Arquivo para dezembro 2009

O ESCRITOR VAI À GUERRA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O novo romance do mexicano David Toscana, O Exército Iluminado, o terceiro lançado no Brasil pela Casa da Palavra, é um drama enjaulado na comédia. Personagens infantis que fazem o papel de adultos, o avesso da série Chavez, revelam que o fracasso do México está sintonizado com a maturidade decepada pela violência.



O NOME DA INFÂNCIA É VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Aguardo a volta do Brasil, que será recebido no portal por minha mãe, sempre tão carinhosa na sua inteligência falante e prudente. O país será eu, filho pródigo de volta à bonança da memória, a espargir pequenas faíscas de estrelas na calçada tomada pela infância. A Lua também me receberá como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da fúria que nos cercou e que fez uma guerra inútil por todo esse tempo. Porque o Brasil é o que foi criado pelas gerações que doaram seus corpos insubmissos à terra que tornou-se uma nação eterna.



OS MALVADOS SE DIVERTEM

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política

A maldade é a expressão de culturas atrasadas. Os americanos não são malvados, são cruéis, o que é completamente diferente. A crueldade, nos países ricos, serve aos interessem nacionais. É a mão armada da vingança e da hegemonia. O Brasil, por sua vez, é a terra da malvadeza, que é a manipulação do Mal pelo Mal. Não existe projeto nacional na malvadeza. Existe gozo.



ISSO ELES ENTENDEM

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Nunca tivemos vez. Partimos para o exílio ou qualquer outro tipo de esquecimento. Voltamos porque era necessário viver de alguma forma. Foi aí que descobrimos: os espaços haviam sido tomados. Eles eram os maiorais da nossa época de insetos e se retroalimentavam sem parar, na mídia e nas editoras, nos ministérios e nas autarquias, dando conferências sobre o óbvio. Usavam sacadas intestinais dos novos profetas, pessoas aparentemente como eles, mas que tinham a griffe de pertencerem a algum país estrangeiro.



HIPÓTESE DÁ TRABALHO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A polícia costuma “trabalhar com a hipótese” de alguma coisa. Sugere esforço em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar, ao suor. No país ágrafo, trabalhar é fazer barulho. Muita gente tem o costume, nos cumprimentos ruidosos, de gritar que “estão trabalhando!”. Só assim poderão escapar do anátema de passar por desocupadas, e de ficar a um passo do encarceramento, como acontecia antigamente, quando prendiam por vadiagem.



ANOS 60 SEM SAUDADE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Incentivar a saudade dos anos 60 é uma das muitas formas de enterrar a época em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Império ( que se desdobrava planetariamente, do Vietnã a Brasília) lançou os fundamentos de uma nova civilização. Esse projeto não fazia parte da oposição conservadora de esquerda, que no fundo é o clone do Mesmo, como provam os governos socialistas europeus e o governo Lula.



CONSCIÊNCIA DE CLASSE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

A classe média brasileira contraria a tese de Karl Marx, que sustentava ser a ideologia dominante a mesma da classe dominante. A classe média não tem acesso à classe dominante, como comprovou Stanley Kubrick em “De olhos fechados” (aquele filme que destruiu o casamento de Tom Cruise e Nicole Kidman, por obra de um laboratório perverso do diretor com o casal de atores).



O TRABALHO COMO ARTE, EM ROBERT ALTMAN

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Lembro o impacto quando vimos Mash, de Robert Altman, nos anos 70. E qual seria esse assombro? A possibilidade de alguém exercer a profissão, seja qual for (no caso, o exemplo limite de dois médicos de guerra, interpretados por Donald Shuterland e Elliot Gould) como um exercício responsável de arte. Ou seja, era possível criar no mundo do trabalho, transformá-lo por meio da transgressão. Manter a alma intacta, sem emporcalhá-la na submissão e na redundância. E transcender o arrocho da sobrevivência, fazendo o que se gosta sem que isso signifique lirismo ou utopia.



GUERRA TOTAL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, História Militar

No início da República, os acordos existentes vieram por água abaixo com a expulsão do Imperador. O resultado foi a guerra total. É comum colocar a chamada Revolução Federalista de 1893 como o embate entre dois campos bem específicos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama é bem mais complexa. Num conflito que tinha como um dos seus slogans “Não damos nem pedimos quartel”, a mortandade, até hoje pouco dimensionada, se alastrou pelo país, já que todo o território nacional esteve conflagrado.



DESCOBRI AS MÃOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos anteriores a essas formas que definem partes do corpo. Somos de outra espécie, que dispensa as esferas soltas no cosmo. Não há universo na fonte de onde viemos. Somos mais do que a mente ou o sentimento ou as vontades. Somos imortais a dispensar o rolo que geramos quando decidimos povoar o vazio com invenções sem termo.