Arquivo para dezembro 2009

A INTENÇÃO EM CLAUDIA ABREU

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: TV

Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como aconteceu num desses dias em Belíssima, em que Claudia Abreu enfrentou a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua impotência não foi anunciada em expressões de dor ou raiva ou desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em camadas os conflitos que a levaram para aquela situação.



PLANTÃO DE AEROPORTO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter iniciante, que jamais saíra de seu torrão. (Texto publicado dia 4/05/06 no espaço Literário do Comunique-se).



RITO DE PASSAGEM

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos, o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática cara à segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11/maio/2006 no espaço Literário do Comunique-se).



SÃO PAULO, CIDADE ETERNA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Política

És a porta para o Brasil soberano, cidade dos meus sonhos. És fábrica, ilusão, corte marcial, vôo de luz. Quando te vi pela primeira vez era julho, São Paulo, e do Pacaembu até o Paraíso andei a pé e vi tua cor, tua grandeza depositada em majestade. Quem viveu e vive contigo São Paulo, é teu filho, que vê em ti o regaço de um projeto ainda em andamento: o de sermos livres, porque nos ensinaste a liberdade, como um herói que enfrenta os canhões sem nenhuma lágrima, apenas com o sorriso dos que se vêem humanos, precários, escassos.



NAVE DE OUTONO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Sempre espero que uma nave prateada surja por trás do morro e raspe o azul do céu. Depois me dou conta que a nuvem branca é a nave que aguardo. Há o mistério de ser vista assim, majestosa como escultura a se desdobrar lentamente, sendo acompanhada por fiapos de algodão, que dão o tom deste outono claro e frio. O mistério está sobre nossas cabeças e olhamos maio como um Deus em plena criação.



O IMPERIALISMO FIEL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Fernando Meirelles, diretor de ” O Jardineiro Fiel”, é do ramo. O uso que faz da webcan, da internet, dos arquivos digitais para compor sua narrativa é de uma competência que emociona. Seu travelling na paisagem do Quênia, o encontro mítico entre o falso jornalista e o médico enterrado no ermo (um resgate do famoso encontro entre Stanley e Livingstone), o partido que toma a favor das crianças (como aconteceu com Cidade de Deus) são qualidades do nosso cineasta maior que o cinema americano valoriza até o limite, pois sabem que um profissional desses não se encontra em qualquer canto do mundo.



CINEMA DE EXTERMÍNIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A reflexão se atropela junto com as imagens de O pianista, de Roman Polanki, com Adrien Brody, que é sobre invasão e resistência na Polônia, mais do que sobre judeus (não há Bar Mitzvah, nem sabat, nem rabinos nesta obra-prima que faz chorar as pedras); de Dogville, o celebrado cult com Nicole Kidman, de Lars von Triers, que descobre a crueldade na pacata cidade imaginária de portas invisíveis do interior dos Estados Unidos; e 21 gramas, do mexicano Alejandro González-Iñárritu, com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, que acompanha o destino de pessoas terminais na mais radical edição de uma obra cinematográfica, que procura enterrar para sempre a narrativa linear e bem comportada.



A ORIGEM DAS GRANDES QUADRILHAS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Que o Comando Vermelho surgiu no presídio de Ilha Grande nos anos 70 devido ao contato entre prisioneiros comuns e políticos é um fato conhecido, mas o filme Quase dois irmãos, de 2004, leva essa revelação às portas de uma epifania. Os presentes que os reis magos da diretora Lucia Murat nos trazem são o ouro (ou a grana que define papéis sociais insolúveis e incomensuráveis), o incenso (a fumaça do fogo generalizado que queima as gerações desde o golpe de 64) e a mirra, o antisséptico que pela lucidez lava a ferida aberta que jamais cicatriza.



BRASIL DESPEDAÇADO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A liberdade, esse vôo rumo às estrelas, virou uma roda-pião de frustrações e vingança. Tal qual nesse filme soberbo (mais um) de Walter Salles, Abril Despedaçado, que reporta o sol como pesadelo, a luz como redenção, o ódio como intensidade do impasse e o sair porta afora como único caminho possível para a existência real. Na terra nua, no povoado em ruínas, no velório em chamas, nos rostos crispados, nasce o riso, fruto da fraternidade, e o amor desencadeia a chuva.



DICKENS E NASSAR NO CINEMA: TRANSGRESSÃO E PERMANÊNCIA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A literatura, e seu aliado, o cinema, é o caminho mais contundente para denunciar, descrever, criar vida a partir dessas situações limite. Roman Polanski, aos 72 anos e com filhos para criar ( um com sete e outro com 13), deixa de lado a transgressão pura e simples (como em “Repulsa ao sexo”) e volta-se para o lado dark de Dickens, colocando cruamente crueldade e assassinato na tela. E Luiz Fernando Carvalho mantém-se fiel ao seu estilo rigoroso e denso, que adotou na televisão e não abre mão nos seus filmes.



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