Arquivo para dezembro 2009

EXCLUSÃO SEM CHORO NEM VELA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Meu dignóstico: a fonte da exclusão são os interesses de grupos, encastelados na cultura, que é um fator de ascensão social, como lembrava diariamente o Plínio Marcos na Folha da época do Tarso; a exclusão se manifesta pela ocupação de vastos latifúndios na mídia, deixando de lado a diversidade do talento, que assim fica sufocado e não chega ao público; a exclusão cultural na mídia é uma representação de uma exclusão maior, provocado pela ditadura financeira, focada na superconcentração de renda; a situação está no limite, pois a Internet está fazendo água nesse cerco.(Texto publicado originalmente no Comunique-se, na seção Em Pauta, em 16/02/06)



QUANDO FALTA LUZ

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

A cidade fica toda escura e a casa é invadida por mãos cegas em busca de fósforos. onde coloquei a vela? é a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escuridão completa que chega até o horizonte. Longe, atrás do monte, um clarão se vislumbra; mas para lá não fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? Será a esperança que se recolhe numa distância prudente, esperando que nós, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que perdemos subitamente?



O POVO EM SUA MAJESTADE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

Pelé é o povo que chegou à majestade. É uma criatura dialética, vinda de longe, parte de uma geração que invadiu a cidadela adversária pela primeira vez. O reino já estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. Não há, portanto, armadilha quando se fala de Pelé. Ele é o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por onde passa, as pessoas procuram tocá-lo. O Rei é a carne que se fez Verbo, numa inversão do ato divino da criação. Ele não é um deus, é a pessoa que, para sempre, estará de pé, suado, olhando para onde ninguém vê.



CINDERELA AMERICANA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Dois filmes quase idênticos, Pretty Woman e Maid in Manhattan, abordam o tema Cinderela na sociedade de classes dos Estados Unidos. As mulheres, Julia Roberts no primeiro (branca, solteira e prostituta) e Jennifer Lopez (morena, separada e camareira) no segundo, são a parte excluída da história, que agarram a única chance da vida diante de um príncipe encantado. Richard Gere, o sucateador de empresas da globalização predatória, e Ralph Finnes, o republicano honesto com um pé na insinceridade da campanha eleitoral e da relação com as mulheres, se justificam pelo dinheiro e o poder, mas são vulneráveis num ponto (exatamente onde Cinderela vai atacar): traem seus ideais, e serão redimidos pelo sentimento por mulheres excluídas



OMBROS DIURNOS DA LUA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A Lua flutua na manhã com sua túnica transparente caindo pelos ombros. É uma roupa formada pela neblina que o excesso de luz bordou ao redor, talvez para cobri-la diante do escândalo de aparecer assim, quando as estrelas já se despediram e o forro de veludo da noite sumiu de vista. Ela está acordada por algum motivo e pousa no algodão do ar com o rosto quase impassível. Noto que está transfigurada no céu sem nuvens. (Crônica publicada no caderno Dona DC, do Diário Catarinense, no dia 26/02/2006)



O TEMPO É A PÁTRIA DO MIGRANTE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Julio Monteiro Martins, o mais importante escritor brasileiro em atividade no Exterior, abre o verbo: Tudo está por ser escrito. Temos poucos escritores diante da velocidade e profundidade das mudanças. O escritor contemporâneo está em busca desesperada de uma nova forma de romance. A literatura é o único discurso com força suficiente para enfrentar a manipulação feita pela publicidade e pelos governos.O motivo da entrevista é o lançamento do seu terceiro livro escrito em italiano, Madrelingua, que é um trabalho de experimentação literária, escrito em pleno estado patrimonialista (segundo sua definição) do governo Berlusconi. Toda a conversa de Julio está no endereço http://www.arcoiris.tv/



A HISTÓRIA NO ACOSTAMENTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

No seu obrigatório “Golpe Mata Jornal” (Já Editores) Jefferson Barros trabalha as contradições, os conflitos que regeram o nascimento e o crescimento da cadeia de jornais Ultima Hora, criada por Samuel Wainer. Mergulha fundo nas origens da imprensa gaúcha e a situação em que se encontrava quando a UH do Rio Grande do Sul veio à luz. O espírito livre do autor não abre mão do rigor metodológico. Esse aparente paradoxo – a liberdade da abordagem vestindo a luva do racionalismo dialético – faz do texto de Jefferson uma aula de História. Pior para todos nós: é um roteiro de como a História foi jogada no acostamento.



AINDA TEMOS A TERRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.



VÉSPERA DE LINGUAGEM

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado. (Texto originalmente publicado no espaço Literário, do site Comunique-se, em 30/03/06).



LAUDAS DA VIDA INTEIRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 6/abril/2006).