Arquivo para dezembro 2009

O PRESENTE SECRETO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quem inventou dentro de nós essa atração, esse fisgar, essa comunhão? Dizem que foi a família, a educação, a quadra do país que experimentava uma época mais equilibrada. Mas talvez a origem não se situe nesses redutos conhecidos da razão. Ou não esteja nos confins dos sentimentos. É o Mistério, que aperfeiçoamos enquanto nos é dado a glória suprema de viver.



VIDA NOVA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O passado se presta a inúmeros equívocos. Um deles é que podemos nos livrar de nós mesmos, como borboleta que abandona a lagarta seca. Vemos como, nas mudanças, as pessoas resolvem se livrar da tralha acumulada. Vida nova, dizem, convictas. Colocam a maior parte das traquitandas na frente da casa que será abandonada. Aos poucos, aquele joio será recolhido, mas ainda resta muita coisa. Tenta-se negociar, mas os comerciantes do ramo sabem que o acúmulo de coisas inúteis é uma armadilha que não vale um tostão furado.



SHALAKO: SEM TRADIÇÃO NÃO HÁ RUPTURA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Vi Shalako, o filme de 1968 do canadense Edward Dmytryk, baseado em livro de aventuras de Louis L´Amour, com Sean Connery e Brigitte Basrdot, além de Jack Hawkins e Stephen Boyd. É o que chamávamos de filmaço. Um take: os invasores da reserva têm até o amanhecer para deixar o forte, mas eles não obedecem; pois pinta o primeiro raio de sol que incide diretamente no punhal do indígena que inaugura o ataque.



QUAL SEU BICHO NO HORÓSCOPO CHINÊS?

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política

Nenhum, você não é chinês. Quem ganhou o carnaval de São Paulo? Ninguém, não há carnaval em São Paulo. Morei 30 anos lá e nunca vi carnaval. O que há é dinheiro público aplicado em gangs rivais, que colocam na rua um arremedo de escola de samba ao som de uma bateria com cadência quase militar. As gangs disputam o butim a socos, berros e ameaças. Possuem a linguagem e a estampa dos bandidos.



LER IMAGENS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na leitura, não há diferença entre texto e imagem. A palavra é lida a partir de sua representação visual e qualquer rabisco é passível de leitura. A crítica de arte costuma exagerar e tece uma complicada teia de argumentação e análise quando elabora algo sobre artes plásticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos personagens do filme Julio César, de Joseph Mankiewicz, como “a expressão da romanidade”. Uma romanidade inventada por Hollywood, claro.



MAGRELA NOS TRILHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As bicicletas surgem do nada e se atravessam na frente dos carros. Ninguém usa capacete e costuma-se atirar os veículos em frente aos estabelecimentos comerciais. Deve ser um hábito de direito adquirido, pois muita gente faz isso e não há uma só voz que se levante contra. Também andam na contramão, já que não dispõem de antigo e eficiente apêndice, o espelho retrovisor, obrigatório até os anos 60. Sem saber quem vem atrás e com quais intenções, o ciclista se previne e anda na parte da rua em que pode enxergar o perigo de frente.



GODARD: O PENSAMENTO ENFRENTA A VORAGEM

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A complicação, em Godard, é fruto da ética. O assunto amor foi amarrotado pela indústria que aprisiona as almas e para encontrá-lo de verdade é preciso mais do que um travelling sobre o bosque que guarda os vestígios de uma antiga batalha, mais do que um passeio noturno na chuva, na noite e no inverno. É preciso tomar nota à margem da produção em massa, para que o tema se revele na sua essência, fora dos limites impostos pelo desfecho das guerras. É onde o humano sobrevive, de costas para o comércio dos gestos, que o protagonista busca o pássaro arisco de sua aventura mental.(Ensaio sobre o filme “O Elogio do amor”).



SOPRO DO PARAÍSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos prisioneiros da poesia, que nos carrega como um ramo de flor sobre o oceano interminável, sabendo que não haverá barca que nos salve, nem mesmo quanto entoarmos o cântico libertário. Nossa sorte será enxergar a melodia nas pequenas coisas, as que renovam nossas chances. Até acumularmos forças para nos aproximar de Deus, que nos recolhe. Náufragos da solidão, seremos soprados ao paraíso pálido, mas ainda intacto.



DEVE SER O VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, aí pelas três da tarde. Descíamos em disparada os dois quarteirões que nos afastavam o rio e caíamos na água. Era difícil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. Água pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, água pela canela. As mais moças, dificilmente iam. Era programa de criança.



VIRTUAIS SEM VIRTUDE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Fazer desaparecer as perguntas é o truque dos ilusionistas, que confiam na capacidade mimética dos consensos e da vergonha que temos de exibir ignorância. Não que eu vá estudar mecânica quântica para saber porque uma rede imobiliária inexistente, ou podre, consegue derrubar empregos e finanças de verdade. A economia é o reino dos sabichões e qualquer dúvida é tratada com indiferença olímpica, pois a situação está posta e não vá perguntar por que existem os juros.