Redação sem máscara

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Um candidato a prefeito do interior enfrentou a oposição com todos os esses e erres: – Estão dizendo por aí que eu não sei ler. Não é verdade. Conheço o alfabeto de cor e salteado. O que eu não sei é “acuierá” as letras. Pode-se aplicar o mesmo princípio para os textos. Conhecemos todas as palavras – ou pelo menos, aquelas de uso mais corrente. Sabemos formar frases. Temos bons conhecimentos gramaticais. Então, por que é tão difícil expressar exatamente o que queremos dizer, por que não conseguimos nos fazer entender pelo público que precisamos atingir? Por que nosso texto muitas vezes parece tosco, repetitivo, inútil? Porque escrever não depende apenas de alfabetização, nem de faculdade, mas de conhecimento técnico. “Acuierá” as palavras de maneira adequada é o maior desafio de uma época que se pauta pela informação – clara, precisa, veloz. Um texto é uma obra da engenharia da linguagem e não uma conseqüência “natural” do aprendizado das primeiras letras. Essa evidência mexe com a vaidade de quem acha que escreve muito bem e não sabe que escreve para poucos – ou seja, para ninguém. A primeira providência do competente leitor é saber-se incompetente na matéria. Aqui você não vai aprender a escrever bonito, ou culto, ou inteligente. Aqui você pode iniciar-se no pior dos mundos, o de aprender a carregar pedra para o local certo. Pois um redator é, antes de tudo, um estivador das palavras, por mais rebuscada que possa parecer essa metáfora.

A primeira tarefa que me foi confiada numa redação de jornal foi a de buscar a calandra. Essa armadilha já é bem conhecida, mas precisa ser definida no seu sentido exato. Buscar um enorme equipamento impossível de ser carregado é mais do que uma brincadeira de veteranos. É um rito de passagem, que serve para enquadrar a vaidade do iniciante, que começa a ser pago para escrever – a melhor profissão do mundo, segundo Gabriel Garcia Marquez.

Os jornalistas hoje enfrentam o desafio de ocupar vastos espaços da mídia sem saber exatamente o que fazer com isso. Existe uma enorme confusão de funções e papéis desempenhados pelo jornalista e essa confusão passa para o texto, que acaba cansando e irritando os leitores.

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