O REPÓRTER QUE PAROU O AVIÃO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Jorge Edemar Ruwer corre para o meio da pequena pista da cidade do interior do Rio Grande do Sul e faz sinal, de maneira decidida, sacudindo os dois braços, para o pequeno avião que iria partir para Porto Alegre. Ele sabia que aquela era a única chance de colocar a matéria na edição do dia seguinte. Naquele tempo, final dos anos 60, o telex era considerado ainda “a maquininha mágica”, como nos diziam no curso de Jornalismo. Enviar texto e fotos, do lendário fotógrafo J. B. Scalco, seu companheiro daquela jornada perigosa, antes que a máfia se mexesse e impedisse a publicação, era uma questão de vida ou morte para o grande repórter.

Ele usava um chapéu imenso, uma calça surrada da marca Far-west (as pré-jeans), botas sanfonadas de gaúcho campeiro, camisa de algodão e casaco de brim, que nunca tirava. Tinha o olhar que varria horizontes, o queixo sempre levantado, tentando enxergar além do que era visto. Descobriu uma rede de bandidos que exploravam a prostituição e o tráfico de crianças pelo interior gaúcho e publicou uma série de reportagens a pedido do secretário de redação da Folha da Tarde, Walter Galvani, na época à frente de uma equipe jamais igualada. Além de Ruwer (que com esse trabalho ganhou o prêmio Ari – Associação Riograndense de Imprensa, de 1970) havia Waldir Zwestch, Jorge Escosteguy, Danilo Ucha, Ademar Vargas de Freitas, Luiz Henrique Fruet, entre muitos outros.

O avião teve que parar diante da insistência do repórter. Ruwer então colocou nas mãos do piloto um envelope lacrado, com os textos e as fotos da denúncia e impôs sua vontade, com seu jeito largo, firme e ao mesmo tempo cavalheiro, com a força da sedução de um temperamento vocacionado para o perigo da informação inadiável. Era preciso que o material fosse entregue para o motorista da Caldas Junior logo que o avião pousasse no aeroporto Salgado Filho. De lá, partiria queimando pneu até a redação, onde seria editado, as fotos reveladas e ampliadas e tudo colocado direto na oficina a chumbo.

No dia seguinte, os leitores tinham na mão a bomba do repórter inesquecível que, por “coincidência”, foi assassinado mais tarde, em Passo Fundo, sendo que o seu assassino levou também um tiro na nuca. Assim se eliminaram os grandes repórteres da imprensa brasileira. e foi bem na minha vez, quando eu estava entrando na profissão. Tive tempo de ver, de relance, aqueles que deixaram sua marca e hoje estão esquecidos. Ruwer é nome de rua em Carazinho, mas é muito pouco. Seus textos deveriam estar reunidos em livros. Haveria muito mais proveito do que qualquer manual de redação.

Ruwer é um dos craques do time de repórteres que fez a história do jornalismo brasileiro. Nessa seleção de ouro, entram, obrigatoriamente, Hamilton Almeida Filho, Marcos Faerman, Octavio Ribeiro (o Pena Branca) e tantos outros, mais conhecidos. Na redação que eu tivesse o privilégio de montar, os retratos deles estariam nas paredes, a exemplo das galerias de estadistas nas sedes das grandes repúblicas. Haveria uma biblioteca (nunca conheci redação com biblioteca) com todos os livros reunindo suas reportagens e os autores que fizeram suas cabeças. Depois, convocaria alguns talentos espalhados pelo Brasil e que, super-capacitados, ainda estão por mostrar tudo o que podem fazer (mesmo os mais notórios).

Convidaria para visitar a redação, periodicamente, alguns veteranos. Na porta, colocaria um quadro do Edemar Ruwer, usando chapéu de aba larga e botas sanfonadas de cano curto, com olhos rútilos de tesão pela profissão que abraçou e por ela dedicou sua vida, fazendo sinal para o avião parar.

