O ILUMINISTA QUÂNTICO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros, Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Senhor como semente de Carta Capital: o pulo do estrategista Mino Carta

Apesar da sua importância na época (1981-1988), a revista Senhor, publicada pela Editora Três, é um veículo ainda pouco conhecido, mas fundamental para entender o jornalismo brasileiro na virada do autoritarismo, que partiu da distensão para a democracia estimulada pela anistia, mas amarrada pelo continuísmo. A revista Senhor começou quinzenal em 1981, sob a direção de Mucio Borges da Fonseca, e trazia em toda edição uma entrevista de Mino Carta com personalidades do mundo da política e da economia. Essa fase serviu de estruturação do futuro perfil editorial que Mino iria implementar, já como diretor de redação e sem a presença de Múcio, na Senhor semanal, que começou a ser editada no ano seguinte, 1982. Mino buscava aliados para seu projeto, dentro da concepção iluminista: escolado no esclarecimento das elites dos países desenvolvidos, ele procurava compor uma rede de apoio que tivesse influência no País e comprometimento com a democracia.

Encontrou esse apoio em parte do alto empresariado insatisfeito com o longo período autoritário e respectivo arrocho da economia, quando o estamento político já tinha dobrado o cabo da Boa Esperança de tanto manipular os grandes negócios. Mino encontrou oposição ao governo autoritário em muitas personalidades das finanças e das grandes corporações e escudou-se nessa base de apoio para dar o salto necessário para recuperar o espaço que tinha perdido, depois de ver seu Jornal da República fechar as portas exatamente por falta de sintonia com parte desse mundo poderoso. O Jornal da República foi uma lição duramente aprendida por Mino, que veio para a Senhor decidido a fazer concorrência às revistas que ele tinha lançado e que desvirtuaram-se. Ele definiu suas concorrentes, no último sábado, quando deu entrevista na comemoração do primeiro ano do programa Comunique-se, na allTV, como veículos que se preocupam mais com a gordura do que com a mente dos seus leitores. Mino queria trabalhar com segurança, sem abrir mão dos seus princípios. Foi atrás de quem parecia estar do outro lado, mas que revelou-se favorável às mudanças. Foi assim que, sem negociar princípios, Mino fez o que quis, com aplauso da (pequena) porção iluminista da elite brasileira.

Único representante da Senhor quinzenal (para o­nde tinha ido depois depois de um duro exílio provocado por duas turbulências, a ISTOÉ e a Brasil21, uma provocada por incompatibilidade interna e outra pelo fechamento do veículo), participei também das edições semanais, num período superior a cinco anos, e acompanhei todo o processo. Era encarregado de umas vinte páginas, somando a seção de Livros (que ofereci para Mino e ele aceitou e ajudou, junto com Luiz Gonzaga Belluzzo, a transformá-la num marco do jornalismo cultural), a seção brasileira do Economist, as seções de Ciência e Tecnologia e, por algum tempo, Cultura, além de cuidar de Cartas e da coluna de Pietro Maria Bardi. Era trabalho para mais de metro, confeccionada na máquina Olivetti. Virei companheiro daquela jornada (para usar a expressão de Mino quando comentou minha pergunta no Comunique-se) que tinha um time de primeira: Wagner Carelli, Nirlando Beirão, Carlos Drummond, Hélio Campos Mello, Jorge Wahl, José Roberto Nassar, José o­nofre, Mário Chimanovitch, Antonio Carlos Prado, Thais Rebello, João Carlos Alvarenga, Francisco Viana, Nelson Letaif, Sandra Balbi, entre muitos outros).

Vi então como eram os procedimentos. Primeiro, uma redação enxuta, pois no mesmo programa Comunique-se Mino falou que escandaliza-se com o caráter perdulário das administrações do jornalismo brasileiro, que possuíam redações gigantescas, inclusive sucursais que eram maiores do que redações da Itália e França. Cada jornalista editava, reportava e fechava. Não havia a figura do “maçaneta”, aquele que abria portas para os editores, que traziam informação para o gênio do grande jornalista colocar um texto final.

Em segundo lugar, havia responsabilidade total de cada um pelo que publicava. Mino lia pouca coisa antes de sair a edição, apenas tomava conhecimento do que estava sendo feito e aprofundava-se nas matérias principais. A grande massa de textos restantes ficavam a cargo de cada um, que arrostava as conseqüências depois. As reuniões de pauta eram abertas e transparentes: todos participavam e davam palpite. Quem sugeria a matéria, fazia. Era preciso refletir antes de falar, pois para Mino nada lhe escapa. Depois, possuía dois correspondentes, um em Brasília, José Carlos Bardawill, e outro no Rio de Janeiro, Maurício Dias, que com o tempo puderam contratar outros colaboradores. Lembro que não passávamos de dez pessoas na redação, para uma revista semanal de 84 páginas. Senhor se ressentia apenas de um clima excessivamente austero, mas isso pode ser explicado pela época em que foi feita: a transição obrigava a assumir responsabilidades gigantescas, pois não podíamos falhar, sob pena não apenas de perder um emprego gratificante numa época que já estava acordando para a crise que mais tarde estourou na comunicação, mas pelo fato de corrermos o risco de perder a oportunidade única de fazer história no jornalismo. Graças à presença de Mino e sua estratégia, a revista foi vitoriosa.

