A HISTÓRIA NO ACOSTAMENTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros        

Nei Duclós

O ônibus parou e todos desceram. Fiquei lá dentro, me perguntando o que tinha acontecido com a viagem. Ao meu redor só havia árvores. Estávamos num acostamento e até mesmo o motorista sumira. Eu vinha de Porto Alegre, convocado para participar do lançamento do Jornal de Santa Catarina. Resolvi descer e perguntar. É o fim da linha, me disseram. Isto é Blumenau? perguntei. Era. Foi quando conheci Nestor Fedrizzi, que fora chefe da redação da Ultima Hora do Rio Grande do Sul por quatro anos, e estava catando jornalista no grito, já que ninguém queria ir para o interior de Santa Catarina. Na época eu estava na rádio Gaúcha, onde conheci Carlos Bastos e Carlos Alberto Kolecza, também ex-integrantes da UH (mais tarde, em São Paulo, trabalhei com Mucio Borges da Fonseca, da UH do Recife). No telefone, dissera para Fedrizzi: quero ir, mas estou duro. Pago tua viagem, foi a pronta resposta.

Sem saber, eu estava trafegando no acostamento da História. Naquela redação do Vale do Itajaí, o braço direito de Fedrizzi era José Antonio Ribeiro, o Gaguinho, ex-repórter da mesma Última Hora. Ambos personagens de Jefferson Barros no seu obrigatório Golpe Mata Jornal, da Já Editores, que comprei na Feira do Livro de Uruguaiana no ano passado, quando fui patrono a convite da Prefeitura. O livro, que resgata a história do jornal assassinado pelo golpe de 64 (com depoimentos de inúmeros protagonistas daquela experiência única), é de 1999. Alguns anos depois, o próprio Jefferson encontrou o mesmo destino: morreu na miséria, sozinho, esquecido, num hospital público de Porto Alegre. O ex-editor do Jornal da Nacional, um dos maiores e melhores textos das redações por onde passou (Jornal do Brasil, Estadão, Correio do Povo etc.), erudito e autodidata, crítico de cinema de primeiro time, cometera um crime: entre seus seis livros (romance, poesia, ensaios), escrevera a mais importante análise sobre o assassinato da imprensa brasileira.

Vou dizer porquê. Primeiro, porque Jefferson Barros trabalha as contradições, os conflitos que regeram o nascimento e o crescimento da cadeia UH, criada por Samuel Wainer. Segundo, porque mergulha fundo nas origens da imprensa gaúcha e a situação em que se encontrava quando a UH do Rio Grande do Sul veio à luz. Terceiro, porque o espírito livre do autor não abre mão do rigor metodológico. Esse aparente paradoxo – a liberdade da abordagem vestindo a luva do racionalismo dialético – faz do texto de Jefferson uma aula de História. Pior para todos nós: é um roteiro de como a História foi jogada no acostamento.

O que se destaca não é apenas a denúncia do assassinato, mas como as contradições influíram para que o jornal perdesse o rumo para depois recuperá-lo; como seus jornalistas, divididos em correntes diversas, atingiram a unidade quando a onça bebeu água (a campanha da legalidade de 1961); e como o golpe de 1964 se prefigurou nos desdobramentos das edições, reflexo das poderosas forças sociais e políticas que engendraram primeiro a vitória democrática da posse de Jango, depois o limbo perigoso do parlamentarismo e finalmente o pesadelo do putsch reacionário, que vitimou a nação.

A coragem de Jefferson Barros ao colocar todas as cartas na mesa, sem fazer concessão para absolutamente ninguém, é fruto da sua ética e de sua lucidez. Seu talento e preparo promovem milagres. Ele não abre mão da alegria, pois seu resgate profundo nos leva de roldão pelo jornalismo acima, como se, ao ler, fôssemos também protagonistas. Ao mesmo tempo assume ser o narrador de um choque de trevas, ao abrir o ventre do golpe que abortou o país e ao soprar o pó acumulado nas hostes progressistas, nacionalistas, esquerdistas e populares. Mas toma posição firme a favor do projeto que morreu nos braços do povo: sua obra, especialmente o último capítulo, ” Silêncio suspeito sobre ícones jacobinos”,em que faz um paralelo entre o governo de Robespierre e a experiência da Última Hora gaúcha, é uma peça da cultura política do país que não deveria faltar na biblioteca de ninguém.

