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A INDIGNAÇÃO É UMA IMPOSTURA
Published: Jul 28, 2007 - 09:29 AM
Nei Duclós
A tragédia é permanente e gera uma indignação surda,
instável e sem nenhuma repercussão. Num país sem lei, tudo tem que ser
negociado todos os dias. É a manobra no trânsito, a velocidade na
estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remuneração do
trabalho, o prazo da dívida vencida, o calote, o arrocho, a informação
negada, a viagem pela metade. Esse é o ambiente onde o ranger de dentes
é fartamente distribuído a uma terceira idade furiosa, uma juventude em
fuga, uma população em pânico.
Quando a tragédia
extrapola seus limites cotidianos, e confirma as tendências esboçadas
na rotina (a pista insuficiente abraçada à superlotação do aeroporto,
por exemplo), a indignação abandona o foro íntimo, ganha corpo e chega
a ocupar as atenções da mídia e de algumas autoridades, mas só por
algum tempo. Logo depois, volta ao seu leito normal.
É
o que se espera de uma indignação tornada inócua por se tratar sempre
de uma impostura. Pois ela não é movida coletivamente por uma reação ao
evento trágico e sim pela inércia individualizada de hábitos
cristalizados. Pode até se agrupar, momentânea ou permanentemente, mas
jamais consegue infletir sobre o que sempre escapa, os destinos. Ela
não toma forma de uma representação conseqüente, antes se estilhaça no
momento mesmo de se manifestar. Ou fica confinada a alguns testemunhos
mais exaltados, ou se derrama em lágrimas das pessoas próximas às
vítimas, exatamente as menos indicadas para expressar a indignação que
deveria ser uma ação política.
Trata-se de uma
impostura pois os mesmos poderes que guardam a revolta trancada em
camadas espessas, canais obstruídos e mistificação em massa se apressam
em selecionar as manifestações que vão desaguar na vala comum.
Desagregada pela falta de um sistema democrático verdadeiro, que paire
acima dos interesses que mudam o batismo de aeroportos para atender
dores repentinas (como aconteceu com o Dois de Julho em Salvador), a
indignação permanece atônita, diante da sua própria inoperância.
As
fantasias costumam assenhorar-se do espaço vazio deixado pela revolta
que roda sobre si mesma. Uma delas é o desejo latente da “volta” da
ditadura, como se na ditadura não estivéssemos ainda. O mito de que nos
libertamos dos opressores é talvez a verdadeira tragédia nacional.
Entronizamos um simulacro de democracia para nos servir de álibi para a
saudade do arbítrio, que teria o dom salvacionista para o desamparo.
Que democracia é esta? costuma perguntar a indignação tornada uma
impostura.
Num país onde são enterrados com
honras nacionais os impostores que derrubaram um governo duas vezes
consagrado nas urnas (o de João Goulart, nas eleições presidenciais e
no plebiscito), sem que nesses funerais tardios nenhuma autoridade se
manifeste contra a manipulação da opinião pública e a malversação dos
poderes, convivemos com a ausência completa de oposição. E não temos
oposição porque a indignação é um simulacro, é uma certeza de que é
inócua, é apenas um desabafo da hora, um abraçar entre lágrimas, um
dedo em riste, algumas palavras inspiradas na sabedoria de ocasião e no
descrédito de que somos realmente uma nação.
Tudo
o que realmente importa faz parte apenas de um sistema de perigosas
superficialidades: disputa de butins, privatizações, corrupção,
ineficiência, especialmente a teórica. Não estamos acostumados a pensar
o Brasil com o espírito público que formou a grande nação e que poderia
evitar o ambiente sinistro de tragédia permanente, pública ou privada,
de responsabilidade ou não do governo. Costumamos culpar ou mitificar o
passado para cristalizarmos o álibi do imobilismo.
Abrimos
mão inclusive do épico, já que fomos reduzidos à tragicomédia. Não
temos mais os gestos que fazem parar o tempo e redirecionar a História.
Nossa cultura é a da migalha, do resto. Somos uma fagulha no chão
abandonado e coberto de combustível.

