Welcome Anonymous User  

News

Front Page | Archive ]

A IMPLOSAO DO CENARIO

Published: May 13, 2005 - 12:28 PM

Nei Duclós

Não existe reconstituição de época. O que existe é a disposição de elementos do cenário em função da narrativa. "Longe do Paraíso", de Todd Haynes, é a composição de um ambiente que implode ao fazer o cruzamento com seu oposto. A dona de casa que serve de modelo para a publicidade e confunde seu vestido com as cores da parede descobre que está prisioneira de lustres, bibelôs, sofás e cortinas. O arco que a sustenta, o marido, abdicou da sua função, sufocado pela cela construída como um evento social.

Ao refugiar-se no jardim, para expressar sua dor, ela é capaz de seduzir-se por um cenário diferente, que começa nas folhas do outono e deságua na dança enfumaçada de um bar da periferia. Sua busca da salvação está definida na opinião do seu jardineiro, que enxerga a divindade na arte moderna - vista aqui como transgressão do cenário. Enquanto as pessoas "normais" confessam seu desagrado por Miró e invocam Michelangelo parta justificar seu preconceito, ela descobre que Deus pode também estar fora da arte clássica.

O lugar onde ela habita, que era uno graças ao hábito e o olhar contaminado pelo Mesmo, dissolve-se junto com o casamento. Primeiro, os elementos que eram poucos multiplicam-se, como uma revelação do olhar abismado pela surpresa e a descoberta. Depois, impedida de assimilar tudo o que acumulou e de partir para o lugar que descobriu, seu mundo desmorona e o que era diverso torna-se azul, ocre, quase sépia. A felicidade,que era a harmonia da repetição dentro da diversidade das cores e formas, é substituída pelo sofrimento, que é o cenário múltiplo virando uma grande e única massa espessa. A possibilidade do amor é representada pelo lenço lilás, aquele que voou por cima do telhado e foi encontrado pelo Outro.

O marido que procura libertar-se do casamento que entronizou o Mesmo, foge para o Outro que é sua imagem no espelho. O marido perde a luta contra o cenário e dele se retira para continuar com sua maldição. Ela entrega-se à luz que as flores brancas acenam como uma trégua.

O amor inter-étnico e o homossexualismo são apenas as formas de rupturas de cenários hegemônicos. Quando a vida é composta de objetos que ditam os destinos, a transgressão é a única saída para o que é humano. Mesmo que essa ruptura seja involuntária, de seres colocados contra a parede, fica evidente que o drama é render-se ao pincel que determina os papéis e que a emoção verdadeira é a viagem em direção ao oculto e desconhecido - o bairro negro, a estrada de ferro, a música que sugere o desespero e que não faz parte da falsidade representada pelas imagens. A verdade surge num flagrante no escuro, numa dança acanhada, numa visita noturna. O amor que escapou do cotidiano assoma na despedida e dissolve o horror da repressão, exercida pela tocaia de quem faz parte do cenário de badulaques efêmeros.

. O cinema existe em função do que lhe escapa. Por mais objetos que componham sua trama, por mais personagens que o povoem, por mais emoção que desperte, ele só se revela inteiramente quando a palavra soa depois que o filme acaba. A palavra sobre o filme é o sonho marginal do cineasta que pinta um afresco como um Mestre insuperável. Mas ela se revela só quando levantamos da cadeira, quando perdemos enfim o filme todo para reencontrá-lo, inteiro, num texto insolúvel.


 

Comments

Add a new Comment





Novo Livro

  • O Refúgio do Príncipe (2006)
    O Refúgio do Príncipe
mais...

Outros Artigos

Sunday, November 16
Sunday, November 10
Sunday, November 04
Sunday, November 28
Sunday, November 22
Sunday, November 15