O que faltava em Senhor, está sob medida na Carta Capital, que mantém – como reconheceu Mino ao responder uma pergunta minha, que pedia comparação entre as duas revistas – os mesmos princípios: redação enxuta, colunistas significativos, liberdade para os colaboradores, apoio logístico da parte esclarecida da elite (o evento As Empresas mais Admiradas, é, no fundo,o que pretendia o título Senhor dado todos os anos, e que foi levado por Olavo Setúbal, Ulisses Guimarães, Helio Smidt, entre outros). Dar voz a Eugênio Staub e Paulo Francini fazia parte da estratégia bem sucedida de Mino, que assim encontrava nuances na elite, ajudava a comprometer empresários, banqueiros e políticos com as bandeiras mais importantes da democracia. A revista tinha a ousadia de querer influir diretamente nos rumos do País e basta dar uma passada em seus colaboradores para descobrir o quanto ela conseguiu ser o que sonhava. Seus colunistas fixos, como Raymundo Faoro, Franklin de Oliveira, Said Farhat, a presença de Belluzzo, presidente do Conselho Editorial da revista, e os entrevistados de todos os nichos de atividades faziam de Senhor um estuário de idéias e propostas. Pessoas que na época eram pouco conhecidas, como João Sayad, Emir Sader e Marco Aurélio Garcia (estes dois últimos, meus colaboradores fixos na seção de Livros por muitos anos) e muitos outros nomes tornaram-se importantes mais tarde. Senhor serviu de alavanca para várias carreiras políticas e foi uma base de lançamentos eficiente para definir vetores de um Brasil iluminista que, segundo Mino, deveria se beneficiar das contribuições da Revolução Francesa antes de sonhar com o socialismo.

Mino quer um capitalismo esclarecido para o Brasil, uma elite brilhante e responsável, um povo incluído na economia, na política e na cultura. Seu encanto com Lula foi a constatação de que o Brasil poderia ter uma chance de ser diferente, de não cair sempre nas mesmas armadilhas, de superar-se. Mino mesmo é um exemplo de auto-superação. Conseguiu dar a volta por cima com a Senhor e, quando ela foi anexada à ISTOÉ e depois sumiu como por encanto, teve ainda que passar um tempo sem seu veículo próprio. Voltou com Carta Capital quinzenal, como aconteceu no início da Senhor, e como esta, passou para semanal num salto quântico que também marcou época. Hoje, Carta Capital é o mais importante veículo de comunicação do País. Dá de mil nas suas concorrentes e exibe um ecletismo, eficiência e contundência difíceis de encontrar no jornalismo brasileiro atual. Mino é um dos fundadores de uma linhagem nobre do jornalismo e faz jus a ela todos os dias. Seguir o seu exemplo não é apenas uma questão de bom gosto e coragem, mas de sobrevivência. O projeto dos donos do poder é acabar de vez com o jornalismo. Reagir a isso é a receita do iluminista quântico, o homem que veio de longe em missão civilizatória no país que ele adotou e que, apesar de não querer demonstrar em demasia, ama profundamente.

Texto publicado no site Comunique-se em 17/11/2003, que recebeu os seguintes comentários:

Delmar Marques [18/11/2003 – 09:20]

(Diretor-DM Textual Editoração Eletrônica – SP)

Concordo com o Mino em letra e forma. Quando assumi no mesão do Estadão fiquei escandalizado com a quantidade de pessoal disponível e a baixa qualidade da produção gerada. Como poderia ter dificuldades para fechar a primeira página com aquele número impressionante de repórteres e editores ‘a disposição era algo que não conseguia entender. O pessoal na redação de Sampa excedia em mais de três vezes o número de computadores disponíveis, gerando uma incrível dança das cadeiras no final da tarde. Até o meu lugar, no fechamento, era tomado por algum repórter açodado caso levantasse por alguns minutos para consultar um editor ou pegar um cafezinho. Em alguns eventos, enviados por mais de uma editoria da redação competiam com outros da agência, do JT, da rádio Eldorado, cada qual gerando uma notinha factual no seu veículo. Sei que várias “limpas” foram feitas desde então, idos de 92, mas os vícios dessa desorganização operacional persistem nas grandes redações.

Ivanna Fabiani [17/11/2003 – 17:54]

(Freelancer)

Endossei Nei. Carta Capital leio com vontade e confiança. Não paro para pensar se realmente aquilo foi absorvido de algum outro veículo, ou copiado de um documentário do Canal fechado. E um alívio ler a Carta Capital porque não preciso recorrer a outros veículos e fazer comparações para tirar uma média do que está exato! Mino Carta, alem de tudo é intuitivo terá sempre total permissão de tirar seu Tarôt para o Brasil !

Auricélia de Paula Rodrigues [17/11/2003 – 15:37]

(Diretor-Projeto Ler & Escrever – GO)

MA_RA_VI_LHA…!! Concordo com suas palavras, Nei Duclós. Há alguns meses, comentei aqui, neste site,que esta é a única revista (Caros Amigos também) que ainda vale a pena e dá gosto ler. Não precisa dizer que o seu texto é poético em forma e conteúdo. O trecho mais marcante para mim é: “Hoje, Carta Capital é o mais importante veículo de comunicação do País. Dá de mil nas suas concorrentes e exibe um ecletismo, eficiência e contundência difíceis de encontrar no jornalismo brasileiro atual. Mino é um dos fundadores de uma linhagem nobre do jornalismo e faz jus a ela todos os dias. Seguir o seu exemplo não é apenas uma questão de bom gosto e coragem, mas de sobrevivência. O projeto dos donos do poder é acabar de vez com o jornalismo.” Parabéns e escreva mais para nós!

José Paulo Lanyi [17/11/2003 – 14:28]

(Colunista / Comentarista / Crítico-Comunique-se – RJ)

Taí um artigo que revolve a concepção e os bastidores de uma das publicações mais importantes da história do País.

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