Arquivo para dezembro 2009

GOLS DO MÁGICO MANDRAKE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

É incrível esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em direção à bola, que já saía do chão para alçar vôo novamente rumo à trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um século atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. É de arrepiar ver o goleiro totalmente imóvel olhando para cima (só o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irreparável.



O FIO SOBREVIVE À RUÍNA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1995), deu Oscar de melhor ator para Nicolas Cage e deveria dar o de melhor atriz (apenas indicada) para Elizabeth Shue. Cage me invoca. Tem todo jeitão de um mau ator, com sua lombrosidade mofina e fora de esquadro. À primeira vista, parece que é ambicioso demais para o que poderá produzir. Noto nele sempre o esforço se sobrepondo ao talento. Mas são impressões erradas.



O POUSO INTRANQUILO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Identificação e estranhamento estão no núcleo da antologia “A Terra dos longos olhares” (Editora Holoedro), organizada pela professora Lucia Silva e Silva, da Uergs, que reúne contos, crônicas, poemas e até um minidicionário, de 30 autores de Uruguaiana, um trabalho que revela a força, a diversidade e o alcance da literatura gerada pelos nascidos naquela fronteira.



LUA, VÉSPERA DE PRAIA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Não há crédito, há nação de menos, há medo demais. Desfilamos diante do nada como cidadãos sem rosto. Mas há poesia quando a criança se deslumbra com o vôo das gaivotas. Há o poema, que vem em socorro do que perdemos. Há livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda. Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem somos nós, criaturas que Deus acolhe em seu regaço e atende súplicas e preces para continuar o caminho?



CULTURA, CARNAVAL E CINZAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política, Trabalhos Acadêmicos

O bilontra da virada do século, o malandro que domina a cena carioca a partir dos anos 30 e o bandido que se consolida principalmente depois de 64 – que militarizou a sociedade – são, no fundo, o mesmo personagem. (Revolta da vacina, Ideologia da malandragem, O gênio da chanchada, Tom Jobim e os etnocêntricos e Zé Kéti foi à luta são os temas de um trabalho que analisa a mão pesada do Estado na fonte do conceito e das ações da marginalidade).
Texto apresentado na cadeira de História da Cultura, do professor Arnaldo Contier, da USP.



O BRASIL QUE PERDEMOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dois autores, de gerações opostas, nos iluminam pela construção de um resgate profundo do que continua oculto no país do eterno presente. Um é o romance Quando alegre partiste – Melodrama de um delirante golpe militar (Francis, 287 páginas), de Moacir Japiassu, romancista maior (autor de “Concerto para paixão e desatino” e “A Santa do Cabaré”), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as redações brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro é a biografia 75kg de músculos e fúria – Tarso de Castro, a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros (Editora Planeta, 268 páginas), de Tom Cardoso, representante da nova e brilhante geração de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. (Resenha publicado no caderno Cultura, do Diário Catarinense, dia 29/10/2005)



POLANSKI, A GANGORRA DO MAL

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Não há luta do Bem contra o Mal em Roman Polanski, há apenas a revelação de todas as nuances do Mal. Desde sua estréia em A Faca na Água, em que personagens prisioneiros se defrontam com a falta de solução e saídas, passando pela investigação criminosa que mostra o quanto o poder público é protagonista da tragédia da cidadania, e chegando ao desfecho da busca desesperada de Harrisson Ford por Paris, o­nde procura a mulher e se envolve com a dama de vermelho que o seduz e acaba sacrificada, Polanski é esse cineasta intragável que não faz concessões à ilusão do que entendemos por humano. Por ser brilhante, jamais faz do seu cinema uma instalação em preto e branco, ou um pastiche de formas que sucumbem ao que traz à tona. Com ele, o Mal sobe e desce na nossa percepção como gangorra sinistra.



O VENDEDOR DE MORANGOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Nossa colega estava surtada porque não conseguira explicar direito o objetivo do seu projeto. Sabíamos só que o troço agregava valor. Ou tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o importante era a transparência e não sei mais o quê. Concordávamos com ela, apesar de não entendermos patavina, só pelo alívio que poderia gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. (Crônica pubicada dia 6/11/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense)



ANTHONY QUINN, O BRUTO QUE AMA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Anthony Quinn é o bruto que ama. Ele encarnou o papel que lhe impuseram, o do mestiço ameaçador num mundo de branquelos. Fez isso como ninguém, em inúmeras bobagens, especialmento no início de carreira. Acabou conquistando a filha de Cecil B. De Mille, Katherine, um dos seus três casamentos. O bruto tinha charme e, o que era mais importante e que poucos viam, inteligência que valorizava o talento. Tinha carisma, mas isso não lhe bastava. Ele precisava introjetar aquela persona maldita, dar-lhe vida verdadeira, dizer que era um ser injustiçado, capaz de uma reação violenta, de um gesto que mudasse o destino. Seu sobrolho era o sinal de que a rocha produzia pensamento.



A HIERARQUIA DOS GESTOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: TV

O gesto favorito dos nossos estadistas de estádio (como diria Ulysses Guimarães) é virar a cabeça junto com o tronco. Sinal que sugere integridade física, ou seja, não se torce o pescoço para olhar ninguém, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se está ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula também se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que são rochedos. Em volta deles, pululam como ondas os ombros frenéticos da mídia, a lamber-lhes as ostras.