Arquivo para dezembro 2009

CRIME E CASTIGO EM JAVIER CERCAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dostoievski está na raiz de O Motivo (Francis, 118 págs.), novela escrita na juventude (1987) pelo espanhol Javier Cercas, autor do best-seller Soldados de Salamina, lançado em 2004 em português pela mesma editora, que vendeu 500 mil exemplares na Europa e virou filme de David Trueba. Surpreende que na minuciosa análise do posfácio, acusado de panegírico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro é puro Crime e Castigo: um homem solitário premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e remói seus argumentos a favor e contra esse desenlace. (Resenha publicada dia 30/07/05, no caderno Cultura do Diário Catarinense)



NÃO HÁ RESPOSTAS, APENAS ENCANTAMENTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Em Shosha, Isaac Bashevis Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tenta viver do seu ofício enquanto o mundo desmorona à sua volta Quem conta uma história diz como e por que conta, pois todo escritor aspira à eternidade, e não há alma imortal na literatura que se enrede na própria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a vítima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltará as costas para a obra (essa é a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o próprio livro disser do que se trata, então a fidelidade é absoluta.(Resenha publicada no caderno Cultura, do Diário Catarinense, de 27 de agosto de 2005)



COMÉDIA ROMÂNTICA E ROAD MOVIES

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A comédia romântica é um conflito entre pessoas díspares que procuram o Outro onde ele não se encontra. O enredo é a busca desesperada de uma parceria idealizada, que acaba sempre se revelando um equívoco. O desfecho é quando o Destino se impõe por obra de Cupido, o deus travesso, que arma situações opostas aos impulsos originais. Há sempre uma correria no fim do filme, sinal evidente que um dos protagonistas se dá conta do erro e tenta remendar partindo para o ataque ao objetivo certo.



O JORNALISMO DUBLADO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

A fala que deveria imperar na mídia é a do jornalista. Ele é quem precisa tecer o texto, soma e síntese de linguagens alheias, que passam pela seleção dos critérios e fundamentos do ofício. Quando isso não ocorre, outros poderes se intrometem e decidem a hierarquia das falas. O caminho mais curto para esse equívoco é engessar a redação numa camisa de força, quando impede-se a publicação de estilos, mata-se a vocação autoral em nome de regras que estão a serviço do enterro do jornalismo. (Texto publicado originalmente no Diário da Fonte em 30/abril/2004)



OS ESCRITORES QUE A DITADURA PRODUZ

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política, Redação sem Máscara

Para que o país continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse é o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globalização, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso é ser acusado de patrioteiro, xenófobo e reacionário. Essa é a grande armadilha dos escritores notórios, que empalmam vastos espaços na mídia (latifúndios de divulgação, fruto da concentração de renda): como tornaram-se uma contrafação da vanguarda, sentem-se à vontade para exercer a exclusão que os compromete até o osso e os enche de dinheiro. Escrever é mentir e tirar a máscara é assumir personagens vazios de realidade.Nei Duclós

Para que o país continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse é o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globalização, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso é ser acusado de patrioteiro, xenófobo e reacionário. Essa é a grande armadilha dos escritores notórios, que empalmam vastos espaços na mídia (latifúndios de divulgação, fruto da concentração de renda): como tornaram-se uma contrafação da vanguarda, sentem-se à vontade para exercer a exclusão que os compromete até o osso e os enche de dinheiro. Escrever é mentir e tirar a máscara é assumir personagens vazios de realidade. Esse pesadelo é justificado pela crítica comprometida com o círculo vicioso da linguagem artificial, que se alimenta também do artificialismo acadêmico, que reproduz indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo não passam de álibis para manter os escritores de verdade no ostracismo.

SOBERANIA – O que são escritores de verdade? Os que não se deixam levar pelos modismos e escrevem com o espírito livre. Os mais radicais inovadores da linguagem, os que não fazem parte dessa curriola que se retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. Por que não incensam Campos de Carvalho, o genial autor de A Lua vem da Ásia? E J.J. Veiga, de A Hora dos Ruminantes? E Renato Pompeu, de Quatro Olhos? E J.A. Pio de Almeida, da obra-prima As Brasinas? Porque isso não dá dinheiro. O que dá dinheiro é cortejar a falta de escrúpulos dos pseudo-escritores, que fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. Mas o problema é que as invencionices lingüísticas têm um limite e eles não se tocam. Ficam ainda experimentando sem parar. A pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as mídias nada tem a ver com a intensificação e o aprofundamento experimental e teórico que gerou, na música, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo. Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e, forças!, ainda se dão o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. É tudo mentira, claro. A falsidade é tamanha que, além de tomar conta da cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro público) ainda conservam as paranóias das perseguições de gerações anteriores. Luto aqui pela democratização cultural. Hoje não há interesse em encarar a diversidade cultural brasileira, o país que teve sua nacionalidade transformada em pó e que acredita em Patrimônio da Humanidade (eles é que são a humanidade, dá para entender?) e entrega o seu subsolo amazônico a grandes corporações. Levaram o ouro e os minérios e depois as estatais. Agora é o território mesmo. Soberania para quê?

