Arquivo para dezembro 2009

LIVRO A METRO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As estantes atulhadas servem apenas para fazer figuração. Há uma boa porção de reconhecidas sumidades que usam luxuosas encadernações ao fundo quando dão declarações. É um hábito lucrativo, que exige investimento. Soube de um livreiro descolado que vende livro a metro. Por encomenda, ele forra paredes com obras verdadeiras, não com o expediente manjado das lombadas abraçando papel em branco. Possui de sobra estoques repassados por herdeiros de leitores longevos, que morreram junto com suas bibliotecas.



A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava tomar bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola.



ACASO, COINCIDÊNCIA E NARRATIVA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Por pura coincidência (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois filmes seguidos sobre o mesmíssimo tema, apesar de, nos créditos e no Google, não existir ninguém que tenha falado que haja ligação entre eles. Um é A Ponte de São Luís del Rey e outro Eterno Amor. Cada um é baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do Pulitzer Thornton Wilder, que lançou seu livro em 1927. E o outro no livro de Sébastien Japrisot. O argumento é idêntico: cinco pessoas condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem são elas e por que estão lá? pergunta o narrador/investigador da Ponte de São Luis Rey, um padre que está sendo julgado pela Inquisição. Quem são essas pessoas e será que uma delas sobreviveu? pergunta a narradora/investigadora de Eterno Amor. Destino é a chave para decifrar a charada. A trama é a busca de respostas, que surgem a partir do resgate de cada uma das cinco vidas.



HÁ VIOLÊNCIA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política

Como a violência não é exclusiva do Estado, todos se acham no direito de exercê-la. Nesta terra de escravos, todo mundo é senhor. Vejam no trânsito, quando alguém “permite”, com sacudidinhas de mão e braço, que você pode passar, ou que você deve parar. Ligar a lanterna tem o mesmo peso do farol (ou sinaleira, como dizemos em Uruguaiana). O sujeito liga o pisca-pisca e entra, já que sua vontade é a lei. Nas entrevistas da televisão, é comum a expressão “tá!?”, professoral, sinal de que a pessoa não está apenas emitindo uma opinião, está ditando uma ordem.



O QUE É O RIO GRANDE DO SUL?

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política

A frescura mais recorrente sobre o estado onde nasci e me criei é que ele é uma espécie de Europa em miniatura. Como ninguém quer ser brasileiro e todos, absolutamente todos, possuem “sangue” de europeus, russos ou sei lá quem mais, tudo o que o Brasil possui teria sido feito por povos fora daqui. Vi recentemente uma propaganda colocando o mérito do desenvolvimento de São Paulo nos italianos. Aliás, em São Paulo sobra italiano. Todos possuem dupla cidadania, ou seja, são italianos de fato. Quem construiu São Paulo foram os brasileiros, e nessa categoria incluem-se os que se acham europeus ou asiáticos.



A PERGUNTA ENGATILHADA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

O jornalista é aquele que nada sabe, por isso vive perguntando – o que não faz dele um ignorante, mas um profissional da busca da informação. E a fonte é aquele que quer dizer o que bem entende e precisa ser capturado no pulo – se for de boa fé, vai gostar de ser estocado em coisas que ele nem tinha pensado antes; mas se for o contrário, pode rosnar.



É TEMPO DE PERDÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Poesia

É tempo de perdão pelo tempo perdido

É a perda de tempo que nos mantém cativos

Não o tempo sem valor ou a chance fria

Mas o tempo do coração em queda livre



RECEITAS CONTRA O CORPO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A aparência, por não ser notada por quem aparece, deve ser de foro íntimo, e não propriedade alheia. Olhe nos olhos. É lá que pessoa se encontra. Só que vivemos na barbárie das superfícies e não na civilização dos mergulhos.



CERCO SINGULAR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Algumas palavras ditam a moda. Houve a época do consenso, depois da distensão, mais tarde da globalização, até chegarmos à convergência. Agora é a vez da singularidade, um estado (por enquanto teórico) incapaz de seguir qualquer regra conhecida. Já existem exemplos. Um deles fica bem no miolo do buraco negro, ponto da curvatura espaço-tempo com massa infinitamente densa. Outro é o ambiente isolado que originou o Big Bang.



A SÍNDROME DO ÚLTIMO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Existem soluções de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo infinitamente reproduzidas. Ainda não nos livramos, por exemplo, da influência de “O último dos moicanos”, título do romance de James Fenimore Cooper sobre a amizade entre um índio e um branco, numa guerra do século 18 na América. Talvez o motivo seja a força da proparoxítana, amparada na última vogal, e instaurada como lei em épocas terminais – fim dos séculos ou dos tempos. No mais recente apocalipse, pautado pela curiosidade sobre as profecias, “último” virou endemia. Um massacre reforçado pelo famoso fim da História.