Arquivo para dezembro 2009

CÉU DE BOMBA-ESTRELA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A devoção fazia parte do ambiente que circundava a obra. Bomba-estrela só poderia levantar vôo em épocas sagradas do calendário, como nas virações violentas da primavera. Implicava grosso investimento em papéis de cores variadas, fundamentais para vestir a majestade. Impunha cola de primeira linha, e não o expediente maroto de misturar farinha com água (a glória não permitia o grude). E os barbantes deveriam resistir às tempestades.



SOLDADOS DE SALAMINA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Soldados de Salamina (2001) , a premiada e bem sucedida novela de Javier Cercas, é sobre a reconciliação nacional na Espanha depois da queda do franquismo, quando era necessário revisitar as feridas abertas da Guerra Civil de 1936 a 1939. Foi sucesso por vários motivos. Primeiro, pela súbita notoriedade que adquiriu quando foi descoberta por Mario Vargas Llosa, o que colocou o livro no circuito da leitura obrigatória. Segundo, porque aborda a relação contemporânea da Espanha com o passado, como notou o cineasta David Trueba ao levar a história para o cinema em 2002, filme que vi ontem e que é absolutamente magnífico. E terceiro, exatamente porque tocou no ponto principal do país dividido: a necessidade de reconquistar a união nacional, por meio não do perdão puro e simples, mas do entendimento de que a vida precisa ser hegemônica sobre a celebração da morte.



ANTES DO BAILE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As multidões não estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, extáticas, a um braço de distância uma da outra. Usavam uniformes de cores neutras, um azul marinho nas blusas e casacos, um filete branco nas mangas. Golas engomadas exageravam na pontualidade.



OS LIMITES DO HUMANO SÃO A SUA TRANSCENDÊNCIA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Um escritor de verdade está sempre armado de um punhal, não apenas para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele está preparado diante da ameaça fatal da obra morta ao nascer. Ele vive da superação, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem. Nascemos para virar pó do esquecimento. Mas, às vezes, um anjo nos visita.



O SOBRINHO DE OSWALDO ARANHA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Tudo indica que Carlos Castaneda, o autor best-seller de livros sobre a saga do xamã indígena Juan Matus, é brasileiro, nasceu em Juqueri (atual Franco da Rocha), interior de São Paulo, em 1935, e é filho não reconhecido de um dos irmãos de Oswaldo Aranha, provavelmente Luis Aranha. Sua mãe era conhecida da poderosa família e é possível que trabalhasse numa das suas fazendas ou tinha propriedade na vizinhança.



FALTA COM BARREIRA, A CIÊNCIA INEXATA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

É complicado. A barreira serve para tirar a visão da bola, para quem defende, e do gol, para quem bate. Como não é possível enxergar o objetivo, tudo depende de cálculo, talento e imaginação. Rogério, do São Paulo, por estar escolado nos dois lados da barreira, sabe o que um goleiro pensa quando ouve o baque surdo da chuteira.



A PRÓXIMA CHANCE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

E se fosse o contrário, o Nilo como dádiva do Egito? E se as cheias periódicas depositando húmus para a lavoura não fossem obra do acaso, mas dos homens fartos do deserto? E se a grandiosidade do rio fosse o resultado de paciente e interminável trabalho de gerações que não queriam mais ficar à mercê da sede e da fome?



MADAME BOVARY, O ROMANCE MAIOR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lançado há 150 anos e é considerado “o romance dos romances” pela acurada carpintaria da linguagem, a estrutura impecável da narrativa, a complexidade social e psicológica dos personagens e a grande influência que exerceu em todo mundo, com os russos à frente, como confessaram Tchecov e Tolstoi, entre muitos outros.



A DIGNIDADE DO CRÉDITO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

“A César o que é de César” deve ser a lei de uma profissão totalmente exposta ao público. Reconhecer e identificar o trabalho alheio é um exercício de inclusão num país que costuma jogar fora o que produz de melhor. Nas redações, sobram exemplos de apropriação indébita, reproduzindo a estrutura social que determina quem é o maior e quem deve ficar limpando o chão.



O ENTRA-E-SAI DAS REDAÇÕES

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

A solução é chamar os competentes de volta, resgatar a escola informal das redações – que sempre foram capacitadas para treinar seus quadros – criar novos projetos fora da idolatria publicitária dos segmentos, das linguagens “jovens”, e das abordagens “você-é-tão-sacana-que-merece-o-veículo-que-está-lendo”. Deve-se atrair leitores com textos e fotos de primeira linha, fazer parcerias com os veículos alternativos e jogar na lavoura o grupinho de jornalistas que fecham ou desestruturam jornais e revistas.