LEITURA DE ELEVADOR

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Contos        

Nei Duclós

Quando o calor começa a aumentar, os livros não são mais escondidos debaixo de grossos casacos. As roupas são leves, portanto o material fica bem guardado num daqueles compartimentos que existem no elevador. Mais precisamente o­nde se guarda o telefone de emergência. A ascensorista então tira um exemplar e mostra para o passageiro cúmplice, que lhe pergunta sobre a atual leitura. Ela mostra uma das suas jóias todas manuseadas, de folhas amarelas. É certo que ela adquire seus objetos de desejo em sebos, em revistarias com baús de ossos, o­nde se pode garimpar preciosidades. Ela lê escondido entre um andar e outro, jamais no térreo, lugar de rigorosa fiscalização.

Advertência

Nunca vi seu algoz, nem sei quem é que a proíbe de entregar-se à leitura em pleno expediente. Mas deve ser gente pesada, com poder de demiti-la. Até hoje, pelo que sei, não foi flagrada. Possivelmente só uma vez, quando foi advertida de que ler livros é algo perigoso para uma ascensorista, pois desvia sua atenção do serviço, muito mais importante. Mas vamos imaginar as amarras a que é submetida uma pessoa sentada, em posição de sentido, sempre atenta a todos os passageiros e andares, pronta para retribuir um obrigado, a avisar se sobe ou desce, pois os sinais luminosos e os barulhos típicos não fazem a cabeça dos cidadãos de uma cultura ágrafa, que só entendem comandos verbais. Se o sinal verde ou vermelho aparecer e um grande plim estourar nos seus ouvidos, eles ficam na mesma. Mas se ouvirem a palavra certa, então tudo fica compreensível. Ela então pacientemente avisa a direção do seu veículo, enfrentando toda espécie de mal-estar, pois há impaciência demais num prédio de 11 andares e que é servido por apenas dois elevadores. Ela dribla todos esses obstáculos e consegue desenvolver uma tática de leitura impressionante. Lê rapidamente um parágrafo ou metade dele enquanto faz uma viagem de ida e volta, sem jamais descurar do seu ofício, que pela sua monotonia clássica, pelo espaço confinado e sem janelas, foi feito para enlouquecer quem fica nele por dias e semanas e meses e anos, ganhando um salário miserável no país do subemprego. Ela poderia ser funcionária de uma biblioteca, se bibliotecas houvessem. Poderia cuidar de sua paixão, os livros, oito horas por dia e ainda teria um acervo disponível para ler o dia todo e talvez à noite.

Romantismo

A ascensorista que lê compulsivamente tem uma preferência: histórias românticas. Vislumbro algumas capas que exibem bailes do século 19, com galantes cavalheiros enlaçando gentis senhoritas. Mas não é essa apenas sua leitura. Ela ousa num trama mais explícito de espionagem, erotismo e suspense, e não teme grossura nenhuma de livro algum, pois a tudo devora sem piedade. Quando abriu a portinhola do telefone, vi que tinha uns quatro volumes apertados dentro. Lembrei o clássico filme Faherenheit 451, de François Truffaut, em que os livros eram impiedosamente queimados pelos bombeiros, investidos num trabalho pelo avesso, pois em vez de apagar, punham fogo. Quando o herói do filme deu-se conta que fazia parte de uma sistemática obra de demolição cultural, para que as pessoas ficassem à mercê da manipulação via televisão, ele então começou a estocar livros nos armários, embaixo da cama, no forro, nos vãos existentes das luminárias. Quando foi descoberto, fugiu para um lugar secreto, o­nde velhos leitores ditavam livros de memória para aprendizes. Era a forma de guardar um livro na cabeça, pois dava-se como certa a destruição total de todas a bibliotecas. Num pesadelo de fiscalização total via sistema integrado audiovisual, ele foge em direção à liberdade, para o território em que foi confinado, longe do terror anti-livro.

Final feliz

A ascensorista que lê escondido enquanto trabalha é real e não posso dizer seu nome porque não sei nem perguntei, e também porque preciso preservar sua identidade. Ela poderá ser demitida se for descoberta. E assim perderá seu único emprego que conseguiu neste deserto em que se transformou o país o­nde o fundamentalismo, o obscurantismo e o fanatismo avançam rapidamente, em rede, por todos os cantos.O mais grave do insucesso da falsa democracia em que vivemos é que ela demole todas as esperanças da população numa vida democrática. Em massa, as pessoas voltam-se para as certezas graníticas, já que não querem apostar na diversidade, na dúvida, no encantamento de estar vivo, emocionar-se com uma história escrita pelo talento e impressa num produto que pode correr de mão em mão e acabar fechado num pequeno espaço de um elevador. A ascensorista gosta de ler. Isso dribla a repressão, ela se sente triunfante com seu mergulho diário na literatura que adora. Eu sigo seu paciente trabalho de ocultamento e torço por ela. Se um dia alguma tropa invadir o recinto para dar o flagrante e levá-la presa, ameaçando queimar seus livros, saberei que a hora chegou. O livro que vou decorar precisa ser curto, pois sofro de limitação de memória. Talvez Lorca e seu Llanto para Ignácio Sanchez Mejia (vete Ignácio, duerme, vuela, reposa/ también se muere el mar). Talvez aqueles sonetos do poeta inglês que a certa altura diz: a um dia de verão não posso comparar-te/ pois sempre e a toda hora és muito mais amável. Gostaria de saber qual livro a ascensorista iria decorar. Possivelmente uma história de final feliz, que a leve para longe num cavalo branco.

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