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A LÓGICA PERVERSA
Published: Jul 28, 2007 - 09:24 AM
Nei Duclós
Estar sempre com a razão, mesmo que os fatos contrariem
as opiniões mais contundentes (que deveriam ser jogadas no lixo
imediatamente depois que forem desmoralizadas), é fruto da lógica
perversa que tudo concede a assinaturas notórias da mídia impressa e
virtual. Para dar certo, é preciso que essa lógica perversa faça parte
de um truque vistoso: muda-se o foco dos fatos para o território denso
do consenso pretensamente racional. Mas, cuidado: essa mutação precisa
de respiradouros, pois é fácil para o leitor compreender que está sendo
vítima de uma rasteira, então ele precisa ser distraído com algumas
firulas que adquirem credibilidade pela repetição.
Na
política econômica vimos como os sucessivos planos, e agora o atual
arrocho, foram e são considerados algo irreversível. Só os tontos não
entendem que não há saída, não há salvação fora da dependência
absoluta. Como são elegantes os textos de economia, em que a lógica
perversa nos carrega para o terreno virtual do raciocínio imbatível,
onde a conexão entre eventos absurdos ganham status de maioridade
mental. Por exemplo: precisamos exportar proteínas para conseguirmos
dólares, que serão pagos (ou devolvidos) nos juros da dívida externa.
Esse dólar consignado chama-se divisas. Para a carência interna de
proteínas, faça-se planos emergenciais de esmolas.
Como
a brutalidade dessa política cerca o país por todos os lados, é preciso
acenar com algumas lantejoulas do maucaratismo com ares de erudição.
“Círculo virtuoso”, por exemplo, eis uma boa firula que serve para
dourar a pílula. Existem também tiradas bem nutridas como “não existe
almoço grátis”, brandida como verdade absoluta e que faz parte da
tautologia imperante, a mesma que entronizou máximas como “uma coisa é
uma coisa e outra coisa é outra coisa”.
No
futebol temos vítimas de sobra da lógica perversa. A seleção
brasileira, por exemplo, está sempre errada. É preciso que jogadores
não consensuais, como Maicon, Juan, Julio Batista, Josué, Doni, ou
seja, quase todo o time, fique fora. O que deve entrar seria uma
espécie de memória seletiva de vitórias anteriores, algo como o futebol
arte com eficiência do futebol força, uma hidra que misture Didi com
algum Ronaldo. O técnico está sempre errado. O Luxemburgo é burro, o
Dunga é tosco, o Felipão é bruto, o Zagalo é prepotente. Só o analista
é civilizado, fino, clarividente, eficiente.
Como
os sucessivos títulos da seleção brasileira acabam desmentindo tamanha
má-vontade embalada em crítica da razão pura, é preciso que o
território virtual da lógica perversa se encha de engrenagens
mirabolantes, incontestáveis. Ser prudente é jogar na retranca é uma
delas. Ganhar da Argentina na final é puro resultado do contra-ataque é
outra. Ou: os volantes só servem para dar pontapés. Mas quando vemos
esses virtuoses violinistas do futebol total que são os argentinos
caírem feito um saco de batatas diante da superioridade da cultura
acumulada do futebol brasileiro, é preciso que a lógica perversa
invente alguns respiradouros.
Um deles são os
famosos deuses dos estádios. É incrível que pessoas tão racionais
invoquem deuses pagãos inventados. Como se a seleção brasileira fosse
manipulada por entidades fantasmagóricas, gigantescas, que decidem
resultados e isso livraria a cara dos que sempre erram, mas sempre
querem estar com a razão. Teve gente que disse, antes da final, que se
o Brasil ganhasse a Copa América, então esse evento estaria
desmoralizado. Ou seja, a realidade é uma coisa incômoda para a lógica
perversa, que apesar de ser contrariada todos os dias, continua firme,
impune, imponente.
O importante é colorir o
lugar-comum das idéias com a vestimenta invisível de uma credibilidade
que há muito foi para o ralo. Uma das cores mais intensas é o
pensamento politicamente correto. Como existe corrupção na cartolagem e
nos negócios do futebol, então a seleção canarinho é suspeita. Mas se
argumentarmos que se o Trotski fosse o técnico, e recebesse um não de
Kaká ou Kuku, ele convocaria o time que foi para a Venezuela, isso
seria encarado como algo fora de propósito. Pessoas íntegras não
admitem que a CBF também pega carona numa criatura chamada futebol
pentacampeão do mundo, fruto de décadas de esforço de uma nação que
sonha com sua soberania plena.
Mas não defenda
essas coisas por aí. Será olhado de maneira torta. O dólar despenca por
excesso de oferta no país que remunera a especulação da pirataria
internacional. Contra isso não há remédio. Agora vêm as eliminatórias,
da Copa. A Argentina, enfrentando times inferiores, vai brilhar no
início. Vai ser um deus-nos-acuda. Que craques, que coisa! Vejam o
Tevez, dando uma saraivada de pontapés enquanto morde a língua a
exemplo dos loucos da Idade Média. Que portento, que talento. E como
somos decadentes com nossos Maicon, Julio Batista, Juan. Como estamos
sempre errados diante da lógica perversa que, como a política econômica
que entrega o país, não dá mostras de querer tirar o time de campo.
Será preciso expulsá-las?

