Arquivo para dezembro 2009

LIVROS DE MEMÓRIAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

Tenho predileção pelos livros de memórias, sejam quais forem. Meu Érico Verissimo favorito é Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar o pódio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo é de memórias de pessoas que sumiram do mapa da memória coletiva, principalmente os que enfrentaram alguma guerra. Sinto grande sensação de vitória quando consigo um exemplar de um lutador muito oculto, tenha alcançado a fama um dia ou não.



O LIMBO É REAL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Obra de um país temperado pela dor e pela sofrida reinvenção da alegria, O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, insere-se na grande cinematografia nacional e internacional contemporânea. É como um goleiro, que não participa do jogo até ser convocado para o vôo. Quando pula no abismo, levantamos da arquibancada. Esse é o gol que merecemos, a vitória que nos redime, a taça que levamos pelo Tempo sem que ninguém tenha a oportunidade de roubá-la.



A MITOLOGIA IMPERIAL DO VÍCIO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Toda uma avalanche de mistificações transforma o filme Miami Vice, de Michael Mann, num modelo clássico de manipulação de consciências. Os espectadores brasileiros se identificam com os detetives e elogiam o roteiro bem feito, as interpretações seguras, a aventura e a ação. Mas o que deve ficar claro é a composição perversa de mitos de alienação e dominação. Os heróis são modelos de virtude, ou seja, de força física modelada por corpos cevados na correção aeróbica. Ao contrário dos vilões, que expõem a força bruta de corpos disformes e tatuados, ou a nefasta aparência de intelectuais decaídos



A LÓGICA PERVERSA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Estar sempre com a razão, mesmo que os fatos contrariem as opiniões mais contundentes (que deveriam ser jogadas no lixo imediatamente depois que forem desmoralizadas), é fruto da lógica perversa que tudo concede a assinaturas notórias da mídia impressa e virtual. Para dar certo, é preciso que essa lógica perversa faça parte de um truque vistoso: muda-se o foco dos fatos para o território denso do consenso pretensamente racional.



ROLAND BARTHES, ESSE É O CARA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

No momento em que Roland Barthes escreveu, no seu livro Mitologias (1957) que as “franjas obstinadas” nas testas dos personagens do filme Julio César, de Joseph Mankiewicks, eram a “ostentação da romanidade” inventada por Hollywood, abriu-se um clarão e uma estrada infinita de insights sobre filmes, livros, reportagens, imagens etc. Se Barthes, o gênio que foi convidado para ser professor da Escola dos Altos Estudos da França pela sua obra radical e profunda, tem a ousadia de enxergar uma evidência dessas, é porque toda a manipulação a que estamos submetidos pode ser lida de uma outra maneira.



A INDIGNAÇÃO É UMA IMPOSTURA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A tragédia é permanente e gera uma indignação surda, instável e sem nenhuma repercussão. Num país sem lei, tudo tem que ser negociado todos os dias. É a manobra no trânsito, a velocidade na estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remuneração do trabalho, o prazo da dívida vencida, o calote, o arrocho, a informação negada, a viagem pela metade. Esse é o ambiente onde o ranger de dentes é fartamente distribuído a uma terceira idade furiosa, uma juventude em fuga, uma população em pânico.



300 DE ESPARTA: O SEQUESTRO DA HISTÓRIA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

300 de Esparta é um filme fascista porque o traidor dos espartanos é alguém que deveria, pelas leis da cidade-estado, ter sido eliminado por ser fisicamente deformado. O recém-nascido que não estava à altura das exigências espartanas escapou porque a mãe a levou para o campo e o criou. O rebento sempre quis ser soldado e incorporou-se ao comando de Leônidas. Mas o traiu para os persas. O recado é simples: a eugenia, a seleção brutal dos futuros barrigas-tanquinho, está plenamente justificada.



NA PISTA DE RASTROS DE ÓDIO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O casamento perdido, esse descompasso entre o grande amor do renegado e a mulher protegida pela casa civilizada e o matrimônio, seria a espinha dorsal de The Searchers, a obra-prima absoluta de John Ford. Ethan, no fundo, se culpa por ter perdido o seu amor e também se culpa por ter se afastado da casa, o que deu margem ao massacre promovido pela tribo de Scar (Cicatriz), o comanche que acaba seqüestrando Debbie por mais de cinco anos. Ethan quer impedir o casamento, a união renegada, entre Scar e sua vítima, entre o índio e a mulher branca



TOLSTOI NO BRASILZÃO CZARISTA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

A sociedade radiografada pelo gênio de Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos (do livro As obras primas de Leon Tolstoi, Ediouro, tradução Marques Rabelo e Boris Schnaiderman) é a que mais se parece com a do Brasil velho de guerra. O primeiro conto, ou novela, considerado obra-prima absoluta da literatura universal, aborda a classe média ascendendo por meio da carreira nos órgãos públicos. Esse alpinismo em direção ao Estamento se faz com ambição e mediocridade, com falsidade e tenacidade, com a reprodução, por gerações, dos mesmos papéis sociais passados de pai para filho, pela sociedade de classes onde se insere a casta privilegiada de juízes e promotores. A disputa pelo butim, o arrivismo na troca de governos, a prepotência do mando e das assinaturas diante de uma população desarmada e pobre, tudo está lá, de maneira límpida e absolutamente cruel.



PALAVRAS PELO AVESSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Manipular as palavras é uma espécie de arrogância dos poderes, dos talentos ou dos intelectos. Os privilegiados fazem de conta que não se importam com os lugares comuns do sentido e se esbaldam usando o vocabulário como usam a terra, a razão ou o dinheiro. Fazem isso para se distanciar de quem se apega tanto às palavras. Pessoas despossuídas, condenadas aos significados originais (ou pelo menos cristalizados pelo uso), deixam de lado tudo o que cheira a esperteza de doutores.