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A OUTRA VIDA
Published: Apr 22, 2007 - 04:43 PM
Nei DuclósEncontrei o Amigo
inteiro, instalado na Outra Vida. Ele já estava por volta de 40 anos,
apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou visão, segurava um
grande chapéu de abas exageradas. Colocava a mão no alto, com o braço
bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela
monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de várias pessoas. Parece
que o grupo ocupava um conversível de luxo. Ele me olhou com o rosto
impassível. O olhar era límpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo
expressava certa indiferença. Era, talvez, seu recado de superioridade
diante de tanto mistério.
Ele sempre foi assim. Jamais se deixou abalar por
coisa nenhuma. Pelo menos, não por muito tempo. Era suscetível, mas se
reaprumava logo. Um dia veio me tirar da minha catatonia no quarto onde
morava. Esparramado na minha cama, num calor insuportável, eu dormia ao
lado da caixa preta que encerrava um tesouro: a máquina de escrever
Smith Corona herdada do meu pai.
Correra o risco de perdê-la, quando o namorado da
dona do lugar – um sujeito retaco, gringo, grosso e canalha – me pediu
para usar a máquina. Era para vender, mas foi proibido pela mulher que
entrou em desespero diante da minha credulidade. Eu realmente
acreditara que o sujeito iria escrever algo. Além do mais, o escroque
tinha um olhar gelado, azul e uma boca torcida. Mas graças à
proprietária que não queria perder o hóspede, mantive a prenda em meu
poder.
O Amigo veio me acordar batendo na janela. Queria
me mostrar o estrago que sua namorada, agora ex, tinha feito no
apartamento. Rato, porco, estava escrito a carvão em letras garrafais.
Era a separação, mais uma, do conquistador serial, que deixava um
rastro de corações partidos pelo caminho. Foi nesse apartamento
pincelado pela dor do amor não mais correspondido, que o encontrei pela
última vez. Bati na porta, ele abriu a janelinha de vidro e fez uma
cara de desencanto, que era a nossa maneira de nos cumprimentar (pois,
caras da fronteira como nós, jamais dão o braço a torcer para quem quer
que seja, especialmente os amigos do peito). Era uma espécie de “que
gente mandou o governo!” que meu pai usava para seus companheiros de
pescaria. Ou seja, estamos bem por aqui, o que você veio atrapalhar?
Depois desse anti-cumprimento, sempre havia a alegria do reencontro.
Saímos pela cidade, que estava forrada de
out-doors estampando uma pessoa muito próxima e conhecida. Era ele.
Fazia a pose que usávamos quando nos tiravam a foto do colégio.
Sentado, com um leve sorriso, as mãos para frente, depositadas em cima
da mesa, o Amigo olhava para a posteridade como se fosse um superstar.
Estou me despedindo daqui, disse ele. Nada melhor do que deixar meu
rosto pelas ruas.
Soube depois da tragédia, de maneira fortuita,
conversando numa lanchonete com nossa amiga comum, que me deu a
notícia. Chocado, procurei mais detalhes na imprensa da cidade da qual
o Amigo se despedira de maneira tão explícita. Havia pouca coisa. Um
revólver, um suposto suicídio. Tanta vida para se jogar fora assim?
Ainda mais ele, que tinha vida saindo pelo ladrão. A reportagem só
dispunha da foto da identidade. E foi com ela, tomando conta de quase
toda a página (para compensar a falta de informação) que travei contato
com o Amigo pela última vez.
Com exceção, claro, da visão que tive, da cena do
grande chapéu do quarentão rodeado pelo seu grupo no conversível de
luxo. Descobri que o espírito mantém a trajetória da vida e vai em
frente, como se não tivesse havido ruptura. O que terá vivido nestas
décadas todas? Estivera na queda do muro de Berlim? Assinara, quem
sabe, um grande projeto de arquitetura numa das porções ricas da
África? Estaria mesmo vivo aquele que se foi cedo demais?
Se alguém de nós sobreviveu, dessa geração nascida
para o massacre, foi para contar a história. Ah, a sina dos narradores
sem esperança, os que permanecem à tona, frios como um candelabro no
inverno de um romance de segunda. Quem dera não tivéssemos tanta perda
e não precisássemos lembrar os amigos que se foram numa poeira de
nuvem, que o tempo traga com seus pulmões de ferro.