Jefferson Barros não é bem-vindo em nenhum reduto, a não ser nos que contam com a verdade. Por isso merece estar junto conosco, ele que se foi precocemente, reconhecido por seus pares, mas desconhecido das novas gerações. Nesta época em que impera o deserto, o melhor de nós está enterrado em algum baú, em algum canto, em algum ermo nos rincões desconhecidos da imensa pátria. Precisamos dessa voz silenciada, desse texto liberto, dessa guinada que um escritor dá, à custa da própria vida, para tirar a História do desvio e jogá-la de novo na rota segura do entendimento.

6 comments
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  1. Jefferson morreu na miséria, sozinho, esquecido, num hospital público – você conta. Não que a prosperidade seja proibida, mas o sujeito morrer honrado como foi o caso dele deixa aos jovens o exemplo da dignidade, tão necessária atualmente. Quantos passaram por situações semelhantes nesta nossa fauna profissional? Ano passado, Osmar Trindade, mesmo tendo sido quem foi, morreu pobre também. Mas fez escola, Brasil afora e até em Moçambique.
    A respeito dos fechamentos dos UHs pelo País, Nei Duclós, há muitos testemunhos. Ainda não vi o livro e tenho alguma expectativa que fale ou lembre numa próxima edição, da UH do Paraná. Os amigos Jota Oliveira e Délio César lá estiveram e lembram de momentos delicados em Londrina, por ocasião da “redentora”. Vou buscar “Golpe mata jornal”, já. Saúde e êxito!

  2. Ola Nei,

    Acho que conheci voce nessa epoca do Jornal de Santa Catarina. Eu ficava as vezes com meu pai, seu amigo Nestor, na redacao do jornal. Alias, acho que me tornei fotografo muito pela influencia das coisas que vi nessa redacao. Lembro de como ficava fascinado com o equipamento de radio e tele foto. As fotos vinham de outros paises, e saiam por aquela maquina. E isso parecia magica para mim. Memorias boas, de tempos duros. Tempos de pessoas de valor e dignidade, onde poucos so se vendiam.
    Grande abraco.

  3. Olá Dede, é uma alegria esse reencontro aqui neste espaço, onde lembro o Fedrizzi, nosso grande diretor de redação. Muitas histórias rolam nas redações e a sua é uma das mais significativas, pois cedo foste fisgado pela mágica do jornalismo. Abs.

  4. Montezuma: a UH é uma história grande, cheia de diversidade. Precisamos aprender cada vez mais sobre a cadeia de jrornais que mudou a imprensa no Brasil. Abs.

  5. Prezado Nei
    Sou a filha mais velha do Nestor e acompanhei muitas das atividades da UH onde íamos, meus irmãos e eu, seguidamente. A redação e a impressão do jornal eram algo fascinante e, por outros acontecimentos da vida, acabei fazendo medicina e não jornalismo. E essa “dívida” comigo mesma não foi saldada, fato de que me dou conta à medida que o tempo passa e que vejo como as coisas da profissão não abraçada me interessam e me envolvem. De certa forma, a compensação disso veio através da minha filha, Luísa, jornalista muito jovem, mas que tem a integridade e a competência profissional herdadas do avô. E digo sempre a ela que tem o “espírito” do jornalismo de antigamente. Aliás, foi através dela que tomei conhecimento desse teu texto, tão importante e oportuno. Muito obrigada por reavivar esses fatos. Um grabde abraço!

  6. Virgínia, é obrigação minha dar o testemunho das pessoas que me acolheram e mostraram caminhos numa profissão tão complicada. Não fosse pessoas como Fedrizzi, eu não teria ido adiante. Muito obrigado por suas palavras. Fico feliz que a neta de Fedrizzi tenha abraçado o jornalismo, que precisa de vocações verdadeiras e talentos para continuar vivo.

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