Arquivo para dezembro 2009

TRÊS ANINHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Três anos é a adolescência da primeira infância. Chinelos voam para o quintal, portas de quartos são devassadas por mãozinhas firmes, programas favoritos ficam inacessíveis graças à postura desafiante da espelhinho sem aço, bracinhos atacam barrigas em repouso, tapas estalam no meio das conversas, águas de origem obscura inundam a sala, visitas são recepcionadas com comportamentos bizarros, e gritos agudos povoam a casa por motivos desconhecidos.



LINHO NO ENTRUDO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Havia peso no ar, e não era apenas o calor e o mormaço. Havia a proibição de ser normal. A criminalidade do comportamento tinha carta branca para se manifestar, sem o favor de nenhuma lei, a não ser a do calendário. Era uma fenda que se abria no regime fechado das virtudes e por ela despencavam as personalidades mais notórias. E não emergia apenas o jogo bruto do banho forçado, mas cenas mais sutis de deboche, inspiradas por grossa malvadeza.



CITAÇÕES CENTENÁRIAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

As citações são como pragas em efemérides que se reportam às celebridades das nossas letras. Machado de Assis e Guimarães Rosa compartilham 2008 com seus centenários de morte e nascimento, respectivamente. Que sejamos poupados do excesso de batatas aos vencedores e de vivências muito perigosas.



DISCUTIR A RELAÇÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

É fácil insurgir-se contra o Estado, patrões, colegas. É mole emocionar-se com músicas, livros, quadros. É tranqüilo manter amizades. É duro, mas gratificante, criar filhos e obedecer aos pais. O que não parece humano é ter argumentos adequados para chegar perto do entendimento numa relação amorosa.



OS FRASISTAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A frase inesquecível é o narcisismo da linguagem. É quando a obra se olha no espelho e diz: bela estampa, você tem futuro. Alguns autores se aprofundaram nessa arte, que é a garantia da permanência. Você pode esquecer romances e peças de Oscar Wilde, mas ele sempre será lembrado como alguém que levava seu diário para viagem, pois assim teria algo para ler. Raymond Chandler sabia que seus romances policiais não dispunham de prestígio (o que foi contrariado pelo tempo) e vingava-se com tiradas primorosas.



FICHAS DO CINE SAGU

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

As toneladas de sagu que se fazia em casa costumavam sobrar em panelas enormes. Gelado, era servido, de graça, aos potes, a ávidos cinéfilos. Idéia, claro, do meu irmão nascido empresário, a de agregar valor à gasta programação. A entrada era um custo, mas o sagu compensava. Garantia quórum para o porteiro de olhos brilhantes diante dos lucros.



BEIJO ENTRE NUVENS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Tenho estudado o comportamento de certas nuvens e noto que elas formam criaturas disformes e gigantescas, não catalogadas nos compêndios de História Natural. Não se trata de enxergar leões marinhos ou elefantes nos algodões que bordam o azul da estação. Ver com olhos livres é aprender algo inédito gerado por contornos e movimentos. Nada a ver com os documentários da televisão sobre a vida nas savanas, geleiras ou arquipélagos. Ou com as lembranças que temos das visitas ao zoológico.



HORA DA MESA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Havia solenidade nas refeições. Uma hierarquia definia os papéis à mesa: pais nas cabeceiras, filhos de um lado e filhas do outro. Os menores estavam mais próximos da mãe. Para evitar tumulto, devido à quantidade de comensais, não era permitido conversar mais do que o necessário. “Passe o arroz” nunca poderia ser substituído por “briguei hoje no colégio”. Assim como as palavras, as porções eram rigidamente controladas. Nunca faltou nada porque a disciplina colocava a voragem natural da prole em limites suportáveis.



GREVE DE PALAVRAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

Nos Estados Unidos, existe hoje um tipo de cinema cult que é o dos roteiristas brilhantes. Grandes estrelas abrem mão de seus cachês para fazer uma ponta em obras de cérebros e talentos privilegiados. É o cansaço da padronização dos roteiros e da venda de Hollywood para as políticas imperiais, o que se tornou praxe depois da vitória do macarthismo. As melhores cabeças não são mais convocadas, a não ser para abrir mão dos originais e deixar que escribas fiéis ao regime sapateiem em cima.



CRIME VISTO DO ESPELHO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

O espetáculo do seu rosto, imóvel diante do espelho que cobria toda a parede, era apenas o primeiro plano de um vasto painel, formado pelo movimento da rua e da calçada em frente à sua barbearia. Sentado na cadeira gasta em vinte anos pelos fregueses que ele custou a conquistar — e que depois desapareceram – ele via, ao fundo daquela paisagem de vidro, os carros cruzarem, de maneira desigual, o espaço refletido. Pois, bem no meio, havia um a divisão que repartia a realidade em cascas diferentes do mesmo ovo.