Arquivo para dezembro 2009

O JORNALISMO COMO ESCOLA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Se você assumir todas as tarefas do jornalismo, da pauta ao fechamento, da reportagem à edição, da coluna à primeira página, do caderno cultural ao noticiário político, da nota ao caderno especial, você está apto a colocar todo esse conhecimento não apenas nos redutos da notícia, mas em todo o espectro da comunicação. Não há melhor aprendizado, por ser completo, árduo e complicado.



O LEITOR NEM IMAGINA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

É costume abrir reportagens ou artigos apostando na ignorância de quem lê ou na sua incapacidade de imaginar qualquer coisa. Isso também se estende aos personagens da matéria. O jornalista que comete essa gafe “não imagina” que informação não pode servir de demonstração de força, nem que a articulação do pensamento não pode ser vista como uma exclusividade de quem escreve, ou que o leitor não merece ser tratado como um indigente mental.



FOUCAULT NOS PÉS DE ROBINHO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

A intenção é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Em As palavras e as coisas , o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que surgem pela ação da natureza e do corpo humano).



VOZES DO SILÊNCIO – UMA SINGULAR LITERATURA PLURAL

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Estranha literatura a de Cícero Galeno Lopes. Funda-se numa impossibilidade: a de um narrador (um diferente para cada conto) que nunca é interrompido. É uma forma de identificar-se com a narrativa clássica que gerou, no século passado, Riobaldos e Blaus. Hoje sabemos que ninguém deixa ninguém falar. Vivemos numa civilização de dissidências, de estridências entre monólogos. Toda a narrativa é interrompida – porque o Outro não existe mais. Na literatura, é a crítica – ou melhor o seu silêncio e insensibilidade – que corta a narrativa ao meio, impede que o escritor ultrapasse o livro de estréia ou o condena ao limbo.



O FÔLEGO, O FOLE, O SOPRO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

A composição das falas em A Vampira do Lago, romance inédito de Tailor Diniz,é uma obra admirável de engenharia literária porque nos engana o tempo todo. Primeiro, porque o depoimento pessoal é a descrição objetiva, se não dos fatos, pelo menos da geografia escolhida, o norte do Rio Grande do Sul rodeado por represas e traumatizado pela expropriação das hidrelétricas. Essa objetividade serve para nos encantar por termos acesso a lugares que nunca visitamos e ficam se descortinando nos mínimos detalhes na nossa frente.



A PALAVRA QUE NINGUÉM ENTERRA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O paradoxo é que o material de Moacir Japiassu, em seu romance Concerto para paixão e desatino é essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que é protagonista nos fatos e algoz nas versões. O campo de ação de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever capítulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador à fala das personagens. Esse trabalho é fruto do exímio talento aliado à persistência sertaneja, já que Japiassu dá um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances só saíram nos últimos anos, depois de décadas de militância na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consciência do dever cumprido.



O ILUMINISTA QUÂNTICO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros, Redação sem Máscara

Mino Carta quer um capitalismo esclarecido para o Brasil, uma elite brilhante e responsável, um povo incluído na economia, na política e na cultura. Mino mesmo é um exemplo de auto-superação. Conseguiu dar a volta por cima com a revista Senhor e, quando ela foi anexada à IstoÉ e depois sumiu como por encanto, teve ainda que passar um tempo sem seu veículo próprio. Voltou com Carta Capital quinzenal, como aconteceu no início da Senhor, e como esta, passou para semanal num salto quântico que também marcou época.



O COTOVELO DE VIDRO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer escândalo na vizinhança, mas nossas portas não batiam. Copa e cozinha eram a mesma peça, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de São José, cidade grudada a Florianópolis. Lá mergulhei mais uma vez na literatura.A revelação maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade específica de vidas diferentes da minha.



KUROSAWA, VIVER NO APOCALIPSE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Akira Kurosawa não precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da tragédia quando, levado pelo irmão, viu no que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse não é, portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o território que ele precisou palmilhar e enxergou de perto, não só como o Outro que vê, mas como o próprio que é calcinado junto com seus semelhantes. Kurosawa é a solidão do cinema diante da maldição. Nós, os espectadores, somos os improváveis sobreviventes da catástrofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.



WIM WENDERS, O VÔO DO FLÂNEUR

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Os anjos de Wim Wenders, testemunhas da pequenez e da imensidão das criaturas que contemplam, expressam-se, como Baudelaire, pelo poético (a nostalgia da linguagem antes da demolição mercantil do discurso) e mapeiam as situações que envolvem os seres que estão sob os seus cuidados. Mas se o flâneur histórico (inaugurador da modernidade) é ruptura diante do capitalismo nascente, e uma tentativa de resgate da harmonia perdida, os anjos da pós-modernidade são o sofrido olhar diante da decadência urbana, desse desmaio abissal que é Berlim reconduzida à unidade depois da guerra que a cortou ao meio.