Arquivo para dezembro 2009

ESSA COISA DE LER

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

A biblioteca, pública ou privada, é o lar do leitor abandonado. Lá ele encontra o que procura. Precisa enfrentar alguns trâmites burocráticos, além de se submeter a prazos de entrega ou mesmo ao espaço físico que convivem com as estantes lotadas. O melhor é a biblioteca na sala ou no quarto, ou, quando há compulsão pelos livros, em todas as peças da casa. Toda vez que um livro importante consegue enfim prender nossa atenção, é comum perguntar-se o que estávamos fazendo que ainda não tínhamos lido aquilo.



UM CONTISTA NO LIMITE

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ricardo Peró Job apresenta seus personagens do livro ainda inédito “A sereia do luminoso” em várias situações limite: o velho que recebe uma indenização ao ser dispensado das suas funções na fazenda onde dedicou toda a vida; o produtor rural arruinado que encontra seu desfecho trágico num quarto sujo de hotel; o travesti apaixonado que se mata por desilusão amorosa; o guerreiro que poupa o inimigo porque este tinha a idade do seu filho, e acaba sendo vítima de sua própria decisão; entre outras situações, todas voltadas para o momento terminal de vidas endurecidas por uma lei oculta, que o autor não tenta decifrar, pois prefere reportá-la com a segurança dos escritores maduros.



AS VERDADES DEFINITIVAS

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um remorso, uma indignação, uma incompreensão que só a nós pertence. De vez em quando as retiramos do baú para expor nossa escassez teórica, brandida como algo irreversível.



A CIDADE SEM ROSTO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Revisitei a grande mancha urbana sobre o país e o planeta. Criaturas sem rosto, ocultas sob camadas de vidros escuros, disputavam a última fronteira, o exíguo espaço disponível das ruas e avenidas. Há um esforço para diminuir o massacre visual promovido pela fúria dos mercados, mas permanece intacta a brutal indiferença de quem se acostumou à barbárie.



INTELIGÊNCIA É EMOÇÃO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Mais estranho do que a ficção, do roteirista Zach Helm, dirigido por Marc Forster, com Emma Thompson, Dustin Hoffman, Will Ferrer, Maggie Gyllenhaal e Queen Latifah, narra a jornada de um imbecil até o entendimento, para usar o título de uma peça de Plínio Marcos. E revela a transformação da escritora, prisioneira dos horrores de Dostoiewski, que se liberta para uma história em que seu personagem se salva não por se insurgir contra sua própria morte anunciada, mas porque deixou exposto o truque narrativo ao se conformar com seu fim. É poupado porque esclarece a autora sobre sua crise criativa e ganha a chance do amor ao se entender com alguém exatamente oposta a ele.



O PLANETA É FILHO DA AMÉRICA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O mais brilhante e perverso lance de marketing político da atualidade é Uma verdade inconveniente, o documentário de Al Gore que levou o Oscar. Brilhante porque, ao usar o prestígio, o alcance e a duração do cinema, consegue ser convincente. Seu acervo são os insights da cultura acumulada da comunidade científica para, num tom didático, explicar porque devemos nos preocupar com o aquecimento global. Isso torna o documentário (uma longa conferência com recursos da multimídia) também perverso, ainda mais porque fica evidente a apropriação de soluções que, no fundo, não dizem respeito a todos os povos, mas sim aos votos que ele precisa para chegar onde quer, a Casa Branca.



BABEL, DE IÑÁRRITU E ARRIAGA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Babel é um filme sobre pais e filhos, um mergulho radical no mundo reunido na mesma torre, a indústria da comunicação, que enfeixa poderes e exclui povos e gerações. O cineasta Alejandro Gonzáles-Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga conseguem ser cada vez mais contundentes na montagem narrativa. Desta vez, em vez do cruzamento caótico de situações, há uma composição seqüencial definida por cenas chaves, que delimitam os trechos, ou capítulos, da história. A partir desse tipo de cena, se desenrola em flash black, os acontecimentos que deságuam nela. Isso é feito de maneira segura, levando o espectador à complexidade das relações entre pessoas, governos, povos e nações.



O ESPLENDOR DE CADA GERAÇÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Música

O disco maior da música brasileira é Axé, de Antonio Candeia. Ali estão reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro já produziu. Com uma diferença fundamental: tudo, desde as músicas baseadas em bordões de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas clássicos como a traição conjugal, até a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a denúncia, a conscientização, a indignação embalada no talento de mestre. Candeia usa a expressão do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.



AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.



A ARTE DE SER APROVADO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Ser aprovado é agir estrategicamente. Não basta escrever “bem”. Não basta “gostar” de escrever (essas duas coisas brandidas como definitivas para a escolha da profissão). Precisa ser uma espécie de dramaturgo, incorporar linguagens alheias, acertar nos detalhes, encarar cada frase como se fosse a mais importante de todas. Não passe ao largo de uma oração, mesmo de uma palavra. Cada letra conta. Não se concentre no que você tem a dizer, mas no que você está escrevendo de fato.