6 comments
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  1. Prezado Nei, foi com surpresa que li este texto sobre o Edemar, era meu cunhado, e trabalhava no seu jornal, “Jornal da Produção”, em Carazinho, quando ocorreu o assassinato no dia 2 de outubro de 1972. Não sabia deste caso. Foi o Edemar que me deu lições de reportagem e por causa disto decidi cursar jornalismo (ingressei na UFSM já em em 1973) e após algum tempo como repórter ingressei na ufsc em 1984. Minha irmã, Magaly Ruwer, é professora na Universidade de Caxias do Sul e, certamente, teria muito interesse em informações sobre o Edemar. O casamento deles durou muito pouco tempo, não mais do que dois anos. Enviarei o o teu link para ela, cujo endereço é [email protected]

    Cordialmente, Hélio A. Schuch

  2. Surpresa é a minha, Helio, de receber essa bela mensagem sobre nosso grande repórter. Ouvi a história do avião pessoalmente, contado por ele numa roda, onde estava também o fotógrafo J.B Scalco. Quando cheguei na Folha da Tarde ele já era um veterano e o mais importante repórter do jornal. O que sei dele está neste artigo. Depois fui-me embora para São Paulo e anos mais tarde soube do trágico incidente. Abs.

  3. O EDMAR RUWER FOI MEU MELHOR AMIGO. FOI O MAIOR DATILÓGRAFO DE TODOS OS TEMPOS EU O ACOMPANHAVA NA ESQUINA DA BORGES C. ANDRADAS E VIAJAMOS JUNTOS , SEMPRE PARA IJUI. NOS ENCONTRAMOS PELA ÚLTIMA QUANDO ELE PASSAVA POR PORTO LEVANDO GRUPOS DE SEM TERRA PARA ALTAMIRA. FICAMOS HORAS EM PAPO E SOUBE QUE TINHA CASADO COM A MAGALY. SOUBE DO ASSASINATO DELE NA MANHÃ DO DIA QUANDO NO JORNAL ESTAVA EM CAPA O OCORRIDO. ME DÓI ATÉ HOJE. FOI O MAIOR JORNALISTA QUE CONHECI. EU AMAVA OS DOIS. SOFRI MUITO E SURPRESO ENCONTRO ESTA HITÓRIA MARAVILHOSA. DO NEI. DEUS ABENÇOE VOCÊS TENHO 65 ANOS FEITOS EM 8 DE FEV. E 4 FILHOS HÉLIO TUA MÃNA ERA A MULHER MAIS LINDA DE IJUI BEIJOS SOU ARTISTA PLÁSTIDO APOSENTADO, AVÔ . E CRIANDO. JOAOFRUET@TERRA .COM .BR

  4. Amizade eterna, que não some junto com o amigo inesquecível: belo exemplo de camaradagem nesta homenagem que você faz, João Francisco. Naquelos idos, batucávamos o teclado de maneira veloz, pois tínhamos pressa e pouco tempo para fazer acontecer o jornalismo que sonhávamos. Edemar foi “primus inter pares”, o melhor dos melhores e foi-se precocemente. Mas nós o homenageamos, sempre. Obrigado por suas palavras.

  5. Olá, Ney, sou filha do reporter Octavio Ribeiro, o Pena Branca, que você se refere como um jornalista que está dentro da sua seleção de ouro e me marcou esta sua frase… ” Na redação que eu tivesse o privilégio de montar, os retratos deles estariam nas paredes, a exemplo das galerias de estadistas nas sedes das grandes repúblicas”.
    Fico feliz de saber, que após 25 anos do seu falecimento, ainda o admira e ainda escreve sobre ele. Quero te agradecer e dizer que não sou jornalista, mas sou formada em letras e gostaria muito de escrever um livro para o meu pai.
    O jornalista Marcos Santos em seu blog, cita o meu nome, e está me ajudando muito. Você também não gostaria de colaborar, recordando algo sobre este lendário repórter , que é meu pai? Te agradeço desde já , se puder me responder.

  6. Rejane, parabéns pelo seu projeto. É importante, junto com a biografia, reunir uma seleta das grandes reportagens do Pena Branca. Sobre ele me referi em outros textos como “Redações que cruzam o tempo” http://bit.ly/eWlWfo . Também neste outro http://bit.ly/eU86Qg e neste http://bit.ly/eZrOEi. Abs

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