BALCÃO DE PECADOS
dez 12th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: CrônicasNei Duclós
Desatenção talvez seja o maior pecado do comércio. Nos pequenos estabelecimentos, a indiferença se manifesta pelo espírito de grupo, autocentrado e impermeável a interferências. Conversar entre si, deixando o cliente parado à espera de atendimento, cobrar no caixa sem olhar quem está pagando, varrer os pés da vítima que tenta consumir alguma coisa são alguns exemplos dessa expulsão involuntária promovida pelos que deveriam estender tapete vermelho. O pior é o olhar de “tu-por-aqui?” quando você chega na loja familiar e os proprietários estão ocupados em colocar a conversa em dia. Deveria haver um buraco onde o cliente pudesse se enfiar por alguns momentos, até passar o efeito devastador que a virada coletiva e silenciosa de cabeça em sua direção provoca, como a perguntar os motivos para a presença estranha em território sagrado.
Nas grandes corporações, o expediente é o famoso olho branco, o treinamento corporativo “tiau-pra-ti”, como dizem em Porto Alegre. Ausência ou as costas são os fatos mais comuns nos vestíbulos imensos e cheios de mercadorias, em que a migalha de uma orientação é negada pela falta absoluta de funcionários visíveis. Você é filmado de todos os ângulos, deve haver uns 15 analisando teus gestos, mas nenhuma gentileza chega para te encaminhar à estante certa, dizer se a casa trabalha com determinado produto, ou simplesmente para informar o preço que está oculto em código. É um paradoxo, pois existem grandes investimentos no marketing de relacionamento, quando pagam os tubos para mostrar o gesto virtual solícito que inexiste ao vivo.
O único lugar realmente explícito, visível e à disposição dos clientes é o setor de pagamentos. Como não pode existir sintonia entre falta de atenção e dinheiro em caixa, é um mistério que as megalojas aumentem cada vez mais o faturamento. Talvez porque a população tenha crescido de forma geométrica, e os monopólios, em relação a essa demanda, mantenham ainda encolhidos de maneira brutal os espaços reservados para as vendas. Meia dúzia de grifes exibe um olhar olímpico, como a dizer que os incomodados se retirem para as ruas de comércio popular, onde a desatenção usa de outras armas. Como, por exemplo, a gritaria no ouvido dos passantes, as mentiras escrachadas sobre qualidade e preços e o falso charme da ignorância vestida pelo tom da esperteza.
É por isso que ganha força as negociações via internet, capaz de uma comodidade que falta aos espaços comerciais físicos. Tenho preferido esse tipo de intercurso, apesar das eventuais surpresas, como a megamagazine que nos deixou esperando um mês para fornecer um reles gabinete de cozinha e, quase esgotado o prazo, avisou que não tinha o dito disponível. O transtorno foi driblado pela promessa de devolução do dinheiro, não sem antes a empresa definir, como solicitação sua, a desistência que foi deles. Mas quem pode contra a linguagem burocrática engessada em inúmeros documentos?
Gosto de freqüentar livrarias, mas ultimamente minha preferência por obras antigas tem me empurrado cada vez mais para a rede. Comprei esses dias um exemplar caprichado, bem melhor do que outro, da mesma edição, que eu tinha perdido, de conteúdo detalhado e interessante: “Viagem Militar ao Rio Grande do Sul”, do Conde D`Eu. Reli o livro para revisitar a minuciosa geografia desse narrador aristocrático, que debocha o tempo todo dos maus hábitos riograndenses, a começar pelo excesso de luxo em aposentos desconfortáveis. Não perdoa a fraqueza dos cavalos gaúchos, tão famosos, denunciando o gasto excessivo em arreios e estribos de prata, em contraposição à economia absurda em cereais adequados à alimentação das montarias, uma necessidade urgente em plena Guerra do Paraguai.
Como esqueci a narrativa, lida muitos anos atrás naquele exemplar que sumiu, ainda não cheguei ao destino do Conde, que acompanhava o Imperador em direção à minha cidade natal, Uruguaiana, tomada pelo inimigo. Mas sei que, graças à competência de uma livraria de Goiânia, tenho em mãos uma raridade sobre História do Brasil, que ensina mais do que muita análise desatenta, idêntica ao mau comércio que não faz questão de nossa existência.