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A ÚLTIMA ORDEM DO GENERAL

Published: May 13, 2005 - 12:10 PM

Nei Duclós

O filme "Netto perde sua alma", enfim exibido em São Paulo, expõe os motivos de uma comunidade que, abandonada pelo Estado, precisa reinventá-lo. O general Netto funda a República Riograndense aos 26 anos porque faz parte desse território tratado com indiferença e crueldade pelos poderes centrais. Sua revolta adota, como arma, uma estratégia oposta à do Império: trabalha com a inclusão, fonte de sua força. Netto inclui o que o Império jogou fora: seus pares - os líderes da revolução farroupilha de 1835-45 - e as populações excluídas, como os negros escravos, os agricultores, os comerciantes. Seu exército reflete radicalmente essa idéia, ao expor na guerra também as mulheres, que não apenas acompanham a tropa, mas lutam com ela.

Antes de ser proclamado no papel, o Estado se reinventa a partir da convivência forjada nas batalhas. O novo Estado funda-se no princípio da autoridade, fruto do carisma e da posição do líder, que é investido pela guerra em legislador. Essa lei se faz cara a cara, olhando nos olhos dos companheiros e dos inimigos. As ordens emanam das idéias e são aprovadas por aclamação. Ou são postas à prova a cavalo, na ponta do fuzil, da espada e da baioneta. O sangue derramado explode na cara do espectador e o barulho do embate tem som de tambor.

A derrota é definida na seqüência antológica da mesma bandeira que se esgarça e assume o duplo sentido da palavra: é perda, mas também é caminho, rota em direção ao futuro. Era cedo demais para a República e a Abolição? Netto não pensava assim. Precisava viver livre e para isso comandou pessoas que queriam a liberdade. Involuntariamente, lançou apenas uma semente enquanto sonhava em colocar a mão em toda a colheita.

A geografia é parte fundamental desse drama épico. Ao contrário do lugar comum, ela é diversa, complexa e encerra, mesmo no plano, um abismo. Não só grama, mas principalmente pedra. Não apenas terra, mas mergulhando os guerreiros, água. Não apenas céu, mas desafiando a História, sangue. No desenrolar da trama, cada personagem é amparado pelo talento e a experiência da equipe, dos atores e das atrizes e ajuda a aprofundar o roteiro. O que estava implícito no romance de Tabajara Ruas, agora é escancarado pelo filme dirigido por ele e Beto Souza.

A cena da tentativa de roubo dos cavalos, por exemplo. A magistral interpretação do falso padre castelhano por Miguel Ramos, ao peitar o general ao pé da cachoeira, coloca carne num detalhe da narrativa. A fúria que Miguel Ramos empresta ao tiroteio, a tensão que imprime no confronto, a explosão que inventa quando tomba, faz parte daquilo que o filme registra como desfecho: o acerto de contas.

Da mesma forma que Miguel Ramos acerta as contas com a arte dramática do Brasil ao lembrar a todos que está oculto demais para a grandeza do seu talento, assim Tabajara Ruas vinga-se, por meio do general Netto, de inúmeras assombrações. Migrante involuntário do País que desceu a cortina da ditadura, Taba ficou por muito tempo à mercê da fraqueza dos contemporâneos, dos médicos incompetentes, de países gelados, de distâncias insuportáveis. Sua aventura tornou-se elástica: por ter viajado muito fundo no mundo que se desintegra, voltou com tudo para ajudar a resgatar, na sua terra, as forças dispersas da cultura, num gesto de redenção inigualável.

Seu general Netto - recriado com perfeição por Werner Schünemann - é um recado de incômoda atualidade: quando o indivíduo e as coletividades são descartadas, resta o carisma diante do confronto, a coragem como antídoto da entrega, a denúncia contra as armadilhas do disfarce, a seriedade contra a gaiatice travestida de liberdade. Para todos os que participaram deste filme inesquecível, é certamente doloroso ter esperado tanto pelo sol e verificar que ele continua oculto, apesar dos refletores.

O que resta é a última ordem do general, quando obrigou, antes de atravessar a fronteira final, a Morte a precedê-lo no barco. Ele não abriu mão da sua autoridade nem na hora de partir para o esquecimento, de onde foi resgatado pelo talento e a teimosia. O filme faz a diferença num momento em que o cinema nacional desperta de novo, quando precisa atingir o coração dos contemporâneos e dos camaradas, e não apenas restringir-se a ser mais uma peça do "mercado".

"Netto perde sua alma" é uma obra que cumpre o seu destino. Resta agora aos espectadores participarem dessa saga, pressionando para que o filme torne-se disponível no Brasil e no Exterior, e não apenas no Rio Grande do Sul, onde foi filmado.


© Nei Duclós - todos os direitos reservados
 

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