Arquivo para dezembro 2009

O SENTIMENTO SEM NOME

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

A vida é um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como não podem ser identificados, não há batismo. Chamamos de paixão, amor, empatia, todas as palavras, mas não se trata disso. É algo completamente desconhecido. É território inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. Não se trata de batizar, mas de identificar como algo próprio, que faz parte de um conjunto maior. É mais do que a arqueologia do coração e da mente, é trabalhar com um universo desconhecido, que está dentro de nós, mas estamos ocupados com outras coisas.



É DE TREM QUE EU PRECISO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Estou no meio do meu ofício, que é tentar entender a passagem obscura pela terra envolta em mistério. Estou só, como a criança que adormece no crepúsculo e acordo na boca da escuridão com um solavanco. Ela vê o homem fardado passar com seu boné de autoridade máxima da viagem. O homem recolhia passagens quando todos se aboletaram pelos bancos. Agora ele vigia o sono de quem escolheu esse momento para percorrer a trilha insana de uma vida. A criança fecha novamente os olhos e o embalo da serpente emplumada o leva para longe



FORA DA ESTRADA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

O carro parou novamente, desta vez numa curva acentuada. O animal de lava continuava no meu cangote, impaciente, mas eu estava prestando atenção mesmo era na dissipação da névoa, que mostrava um céu azul pontilhado de nuvens branquíssimas. Quando cheguei ao fim da curva, o dia estava translúcido e eu me deparava com enorme placa na minha frente. Sou um péssimo leitor de placas ou avisos. Já cheguei a confundir “temos tempero para lingüiça” para “tempos de desespero para a lingüiça”. Tudo é possível numa época de mau jornalismo. Mas aquela placa dizia outra coisa. Estava escrito: Ciudad Del Mexico, 30 km.



QUARTO DE DESPEJO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Ambientado nos anos 60 e 70, o filme Cidade de Deus mostra um bairro que é a típica obra da ditadura, que construiu favelões compostos de casas alinhadas como se fossem um pombal, e batizaram isso de política pública. Lá abandonaram os migrantes, os despossuídos, os desempregados, os mortos vivos. O resultado é a fábula de Fernando Meirelles, cineasta maior, que fez uma obra impecável, onde se destaca a linhagem implacável do crime, que migra cada vez mais para as crianças, restos do massacre que empunham a morte cedo demais.



REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Hoje vejo consultores definindo a pauta de veículos em coma, dizendo que não se pode voltar atrás, quando “loucos apaixonados” (esse é o batismo do talento hoje) se reuniam em espaços normalmente apertados e com pouco oxigênio, para fazer o que os leitores adoravam. É preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secretário, um diretor, um editor. (Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se, em 13/04/2006)



DEVE SER OS NERVOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

O elevador abriu para um seriado de portas com pequenas placas onde se lia indecifráveis enigmas. Eram letras e números separados por hífens que talvez indicassem a especialidade do que se fazia atrás de cada uma das placas. Onde se lia XPTO-3, entrei. Era a comunicação, segundo tinham me informado. Lá dentro, na penumbra, estava o cara sentado atrás de uma mesa, meio que debruçado sobre ela, com as mãos enlaçadas nos dedos, com os ombros para frente, um mais para frente do que o outro. Me olhava com seus olhos castanhos vivos e me falou para sentar. Combinamos rapidamente o trabalho e ele me pediu os documentos para registro. Estava satisfeito só com a indicação e o currículo.



OS BLOCOS DE MESTRE BAZINHO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Era chegar a bandalheira para que os músicos lembrassem aos cidadãos travestidos de mulher, às senhorinhas mergulhadas no lança perfume, de que existia uma civilização antes e depois do vendaval. Os músicos participavam de bandas sérias, envergavam fardas, tocavam nas comemorações da pátria, insuflavam vento à bandeira nacional que protegia o solo e acenava para o céu. Os músicos não poderiam faltar com suas notas, talento, força muscular e presença de príncipes num reino decaído. Eles herdavam a seriedade que antes pertenciam apenas às autoridades, aos professores, às mestras, às visitas ilustres, como o presidente da República que um dia deu um tiro no coração e que envergava roupa branca para refletir o sonho do povo em procissão pela História.



O MESTRE PARTE PARA ETERNIDADE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

O Morumbi lotado levantava os braços e entoava o cântico dos cânticos: “Olê olê olê olê Telê Telê”. Era a milionésima vez que o Mestre decidia um título. Ele então se levanta, de maneira não muito confortável pois não está acostumado a esse tipo de demonstração, anda um pouco para dentro do gramado e faz sua saudação, com uma só mão para cima acompanhando o ritmo da cantoria. Era a homenagem em vida ao homem que deu tantas alegrias aos seus torcedores e que destacou-se como um brasileiro maior, nesta galeria cada vez mais escassa, no país que perdeu sua soberania.



A FAZENDA AZUL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Visitei o Pampa num sonho. O horizonte como a linha estaqueada entre dois moirões invisíveis; o pasto coberto de flores azuis de um abril imaginado; alguns tufos de árvores de escassa presença em relação à majestade da paisagem, mas generosas na sombra sobre dois viventes. Eles aparentavam aquela idade em que tudo foi posto de lado, menos a dignidade de continuar entre o que resiste.



A ARTE POR UM FIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 27/04/2006).