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A LIBERDADE EM DEDÉ FERLAUTO
Published: Aug 28, 2007 - 01:27 PM
Nei Duclós
"Peço demissão do cargo de habitante do planeta" (trecho de uma carta de Dedé endereçada a mim, datada de 27/abril/1977)
Foi-se, nesta madrugada de 24 de agosto de 2007, o poeta Dedé
Ferlauto, partindo o coração de todos os seus amigos e de uma família
brilhante, de um músico (Leo), um arquiteto (Cláudio), um engenheiro
(Felipe), mais a família que ajudou também a inventar, mulher, filhos,
netos, enfim, todas as pessoas que conviveram com ele nesta curta/longa
vida. Palavras não servem de consolo, ainda mais partindo de mim, que
há muito tempo não conversava com ele. Soube recentemente que ele
estava morando no sul da ilha. Mas, como disse em meu livro Outubro,
que Dedé gostava demais: a linguagem é a única arma que eu disponho.
Fui amigo de Dedé, mais intensamente por um tempo, do final dos 60
até o final dos anos 70, quando então nos correspondíamos por carta, eu
em São Paulo iniciando uma vida dura na megalópole, ele, mais lúcido,
refugiado em Sapiranga, interior do Rio Grande do Sul. De lá me enviou
confidências e poemas. Um deles, Furto Qualificado, diz assim: "Por
todas as frestas/ de todas as paredes/ desta casa/ muitos olhos
espreitam/ consultam/ memorizam/ e sons são sugados,/ magnetizados/ por
todos os poros/ da casa/ do corpo/ das palavras(...)"
Tomei conhecimento de Dedé Ferlauto quando vi, colados em azulejos,
selos/poemas assinados por Zé Liberdade. Era ele. "Me sinto por fora
desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem,
revistas, editoras, livros e outros.", me escreveu ele anos mais tarde.
"Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer História.
Acho um saco. Caí fora. Me sinto sem norte, sozinho e não me assusto".
Via-se como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero, que viveu
integralmente sua literatura, a que fisga pela vocação e carrega a
criatura escolhida por toda a vida.
Suas palavras, como de todo poeta, são proféticas. Veja o que disse
no final dos anos 70: "Ando contrariado com minha vida profissional" (e
quem não anda, Dedé? acrescento agora eu). "O que é um jornalista hoje
em dia, salvo exceções? Não estou mais aí pra andar informado da merda
mundial." Ele estava em outra: "Enquanto isso vou procurando caminhar
com minhas próprias pernas e levando minhas palavras por aí afora, como
quem não quer nada. Quer nada? Como quem? Como? Quem? Quer? Nada?"
Numa carta coletiva/manifesto, deixou claro sua ação poética em
trechos selecionados de grande lucidez: "É compreendendo a angústia que
se resolvem problemas, e concomitantemente é compreendendo-a que ela se
dissipa numa grande e violenta atividade de criação. É olhar para
dentro, para mim, é tentar compreender as linguagens que nos cercam
(como as abelhas, como as plantas, como a biodinâmica, como o ciclo de
vida nas plantas, hortaliças etc.) e pelas linguagens que utilizamos
para a nossa criação (abaixo a arquitetura, viva a agricultura!). É
dentro da angústia, da indecisão, que é possível localizar o
desconhecido, o novo. "
Dedé não quis compactuar com políticas, grupos, panelas. Preferiu a
solidão poética, a verdadeira, a que jamais consola, pelo sofrimento
que provoca, mas a única que garante a liberdade. Ele escolheu a
liberdade numa época em que tudo foi datado, classificado, organizado,
definido. Por isso Dedé Ferlauto é uma prova viva de que podemos ser
criaturas livres, mesmo que isso nos custe uma vida difícil, mas jamais
apartada da grandeza.
Foi-se Dedé Ferlauto. Seus agitos continuam. Longa vida à sua obra.

