo aparentemente delirante de Cláudio Assis



O PARECISTA DA ALDEIA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Para começar, o parecista oficial da aldeia avisava que não emitia opinião sobre versinhos. Isso era coisa de retardados, dizia ele. Empilhar palavrinhas que se acenavam por rimas e consonâncias era um hábito feio que tinha tomado conta da humanidade sem luzes a partir do século 19. São duzentos anos de perda de tempo, dizia ele.



A OUTRA VIDA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele já estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou visão, segurava um grande chapéu de abas exageradas. Colocava a mão no alto, com o braço bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de várias pessoas. Parece que o grupo ocupava um conversível de luxo. Ele me olhou com o rosto impassível. O olhar era límpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferença. Era, talvez, seu recado de superioridade diante de tanto mistério.



O DICIONÁRIO DE EPÍGONOS

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A arte de Herr Grutes era tão excêntrica que talvez nunca mais surja alguém como ele. Levou para baixo da terra o que sabia fazer e que o tornou célebre entre uma casta de escritores sem escrúpulos. Não que o alemão que salvou minha vida tenha alguma vez escrito alguma coisa, a não ser a carta que deixou para mim como despedida. Ele fazia algo maior.