A GEOMETRIA DO JOGO
maio 28th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: EsportesNei Duclós
O conflito principal no futebol é a oposição entre a esfera e o retângulo, entre a curva e a linha reta e não a que existe entre times adversários. Tanto é que os atletas costumam trocar de camisa, conforme as conveniências da profissão ou da cartolagem, e muitos acabam juntos na seleção (há também o caso de torcedores que escolhem mais de um time de coração). Este jogo é uma arte de encaixes, sejam quais forem as cores defendidas ou as pessoas envolvidas nele.
ÁREA – O jogo consiste, primeiro, em manter a bola nos limites das quatro linhas retas do campo – quando ela sai desse espaço, é falta. Segundo, colocar a esfera no interior dos dois retângulos que formam as goleiras nas duas extremidades do campo (antigamente eram chamadas de arcos, como uma espécie de homenagem da linha reta ao que é curvo, ou porque a bola, ao entrar no ângulo superior, acaba curvando esse espaço decisivo do jogo, que é uma síntese do retângulo maior, o campo onde acontece a disputa).
A partida é decidida por uma série de combinações entre a trajetória da bola em linha reta (o chute direto), em curva (a folha seca ou o chapéu) e a partir dos ângulos (escanteio, gol na gaveta ou rasteiro no canto). Essa geometria define a matemática superior do futebol, um jogo quântico à mercê das probabilidades. A área é o retângulo que funciona como sombra do arco, ou seja, se a bola fosse o sol colocado atrás da goleira, refletiria no chão as linhas que delimitam a área. É por isso que esse território é do goleiro, por ser uma projeção da sua cidadela. Cabe ao atacante devassá-la desbravando-a pessoalmente ou por eliminação, por meio da bola alta.
O ângulo também é fundamental no futebol. Não apenas a gaveta, por onde entram os mais belos gols, mas o canto onde se bate escanteio, e a quina da área, lugar de dúvidas quando pode haver pênalty. São pontos sensíveis do jogo e quanto mais usados, mais beleza transfere ao conflito. A perfeição absoluta é o gol de escanteio, ou olímpico, em que a bola faz a curva, dispensa os atacantes plantados na área, confunde o goleiro e entra para fazer história. Não pode haver gol olímpico em linha reta.
ROMÁRIO – Existe a curva perfeita que é pura estratégia bem sucedida, com os passes longos de Gerson, Zenon e agora Alex. Existe a falsa curva, que é aquele gol do Branco contra a Holanda na copa de 1994, que foi direto no canto (o ângulo de baixo) e deu a impressão de ser em curva porque Romário, quando sentiu o vento do chute passar por trás arqueou a cintura como se estivesse deixando a bola passar. Por muito tempo achei que Romário viabilizou aquele gol decisivo porque tinha feito esse jogo de corpo. Mas as comemorações do tetra provaram, pela exaustiva repetição, que o chute foi de outra natureza: reto, direto, caindo da pouca altura para o chão.
Romário é um ilusionista perfeito. Uma vez ele jogava contra o Madureira e o goleirão não deixava passar nada. O Baixinho foi lá e cumprimentou o arqueiro. No minuto seguinte fez o gol. Claro, tinha conseguido desconcentrar o adversário, que ficou emocionado com a homenagem no calor da luta. Outra do Romário foi aquele gol contra Camarões, em que levou três de roldão. Suas pernas confundiam os camaronenses fazendo dribles virtuais enquanto corria. Mas a curva não seria eficiente naquele caso. Então ele optou pela radicalização da linha reta, o chute de bico, desencadeado um segundo antes que o pé da zaga cortasse sua investida.
BICICLETA -Outra preciosidade é o que Peticov faz, colocando a bola em linha reta até 80% da trajetória. Aí ela opta pela curva exatamente para ficar fora do alcance do pulo do goleiro. Este, se atira pensando que a bola virá reto, mas sua mão apenas colhe o ar. A divindade desse tipo de gol é a folha seca do mestre Didi, em que a bola tem tudo para se perder na linha de fundo e como um rio faz a curva para cair no ângulo de baixo, oposto, deixando os goleiros paralizados. O gol de bicicleta é outra surpresa da curva. O jogador está de costas para o gol e só poderia chutar, pela lógica, contra o próprio ataque. Mas como o pé é curvo e o corpo flexível, ele cai de costas com a perna levantada e puxa a bola para dentro do gol. Um brasileiro, o Diamante Negro, inventou isso. Ninguém mais poderia pensar numa possibilidade dessas antes de um brasileiro. Um elemento importante na geometria é a triangulação.
A tabelinha é feita de triângulos e nisso se especializaram Pelé e Coutinho e Romário e Bebeto, entre tantos outros. Hoje a tabelinha encontra forte barreira dos oponentes e exige muito mais do que habilidade e fôlego, mas precisão milimétrica. O chute que enche o pé e cai em curva, por extensão, difere do chute de três dedos, que é criado para inventar a manhosa rotação lateral da esfera. Foi Di Stéfano que fez um monumento à bola e colocou o seguinte: Gracias, vieja. No fundo, o futebol é encaixar a esfera num espaço limitado por linhas retas, uma impossibilidade teórica que só pode ocupar os espíritos livres.
Excelente texto, escrito com maestria e profundidade de quem pensa sabendo pensar, Perfeita simetria entre o lúdico e o apolíneo. Eu gosto muito de futebol e acabei envolvendo muitos seguidores no Twitter em função desse tema, mas procuro sempre deixá-no campo das emoções menos importantes pra mim. No mais, perfeito.
Muito interessante, sempre gostei de futebol, porém infelizmene nunca me interessei para entender a matemática do jogo. Agora, por necessidade de tornar a aula de matemática mais interessante, pois tenho alunos que estão mais interessados no futebol do que na matemática, e para não perdê-los para um sonho que nunca se sabe se tornará realidade, pesquisei na net alguns sites sobre o assunto e mostrar que sem estudo ninguém vence na vida, ou se consegue vencer, o estudo fará muita falta lá na frente. ENCONTREI ESTE TEXTO MUTO VERDADEIRO. MUITO BEM ELABORADO. E QUE SERVIRÁ DE INCENTIVO PARA MEUS ALUNOS! TENHO PLENA CERTEZA! OBRIGADA. ABRAÇOS.
Teresinha Cordeiro.
Fico feliz que meu trabalho contribua para o melhor entendimento de uma ciência fundamental como a matemática. O trexto é uma forma de mostrar que todo assunto pode ser abordado ciativamente. Muito obrigado.