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A LENTIDÃO EM BEN-HUR
Published: May 28, 2005 - 07:26 AM
Nei Duclós
O filme Ben-Hur, de William Wyler, ficou
famoso pela corrida de bigas, mas essa seqüência memorável só pode ser
entendida como o momento intensificado de uma obra lenta, densa,
dramática. Há uma série de acusações a esse clássico, todas execráveis.
Começa por Charlton Heston, ator magnífico que caiu em desgraça por ser
confundido com canastrões e, ultimamente, por ter sido alvo da falta de
respeito por parte de Michael Moore (que, mesmo movido por motivos
corretos, forçou a mão ao filmar Heston na própria casa para
denunciá-lo, abusando da hospitalidade e constrangendo o anfitrião ).
Outra, a de que não passa de uma refilmagem, o que é um absurdo, pois a
versão anterior era muda e o forte em Ben-Hur são os diálogos (vejam
Gladiador para notar como refilmar pode gerar uma porcaria). E terceiro
(desta vez a carga negativa vem de Gore Vidal), de que o filme não
passa de uma relação homossexual entre o herói e o vilão, calúnia
desmentida pelo grande final, com Ben-Hur abraçado às mulheres da sua
vida: esposa, mãe e irmã.
JUDÉIA - Hoje é moda fazer filmes
horrendos de glorificação do império, com bandidos fantasiados de
heróis dando tiro no Oriente Médio e vilanizando os povos de lá. Em
Ben-Hur é o contrário. O vilão é o império e a guerra perde a luta para
a paz. Besteiras utópicas? Não, recado político a favor do entendimento
numa região conflagrada. A solução seria a lucidez, o alto nível
espiritual, o perdão, a emoção. O filme aborda o sofrimento humano. O
bem-nascido que cai em desgraça, perde a família, mas tem sua segunda
chance. Procura a vingança no front, na guerra, mas é obrigado, pelas
circunstâncias e o aconselhamento, a trabalhar na representação do
conflito, no estádio lotado. As seqüências anteriores à corrida são
impressionantes pela força que transmitem. O árabe criador de cavalos e
jogador profissional fala sobre Balthazar, um dos reis Magos da estrela
de Belém que tenta trazer o herói para a solução pacífica. Balthazar é
um grande homem, diz o mercador, um dia todos serão como ele. Mas antes
disso vamos manter nossas espadas afiadas. Esse vai-e-vem entre a luta
e a paz pontua toda a obra e carrega de emoção o reencontro de Ben-Hur
com a vida que tinha perdido. Você se transformou em Messala, diz a
noiva para o herói, que cai em si diante da revelação, de que o ódio o
estava levando para o que mais odiava. Esse tipo de filme seria,
segundo análise tradicional, apenas propaganda dos judeus que dominavam
a indústria cinematográfica da época. Mesmo que fosse, é um tipo de
filme que não se faz mais. Hoje, temos a barbárie dominando tudo. Não
há, para começar, lentidão no andamento, densidade no timing, nada. O
que há são explosões e sangue e crueldade. Filmes fora do circuito
também apelam para a violência. Vejam essa coisa megalômana chamada
Tarantino, que chegou a dizer que a violência existe para ele filmá-la.
Ben-Hur foi um mega-sucesso. Provocava emoção e reflexão. Quem nos
dera, hoje.
RUSSIA - Grandes filmes costumam ser excluídos, colocados como perda de tempo. Vejam o caso de Dr. Jivago,
o espetacular filme de David Lean. Tratado como uma obra
água-com-açúcar, foi também acusado de não estar à altura do livro que
o originou, de Boris Pasternak. Só a seqüência do reencontro de Jivago
com Lara no interior do grande país, ou a cena em que ele a perde para
seu arqui-inimigo, com seu amor sumindo no meio da neve no horizonte,
ou mesmo toda a viagem de trem, que tem pelo meio a passagem de
Strelnikov (Tom Courtenay lembrando Trotsky) bastam para dizer que este
é um filme clássico, magnífico, inesquecível. Sem falar no personagem
interpretado por Alec Guiness, que procura a filha do irmão
desaparecido e a encontra tocadora, como o pai, de balalaika. É um dom,
diz ele no final para a moça que some no meio da população de Moscou.
Lembro de outro grande filme, esse de Vittorio de Sica, Os Girassóis da Rússia,
com Sophia Loren e Marcelo Mastroianni. Filme sobre a perda, filme em
que o cenário é a representação da majestade dos sentimentos. Tudo isso
levou a arte cinematográfica ao esplendor. Mas achavam uma porcaria.
Queriam a crueza, a violência pura e simples, o horror. Agora tem isso
de sobra. Bom proveito. Eu prefiro a madrugada de insônia para rever o
que me apertou contra a poltrona no cinema, naquela solidão do pampa,
em que tínhamos acesso à cultura universal de grande presença estética,
esse cinema que corria o mundo com sua grandeza jamais igualada.

