Arquivo para dezembro 2009
dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Cinema
Brian de Palma e Martin Scorcese – e sua versão ainda mais perversa, Quentin Tarantino – substituíram o espaço criado nos anos 60 e 70 por inventores como Arthur Penn e Sam Peckinpah, e por meio de um cinema vazio e apelativo tentam assumir a postura de autores, quando não passam de comerciantes da pior qualidade com pose de pais da matéria. Enquanto isso, a linhagem que tem Nickolas Ray como estrela maior encontra em Clint Eastwood sua mais bem acabada realização. Já David Lean e Fred Zinnemann continuam sós, ocupando a olimpo da genialidade sem terem deixado descendentes.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Livros
O romance é o inventário de uma guerra, qualquer guerra. O único compromisso é com a literatura, que veste o que chamam verdade, ou memória, ou mesmo poesia. O que faz o romance é decidir o que existe de épico do fato reconstituído pela soma de linguagens atiradas no chão do tempo. Minha cena favorita de Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido de uma versão francesa pela música de Mário Quintana, é quando o anti-herói joga a tocha acesa no rio e, ao apagar-se, revela todas as estrelas. Ou a cena de O coração das trevas em que Marlowe cruza com seu barco o meio do nada chamado Tamisa e começa a narrar para quem o cerca, prendendo-os numa rede irresistível a que chamam história, mas que é pura magia.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Cinema
Invasões Bárbaras, o filme do cineasta canadense que dá seqüência a O Declínio do Império Americano trata da sobrevivência do espírito humano ressecado pelo excesso de conhecimento. O transbordo da informação cultural – que no fim torna-se escassa ao escoar pelo ralo numa sociedade de privilégios – é a desmoralização da pose acadêmica e o resgate da mais cruel e gratificante verdade humana: aquela que se revela pela sinceridade e a lucidez, e alcança sem querer a transcendência ao conhecer o limite imposto pela morte.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Crônicas, Memórias
Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus desconhecido.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Memórias
Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá em cima”, longe da tela e perto do projetor.(Crônica publicada na edição número 2 da Revista Fronteira Livre, de Uruguaiana)
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Crônicas
Estávamos perdidos, meu boi. Estávamos certos de que nada mais poderia nos atingir. Fomos testemunhas de ondas gigantes, massacres de todos os tipos, crueldades sem fim. Olhávamos o mundo já sem emoção, a não ser aquela preparada pelos narradores emplumados, investidos de bezerros de ouro. Mas eis que você morre e ressuscita na minha frente e desata essas figuras que deveriam já estar enterradas. Mas elas estão mais vivas do que em qualquer outro final de ano. (Crônica publicada dia 31/12/2005 no caderno Donna DC, do Diário Catarinense).
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Cinema
Bernardo Bertolucci tornou-se cult pela insistência, memorável por ter dado o recado mais direto possível numa época de mudanças profundas, por ter desprezado o que pensavam ser real e por ter dividido com a equipe o cinema que conseguiu fazer, nem tão importante quanto pensam seus admiradores, nem tão hediondo quanto pensam seus detratores, nem tão genial como ele gostaria que fosse. Mas igualmente vivo, apesar dessa paisagem morta. Mas igualmente forte, apesar dessa fraqueza de caráter. Mas igualmente fundo diante da imbecilidade que tomou conta da sétima arte.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Memórias
Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia, os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe.
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Crônicas
O Verão cumpriu todas as promessas. Torrou de azul o dia interminável. Lavou o corpo seco jogado fora pelo longo Inverno. Bordou de rendas a água clara das manhãs e a tintura anil do entardecer tranqüilo. A lua cheia compareceu para iluminar o noturno pio dos nossos sonhos. Quem poderá queixar-se desta temporada que chegou ao esplendor? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, no dia 29/01/2006).
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dez 18th, 2009 |
Por Nei Duclós |
Categoria: Música
João Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós.
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