A OPINIÃO PÚBLICA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Política        

Nei Duclós

Legislar, interpretar e aplicar leis vale mais do que opinar, pressionar, denunciar, votar, se insurgir. A força da lei não é inspirada nas necessidades sociais, expressas por uma opinião pública articulada, mas sim nos interesses hegemônicos, que são os do estamento político civil, responsável pela atual ditadura no país. Os congressistas, os executivos das três esferas de poder, e o sistema judiciário não se dobram, porque a opinião pública está engessada em inúmeros aparelhamentos. Faz parte da periferia do estamento, ou ocupa posição periférica nos indivíduos e grupos que tem de sobreviver na indústria cultural ou da mídia. Ou está amarrada ao sistema partidário, que dita as regras do relacionamento econômico, financeiro, comercial, industrial, institucional, comportamental. Ou gira, com o individualismo dispersivo, em redor das mesmas indignações sem repercussão no mundo real.

O Brasil existe porque eles deixam. Mas isso não vai longe. Chegará o tempo em que o último brasileiro vai conseguir cidadania estrangeira para fazer parte do exército de ocupação. Como não vou mais estar aqui, usufruo dos últimos momentos da nação soberana, a que se recolhe à opinião privada, que é a circulação livre de idéias e projetos que não existem oficialmente no país submerso no arbítrio e na tirania. Temos enorme massa crítica que não fede nem cheira.

Para haver opinião pública, não basta ter opinião formada sobre tudo. É preciso que uma síntese dela encontre representação real, ou por meio de uma agremiação, partido, clube, organização, ou mesmo uma liderança, isolada ou não. Como cada brasileiro hoje é líder de si mesmo e se lixa para a opinião dos outros (pública e privada) nada podemos fazer contra o desmatamento, o castelão impune, o senador roubalhão, o deputado facínora, o governador cretino, o militante profissional da greve, o indiferente poltrão, o patrão com polícia pessoal, o grileiro tradicional, o neo-invasor de terras, o lobista que anda de jatinho à custa da corrupção, a ostentação impune, na crônica social, de perus e peruas de todos os calibres.

O núcleo do poder está impermeável a qualquer interferência. Se você pegar os principais maganos que mandam no país e fuzilá-los, nada irá mudar. Milhões de substitutos virão á tona, pois o que existe é um esquema granítico de tunga coletiva, a favor da entrega do país aos seus senhores. Então, de que adianta? Hoje, se prega abertamente o golpe de estado, uma espécie de retorno às origens do projeto militar de 64, o que serviu de álibi para o coronelato civil eliminar sua principal oposição, o trabalhismo. Os comunistas são fáceis de manipular, basta colocá-los numa Kombi e jogá-los no abismo ou no mar ou então reuni-los num ônibus e distribuir-lhes alguns ministérios. Pronto, viram coisa. Aí é fácil.

Qual a saída? Ter percepção clara de processos complicados e participar de alguma síntese que tenha força de fato. Não falo em força armada, mas em força gerada pela imposição de princípios e metas. Pode-se argumentar: estamos fartos de diagnósticos e de projetos. Faço a ressalva: diagnósticos errados geram projetos falsos, que acabam em nada. O problema é que essa frustração fica sendo a revolta real. Na hora em que você enxerga errado, toma a decisão errada. Você participa então de uma ação totalmente equivocada. Esse equívoco substitui o projeto que não veio à tona porque não acertamos desde o início. Resultado: anulação geral e coletiva. Ou então, carregadores de bandeiras remunerados a cinco reais o dia.

Erramos e nos recolhemos porque não deu certo. O que deve ser feito é ver direito e agir direito. Senão a direita já tem a solução: basta derrubar o poder civil do Planalto e repor o militarismo, ou a direita que assume a indignação popular (a opinião pública). É mole ser de direita. É lucrativo hoje ser de esquerda. O que não dá dinheiro e nos deixa enlouquecidos é sermos lúcidos e não termos o poder de nos aglutinar em torno de algo que não faça parte da merda generalizada.

Ontem, no intervalo do Jornal Nacional, o PSTU fez um programa fundado no Jornal Nacional. Com uma oposição destas, que se submete à linguagem hegemônica, o que poderemos esperar? Ei, PSTU: não existe o “conteúdo” (crítica à política econômica, por exemplo). O que existe são dois apresentadores e links em Brasilia mais entrevistinhas de povo-fala. Se vocês fazem isso, igualzinho ao jornalismo global, não importa o que digam, são apenas clones. Vocês dançam, entendem? É preciso desengessar a linguagem e isso só acontece quando você se liberta dos lugares comuns do pensamento político. Enxerguem diferente e ajam de modo diferente. Conhecem o materialismo dialético? É uma boa ferramenta. Não fiquem vendo JN, leiam Marx.

2 comments
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  1. O povo nao é inerte, é escaldado. Num país com tantos séculos de história e com este tamanho, as revoltas, as insurgências, as lutas ficam dispersas e isso dá a má impressão de inatividade. Mas é uma percepção falsa. Vivemos ainda sob a escravidão, que é a dívida impagável. Cada cidadão está amarrado a sistemas perversos de dominação e por mais que o povo tome a iniciativa, como aconteceu tantas vezes, vivemos num circulo vicioso. Mas já houve momentos melhores e isso é uma longa discussão. Obrigado pelo comentário.

  2. A inércia do povo
    Enquanto o povo não começar a se mexer nada mudará. E é exatamente aí que reside o mal da nossa nação: quem está por cima, por definição, não tem interesse em mudar a situação e quem está por baixo prefere ficar sentado no sofá assistindo o Brasileirão ou a Novela das Oito.

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