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A INFÂNCIA É UMA CATEDRAL
Published: Nov 24, 2006 - 09:30 AM
Nei Duclós
Entrei na catedral de Florianópolis e ela estava vazia, sem bancos
nem sua principal imagem, o da Fuga do Egito, que está sendo salva da
destruição dos cupins. Existem grades para impedir as passagem dos
fiéis, que ficam assim confinados na entrada enquanto olham a grande
nave sem nada. No ambiente de reforma, há apenas a esmola dos vitrais.
Lembro a vez que revi as imagens da catedral de Santana, de Uruguaiana,
em fotos feitas e enviadas, a meu pedido, por Anderson Petroceli. Me
demorei sobre aquelas imagens que construíram minha infância.
Especialmente o da Nossa Senhora menina, ladeada por Joaquim e Ana.
Depois, na visita que fiz à minha cidade, entrei naquele lugar com o
coração na mão. Ali assistíamos a missa das seis, nos invernos escuros,
nas manhãs de domingo, participantes que éramos de uma promessa feita
pela minha mãe e sobre a qual ela guardava segredo. Havia também a
missa das oito, para as crianças. Saíamos depois de uma hora cantando
com minha mãe estarei, uma das inúmeras canções religiosas que se
perderam. Hoje, época da hegemonia da igreja carismática, só existem
cantos com os quais não me identifico. Onde está o prometi no meu santo
batismo, queremos Deus e outras preciosidades? O pior é que cantam o
pai nosso com as palmas abertas e separadas, o que para mim é um
sacrilégio, pois a oração deve ser dita com as mãos postas.
LATIFÚNDIOS - Leio palestra de notório acadêmico e ele diz que a
informática é capital acumulado, ou seja, é suspeita, pois gera
subemprego. Grandes pensadores, no Brasil, às vezes tocam nos limites
da idiotia. Isso porque são hegemônicos, como os coronéis. Li várias
vezes em trabalhos universitários importantes que as coisas que estavam
sendo estudadas e descritas só poderiam ser daquela forma e de nenhuma
outra. Nos latifúndios do saber, não sobra espaço para a democracia da
razão. A racionalidade, assim como a espiritualidade, faz parte do
humano, ou seja, está à disposição da contradição e da dúvida. O que
gera subemprego são as políticas públicas, não a informática. O que
gera desemprego é a corrupção dos grandes, não a informática, que
estaria na mão de alguns supercomputadores nos Estados Unidos e não sei
mais onde. Informática é como livro, tem autoria, dissemina-se em rede,
está a serviço das pessoas e não de sistemas fechados do pensamento.
Lembro a igreja que nos formou: era sólida, um referencial, mas
profundamente democrática (rigorosa, mas tolerante). Os irmãos maristas
tinham postura seríssima, mas não abriam mão do bom humor. Havia
pregação religosa pesada em aula e nas missas, mas no recreio
relativizávamos tudo. Por que? Porque vivíamos em vários ambientes de
formação: igreja, colégio, família, recreio, rua, quadras de esporte,
bailes, clubes.
VOCAÇÃO - Nascemos na democracia e essa é a nossa vocação. A
ditadura é uma manifestação tardia e por isso não nos conformamos até
hoje. Os padres, como chamávamos os irmãos maristas, raspavam suas
longas batinas na hora do Ângelus, na laje trabalhada do Colégio
Santana (sempre ela, a mãe de Maria) em frente à minha casa. Havia
respeito. "Ofendeste o professor?" perguntou meu pai um dia na hora do
almoço. "Pois atravesse a rua e vá pedir desculpas". Na minha casa
havia terço, medalhinhas, imagens de santos, cruz. Meu pai, ateu, fazia
olho branco. Era democrata, fazia parte do acordo de casamento. As
mulheres colocavam seus véus de renda, coloridos, brancos ou pretos e
assistiam a missa. Os sermões eram ditos no púlpito, de madeira, que
era acessado por uma escada em espiral. Na minha visita à cidade,
Anderson me levou para o outro lado do rio e lá em Libres conheci a
catedral do lado argentino. O púlpito de madeira estava lá.
SACRÁRIO - Antes de morrer, minha mãe colocou seu véu, na cama do
hospital, confessou e comungou. Depois abraçou e olhou longamente cada
um dos filhos, despedindo-se. Deitada, ficou com a cabeça virada para a
cabeceira e sua respiração foi se indo aos poucos. "Sua mãe só fez o
bem", nos disse a freira que a assistia. Em memória dos pais, da igreja
que nos formou, da nação soberana que nos deu tudo, temos a obrigação,
pelo menos, do testemunho. Meninos, eu vi. As duas catedrais, a de
Florianópolis e a de Uruguaiana, estão precisando de reforma. O peso
dos anos, dos sinos, das orações nos rondam, com suas pedras e vitrais.
Glória ao Papa que se foi, que manteve viva a Igreja que precisa ser
como ele, mais atuante, mais aberta, mais democrática, mesmo sendo fiel
a seus dogmas e princípios. O espírito humano é dialético e aspira à
grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a idéia fixa, são o
Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um coração de ouro. De
mãos postas, com uma fita enorme no braço, toda com apliques dourados,
carregando uma imensa vela, pé ante pé chegamos ao sacrário. É quando
tocamos a veste dos anjos.
COMENTÁRIO - Um leitor que se identifica como Gefferson escreveu o
seguinte sobre o texto acima (publicado no Diário da Fonte, em 4 de
abril de 2005): Muito válido e oportuno. Me deliciei ao ler seu artigo, suas lembranças
e opiniões próprias, até certo ponto, batem com as minhas. Gostaria de
te dizer que nem tudo está perdido, por exemplo, onde moro atualmente,
existem duas paróquias, os padres não usam o púlpito, pois ele não está
lá, mas são de uma oratória invejável, e os cantos antigos que você
citou cantamos seguidos, digo cantamos porque faço parte do grupo do
coral de uma das paróquias. Além dos cantos que você citou, resgatamos
outros como "Hóstia Branca", "Cantai a Cristo Rei", e seguidamente
cantamos em latim preciosidades que pelo que vejo, ainda não foram
esquecidas.
Suas frases são de um profundo sentido e significado. Parabéns.
Gefferson | 11.23.06 - 7:33 am | #

