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A SÍNDROME DO ÚLTIMO
Published: Sep 25, 2007 - 11:13 AM
Nei Duclós
Existem soluções de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo
infinitamente reproduzidas. Ainda não nos livramos, por exemplo, da
influência de "O último dos moicanos", título do romance de James
Fenimore Cooper sobre a amizade entre um índio e um branco, numa guerra
do século 18 na América. Talvez o motivo seja a força da proparoxítana,
amparada na última vogal, e instaurada como lei em épocas terminais –
fim dos séculos ou dos tempos. No mais recente apocalipse, pautado pela
curiosidade sobre as profecias, "último" virou endemia. Um massacre
reforçado pelo famoso fim da História.
Ainda hoje, nesta primeira década, quando se deveria falar em início
de alguma coisa, sobrevive o hábito de fechar o boteco em qualquer
atividade, como se a humanidade fosse uma eterna despedida. O tom
parece saudoso da grandeza épica, mas pode ser apenas a vontade de se
livrar das chateações, e ir enfim para casa assistir um bom filme. Só
que os últimos grandes cineastas estão morrendo.
Jean-Luc Godard dizia que precisou duvidar da certeza de que tudo já
tinha sido feito para começar a dirigir suas obras. É uma espécie de
assombração. O que fazer se os últimos já se despediram? Ficou um
tremendo vazio, apesar da quilometragem de vida pela frente. Para
piorar, já somos craques em décadas perdidas, palavra que também teve
sua fase. Ou será que continuamos nela?
A moçada custa a entender que esse é um truque dos mais velhos. Como
já viveram suas loucuras, os veteranos definem o fim de tudo para
evitar concorrência (e assim se recolher para o sofá sem sentimento de
culpa). Enquanto isso, os garotos ficam desesperados tentando
arrebentar alguma coisa. Para quê? Para nada. Os últimos anarquistas e
revolucionários também já se foram.
Não se concebe a resistência da síndrome do último em início de
milênio, outra palavra que emergiu poderosa, mas não por muito tempo.
Há uma exaustão de milênio, que perdeu a resistência e talvez
desapareça do imaginário. Tentaram explorar ao máximo a cambalhota
mortal do calendário, anunciada com promessas de catástrofes
definitivas.
Anunciar de cara um fato monstruoso é pura criação literária,
notadamente na Metamorfose, de Kafka, quando, na primeira frase, um
pobre coitado descobre que virou inseto. Essa quebra de suspense tem
seu charme. Foi imitado por Garcia Marques em "Crônica de uma morte
anunciada", expressão repetida até a insânia nas mais variadas formas.
O planeta sofre de morte anunciada. Será que chegaremos aos últimos
ecologistas, coincidindo com o fim da vida humana na terra? Do jeito
que vai, o último livro será escrito para absolutamente ninguém.
Analfabetas, as traças cumprem seu ofício de devorar tudo, até a última
enciclopédia, para que a vida possa entrar em novo ciclo.
Seria bom se chegássemos ao último "último". Assim todos poderiam
parar de se chatear e ir assistir a um filmaço, daqueles que não se
fazem mais. O filmaço sumiu, junto com bigas romanas se estraçalhando
na arena, travellings majestosos sobre multidões de feridos, além de
gritos de "Eu sou Spartacus", que arrancavam lágrimas de espectadores
ainda inconformados com a escravidão.