LUTA – A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) é essa que te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E que não passa de um conjunto de poesias pífias e romancezinhos de araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da ex-nação, hoje um amontoado de indivíduos. Esse ambiente não aborda mais os princípios éticos, tornados vilões ou meras excrescências obsoletas; não cuidam da família, extinta em favor da celebração do Mesmo e sua tempestade lúdica desconectada do destino, da eternidade ou da alegria. É um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que invadem todos os espaços, deixando de lado os valores que não possuem incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e vão para o lixo, quantos escritores assassinam a própria vocação, desencantados com tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas célebres. Vai ler esse cara tão incensado, vai ver o que ele escreveu! É o reino da baixaria, das palavras sem poder, de âncoras que pegam teu pescoço de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatológicos, mais fôfos nos seus olhares apertados, a sugerir reflexão, suas carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escrúpulos, a sugerir inovação. Cada um no seu espaço, funcionam como vasos comunicantes da linguagem que serve à ditadura civil, formada pelo arrocho financeiro, a exclusão social e o voto de cartas marcadas. Esses pseudo- escritores não serão apeados do poder que hoje usufruem (rumo à Academia de Letras) a não ser pela luta política. É preciso acabar com o insumo financeiro que os sustenta, para que caiam como um castelo de cartas.

SAÍDA – O que vale é o resgate clássico do acervo cultural da nação e o trabalho transformador a partir dessa herança. A língua levou séculos para se consolidar. Possui todas as chaves e não vai ser demitida assim por qualquer merrequinha cerebral e suas tiradas metidas a besta. Respeite os oito baixos do teu pai.



VENTOS DEMAIS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos agora retirantes desse sopro que nos acossa por todos os lados. Migramos da surpresa para a fuga e enquanto corremos vemos voando, ao nosso lado, tudo o que estava quieto e sereno. Os peixes se atiram sobre as planícies. As montanhas descem suas lavas de detritos. As cidades viram monturos. A vaidade humana descobre que os ventos, aliados das descobertas, voltaram enlouquecidos por um pânico ainda indecifrável. Talvez eles tenham cansado de nos mimar com seus balanços. E agora nos atormentam para que enfim possamos acordar. (Crônica publicada domingo, dia 11/9/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense).



JAM SESSION EM KANSAS CITY

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Todo filme é sobre cinema e Kansas City, de Robert Altmann (1996) não escapa desse destino. A mulher apaixonada que quer salvar o marido que cometeu um erro da mão dos bandidos quer ser a estrela de cinema, pois é na sala escura que ela aprendeu a amar. Seu amor é idealizado pela sétima arte e foi lá que encontrou sua redenção. Bem oposta à sua vitima, que optou pelo ópio, a cacatonia, a indiferença e a crueldade. O cenário que apóia e envolve a narrativa é a idealização de um passado tomado pela insanidade, o jogo, o alcoolismo e a ambição.



A VIAGEM DO ARTÍFICE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Um artífice cuida do seu ofício e o exerce de forma compulsiva. Não tanto para atingir a perfeição: mais para descobrir a natureza e a estrutura do que faz. Um carpinteiro não mira a casa quando participa de uma construção, mas as vigas, o lustro, o talho do formão, o resultado da sua participação no conjunto. Não que não tenha condições de saber o­nde está enfurnado, ou o que é, afinal, a obra, uma soma de parcerias, talentos e conhecimentos. Ele conhece o fruto de muitas mãos, mas prefere seu próprio mergulho, feito de outra intensidade. Não se trata aqui de definir hierarquias do fazer, mas de tentar entender, pela similitude, o que é a literatura que nos cabe decifrar, e definir o perfil da sua irmã de viagem, a resenha ou o ensaio. Cícero Galeno Lopes, como todo escritor de verdade, nos mostra o caminho no seu novo livro A Viagem (Editora Movimento, 95 páginas). (Resenha publicado no Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em 1 de outubro de 2005)



O ATOR ABRE O JOGO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Miguel Ramos ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante por sua participação em O Cerro do Jarau, de Beto Souza nos festivais de Recife e Gramado deste ano. Por coincidência, é meu amigo desde a adolescência e meu conterrâneo. Aproveitei a proximidade para entrevistá-lo e o resultado está nesta edição. Trata-se de um depoimento esclarecedor sobre a difícil arte de atuar, feito por um especialista vocacionado.



O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)