News
300 DE ESPARTA: O SEQUESTRO DA HISTÓRIA
Published: Aug 10, 2007 - 01:36 PM
Nei Duclós
300 de Esparta é um filme fascista porque o
traidor dos espartanos é alguém que deveria, pelas leis da
cidade-estado, ter sido eliminado por ser fisicamente deformado. O
recém-nascido que não estava à altura das exigências espartanas escapou
porque a mãe a levou para o campo e o criou. O rebento sempre quis ser
soldado e incorporou-se ao comando de Leônidas. Mas o traiu para os
persas. O recado é simples: a eugenia, a seleção brutal dos futuros
barrigas-tanquinho, está plenamente justificada.
É
um filme a favor da América de Bush: a violência, especialmente a
desencadeada fora das decisões políticas do debate coletivo legítimo, é
purificadora. Não importa o que os idosos (esses leprosos, segundo o
filme) dizem, o que a tradição inspira, o que a prudência sugere. O
importante é tomar a iniciativa fora do alcance das razões de uma
sociedade organizada (representada, no filme, pela corrupção, a
covardia e a mentira), e de maneira voluntariosa assumir o risco do
heroismo do machismo profundamente homo (cara, como esses barbudos se
amam).
Esse filme asqueroso que estetiza a
violência por meio de uma combinação entre videogame (eliminar aos
pedaços os inimigos) e propaganda nazista (os corpos sarados dos
machões sanguinários) reserva um papel sinistro para o Outro, que
estaria a serviço do misticismo e da tirania. Justifica assim a invasão
do Iraque, pois foram eles, os satânicos, que teriam vindo para cima da
América. Nada mais lógico do que revidar de maneira heróica, mandando
os bravos rapazes americanos, treinados como se fossem espartanos, para
acabar com aquele antro de decadência. Tudo em nome da “liberdade.”
É
triste ver Rodrigo Santoro, bom ator brasileiro, sendo dublado como se
fosse Darth Vader de Guerra das Estrelas (aliás, o chapéu do vilão,
chupado de Kurosawa dos Sete Samurais, está lá de novo em 300, na
cabeça de um comandante persa). Longe da performance de um imperador
poderoso, Santoro parece mais um surfista fantasiado para o carnaval
dos bordéis de Miami (o que é uma pena, pois ele está ótimo em
Carandiru, O bicho de sete cabeças e Abril despedaçado). Representa a
não-humanidade, a que não merece viver neste “planeta” de propriedade
dos americanos. Encarna os males que a América enxerga nos outros para
poder tomar conta de tudo. Treme o lábio como um poltrão na hora que
leva o lançaço de Leônidas. Tudo muito patético.
Mas
triste ainda é ver, no disco extra, que um casal de historiadores fica
explicando como os autores da façanha se basearam em Heródoto, sem
jamais citar o tremendo anacronismo do filme, o seqüestro da História
que ele representa. Jamais dirão: isso é coisa de cinema subsidiado,
dos imperialistas que dominam todo o mercado (por isso despejaram
milhões de dólares em tudo que é produção para nos ensinar como é a
CIA, o FBI, os mariners etc.) e querem nos impingir uma imagem de
civilização perfeita, cheia de vigor físico e de uma ética suspeita.
Estarão sempre, tanto o velhão historiador quanto a perua historiadora,
dizendo como a coisa é interessante neste filme. Oram, vão se catar.
Não se trata aqui de, ingenuamente, achar que o filme deveria ser
"fiel" à História. Toda História é versão. Mas de apontar o mau uso da
História, já que se trata de um evento conhecido. O uso a favor da
dominação.
Não há dúvida que Frank Miller é um
artista brilhante, que mudou profundamente as artes no século 20. Mas
neste filme ele se presta ao Mal. Ele nem sequer cogita, obviamente,
que esteja a favor da bandidagem de Bush. Talvez faça isso realmente de
maneira não engajada. Mas fica difícil engolir que ele não tenha um
mínimo de noção sobre a utilidade política do filme. Pode-se argumentar
que todos os comics são obra da América (de Super-Homem a Capitão
Marvel) e estão a seu serviço e isso não tira o encanto de consumi-los.
Mas a esta altura do campeonato, quando a direita toma conta de tudo,
inclusive da arte bem elaborada, é preciso espernear, se insurgir. Pelo
menos é o que eu entendo por liberdade.

